Os filmes da minha vida (30)


Pedro Correia,

 

 

INDOMÁVEL:

UM MUNDO COM BONS E MAUS

 

O cinema clássico ama as suas personagens acima de todas as coisas e considera uma virtude saber narrar uma boa história. Partindo destas premissas, os irmãos Ethan e Joel Coen são legítimos herdeiros da herança clássica de Hollywood, como acabam de comprovar num dos melhores westerns ali produzidos de há muitos anos a esta parte.

Indomável reúne todas as convenções do género e potencia-as numa realização eficaz, tecnicamente irrepreensível e servida por um magnífico elenco do qual se destacam Jeff Bridges naquele que é porventura o melhor papel da sua longa carreira e a estreante Hailee Steinfeld, ambos nomeados para os Óscares – ele como actor principal, ela como actriz secundária, num critério que não deixa de suscitar estranheza, pois o papel que aqui desempenha nada tem de secundário: ela é a figura central do filme e a única que o percorre do princípio ao fim.

 

Bridges, na sua problemática relação com os Óscares, acabou de ser vítima do próprio sucesso: depois de ter sido negligenciado durante quase quatro décadas pela Academia, recebeu enfim a estatueta há um ano, pelo seu papel como cantor em Crazy Heart, que nenhum distribuidor português quis exibir nas salas de cinema; esse prémio impediu-o, na prática, de ser galardoado agora com esta soberba recriação do marshall Rooster Cogburn que já havia sido interpretado por John Wayne no original True Grit (realizado em 1969 por Henry Hathaway e que em Portugal recebeu o título d’ A Velha Raposa).

Wayne, justificadamente, ganhou o Óscar – aliás, o único que alguma vez recebeu. Bridges, que não lhe fica atrás na interpretação do agente da lei com uma tendência demasiado óbvia para premir o gatilho, também merecia ter sido distinguido: esta actuação ficará para a história como uma das grandes interpretações do cinema norte-americano contemporâneo.

 

Os irmãos Coen, que já haviam revisitado com sucesso o cinema negro em títulos como Fargo (1996) e Queime Depois de Ler (2008), mostram-se aqui exímios na recriação do western. Nomeadamente na acentuação do contraste entre as minúsculas paixões humanas e a imensidão da natureza: nenhum género cinematográfico ama tanto as paisagens naturais como este. E também na expressão de uma ética muito própria: aqui não há ambiguidades morais – os bons são mesmo bons (nomeadamente a manejar armas) e os maus são mesmo maus. A uns espera-os a devida recompensa, a outros estão destinados merecidos castigos.

Nada de anacronismos históricos, nada de ceder à tentação de transportar para a oitava década do século XIX os conceitos e os valores em voga na primeira década do século XXI. Nada de glamour pós-moderno, nada de moralismos de pacotilha, nada de correcção política.

Bridges é um digno herdeiro de Wayne, os Coen inserem-se na linhagem de Ford. E há mesmo uma citação explícita d’ A Desaparecida na cena em que Rooster pega em Mattie Ross ao colo para a resgatar de todo o mal. Nenhum cinéfilo pode dissociar este momento daquele em que Ethan/Wayne recupera enfim Debbie/Natalie Wood, conduzindo-a a casa.

 

Esta é uma película que nos transporta a uma época de pioneiros e nos devolve as linhas divisórias entre o bem e o mal. Saímos do cinema com a convicção antecipada de que um dia regressaremos a ela, tocados de nostalgia.

Eis o maior elogio que se pode fazer a um filme: acabado de estrear, já é alvo de culto cinéfilo. De bem poucos hoje em dia se pode dizer o mesmo.

 

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Indomável (True Grit, 2010). Realizadores. Ethan Coen e Joel Coen. Principais intérpretes: Jeff Bridges, Matt Damon, Josh Brolin e Hailee Steinfeld.

14 comentários em “Os filmes da minha vida (30)”

  1. Este é o texto que eu gostava de ter escrito sobre o meu filme preferido do ano passado (e, para mim, um dos melhores dos últimos anos). Em termos de westerns “recentes”, creio que o único que se compara a True Grit é o Unforgiven, de Eastwood, e parecendo que não, este tem quase 20 anos… Muito boa análise, Pedro. Inteiramente merecida.

    1. Tens razão, John. Nos últimos 20 anos, houve dois ‘westerns’ excepcionais: ‘Imperdoável’, de Clint Eastwood, e este. Tenho a certeza que ficarão ambos na história do cinema. ‘Imperdoável’, de resto, já está.

  2. Caro Pedro, concordo na íntegra com o texto. Aproveito a oportunidade para deixar o meu comentário a “True grit”:

    “O tempo foge-nos, simplesmente”. Na verdade, o tempo fugiu-me a ver este filme dos irmãos Coen (Joel e Ethan). De tudo, só não gostei do título em português: Indomável. Destaco, pela excelência: alguns diálogos humorísticos, Jeff Bridges (com voz e rosto marcantes), Hailee Steinfeld (uma jovem actriz feita adulta), enredo dramático e a realização, claro. De 0 a 20, dou um 18. A frase final do filme, referida anteriormente, serviu de ponto de partida para o texto inicial, no fundo, a súmula do filme True Grit.

