Os filmes da minha vida (12)


Pedro Correia,
Já aqui falei da minha actriz. Ou melhor, da primeira vez em que, muito miúdo, me apercebi da existência de uma mulher que se desdobrava de filme em filme – a inesquecível Jennifer Jones. Interpretando papéis diferentes, mas com características únicas, imutáveis.

 

Nessa mesma altura, cinéfilo imberbe, conheci também o meu primeiro actor. Falava um idioma diferente do de Jennifer, mas tão fascinante como o dela. E com um rasgo de mistério comparável ao que a intrigante intérprete de Desde que tu Partiste irradiava no ecrã. Gérard Philipe – é dele que falo – tinha uma aura diferente dos astros de Hollywood. Talvez por ter morrido muito cedo, em circunstâncias trágicas. Parecia-me uma espécie de milagre vê-lo ali, renascido em celulóide, quase um fantasma em assombrosas sequências de chiaro-scuro, expressionistas como poucas, nos dois filmes dele que me cativaram para sempre.

Eram ambos assinados por René Clair – «o mais francês dos cineastas», como lhe chamou Georges Sadoul -, um homem que teve o mundo do espectáculo a seus pés e que as plateias de hoje praticamente ignoram.

Se um dos maiores atributos de um realizador é tornar imortais os seus actores, Clair tinha pelo menos esta qualidade indiscutível. Gérard sobressaía em cada cena – pela figura esguia, pelo rosto anguloso, pelo olhar tremendamente expressivo que nos transmitia a sensação de um ser atormentado pelas encruzilhadas do destino. E sobretudo pela voz – aquela dicção perfeita, que me aumentava a vontade de aprender francês. Língua fora de moda, dizem uns tantos, como se isso alguma vez fosse possível.

 

Já tinha falecido há muito, na flor da idade, quando o conheci. Primeiro ao lado de Michel Simon – outro gigante do cinema gaulês – em O Preço da Juventude, espantosa recriação do Fausto, de Goethe.

Gérard, tentado pelo Mefistófoles-Simon, vendia a alma para obter a ilusão da eterna juventude. Prodigiosa ironia de que só o cinema é capaz: um actor atraiçoado pela vida encarnando na tela alguém que sobrevive a toda a erosão do tempo.

Apetecia-me falar em realismo mágico a propósito deste filme se o termo não tivesse já sido apropriado até à exaustão por tudo quanto cheire a literatura latino-americana. Mas é ainda esse termo que para mim melhor define a outra película de Gérard Philipe que jamais me foge da memória: O Vagabundo dos Sonhos.

Personagem errante, ao jeito de um Mersault de Albert Camus, irremediável inadaptado num universo em convulsão. Parecia deste mundo mas já não era deste mundo, o malogrado Gérard Philipe. Como Camus, como Boris Vian, como Martine Carol, sua parceira neste filme.

Morrem cedo os que os deuses amam, é bem verdade.

Nunca mais voltei a vê-lo. Nem sequer nas Ligações Perigosas (com Jeanne Moreau), que viria a ser o seu filme-testamento. Mas de vez em quando escuto-o ainda. Numa velha e preciosa gravação de Pedro e o Lobo, de Prokofiev.

Gérard Philipe é o narrador: entre trechos musicais que sei de cor desde criança, chega-me de novo a sua dicção perfeita, uma e outra vez, para todo o sempre, ficando a ecoar no infinito.

Os filmes da minha vida (11)


Pedro Correia,

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A primeira vez que senti o verdadeiro impacto de uma presença feminina no ecrã foi com os filmes de Jennifer Jones, minha precoce paixão cinéfila.

 

Não era uma estrela como as outras, das que faziam publicidade ao sabonete Lux mergulhadas em banheiras cheias de espuma.

Jennifer cheirava a flores campestres: era muito morena, cabelos lisos, lábios cheios, uns olhos enigmáticos que me prenderam (ou me perderam) para sempre. Jennifer, a minha primeira actriz: aparição fulgurante como vidente de Lourdes n’ A Canção de Bernadette.

Mas nada havia de angelical nela: tinha uma sensualidade explosiva, como fui testemunhando de filme para filme, cada vez mais fascinado pela sua beleza exótica que deixava em brasa todos os homens com quem contracenava: Charlton Heston, em A Fúria do Desejo; William Holden, n’A Colina da Saudade, Gregory Peck, nesse fabuloso Duelo ao Sol; até o errático Montgomery Clift em Stazione Termini, de Vittorio de Sica, talvez a película mais atípica da sua carreira. Quem só descobriu o erotismo na Sétima Arte no momento em que Sharon Stone descruzou as pernas nem imagina do que falo…

 

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Mas nunca ela me seduziu tanto como no mais intangível dos papéis que criou: n’ O Retrato de Jennie, de William Dieterle – perfil recortado no nevoeiro, fazendo acelerar a pulsação de Joseph Cotten. E a minha, rendida de vez ao seu encanto hipnótico.

 

Não há amor como o primeiro: prendi-me a outras mulheres, perdi-me por outras actrizes, mas nenhuma me fez esquecer Jennifer Jones. Nem os planos rodados no Central Park envolto em névoa desse filme onírico que nunca mais revi.

