Já aqui falei da minha actriz. Ou melhor, da primeira vez em que, muito miúdo, me apercebi da existência de uma mulher que se desdobrava de filme em filme – a inesquecível Jennifer Jones. Interpretando papéis diferentes, mas com características únicas, imutáveis.Nessa mesma altura, cinéfilo imberbe, conheci também o meu primeiro actor. Falava um idioma diferente do de Jennifer, mas tão fascinante como o dela. E com um rasgo de mistério comparável ao que a intrigante intérprete de Desde que tu Partiste irradiava no ecrã. Gérard Philipe – é dele que falo – tinha uma aura diferente dos astros de Hollywood. Talvez por ter morrido muito cedo, em circunstâncias trágicas. Parecia-me uma espécie de milagre vê-lo ali, renascido em celulóide, quase um fantasma em assombrosas sequências de chiaro-scuro, expressionistas como poucas, nos dois filmes dele que me cativaram para sempre.
Eram ambos assinados por René Clair – «o mais francês dos cineastas», como lhe chamou Georges Sadoul -, um homem que teve o mundo do espectáculo a seus pés e que as plateias de hoje praticamente ignoram.
Se um dos maiores atributos de um realizador é tornar imortais os seus actores, Clair tinha pelo menos esta qualidade indiscutível. Gérard sobressaía em cada cena – pela figura esguia, pelo rosto anguloso, pelo olhar tremendamente expressivo que nos transmitia a sensação de um ser atormentado pelas encruzilhadas do destino. E sobretudo pela voz – aquela dicção perfeita, que me aumentava a vontade de aprender francês. Língua fora de moda, dizem uns tantos, como se isso alguma vez fosse possível.
Já tinha falecido há muito, na flor da idade, quando o conheci. Primeiro ao lado de Michel Simon – outro gigante do cinema gaulês – em O Preço da Juventude, espantosa recriação do Fausto, de Goethe.Gérard, tentado pelo Mefistófoles-Simon, vendia a alma para obter a ilusão da eterna juventude. Prodigiosa ironia de que só o cinema é capaz: um actor atraiçoado pela vida encarnando na tela alguém que sobrevive a toda a erosão do tempo.
Apetecia-me falar em realismo mágico a propósito deste filme se o termo não tivesse já sido apropriado até à exaustão por tudo quanto cheire a literatura latino-americana. Mas é ainda esse termo que para mim melhor define a outra película de Gérard Philipe que jamais me foge da memória: O Vagabundo dos Sonhos.
Personagem errante, ao jeito de um Mersault de Albert Camus, irremediável inadaptado num universo em convulsão. Parecia deste mundo mas já não era deste mundo, o malogrado Gérard Philipe. Como Camus, como Boris Vian, como Martine Carol, sua parceira neste filme.
Morrem cedo os que os deuses amam, é bem verdade.
Nunca mais voltei a vê-lo. Nem sequer nas Ligações Perigosas (com Jeanne Moreau), que viria a ser o seu filme-testamento. Mas de vez em quando escuto-o ainda. Numa velha e preciosa gravação de Pedro e o Lobo, de Prokofiev.
Gérard Philipe é o narrador: entre trechos musicais que sei de cor desde criança, chega-me de novo a sua dicção perfeita, uma e outra vez, para todo o sempre, ficando a ecoar no infinito.

Na minha adolescência, musiquei à viola um poema de Boris Vian. Qual o meu espanto quando, muito tempo depois, ouvi uma balada francesa com a mesma letra e percebi que era muito semelhante à minha… Ele há coisas estranhas, isso é que há.
Já te disse que sou fã dos teus textos de cinema?
Acho que somos todos.
Muito bom seus textos , posso compartilhar no meu grupo de cinema do face? adorei o texto sobre Gary Cooper , meu eterno amor e este com Gérard Philipe que é um dos meus astros preferidos. Parabéns!
Partilhe à vontade. Agradeço muito as suas palavras.
Obrigada Pedro, além de gentil, és extremamente talentoso com as palavras, ao ler o que escreves meu coração pulsa de amor ao cinema.
Isso não tem preço!
Parabéns mais uma vez. 🙂