Leio que Portugal apresenta um elevado índice de cesarianas comparado com a média europeia e que uma comissão decidiu estudar a questão com o objectivo de corrigir esta divergência. Se tiverem a paciência de ler a notícia que linkei até ao fim, vão saber que “a comissão conclui que não existe informação nem consenso sobre a classificação dos motivos de cesariana”, ou seja, o seu estudo não conclui nada.
Até aqui nada de novo.
Também não me surpreendeu que apesar de não saber explicar por que motivo se fazem tantas cesarianas em Portugal, a dita comissão tenha decidido apresentar propostas para redução desta prática clínica. Afinal o talento para o improviso vem-nos na massa do sangue.
Só que entre as várias medidas que a expedita comissão enunciou propõe-se a atribuição de incentivos aos médicos que reduzirem o número de cesarianas e/ou penalizações aos que continuarem a prevaricar. Ou seja, para reduzir a despesa à ministra Ana Jorge estas cabecinhas douradas conceberam, sem saber sequer do que estão a falar, um sistema inspirado nos incentivos aos vendedores de imobiliário e seguros para baixar o número de cesarianas.
Insultuosa para médicos e parturientes esta proposta revela o pior da nossa cultura cívica: facilitismo, incompetência e desprezo pelo serviço público, características que há muito nos definem mas que o socratismo, desnorteado pela crise que o despiu na praça pública, está a levar ao paroxismo.


Apetece-me parafrasear o ainda primeiro-ministro: este Orçamento é um Orçamento que protege o País das parturientes e que protege o modelo social das cesarianas.
Eu tinha lido o cabeçalho da notícia já não sei em que jornal e pareceu-me (mais) uma parvoíce completa.
Não tenho dúvidas de que há muitas cesarianas programadas não por motivos clínicos mas por conveniências pessoais das parturientes e dos médicos, mas não acredito que vão contra as boas práticas.
Mas neste país tudo já é possível. Viram isto: http://desmitos.blogspot.com/2010/10/sub ir-o-iva-ou-ajudar-ascendi.html ?
Às vezes ponho-me a imaginar quantas cesarianas se fariam se fossem os homens a suportar as dores de parto. E se alguém se atreveria a “incentivar” a diminuição do número de cesarianas a efectuar…
Estou à espera da decisão do ministério da saúde que imite o conceito holandês: propor que os partos sejam feitos em casa apenas com a presença da parteira, a mesma que foi a única profissional de saúde a acompanhar a grabvidez nos 9 meses anteriores (obstetras/ginecologistas só com autorização do médico de família por haver alguma razão para crer que a gravidez seja de risco).
Conheço histórias na Holanda que deixam os cabelos em pé. Estou para ver quando serão imitadas em Portugal.
Pare Escute e Olhe…… antes de pensar parir….
“Corte nas cezarianas
Corte no abono de familia
Aumento do Leite”
..
Brevemente nas bancas
“UMA AVENTURA NA CAMA”
O número elevado de cesarianas em Portugal tem uma explicação muito simples: comodismo. A maioria é feita a pedido, para “facilitar” a vida à parturiente ou ao médico. A questão médica é posta de parte. Com o consequente prejuízo para a mãe/bebé. Mas como parece que ter um bebé é uma questão de capricho hoje em dia, é normal que muitas mães queiram que a “experiência” seja menos “perturbadora” possível.
A ministra Ana Jorge tem razão quando diz que há cesarianas a mais, mas depois descamba pois bem sabemos para que serve esta medida: cortar despesa de forma “cega”.
Sublinho o seu comentário.
E qual o problema de ser feito a pedido? Não é um direito que assiste a quem vai ser mãe?
Se tiver uma ideia medieval de que a mãe é “dona” do filho por nascer, é capaz de considerar isso um direito.
Se achar que essa vida é única, independente e merece toda a protecção, então esse suposto “direito” passa a ser considerado um crime.
Era capaz de “oferecer” esse direito à mãe para um filho prematuro de 5 meses? Ou só conta se lá estiver dentro? Há gente muito moderna e progressista que defende que até nascer se deve poder abortar à vontade…
Na Arábia Saudita, o marido também pode legalmente bater na mulher, desde que não haja evidências físicas disso. É um “direito” que lhe assiste. Não quer dizer que seja moralmente justificado esse “direito”.
A escravatura também era “legal”…Até que foi, felizmente, abolida.
Uma abominação não o deixa de ser por haver uma lei que a permite.
Eu então, li a coisa ao contrário: 1) o número de cesarianas é mais elevado do que a média (já não sei se da OCDE, se da UE); 2) não parece haver nenhuma razão médica para isso (é assim que eu entendo a frase citada acima:”a comissão conclui que não existe informação nem consenso sobre a classificação dos motivos de cesariana”, não que não se chegou a conclusão nenhuma) ; 3) existe um incentivo financeiro para fazer cesarianas (“O grupo, liderado pelo obstetra Diogo Ayres de Campos, sugere uma revisão da quantias que são pagas aos hospitais para alterar a actual situação em que uma cesariana “vale” mais do que um parto vaginal propondo que as duas situações tenham o mesmo valor.”; 4) no mínimo, retira-se o incentivo financeiro, no máximo, aplica-se um incentivo ao contrário.
O facto é que, se bem me lembro, o número de cesarianas é o único “ponto negro” no nosso excelente desempenho nesta matéria (excelência essa que foi atingida num tempo record, diga-se).