Vislumbrei-a pela última vez dançando com Fred Astaire n’A Torre do Inferno, mas ela parecia já não estar ali, parecia já não ser deste mundo. Senti-me como Joseph Cotten, enquanto do recanto mais fundo da memória emergiam trechos do belíssimo tema de Dimitri Tiomkin, inspirado em Debussy: “With a portrait of Jennie / I will never part / For there isn’t / Any portrait of Jennie / Except in my heart.”

 

A primeira actriz por quem me apaixonei há-de ser um eterno enigma para mim.

Os filmes da minha vida (10)


Pedro Correia,

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NOITES CINÉFILAS EM SUPER 8

 

Cinema é festa. E às vezes a festa espreitava em frestas do quotidiano, nos longos serões tropicais sulcados de sons nocturnos: o vagido do morcego, o grunhido da osga, o zumbido de besouros em contínua demanda de luz. Era uma festa quando o meu pai instalava o projector de super 8 e exibia filmes para nós, garotos sem televisão, ávidos de ver imagens em movimento. Vinham colegas da escola, juntávamo-nos a beber limonada, indiferentes ao toqué na parede que acabava de engolir mais um mosquito – o grande lagarto pintalgado cuja presença, acreditavam os velhos em Díli, dava sorte às casas que os acolhiam.

Noite mansa no amplo bairro do Farol – o oceano, pacífico, alongava-se em frente. Barcos artesanais de pescadores rumavam ao largo, na sua faina diária. Havia vagas luzes de petromax em Ataúro, várias milhas náuticas adiante. Mas na varanda que circundava a moradia os olhos infantis só estavam concentrados na tela onde desfilavam as imagens. Filmes em super 8: pequenas bobinas extraídas de caixas quadrangulares e que se fixavam na parte mais recuada do projector. Começavam a girar e o cinema acendia-se na varanda, sob a ritmada vigilância das ventoinhas de tecto que mal disfarçavam o calor repassado de humidade. No chão, pivetes de incenso procuravam pôr os insectos à distância, empurrando-os na direcção das osgas e do tranquilo toqué que parecia petrificado, as ventosas das patas bem fixadas nas paredes.

O stock era limitado: mas revíamos sempre cada filmezinho ou cada documentário como se fosse a primeira vez. Uma versão condensada d’ O Homem Invisível, de James Whalen: ainda hoje sinto um ligeiro arrepio quando recordo Claude Rains a tirar as insólitas ligaduras que lhe cobriam o rosto. Rio Grande, em formato pequeno: lá surgia John Wayne de bigode e farda confederada despedindo-se da inconsolável Maureen O’Hara. Os Harlem Globettroters fazendo acrobacias nunca vistas em recintos de basquetebol. Os golos de Pelé e Jairzinho no inesquecível Campeonato do Mundo de 1970.

E havia os desenhos animados. O imparável Woody Woodpecker, esse endiabrado picapau que fez as delícias da minha infância. Speedy Gonzalez, o rato que corria mais rápido do que a própria sombra. Dick Tracy, o detective que solucionava todos os casos enquanto falava ao telefone com o relógio de pulso.

E havia as velhas comédias mudas, do tempo em que se usava pêra e cartola, que uma vez e outra e outra nos faziam irromper em gargalhadas. A luz projectava-se no ecrã branco, a bobina começava a girar e aparecia o rosto familiar de Charlot comendo sempre a mesma bota que já comera em tantas outras noites. Ou os inconfundíveis Bucha e Estica, que levavam o caos à mais pacífica das ruas, pondo impávidos cidadãos à batatada. E pondo-nos a rir até às lágrimas, apesar de sabermos cada cena de cor. Absurdamente felizes sem sabermos que o éramos – putos europeus longe do conforto europeu, nessas horas longínquas em que o Super 8 substituía os canais televisivos que não chegavam a Timor. E em que o popular projector fazia parte da mobília – e da família.

Por vezes sinto uma nostalgia imensa dessas improvisadas noites cinéfilas. E do toqué lá de casa. E daquelas ventoinhas que rodavam no tecto enquanto o Dick Tracy, o John Wayne e Laurel & Hardy alimentavam sem cessar os nossos sonhos.

Os filmes da minha vida (9)


Pedro Correia,

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AS VINHAS DA IRA:

SOMOS PARCELAS DE UMA ALMA MAIS VASTA

 

O realismo social costuma funcionar com personagens-tipo – figuras modelares num determinado contexto histórico e político mas em regra destituídas de espessura psicológica. O que John Ford consegue nesta sua magnífica adaptação a cinema do romance mais célebre de John Steinbeck é inverter esse estereótipo: As Vinhas da Ira oferece-nos uma galeria riquíssima de personagens, bem demonstrativas de um período dramático da história dos Estados Unidos, sem deixar de ser, simultaneamente, um poderoso libelo contra a injustiça social.

É um filme povoado de grandes planos de rostos quase espectrais, enquadrados na fabulosa fotografia de Gregg Toland. «Não passo de um fantasma», diz-nos logo no início Murley Graves, um desses pequenos agricultores rendeiros do Oklahoma forçados a abandonar as terras devido à inclemência da natureza e sobretudo à impiedosa ganância dos grandes empresários agrícolas e das poderosas instituições bancárias que ditavam as regras nessa América mergulhada nos anos da Depressão.

