Os filmes da minha vida (18)


Pedro Correia,

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CALOR NA TELA, FRIO NOS BASTIDORES

 

Tony Curtis, agora desaparecido aos 85 anos, era um dos últimos actores ainda vivos que filmaram ao lado de Marilyn Monroe, falecida em Agosto de 1962. Quase todos os parceiros de tela do maior mito feminino de Hollywood desapareceram já – Clark Gable em 1960, Montgomery Clift em 1966, Cary Grant em 1986, Laurence Olivier em 1989, Yves Montand em 1991, Tom Ewell e Joseph Cotten em 1994, Robert Mitchum em 1997, Jack Lemmon em 2001, Tony Randall em 2004, Richard Widmark em 2008. Restam Eli Wallach, sobrevivente do fabuloso quinteto de actores que protagonizou Os Inadaptados (John Huston, 1961), hoje com 94 anos – e que podemos rever no elenco do recém-estreado Wall Street 2 – O Dinheiro Nunca Dorme -, e Don Murray, o cowboy urbano que contracena com ela em Paragem de Autocarro (Joshua Logan, 1956), agora um ancião de 81 anos. Ambos já com lugar garantido na galeria de ídolos eternos do cinema.

Curtis celebrou-se em vários filmes das décadas de 50 e 60. Mas nenhum deles tão célebre como aquele em que se desentendeu por completo nos bastidores com Marilyn – Quanto Mais Quente Melhor (Some Like it Hot), extraordinária comédia de 1959, talvez a melhor de todos os tempos.

 

Marilyn, que nunca foi actriz para se deixar condicionar pelos ponteiros do relógio, batia recordes pessoais de falta de pontualidade durante a rodagem deste filme, em que encarnava uma personagem chamada Sugar Kane. E por vezes não chegava sequer a aparecer no set, fazendo exasperar o realizador, Billy Wilder, e os colegas do elenco – com Curtis à cabeça. Ele vingou-se com a mais terrível das frases jamais ditas sobre ela: «Beijá-la é como beijar Hitler.» Marilyn, que não era a loura burra que muitos imaginavam, devolveu-lhe a injúria com troco irónico: «Ele só disse isso porque no filme eu usei vestidos mais bonitos do que os dele.»

Era uma evidente alusão ao papel de Curtis, vestido de mulher em grande parte do filme de Wilder, que troca as voltas a todos os estereótipos sexuais – e também a alguns mitos de Hollywood. O actor inspirou-se em Cary Grant – e no seu inconfundível sotaque – para fazer de milionário alegadamente impotente e em Grace Kelly nas suas hilariantes cenas de travesti.

A insegurança de Marilyn durante as filmagens, que se arrastaram por longos meses, era tão notória que só quase por milagre Quanto Mais Quente Melhor não arrefeceu por completo. A certa altura Wilder chegou a ponderar retirar-se do cinema. Uma cena em que Marilyn perguntava «Onde está o bourbon?» teve de ser repetida 59 vezes: a actriz não conseguia dizer a frase. Outra cena, em que se limitava a dizer «Sou eu, Sugar», levou 47 vezes a filmar apesar de, a partir do 30.º take, Marilyn ter a frase escrita a giz numa ardósia que lhe punham diante dos olhos.

 

«Ela tem seios de granito e um cérebro semelhante a um queijo suíço, cheio de buracos», desabafou o realizador austríaco, fazendo coro com o azedume de Curtis. O clima complicou-se de tal maneira que Marilyn nem chegou a ser convidada para a festa que assinalou o fim das filmagens.

Hoje, no entanto, Some Like it Hot surge em quase todas as listas dos dez melhores filmes americanos de todos os tempos. E não falta quem considere um escândalo que Marilyn Monroe e Tony Curtis não tenham sido sequer nomeados para os Óscares: ambos mereciam a estatueta, que aliás nunca viriam a conquistar. Basta pensar que os papéis que aqui interpretaram estiveram para ser entregues a Mitzi Gaynor e Bob Hope. O que seria desta obra-prima com tal elenco?

 

Imagens: Tony Curtis com Marilyn Monroe em Some Like it Hot (1959).

Em cima, parodiando Cary Grant; em baixo, parodiando Grace Kelly.

12 comentários em “Os filmes da minha vida (18)”

  1. Não fazia ideia desta história de gelo nos bastidores. O filme é delicioso e “quente” como se pretendia. E é isso que ficou para a história. Sortilégios do cinema.

    1. Dizes bem, Ana: sortilégios do cinema. Conhecermos o péssimo clima que se viveu nos bastidores contribui para admirarmos ainda mais esta obra-prima do cinema, com desempenhos brilhantes de Marilyn, Tony Curtis e também de Jack Lemmon, “à frente de um grande elenco”, como na altura se dizia.

  2. Um filme tão brilhante como o é esta série «Os filmes da minha vida». Agora que os anos me levam a dar mais atenção à vida já vivida, dias houve em que eu, antigo cliente do Promotora, Cinearte, Paris, Salão Lisboa, Condes, São Jorge, Monumental e afins, dei comigo comovido a ler os textos do Pedro sobre os clássicos do cinema. Não só pela imensa cultura explanada, mas também pela sensibilidade colocada na escrita.

    Parabéns

    Abraços

    1. Meu caro amigo, esse circuito de cinemas de bairro era a Cinemateca da época. Uma cinemateca de luxo. Na altura não sabíamos, mas hoje podemos ter a certeza disso.
      Obrigado pelas tuas palavras. Vai acompanhando esta série semanal, que é para continuar.

    1. O Tony Curtis foi um caso notável de carreira desperdiçada em Hollywood. Era um óptimo actor, como neste filme ficou demonstrado – e pelo menos em duas outras longas-metragens: ‘Mentira Maldita’ (1957), do britânico Alexander Mackendrick, e ‘Spartacus’ (1960), de Stanley Kubrick. Ou seja, fez os 3 melhores filmes em 3 anos da sua longa carreira, que se estendeu por seis décadas. Era o caso típico do actor que não se tomava demasiado a sério, ao contrário de tantos outros. A série britânica de TV ‘The Persuaders’, que rodou no início dos anos 70 ao lado de Roger Moore, era um bom exemplo disso.

  3. Eu gostava do tipo de humor suave presente no filme de Wilder, ao contrário do tipo escancarado dos filmes atuais. Gosto muito de toda seqüencia passada no trem. E eu nem imaginava que o clima nos bastidores fosse esse.Posso viver duas vidas que mesmo assim muita coisa vou ficar sem saber.Obrigada por compartilhar!

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