Sempre ouvi contar que as cesarianas, invasivas, cirúrigicas, são – podem ser- uma forma de prática médica defensiva (tipo ‘just in case’). Mais ou menos como o recurso abusivo aos métodos auxiliares de diagnóstico.
Mas para defesa da parturiente… digamos que só talvez para aquelas que vivem no país de Alice: pq o durante é melhor, mas o depois… nem por isso.
Eu fiz duas, medicamente irrepreensíveis, por isso sei do que falo.
Para criticar o número de opções cirúrgicas é preciso perceber do assunto. Mas tb há que não esquecer que a idade das mulheres primíparas é cada vez maior e que isso aumenta os riscos inerentes ao parto natural.
Just in case…
Penso que Chloé tocou num ponto essencial: a idade média cada vez mais elevada das primíparas deve ser uma das razões que explica tão grande número de cesarianas. E certamente não faltarão outras que não o comodismo das mães ou o interesse financeiro dos médicos. A questão é mesmo esta: não se sabe. Por isso antes de restringir às cegas o número destes actos médicos era importante que se percebesse o que se passa.
Sem dúvida. Isto sem falar em equipas médicas sobrecarregadas, sem condições para praticarem os partos ditos normais.
Em qualquer sistema de saúde no qual os serviços não sejam pagos pelo utente (isto é, em quase todos os sistemas de saúde dos países desenvolvidos), a entidade que os paga, que geralmente é uma companhia seguradora, exerce pressões e controles sobre os médicos no sentido de evitar que estes recorram a práticas caras.
Isto não é novidade nenhuma. Nos EUA todas as companhias seguradoras fazem isto – contrôle de custos nos atos médicos que elas pagam.
Isto é inevitável e, de facto, é correto. A alternativa seria serem os próprios utentes dos serviços de saúde a pagarem (como em Singapura) – e, nesse caso, seriam eles mesmos a controlar e a limitar o médico.
Por isto, a Teresa não tem razão. Isto nada tem a ver com socratismo, tem simplesmente a ver com o mais racional controle de custos.
Que tem a ver com um controlo de custos, não tenho dúvidas, mas fazer depender actos médicos de uma lógica economicista não é minimamente aceitável. Os EUA são um péssimo exemplo.
A questão é que não se trata de uma lógica economicista, trata-se de uma recomendação da OMS. Enquanto não encontro a propriamente dita, vai a wiki:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Cesariana#C r.C3.ADtica
Mas o ponto é este, IsabelPS: não se devem tomar medidas cegas visando um determinado objectivo, sobretudo em se tratando de um sector tão delicado como a saúde. Primeiro há que apurar quais as razões que levam a uma prática tão generalizada de cesarianas e depois agir em conformidade.
Exactamente. Lógica “economicista” é a da mãe/obstetra que prefere ter tudo marcadinho e a coisa despachada de forma “cirúrgica”, ao arrepio das orientações da OMS (estamos a falar do dobro das cesarianas do que é normal, entenda-se, medicamente justificado). E de notar que no privado, a coisa atinge valores totalmente injustificados…
Pois, estou perfeitamente de acordo de que não se devem tomar medidas cegas, em especial no sector da saúde. Mas neste caso estou absolutamente convencida de que se trata de mau jornalismo: ou seja, mais uma notícia miserabilista (como os leites achocolatados e com aditivos com IVA a 23%) a aproveitar a maré, como se não houvesse suficientes razões de queixa VERDADEIRAS deste Orçamento.
Não conheço o assunto em profundidade, e portanto não posso jurar que se tenha feito aquilo que penso que se fez: apuraram-se as razões e, clínicas, não havia nenhuma de peso. A medida provavelmente só peca por tardia.
Faz terrivelmente falta a educação para a saúde na população em geral e nos jornalistas em particular, o que faz com que os artigos alternem entre dizer que o SNS gasta biliões, e que se fazem cortes a eito. Se se juntar a isso os artigos “encomendados” pelos privados (outra coisa de que não tenho provas, mas lá que ia jurar, isso ia…) o quadro é pintado nas cores mais escuras porque ninguém se dá ao trabalho de ir ler as estatísticas oficiais (OCDE, Eurostat, OMS…).
Nem mais, Teresa, usar os USA como é exemplo não é muito feliz.
A Organização das Nações Unidas diz que a mulher tem o direito de decidir ter ou não filhos, quando tê-los e, acrescento eu, escolher como tê-los. Vem isto a propósito das declarações da Ministra da Saúde e a sua obsessão em diminuir o número de cesarianas, inclusive com penalizações para os médicos. Sei que as cesarianas têm um custo maior para o SNS do que um parto normal, mas só uma mente muito retorcida pode pensar que um obstetra recorre a uma cesariana com a intenção que não seja apenas um mero acto médico seguro e eficaz. Porque deve ficar ao critério da mulher, evidentemente aconselhada pelo médico, se o seu estado emocional e psicológico vai conviver bem com a dor, com a analgesia, com o interminável trabalho de parto, sem ansiedade, sem estar pressionada por saber que o Estado está mais preocupado com questões financeiras do género – controlar a quantidade de betadine que se gasta nos Hospitais públicos -, em vez de se preocupar com o bem estar da parturiente e do seu futuro filho, pondo o avanço da medicina ao dispor e unidos no valor supremo da vida.