As Vinhas da Ira começa com a emblemática imagem de um homem solitário a caminhar ao longo de uma recta interminável. É Tom Joad, a figura central do filme – o papel da vida de Henry Fonda. Sem terra nem lar, a família Joad, arrancada às raízes, busca uma nova vida na Califórnia, atravessando os estados do Oklahoma, Novo México e Arizona. O avô morre pelo caminho, a avó também. O cunhado de Tom abandona a mulher grávida. E o sonho de uma vida próspera na Califórnia revela-se afinal um pesadelo: ali acorrem todos os deserdados do país. 

 

 

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Ford povoa o filme de momentos memoráveis. A mãe de Tom, sozinha no quarto antes da viagem, a desfazer-se de algumas recordações de toda a vida. O pai a implorar um pão num ocioso café à beira da estrada. A chegada ao acampamento californiano, cheio de crianças com fome. O ex-pregador Casy a explicar a Tom por que motivo mudou de vida: «Um pregador precisa de ter certezas. Eu não as tenho. Interrogo-me.»

Mas a mais inesquecível das cenas é a da despedida de Tom, procurado pela polícia, prestes a ter de sair de casa para sempre, regressando à vida errante que verdadeiramente nunca abandonou. Prepara a mochila no silêncio da noite, beija o pai adormecido. Ouve-se ao longe o silvo de um comboio – símbolo da partida iminente. Mas afinal a mãe está acordada: «Não te despedes?» Segue-se um breve diálogo, a meia-voz, feito tanto de palavras como de olhares. Sem artifícios, sem melodrama.

«Não temos um alma só nossa. Cada um de nós é apenas uma parcela de uma alma mais vasta, que é de todos», diz Tom. Anunciando à mãe o seu projecto de vida: «Onde houver uma luta para os famintos poderem comer, estarei lá. Onde houver um polícia a agredir alguém, estarei lá.» Olha de baixo para cima enquanto fala. Como se estivesse, inconscientemente, a pedir protecção divina para ajudar os seus semelhantes a escapar ao inferno na terra.

I’ll be there. Filmada por John Ford, a saga de Tom Joad ganha asas, transcende o contexto histórico em que se situa, adquire um simbolismo universal que supera qualquer rótulo. Somos parcelas de uma alma mais vasta.

 

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As Vinhas da Ira (The Grapes of Wrath, 1940). Realizador: John Ford. Principais intérpretes: Henry Fonda, Jane Darwell, John Carradine, Russell Simpson, Charley Grapewin, John Qualen

Os filmes da minha vida (8)


Pedro Correia,

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LAURA:

O AMOR EM EXCESSO PODE MATAR

 

Há filmes que nos tocam desde o primeiro momento. Basta uma frase.

O sortilégio de Laura começa logo na frase inicial: «Jamais esquecerei o fim de semana em que Laura morreu. Não me lembro de um dia tão quente. Senti-me o único homem em Nova Iorque.» É proferida por uma voz off – a de Waldo Lydecker (Clifton Webb), famoso colunista social, habituado a construir e arruinar reputações. Somos assim logo transportados para um enigma dentro da labiríntica mente de Waldo: quem matou Laura Hunt?

O que só saberemos mais tarde é que Laura – a mulher que todos cobiçam, ao som da partitura hipnótica de David Raskin, é uma criação de Waldo. Não existia antes dele, como o ser que deslumbraria as noites nova-iorquinas, e provavelmente seria incapaz de lhe sobreviver.

Neste filme de constantes trocas de identidades, onde todas as aparências iludem, Laura é tanto mais real quanto surge exposta num retrato que domina o salão do apartamento onde morou. É pela mulher que contempla neste quadro que o tenente da brigada de homicídios Mark McPherson (Dana Andrews) se deixa arrebatar em noites de insónia regadas a scotch barato. Logo ele, o homem que deixou há muito de acreditar no amor. Quando Waldo lhe pergunta se já esteve apaixonado, ele responde: «Uma vez, em Washington Heifhts, uma tipa conseguiu que eu lhe oferecesse uma pele de raposa.» 

Um insólito clima de necrofilia percorre este filme de Otto Preminger – obra-prima do noir, o género cinematográfico que melhor desvenda a alma humana.

Numa obsessiva peregrinação nocturna pelo quarto que Laura deixou vazio, Mark lê o diário dela, cheira o frasco de perfume dela, contempla os vestidos dela. E ao fechar as portas do guarda-roupa vê com espanto a sua própria imagem reflectida no espelho. Percebemos de imediato que mal se reconhece: está apaixonado por um cadáver.

 

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Das sombras nocturnas de Nova Iorque emergem figuras que se vão iluminando.

Waldo, o homem que escreve «com pena de pato embebida em veneno». Shelby Carpenter, o galã com voz de veludo que passa cheques sem cobertura enquanto proclama: «Posso tolerar uma mancha no meu carácter mas não no meu fato.» A tia de Laura, incapaz de suportar a ideia de ver a sobrinha casada com Shelby. E Mark, que conduz o inquérito com a raiva surda de um amante despeitado. Como se soubesse de cor o poema que Waldo declama no seu programa radiofónico: «O amor estende-se para além das trevas da morte.»

A paixão partilhada por Laura – deslumbrante Gene Tierney, escolha perfeita para este papel – traz à tona as piores facetas dos homens que se deixam sucumbir pelo seu feitiço. De tal maneira que saber quem a matou passa a ser a questão que menos interessa perante a certeza de que todos seriam capazes de matar por ela. Incluindo o polícia que se perdeu de fascínio pelo seu retrato.
«O homem mata o que ama», dizia Oscar Wilde. O amor em excesso pode ser fatal. E a ilusão do amor também.

