
VIAGEM A ITÁLIA:
O FOGO E AS CINZAS
Um casal britânico ruma a Itália para vender uma propriedade de um falecido tio dela. Da propriedade avista-se a baía de Nápoles e a massa imponente do Vesúvio. Dez anos antes registara-se a última erupção digna de nota do vulcão, entretanto adormecido – metáfora perfeita para caracterizar a relação conjugal de Katherine e Alexander Joyce.
«Nos teus olhos só vejo cinismo e ironia», atira-lhe ela, enquanto ele deplora o «ridículo romantismo» dela. Logo no primeiro diálogo que travam, algures numa estrada a cem quilómetros de Nápoles, é fácil detectar os sinais de desgaste do casamento, que dura há oito anos. «É a primeira vez que estamos sozinhos desde que casámos», lembra Katherine (Ingrid Bergman) a Alex (George Sanders), que reconhece serem «estranhos um para o outro». Tão estranhos que dormem em quartos separados e não parecem partilhar gostos de espécie alguma.
Estranho, para eles, é também aquele país meridional, inundado de luz solar, onde os pares se enlaçam, as brigas por ciúme são frequentes e há sempre uma canção romântica a irromper em fundo. É o país que encantou Byron, Ezra Pound e um jovem poeta amigo de Katherine, Charles Sutton, morto anos antes, vítima de tuberculose, depois de lhe dedicar uns versos que jamais se lhe apagaram da memória.

A ficção imita a vida real – ou será o contrário? O casamento entre Ingrid Bergman e Roberto Rossellini estava também à beira do fim quando o cineasta de Roma, Cidade Aberta rodou esta belíssima Viagem a Itália, uma das suas cinco longas-metragens que a actriz sueca protagonizou com ele.

Viagem a Itália – uma obra que «reconcilia o quotidiano com o eterno», no dizer de Claude Beylie – está cheia de cenas inesquecíveis. A do breve encontro entre Alex e a triste prostituta que planeara suicidar-se na noite anterior. A magnífica sequência do regresso dele a casa, quando Katherine finge estar adormecida e toda a ambiguidade de sentimentos conjugais se revela ao espectador naquele admirável jogo de luz e sombras. A visita às ruínas de Pompeia, onde ambos caminham sempre separados, sem o mínimo contacto físico, ao encontro dos ossos calcinados de um par surpreendido num abraço eterno, dois mil anos antes, pela lava do Vesúvio. «Encontraram a morte juntos», surpreende-se ela.
«As crianças são felizes», observa a mulher, que acredita em milagres.

Belo filme e belo texto, Pedro. E já agora, nem de propósito: belíssimo lugar, onde vou passar uns dias de férias não tarda nada…
🙂
Desejo-te umas férias muito bem passadas, Ana. Gostava também de ir agora a Nápoles. Este é um dos filmes eternos da minha vida, com uma Ingrid Bergman em estado de graça.
Sem dúvida, Pedro. E que saudades do cinema italiano!
Quanto a Itália, estou igual ao David Mourão-Ferreira: nunca me canso dela.
Também eu, Ana. Da música, da pintura, da poesia, do cinema, das palavras, da língua, da comida, do vinho. De tudo.
Esqueceste-te do mais importante: dos italianos :)) Ai, ai…
Esqueci-me do mais importante: da Monica Bellucci.
Ah, e também da Capela Sistina.
Bahh… (para a Bellucci, não para a Sistina)
Pedro
Mais um texto poético sobre um filme dos anos 50…
Ana
Virão aí mais, Ana. E uma surpresa também. Para si em especial.
E que surpresa…
Obrigada, Pedro, uma vez mais…
Ana