A VERDADE 24 VEZES POR SEGUNDO
O cinema, ao longo da sua história já secular, foi sacudido por diversos momentos de viragem.
O primeiro desses momentos ocorreu na década de 10 do século XX, com a obra de David Wark Griffith, que estabeleceu as traves mestras da Sétima Arte em longas-metragens como em Intolerance e The Birth of a Nation. Seguiram-se, na década seguinte, três momentos-chave: a obra de Serguei Eisenstein – prodígio de narrativa visual, que fazia da montagem um poderoso instrumento de ficção; o expressionismo alemão, com Fritz Lang, que elevou de facto o cinema à categoria de arte; e o advento da fala, que tornaria o som para sempre inseparável da imagem.
Os anos 30 conheceram novos patamares de excelência no cinema, com o technicolor de E Tudo o Vento Levou e O Feiticeiro de Oz, além de registarem os primeiros passos na longa-metragem de animação, com Branca de Neve e os Sete Anões, de Walt Disney.
A década de 40 foi marcada não só por inovações formais mas também por inovações temáticas. No primeiro caso, nenhum filme foi tão longe como O Mundo a Seus Pés (Citizen Kane), de Orson Welles, e a sua originalíssima estrutura narrativa, cheia de saltos cronológicos, relatando ficção como se debitasse “jornais de actualidades” e pondo as personagens a falar em simultâneo, à revelia das técnicas teatrais. A revolução temática ocorreu sobretudo com o neo-realismo italiano numa Europa inundada pelas cinzas da guerra em que a câmara deambulava pelas ruas em busca de gente de carne e osso.
Parecia já ter sido tudo inventado.
Mas não. Vinha aí outro movimento destinado a transfigurar a Sétima Arte: a Nouvelle Vague, lançada em Paris, no final da década de 50. Nascera graças a um grupo de críticos da revista Cahiers du Cinéma. Eram jovens fartos do academismo formal das fitas francesas da altura e que se reviam nos mestres do cinema norte-americano, como Hawks, Hitchcock ou Fuller. Teorizaram um cinema ancorado à realidade e sem espartilhos formais. Queriam um cinema que rimasse com a vida.
«A câmara testemunha os factos, delineia-os, mas não explica, não conclui – não está manejada pelo escritor ou pelo pensador – é cinema.» É uma das melhores definições da Nouvelle Vague, no livro Um Filme é um Filme, do crítico brasileiro José Lino Grünewald, autor de inesquecíveis textos sobre uma arte que apaixonou intelectuais tão diversos como Jorge Luis Borges, Graham Greene ou Vinicius de Moraes.
Dois dos críticos dos Cahiers, Jean-Luc Godard e François Truffaut, estrearam-se em 1959 com obras que mudaram a maneira de fazer e ver cinema: O Acossado (À Bout de Souffle) e Os 400 Golpes (Les 400 Coups). Dois dos filmes mais imitados de todos os tempos. Ainda Grünewald: «A grande importância da Nouvelle Vague foi a de estabelecer uma dialéctica entre ficção e documentário – até então géneros separados, com suas prateleiras independentes de autores e obras.»
Godard disse o mesmo por outras palavras: «O cinema é a verdade 24 vezes por segundo.»
Já foi há mais de meio século. E parece que foi ontem.
Imagem de cima: Jean-Pierre Léaud em Os 400 Golpes, de François Truffaut



Gostava de saber tanto de cinema como o Pedro. Às vezes, penso que sou uma realizadora de cinema frustrada, que encontrou na escrita uma maneira de compensação (na ficção literária também se cria um mundo imaginário). Mas adorava ter feito carreira no cinema…
Vejo filmes há 35 anos, muitas vezes ao ritmo médio de um por dia, Cristina. A melhor maneira de sabermos alguma coisa sobre cinema é assim – vê-lo, revê-lo. Tive o privilégio de assistir a filmes de estreia de um Kazan, de um Wilder, de um Houston, de um Truffaut, de um Fassbinder, de um Bergman. Hoje muitos de nós nem pensamos como somos privilegiados ao vermos em estreia filmes de Woody Allen ou Clint Eastwood, por exemplo. Um dia destes hei-de falar disso.
Bela síntese, Pedro.
A Nouvelle Vague deixou rasto, Teresa. Ao contrário de outros movimentos cinematográficos que prometiam muito e deram em nada. É curioso ver como alguns filmes portugueses da década de 60 foram tão influenciados por esse movimento. Filmes como ‘Verde Anos’, de Paulo Rocha, ou ‘Belarmino’, de Fernando Lopes.
E “Citizen Kane”, se não introduziu, levou a uma perfeição formal sublime o conceito dos planos picados. Mais uma contribuição notável.
PS: um errozito Pedro: escreveu Ward quando o nome de Griffith era Wark. Os teclados às vezes traem-nos.
Obrigado pelo reparo, João. Gralha já corrigida. De facto, é ainda hoje fascinante o virtuosismo dos filmes de Welles. Lembro-me, por exemplo, daquele espectacular plano de abertura de ‘Touch of Evil’, que parecia de concretização quase impossível. Algo semelhante ao golo do Maradona contra a Inglaterra no Mundial de 1986.