 

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Laura (1944). Realizador: Otto Preminger. Principais intérpretes: Gene Tierney, Dana Andrews, Clifton Webb, Vincent Price, Judith Anderson

Os filmes da minha vida (7)


Pedro Correia,

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LILITH:

NADA É MAIS DIFÍCIL DO QUE SER FELIZ

 

E o mar vindo da primitiva solidão
entre futuras árvores de súbito evidente
está mais perto de ti que a minha mão.
Ruy Belo, Boca Bilingue

 

A voz da loucura pode tornar-se a voz da razão. Quando Vincent Bruce (Warren Beatty) chega a uma clínica para esquizofrénicos da Nova Inglaterra, como ajudante de enfermeiro, uma das internadas grita-lhe: «Vá-se embora daqui!» É um aviso cheio de carga premonitória.

Aviso ignorado: Vincent, natural daquela vila cinzenta e chuvosa, desde pequeno sonhara perceber o que se passava para lá dos muros daquela instituição que alberga filhos desafortunados de gente rica. «Nunca fiz nada que valesse a pena», diz este antigo soldado, recém-chegado da tropa, onde foi ferido. Nunca saberemos ao certo a natureza deste ferimento, mas pressentimos que não lhe tocou só o corpo: também lhe atingiu a alma.

Vincent conheceu a insanidade da guerra, que certa noite revisita através de imagens dramáticas na televisão. Faltava-lhe conhecer a insanidade do amor – e é isso que descobre ao encontrar Lilith Arthur (Jean Seberg), trágica protagonista deste filme sublime: Lilith e o Seu Destino – o último de Robert Rossen (1908-1966), falecido dois anos mais tarde, sem saber que a geração seguinte de críticos, desmentindo o juízo negativo inicial de publicações como a Variety, o elevaria ao estatuto de obra-prima.

 

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Tudo começa com Beatty a avançar por um estreito caminho ladeado de choupos – como se apenas naquela alameda se jogasse o seu destino. Vêmo-lo de costas, à distância, na fabulosa fotografia a preto e branco de Eugene Schufftan. É também de costas que nos surge Jean Seberg: só à sexta vez lhe desvendamos enfim o rosto. Mas vale a pena tal espera: é um daqueles rostos que jamais apagamos da memória.

Vincent Brice sentiu o mesmo: Lilith surge-lhe como uma singular reminiscência da mãe, morta era ele criança. Pouco mais sabemos dela senão que sofreu também de distúrbios mentais – o que só reforça o paralelo com Seberg, a mulher que destrói aqueles que ama. Tão luminosa por fora, tão crepuscular por dentro.

O Dr. Lavrier, o psiquiatra, compara-a a «um cristal que foi quebrado pelo choque de uma revelação insuportável». E acrescenta: pessoas como ela são por vezes «destruídas pela sua própria excelência». Quanto melhor, pior.

A esquizofrenia de Lilith estará relacionada com o suicídio do irmão? As suspeitas adensam-se aos olhos de Vincent, quando a vê insinuar-se junto de rapazinhos de rua. Mas o rasto de morte que a persegue é mais um ponto de ligação entre ambos: ela perdeu o irmão, ele perdeu a mãe. «Costumas ouvir pessoas de quem gostas a chorar?», pergunta Jean. «Às vezes ouço a minha mãe», responde Warren.

Quem sabe seja o que for sobre os abismos da mente?

Lilith – baseado no romance homónimo de J. R. Salamanca – é um filme lento, sincopado, feito de prolongados silêncios, intercalados pela memorável partitura de Kenyon Hopkins. É construído como as teias que surgem no fabuloso genérico de Elinor Bunin. E com planos fixos que nunca esqueceremos: os raios de sol reflectidos nas águas; Beatty a escutar, atento, o diálogo entre Lilith e Stephen Evshevsky (Peter Fonda) à beira das cataratas; as folhas de uma árvore rasgando o nevoeiro; a desoladora cozinha da desolada casa de Laura, a ex-namorada de Vincent, incapaz de perceber que para ela o tempo do «esplendor na relva» já passou.

Mas nada iguala os grandes planos destes dois protagonistas de um amor impossível. Nunca a beleza de Seberg foi tão evidente. E nunca a fragilidade desta beleza foi tão evidente também.

«Ela faz-nos esquecer que é uma doente», confessa Vincent a Bea Brice (Kim Hunter), num dos raros momentos em que se torna capaz de uma confidência. Falta pouco para ele próprio se ver impelido a pedir auxílio. «Help me», suplica no magnífico plano final. Já Stephen se matara, também ele vítima do funesto amor de Lilith. E já ela mergulhara naquele estado catatónico, feito de sono e sonho, que transforma a vida em mero prelúdio de morte. «Ver a loucura nos homens aflige menos do que nas mulheres», dissera Bea a Vincent no primeiro dia. Nada mais certo.
No fundo, «a loucura talvez seja apenas infelicidade», admitira Stephen. E como se resvala para lá? Pela mais inesperada das vias: «A felicidade torna-nos descuidados», adverte também este doente, com mais sabedoria do que todos os médicos.

