Os filmes da minha vida (8)


Pedro Correia,

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LAURA:

O AMOR EM EXCESSO PODE MATAR

 

Há filmes que nos tocam desde o primeiro momento. Basta uma frase.

O sortilégio de Laura começa logo na frase inicial: «Jamais esquecerei o fim de semana em que Laura morreu. Não me lembro de um dia tão quente. Senti-me o único homem em Nova Iorque.» É proferida por uma voz off – a de Waldo Lydecker (Clifton Webb), famoso colunista social, habituado a construir e arruinar reputações. Somos assim logo transportados para um enigma dentro da labiríntica mente de Waldo: quem matou Laura Hunt?

O que só saberemos mais tarde é que Laura – a mulher que todos cobiçam, ao som da partitura hipnótica de David Raskin, é uma criação de Waldo. Não existia antes dele, como o ser que deslumbraria as noites nova-iorquinas, e provavelmente seria incapaz de lhe sobreviver.

Neste filme de constantes trocas de identidades, onde todas as aparências iludem, Laura é tanto mais real quanto surge exposta num retrato que domina o salão do apartamento onde morou. É pela mulher que contempla neste quadro que o tenente da brigada de homicídios Mark McPherson (Dana Andrews) se deixa arrebatar em noites de insónia regadas a scotch barato. Logo ele, o homem que deixou há muito de acreditar no amor. Quando Waldo lhe pergunta se já esteve apaixonado, ele responde: «Uma vez, em Washington Heifhts, uma tipa conseguiu que eu lhe oferecesse uma pele de raposa.» 

Um insólito clima de necrofilia percorre este filme de Otto Preminger – obra-prima do noir, o género cinematográfico que melhor desvenda a alma humana.

Numa obsessiva peregrinação nocturna pelo quarto que Laura deixou vazio, Mark lê o diário dela, cheira o frasco de perfume dela, contempla os vestidos dela. E ao fechar as portas do guarda-roupa vê com espanto a sua própria imagem reflectida no espelho. Percebemos de imediato que mal se reconhece: está apaixonado por um cadáver.

 

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Das sombras nocturnas de Nova Iorque emergem figuras que se vão iluminando.

Waldo, o homem que escreve «com pena de pato embebida em veneno». Shelby Carpenter, o galã com voz de veludo que passa cheques sem cobertura enquanto proclama: «Posso tolerar uma mancha no meu carácter mas não no meu fato.» A tia de Laura, incapaz de suportar a ideia de ver a sobrinha casada com Shelby. E Mark, que conduz o inquérito com a raiva surda de um amante despeitado. Como se soubesse de cor o poema que Waldo declama no seu programa radiofónico: «O amor estende-se para além das trevas da morte.»

A paixão partilhada por Laura – deslumbrante Gene Tierney, escolha perfeita para este papel – traz à tona as piores facetas dos homens que se deixam sucumbir pelo seu feitiço. De tal maneira que saber quem a matou passa a ser a questão que menos interessa perante a certeza de que todos seriam capazes de matar por ela. Incluindo o polícia que se perdeu de fascínio pelo seu retrato.
«O homem mata o que ama», dizia Oscar Wilde. O amor em excesso pode ser fatal. E a ilusão do amor também.

 

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Laura (1944). Realizador: Otto Preminger. Principais intérpretes: Gene Tierney, Dana Andrews, Clifton Webb, Vincent Price, Judith Anderson

10 comentários em “Os filmes da minha vida (8)”

    1. O tema é lindíssimo, não é por acaso que os anos passam e muitos autores o revisitam. Estou-me a lembrar do Laurent Filipe que tem um CD justamente com esse nome, (o tema principal da colectânea).

      1. “Laura” já passou na minha série das ‘canções do século’, na voz da Carly Simon. É um dos mais belos trechos musicais compostos para cinema. Como várias vezes sucedeu (‘Smile’, de Chaplin, em ‘Tempos Modernos’, por exemplo), primeiro houve só música. A letra – que não existe no filme – surgiu só mais tarde. O primeiro cantor a popularizar “Laura” já como canção foi o então muito jovem Sinatra.

  1. Vi o filme já faz muito tempo, Pedro. É uma obra prima. E agora com este seu texto fiquei curioso sobre se tinha sido atribuída a estatueta a Otto Preminger. Está explicado: nesse ano foi para Billy Wilder com Lost Weekend. Agora vou por aí abaixo com curiosidade de saber quais foram os primeiros sete. Abraço.

    1. Este é um exemplo culminante da arte do ‘film noir’, Mike. Outra obra-prima do mesmo ano é, por coincidência, um filme de Wilder: ‘Pagos a Dobrar’. Com a perversa Barbara Stanwyck, “an amazing wicked lady”.

  2. O guião é maravilhoso, e Tierney e Webb fazem o que lhes compete. Infelizmente, Dana Andrews é um actor menor. Imagina Bogart no papel. Também é um dos filmes da minha vida.

    1. O guião é, de facto, um prodígio a vários níveis – tal como os diálogos. O filme, aliás, segue muito de perto o romance homónimo, de Vera Caspary. Excelente policial de uma autora hoje esquecida mas que assinou algumas obras-primas do género. Com o Bogart, Luís, o filme seria outra coisa. Só não consigo vê-lo apaixonado por um retrato, mesmo que fosse o da Gene Tierney.

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