
Comecei a ver cinema muito cedo. Era ainda um garoto, leitor assíduo de revistas de banda desenhada, quando me deixei seduzir pelo ecrã mágico de onde irrompiam heróis de todo o género, emanados do mundo dos adultos.
Fixei para sempre um sorriso de Fernandel, um silêncio de John Wayne, um trinado de Marisol, uma expressão dura de Bogart, um esgar trocista de Belmondo, Errol Flynn conquistando as matinés e o coração de Olivia de Havilland em As Aventuras de Robin dos Bosques. E as pernas de Silvana Mangano, os olhos de Michèlle Morgan, o rosto magoado de Ingrid Bergman à beira de um vulcão a preto-e-branco em Stromboli.
Puto de calções, largava as brincadeiras da bola ou do berlinde para me pôr defronte da pantalha, quando a RTP oferecia bom cinema aos espectadores, e lá ficava, de olhos arregalados, mergulhado no fascínio da Sétima Arte oferecida ao domicílio da geração privilegiada de que fiz parte.
São imagens que me ficarão gravadas para sempre: o inquietante sobrolho de Gregory Peck no Caso Paradine, o trenó em chamas de Citizen Kane, Gene Kelly dançando à chuva, um grão de areia no olho de Celia Johnson, a radiosa Audrey Hepburn andando de lambretta nos dédalos de Roma.
Filmes de Verão, com Johnnny Weissmuller, Totò e Fred Astaire.
Filmes de Inverno, com Giulietta Masina, Henry Fonda, Alec Guinness e Marlene Dietrich.
Títulos perdidos na memória dos tempos mas recordados à simples evocação de uma cena imortal: Shirley Temple fazendo sapateado, Vasco Santana falando a uma girafa, Grace Kelly beijada por Cary Grant, Alice Faye cantando “With a Song in My Heart”, Alida Valli caminhando ao som da cítara vienense de Anton Karas.
Tardes de cinema, noites de cinema. O mundo que se movia à velocidade de 24 imagens por segundo.

Muitos dos filmes da “tua vida” são também os meus. Quando vim para Lisboa, aos dez anos, começámos por morar na Rua da Palma, enquanto a minha mãe não descobriu que havia coisas pouco recomendáveis na zona. Mas uma era mesmo recomendável, o velho cinema Rex. Foi aí que me “estreei” no vício do cinema, numa sessão dupla com o “Singing in the Rain” e “O Pirata Vermelho”, com o Burt Lancaster. E nunca mais parei. Mas o monopólio da Lusomundo lixou-nos a vida, as cinematografias britânica, francesa, alemã, italiana, sueca e outras praticamente desapareceram. Claro que há bom cinema americano, também cresci com ele, mas onde estão os outros?
Perguntas bem, David. Quem percorreu esse circuitos dos cinemas de bairro, como tu fizeste, tornou-se cinéfilo para toda a vida. Quando não havia Cinemateca e os DVD eram apenas um sonho longínquo.
Dessa matéria prodigiosa “de que são feitos os sonhos”, a imagem que guardo como mais “essencial” é a da errância alucinada de Livia Alida Valli , mais uma vez) e o seu mergulho nas trevas depois de denunciar Franz . Aquela expressão – raiva, desespero, uma imensa mágoa -dizem tanto, tanto. E, tal como muitos dos que refere, “senso” é um dos filmes da minha vida.
Percebo-a bem. Visconti é um dos autores de sempre. Autor de pelo menos dois filmes da minha vida: ‘Rocco e os Seus irmãos’ e ‘O Leopardo’.