Completa-se o ciclo: a voz da loucura pode tornar-se a voz da razão.

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Lilith (1964). Realizador: Robert Rossen. Principais intérpretes: Jean Seberg, Warren Beatty, Peter Fonda, Kim Hunter.

Os filmes da minha vida (6)


Pedro Correia,

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VIAGEM A ITÁLIA:

O FOGO E AS CINZAS

 

Um casal britânico ruma a Itália para vender uma propriedade de um falecido tio dela. Da propriedade avista-se a baía de Nápoles e a massa imponente do Vesúvio. Dez anos antes registara-se a última erupção digna de nota do vulcão, entretanto adormecido – metáfora perfeita para caracterizar a relação conjugal de Katherine e Alexander Joyce.

«Nos teus olhos só vejo cinismo e ironia», atira-lhe ela, enquanto ele deplora o «ridículo romantismo» dela. Logo no primeiro diálogo que travam, algures numa estrada a cem quilómetros de Nápoles, é fácil detectar os sinais de desgaste do casamento, que dura há oito anos. «É a primeira vez que estamos sozinhos desde que casámos», lembra Katherine (Ingrid Bergman) a Alex (George Sanders), que reconhece serem «estranhos um para o outro». Tão estranhos que dormem em quartos separados e não parecem partilhar gostos de espécie alguma.

Estranho, para eles, é também aquele país meridional, inundado de luz solar, onde os pares se enlaçam, as brigas por ciúme são frequentes e há sempre uma canção romântica a irromper em fundo. É o país que encantou Byron, Ezra Pound e um jovem poeta amigo de Katherine, Charles Sutton, morto anos antes, vítima de tuberculose, depois de lhe dedicar uns versos que jamais se lhe apagaram da memória.

 

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A ficção imita a vida real – ou será o contrário? O casamento entre Ingrid Bergman e Roberto Rossellini estava também à beira do fim quando o cineasta de Roma, Cidade Aberta rodou esta belíssima Viagem a Itália, uma das suas cinco longas-metragens que a actriz sueca protagonizou com ele.

Distantes pareciam já os tempos em que a bela Ingrid, deusa de Hollywood, trocara a Califórnia por Roma, rendida à explosão do cinema neo-realista que tinha Rossellini como mentor. Os americanos não lhe perdoaram a traição, os italianos sempre a trataram como estrangeira. E no entanto Ingrid era a força motriz daquela união com Roberto – uma «criança grande», como ela lhe chamou nas suas memórias.

Também no filme é Katherine quem guia: assim a vemos logo nos momentos iniciais. Ela de olhos fixos na estrada, ele de olhos fechados. À mulher, à vida, àquele país onde o «aborrecimento e o barulho andam a par».

 

 

«É necessário que o cinema ensine as pessoas a conhecerem-se», costumava dizer Rossellini, cultor de uma arte sem artifícios.

Não conheço outro filme que exiba com tanta sensibilidade as surdas tensões capazes de abalar qualquer casamento, proporcionando o mais delicado dos retratos de uma mulher apostada em ressuscitar o amor. A mesma que, vendo circular nas ruas de Nápoles várias grávidas e jovens mães empurrando carrinhos de bebés, fala deste modo, com o coração magoado ao pé da boca: «O erro do nosso casamento foi não termos filhos.»

Amarga ironia: foi ela afinal quem não quis tê-los.

 

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Viagem a Itália
– uma obra que «reconcilia o quotidiano com o eterno», no dizer de Claude Beylie – está cheia de cenas inesquecíveis. A do breve encontro entre Alex e a triste prostituta que planeara suicidar-se na noite anterior. A magnífica sequência do regresso dele a casa, quando Katherine finge estar adormecida e toda a ambiguidade de sentimentos conjugais se revela ao espectador naquele admirável jogo de luz e sombras. A visita às ruínas de Pompeia, onde ambos caminham sempre separados, sem o mínimo contacto físico, ao encontro dos ossos calcinados de um par surpreendido num abraço eterno, dois mil anos antes, pela lava do Vesúvio. «Encontraram a morte juntos», surpreende-se ela.

O amor também pode ser imortalizado assim.

 

É em Pompeia que Ingrid e George parecem tornar-se finalmente conscientes de que «a vida é breve» (diz ela) e «por isso temos de aproveitá-la» (diz ele).

 

Mas a ressurreição do fogo que julgavam extinto ocorre no mais imprevisto dos cenários: no meio de uma procissão em honra da madonna que atrai milhares de napolitanos.

«Como podem acreditar nestas coisas? Parecem crianças!», admira-se o inglês que esconde sempre as emoções.
«As crianças são felizes», observa a mulher, que acredita em milagres.

 

E é num milagre que culmina este filme que nos fala sempre da terra enquanto nos mostra o céu. Separados pela torrente da multidão, Alex e Katherine acabam por cair nos braços um do outro. É afinal possível que das cinzas renasça o fogo que arde sem se ver?

«Creio porque é absurdo», dizia Graham Greene. Para quem crê, todos os vesúvios se movem. A qualquer instante, em qualquer lugar.

 

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Viagem a Itália (Viaggio in Italia, 1953). Realizador: Roberto Rossellini. Principais intérpretes: Ingrid Bergman, George Sanders, Leslie Daniels, Natalia Ray, Anne Proclemer, Maria Mauban.