    De uma maneira ou de outra, mais tarde ou mais cedo, pagamos por aquilo que fazemos (da frase/título: “Punishment comes one way or another”). As várias interpretações possíveis desta frase, apresentada logo no início da película, servem de ponto de partida para mais uma história escrita (adaptada) e realizada pelos irmãos Coen. Tem como elemento central uma jovem de 14 anos que, por um lado, quer vingar a morte do pai e, por outro, assume a função dele no seio da família.

    Para vingar a morte do pai, Mattie contrata um marshall famoso e impiedoso, Rooster Cogburn, interpretado de forma marcante por Jeff Bridges. Achei muito marcante essa presença sobretudo ao nível da sua voz (por exemplo: no momento da sua primeira aparição, em plena audiência no tribunal) e do seu rosto (ao longo de diversas cenas). Mas, aos dois, acaba por juntar-se-lhes um ranger do Texas, LaBouef (Matt Damon), que também procura o tal assassino do pai da Mattie, Tom Chaney (Josh Brolin). E, assim, desenvolve-se o enredo dramático intervalado por alguns diálogos carregados de bom humor, originados pelo carácter adulto de uma menina com, apenas, 14 anos no meio de gente adulta e bastante rude. Mas que se faz mulher apesar da sua tenra idade. Mais, vai ganhando, através da sua postura/palavra, o respeito de homens de barba rija e impiedosos na hora de disparar, características tão salientes no velho oeste americano.

    Por fim, destaco os momentos finais relacionados com a cavalgada obstinada de Mattie e Rooster, cavalgada cruel para Little Blackie (o cavalo da menina). Gostei muito da forma como a realização consegue transmitir, através da força do cavalo, as forças e as fraquezas dos personagens centrais.

    Notas finais:

    Desde Fargo, filme da segunda metade da década de 1990, bastante aclamado pela crítica devido à sua densidade dramática e interpretativa, vou seguindo as diversas obras dos Coen. Para mim, há uma preocupação muito evidente em todas elas, que as tornam marcantes: as densidades dramáticas muito bem construídas em textos bem escritos, bem interpretados/as e bem enquadradas.

    1. Muito bem analisado o filme, Gonçalo. Eu gostei do título em português, que «rima» com a tradução portuguesa do ‘western’ de Clint Eastwood ‘Imperdoável’. Tenho a certeza de que isto não sucede por acaso, o que é motivo para deixar aqui uma homenagem a quem traduziu: temos bons tradutores, muitas vezes mal compreendidos. ‘Indomável’ é aquela espantosa adolescente, menina num mundo masculino, que consegue olhar de frente todos os homens, bons ou maus. Este filme está cheio de cenas inesquecíveis – uma delas é precisamente essa cena do tribunal em que somos apresentados a Cogburn/Bridges.

    1. Obrigado, Teresa. Mattie Ross é uma personagem espantosa, que simboliza uma espécie de tradição entre dois mundos, o que aliás é sublinhado no final, quando – felizmente para ela, suponho eu – já não chega a reencontrar Rooster Cogburn, que fora forçado pelas circunstâncias a transformar-se numa caricatura de si próprio nessa América do início do século XX que deixara enfim de pertencer aos pioneiros e se “civilizara” à força. Este filme, sendo um ‘western’ puro, é também muito mais do que um simples ‘western’. Os grandes filmes são assim.

    1. Este filme teve o azar de não receber nenhum dos dez Óscares para que foi nomeado, Pedro. Aí, por Macau e Hong Kong, não sei se estreou nalguma sala. Por cá, mantém-se em exibição: aconselho todos a verem-no no local merecido – a sala de cinema. Não esperem pelo dia em que possam vê-lo em DVD. Não é a mesma coisa. O DVD é ideal para revermos, nunca para vermos um grande filme pela primeira vez.

  3. Só discordo quanto a John Wayne ter merecido o óscar por True Grit (original). Ou melhor, mereceu-o, mas num ano em que concorria contra Dustin Hoffman e Jon Voight por Midnight Cowboy, talvez não fosse quem o merecesse mais. Seja como for, nem que fosse para reconhecer o seu passado, o óscar seria sempre merecido em dada altura da carreira. Momentos preferidos na sua carreira: The Quiet Man, Rio Bravo, The Searchers (o western perfeito) e The Man Who Shot Liberty Valance.

    1. Nem mais, João. Eu acrescentaria a esses títulos ‘The Shootist’, de Don Siegel (1976). O último filme de Wayne, que é um ‘western’ de uma qualidade excepcional.

      1. Não o adicionei por, apesar de considerar The Shootist um filme fabuloso, me parecer que John Wayne, mais ainda que na restante obra, se representa a si mesmo. Claro que isso torna a interpretação ainda mais perfeita, mas deixa-me uma sensação dúbia, para dizer a verdade. Admito estar a ser injuto.

        1. Exactamente, João. Já dizia o Peter Bogdanovich que, de filme para filme, o John Wayne se interpretava a si mesmo – ou antes, à sua ‘persona’ cinematográfica – e que essa característica o tornava totalmente inconfundível, constituindo o toque suplementar de génio de um grande actor.

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