Os filmes da minha vida (5)


Pedro Correia,

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MARY POPPINS:

O MEU PRIMEIRO FILME

 

 

Tinha sete anos quando entrei numa sala de cinema para ver um filme “a sério”. Era Mary Poppins, de Robert Stevenson, numa reposição natalícia no antigo Monumental. Tudo me deslumbrou nesse filme: a música, a personagem da governanta com um toque de loucura, a mescla de desenhos animados com figuras reais, a vivacidade acrobática do Dick Van Dyke, o nariz arrebitado da Julie Andrews (mal adivinhava eu como haveria de gostar tanto de outro nariz arrebitado…).

Recordo como se fosse hoje a mágica dança dos limpa-chaminés recortados na noite azul de uma Londres irreal. E a incomparável explosão de alegria que irrompia no ecrã aos primeiros acordes de Supercalifragilisticexpialidocious…

 

Vi largas centenas de longas-metragens depois desta inesquecível produção dos estúdios Walt Disney. Mas regresso a Mary Poppins com a mesma sensação de encantamento, que se repete em cada fotograma deste filme único, relíquia de um tempo em que os grandes estúdios ainda ditavam cartas na indústria cinematográfica americana.

Continuo a comover-me quando ouço Chim Chim Cheree, divirto-me com aquele delirante chá tomado com as personagens coladas ao tecto, ainda acho possível que uma nanny inglesa cruze os céus de Londres a flutuar num guarda-chuva. E não concebo sequer que alguém ponha em causa os méritos desta película, uma das mais deslumbrantes obras-primas do cinema.

A ver e a rever em qualquer época, dos sete aos 77 anos de idade.

 

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Mary Poppins (1964). Realizador: Robert Stevenson. Principais intérpretes: Julie Andrews, Dick Van Dyke, David Tomlinson, Glynis Johns

Os filmes da minha vida (4)


Pedro Correia,

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A DESAPARECIDA:

JURAR PARA SEMPRE, NA GUERRA E NO AMOR

 
Não existe melhor interpretação em cinema do que a de John Wayne como protagonista deste filme. É verdadeiramente insuperável o que o actor favorito de John Ford faz aqui com um olhar fixo, um gesto tenso, um simples esgar ou um silêncio que parece eternizar-se.

A Desaparecida é um filme cheio de silêncios prolongados e magoados: Ethan Edwards (Wayne) arrasta consigo um segredo por desvendar. «A guerra já acabou há três anos. Porque não voltaste antes?», pergunta-lhe o irmão, Aaron, ao vê-lo chegar com tanto atraso. A pergunta fica sem resposta.

Há imensas perguntas sem resposta aqui.

Estamos no Texas, em 1868. Wayne combatera na guerra civil (1861-65), pelos confederados. A derrota marcou-o: jamais voltará a ser o mesmo. «Um homem só pode ser fiel a um juramento», diz ele, num discurso feito de entrelinhas.

A Desaparecida é não só um filme de admiráveis silêncios, mas também de meias-palavras e de eloquentes subentendidos. É neste plano, apenas pressentido, que se desenrola a paixão de Ethan pela cunhada, Martha (Dorothy Jordan). Terá sido este sentimento proibido que o manteve à distância? Nunca saberemos. Mas quando a casa do irmão é destruída pelos comanches, Ethan chama desvairadamente por Martha: adquirimos então a certeza de que este western encerra também uma profunda e trágica história de amor.

 

São ainda os ecos secretos da paixão por Martha que levam Wayne a deambular durante cinco anos um pouco por toda a parte, procurando obsessivamente resgatar a sobrinha Debbie, raptada pelos índios. É o único laço de família que lhe resta – a última amarra que o prende ao mundo e à memória da mulher que amou. Com ele, seguindo-o como uma sombra, galopa Martin Pawley (o malogrado Jeffrey Hunter), órfão de pai e mãe, filho adoptivo de Martha e Aaron. Este mestiço de índio, espécie de consciência moral de Ethan, é uma das grandes personagens de toda a obra de Ford: o seu humanismo congénito contrasta com a figura desencantada do confederado.

Numa das mais belas cenas deste filme semeado de elipses, Wayne sugere-lhe o motivo por que jamais desistirá da busca por Debbie, a mais nova das suas sobrinhas: «Eles [os comanches] vão criá-la durante tempo suficiente para…» Não diz mais, mas a neve que cai, incessante, completa-lhe o discurso.

É assim o grande cinema.

E quando enfim encontram Debbie as piores expectativas do homem que só fez um juramento haviam-se concretizado.

Cruzam-se aqui diversas noções de honra que Ford sabiamente põe em confronto sem nunca assumir a pose de vendedor ambulante de “mensagens”. As imagens dizem tudo – da arrepiante sequência em que Ethan descobre o escalpe de Martha à cena culminante, em que o duro confederado resolve enfim o dilema moral que há muito o perseguia no momento em que pega na sobrinha ao colo – a filha do amor da sua vida, sangue do seu sangue – e lhe diz, com toda a ternura que nele sobrevive: «Let’s go home, Debbie.»

Momento mágico numa longa-metragem que está repleta deles.

 

A Desaparecida é o melhor western de todos os tempos – obra-prima absoluta. Um filme sobre um amor impossível, um filme sobre o inapelável peso da solidão.

Começa com uma porta aberta, rasgada para a beleza em estado bruto de Monument Valley, quando Martha vê Ethan a cavalgar no horizonte, e termina com o mesmo enquadramento. Só que Martha já não existe. Wayne, que chegara com atraso, parte agora, rumo ao desconhecido.

Missão cumprida, é tempo de levantar âncora. Nunca saberemos de onde veio, nunca saberemos para onde vai. Sabemos apenas que, na guerra como no amor, ele se manteve fiel ao que jurou. Quantos poderão dizer o mesmo nas várias vidas que uma vida tem?

 

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A Desaparecida (The Searchers, 1956). Realizador: John Ford. Principais intérpretes: John Wayne, Jeffrey Hunter, Vera Miles, Ward Bond, Natalie Wood, John Qualen, Harry Carey Jr.

Os filmes da minha vida (3)


Pedro Correia,

 

ESPLENDOR NA RELVA:

NADA É ETERNO COMO O AMOR

 

«És feliz?», pergunta Deannie Loomis a Bud Stamper na cena final de Esplendor na Relva, filme belíssimo que me deixa sempre atordoado.

Elia Kazan foi o cineasta que melhor soube mostrar a sucessivas gerações de cinéfilos como é possível filmar um tema tão complexo – o fracasso das relações amorosas face às mil armadilhas do quotidiano – com uma sensibilidade ímpar que nem a mais eficaz das ficções televisivas consegue imitar. Há no olhar pungente de Deannie (Natalie Wood), nessa cena crepuscular, toda uma gama de emoções que daria para encher uma biblioteca inteira.

Passam os tempos, mudam as modas, e este tema permanece tão actual como os títulos dos jornais desta manhã. «Não costumo pensar muito nisto» é a resposta que lhe dá um embaraçado Bud (Warren Beatty), confrontado com os estilhaços daquela relação, desde o início cercada por condições adversas que a condenaram à extinção.

Ou talvez não. Quando as palavras The End iluminam o ecrã, pressentimos afinal que aquele amor será eterno – mesmo com Bud confinado à prosaica quinta do Kansas natal, amarrado a uma mulher que o destino escolheu por ele, e Deannie desterrada em Cincinnatti, presa a um casamento que lhe serve de suave sucedâneo ao suicídio que não a deixaram consumar. Resta-lhes o esplendor na relva que partilharam na idade de todas as ilusões e neles perdurará como um signo de eternidade.

Nelson Rodrigues, que talvez nunca tenha visto esta película mas conhecia como ninguém os enredos da vida real, sabia do que falava quando escreveu: «A única coisa que dura para além da vida e da morte é o amor.»

Isto Kazan não mostra. Mas está lá. É por isso que amarei este filme até ao fim dos tempos. Como Ruy Belo, também «Eu sei que Deannie Loomis não existe / Mas entre as mais essa mulher caminha / E a sua evolução segue uma linha / Que à imaginação pura resiste.»

 

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Esplendor na Relva (Splendor in the Grass, 1961). Realizador: Elia Kazan. Principais intérpretes: Natalie Wood, Warren Beatty, Pat Hingle, Audrey Christie, Sean Garrison, Sandy Dennis

Os filmes da minha vida (2)


Pedro Correia,

 

CASABLANCA:

AMOR E LIBERDADE

 

A retórica antinazi datou irremediavelmente muitos dos filmes americanos produzidos no tempo da guerra (1939-45). Até Chaplin, o mestre do mudo, caiu nesta armadilha na célebre cena final do seu O Grande Ditador (1940) – e foi quanto bastou para se perder uma obra-prima. Inversamente, o que faz a força perene de Casablanca é o facto de jamais ser um filme de propaganda óbvia ao esforço aliado no combate sem tréguas contra o III Reich. E no entanto não conheço outra película tão eficaz no apelo subliminar ao envolvimento de Washington no conflito.

Numa cena poucas vezes mencionada, Richard Blaine (Humphrey Bogart) pergunta ao pianista Sam (Dooley Wilson) que horas seriam em Nova Iorque. Pergunta aparentemente sem nexo, mas logo justificada pelo comentário adicional de Blaine: «Está toda a gente a dormir na América.»

 

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É uma frase emblemática. Corria o mês de Dezembro de 1941, eram as vésperas de Pearl Harbor, os americanos viviam ainda embalados pelo sonho da neutralidade que Philip Roth tão bem retrata no seu romance Conspiração Contra a América. Mas Blaine, o cínico Rick, dono do bar do mesmo nome em Casablanca, já se havia antecipado ao curso da História. Em 1935 fizera chegar armas aos abissínios que lutavam contra Mussolini, no ano seguinte ingressara nas Brigadas Internacionais em defesa da República espanhola. Ao contrário do que aparentava, era um homem de causas e capaz de se envolver até ao limite por elas.

Esta dimensão política de Casablanca, que se me tem revelado em sucessivas revisões do filme, ultrapassa claramente as malhas do melodrama a que muitos gostariam de vê-lo confinado. E se algo sobrevive ao malogrado romance entre Rick e Ilsa Lund (deslumbrante Ingrid Bergman) é precisamente a batalha decisiva em que ambos apostam, também em nome do amor – neste caso, do amor à liberdade.

 

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«Agora só luto por mim. Sou a única causa que me interessa», diz Bogart a Victor Laszlo (Paul Henreid), tentando aparentar cinismo por uma última vez.

Nesta fase já ninguém acredita em tal fachada: há uma dimensão moral em Rick que de todo não existe no dúplice capitão Louis Renault (Claude Rains), sempre virado – nas suas próprias palavras – para «o lado de que sopra o vento».

O “vento” daqueles tempos era o do cobarde colaboracionismo de Pétain – o velho marechal que se rendeu a Hitler e que surge em cartaz, no início do filme, contra o qual é assassinado um suposto membro da resistência francesa.

 

Bogart, o aventureiro de passado sombrio, e Bergman, a mulher dividida entre dois homens, não são figuras sem mácula, ao jeito dos “heróis exemplares” que o realismo socialista fornecia às massas. São gente de carne e osso, com os mesmos defeitos de qualquer de nós – e daí o facto de, tantos anos volvidos, continuarmos a identificar-nos com o destino deles.

Rick, que jurava «não arriscar o pescoço por ninguém», proclama afinal que o futuro do planeta importa bem mais do que «três pessoas insignificantes». Ilsa, incapaz de voltar duas vezes costas à mesma paixão, segreda-lhe: «Terás de ser tu a pensar por nós.»

 

Rick assim faz. Entre o amor sem sombra de liberdade e a liberdade sem garantia de amor, optou por esta. Como se conhecesse os belíssimos versos de Sophia: «Terror de te amar num sítio tão frágil como o Mundo. / Mal de te amar neste lugar de imperfeição / Onde tudo nos quebra e emudece / Onde tudo nos mente e separa.»

Esta é talvez a maior lição que aprendemos em Casablanca: o verdadeiro amor é sinónimo absoluto de verdadeira liberdade.

 

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Casablanca (1942). Realizador: Michael Curtiz. Principais intérpretes: Humphrey Bogart, Ingrid Bergman, Paul Henreid, Claude Rains, Conrad Veidt, Peter Lorre, Sydney Greenstreet.

 

reedição

Os filmes da minha vida (1)


Pedro Correia,

 

OS INADAPTADOS:

TODOS MORREMOS A CADA DIA QUE PASSA

 

Rosyln Taber (Marilyn Monroe), desencantada da vida, interessou-se pelo único homem que, sabendo ver para além das aparências, percebeu que ela era infeliz. Percebemos isso num sublime diálogo que marca Os Inadaptados (The Misfits), obra-prima de John Huston e um dos grandes filmes dos anos 60. “És a mulher mais triste que conheço”, diz-lhe ele. “És o único homem que não me diz que sou feliz”, espanta-se ela. Rendida à argúcia daquele anacrónico cowboy que faz do deserto do Nevada o seu lar iluminado por estrelas “tão longínquas que podem estar já mortas no instante em que olhamos para elas”.
É ficção, claro. Mas podemos vislumbrar em tudo isto uma alegoria da própria Marilyn na fase crepuscular da sua carreira que culminaria pouco depois no mais mediático suicídio da história do cinema. É compreensível: o argumento foi escrito por Arthur Miller, casado com a actriz, e era já então evidente que o casamento estava condenado ao fracasso. Aliás, nenhum cineasta como Huston soube tão bem filmar o fracasso: é disto que se trata também em The Misfits. O próprio Gay Langland (Clark Gable), epítome do “último verdadeiro homem americano”, como o descreve Isabelle Steers (Thelma Ritter), está num beco sem saída: deixou de haver lugar para pessoas como ele numa América que se despedia dos seus mitos na década de todas as convulsões. “Tenho de arranjar outra maneira de me sentir vivo, se houver alguma”, confessa ele, à beira do fim. Também neste caso o filme teve carácter premonitório: Gable faleceu duas semanas após a conclusão das filmagens. Com ele morria uma era de Hollywood: o cinema clássico tornava-se moderno. Igualmente sob este prisma, Os Inadaptados decorre sob o signo da despedida.

Uma obra cinematográfica pode ser apreciada de várias maneiras, conforme as alterações registadas no nosso olhar. Só ao ver The Misfits pela terceira vez me apercebi que esta película onde não morre ninguém é afinal uma película sobre a morte – uma das mais pungentes de que há memória. Calhou olhá-la num dia muito doloroso, marcado pelo trágico desaparecimento de uma colega. E de súbito todo aquele enredo adquiriu para mim um novo sentido. É de perda que este filme nos fala, num subcontexto que o percorre por inteiro. Numa das sequências mais extraordinárias que Huston rodou, Roslyn, à distância, grita para os homens que prosseguem a absurda caça aos cavalos selvagens: “Vocês os três estão mortos!” (os outros, além de Gay, são Perce Howland, interpretado por Montgomery Clift, e Guido, interpretado por Eli Wallach). “Todos, homens e mulheres, estamos a morrer a cada momento que passa”, lembra ela noutra cena. E Gable, quase numa frase-testamento, diz: “Um homem que tem medo de morrer tem medo de viver.”
Os inadaptados eram todos eles – deserdados da fábrica de sonhos, na tela como na vida. E até que ponto não seremos também nós?

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Os Inadaptados (The Misfits), 1961. Realizador: John Huston. Principais intérpretes: Clark Gable, Marilyn Monroe, Montgomery Clift, Thelma Ritter, Eli Wallach.

 

Imagem: Marilyn Monroe durante a rodagem de Os Inadaptados