Os filmes da minha vida (9)


Pedro Correia,

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AS VINHAS DA IRA:

SOMOS PARCELAS DE UMA ALMA MAIS VASTA

 

O realismo social costuma funcionar com personagens-tipo – figuras modelares num determinado contexto histórico e político mas em regra destituídas de espessura psicológica. O que John Ford consegue nesta sua magnífica adaptação a cinema do romance mais célebre de John Steinbeck é inverter esse estereótipo: As Vinhas da Ira oferece-nos uma galeria riquíssima de personagens, bem demonstrativas de um período dramático da história dos Estados Unidos, sem deixar de ser, simultaneamente, um poderoso libelo contra a injustiça social.

É um filme povoado de grandes planos de rostos quase espectrais, enquadrados na fabulosa fotografia de Gregg Toland. «Não passo de um fantasma», diz-nos logo no início Murley Graves, um desses pequenos agricultores rendeiros do Oklahoma forçados a abandonar as terras devido à inclemência da natureza e sobretudo à impiedosa ganância dos grandes empresários agrícolas e das poderosas instituições bancárias que ditavam as regras nessa América mergulhada nos anos da Depressão.

As Vinhas da Ira começa com a emblemática imagem de um homem solitário a caminhar ao longo de uma recta interminável. É Tom Joad, a figura central do filme – o papel da vida de Henry Fonda. Sem terra nem lar, a família Joad, arrancada às raízes, busca uma nova vida na Califórnia, atravessando os estados do Oklahoma, Novo México e Arizona. O avô morre pelo caminho, a avó também. O cunhado de Tom abandona a mulher grávida. E o sonho de uma vida próspera na Califórnia revela-se afinal um pesadelo: ali acorrem todos os deserdados do país. 

 

 

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Ford povoa o filme de momentos memoráveis. A mãe de Tom, sozinha no quarto antes da viagem, a desfazer-se de algumas recordações de toda a vida. O pai a implorar um pão num ocioso café à beira da estrada. A chegada ao acampamento californiano, cheio de crianças com fome. O ex-pregador Casy a explicar a Tom por que motivo mudou de vida: «Um pregador precisa de ter certezas. Eu não as tenho. Interrogo-me.»

Mas a mais inesquecível das cenas é a da despedida de Tom, procurado pela polícia, prestes a ter de sair de casa para sempre, regressando à vida errante que verdadeiramente nunca abandonou. Prepara a mochila no silêncio da noite, beija o pai adormecido. Ouve-se ao longe o silvo de um comboio – símbolo da partida iminente. Mas afinal a mãe está acordada: «Não te despedes?» Segue-se um breve diálogo, a meia-voz, feito tanto de palavras como de olhares. Sem artifícios, sem melodrama.

«Não temos um alma só nossa. Cada um de nós é apenas uma parcela de uma alma mais vasta, que é de todos», diz Tom. Anunciando à mãe o seu projecto de vida: «Onde houver uma luta para os famintos poderem comer, estarei lá. Onde houver um polícia a agredir alguém, estarei lá.» Olha de baixo para cima enquanto fala. Como se estivesse, inconscientemente, a pedir protecção divina para ajudar os seus semelhantes a escapar ao inferno na terra.

I’ll be there. Filmada por John Ford, a saga de Tom Joad ganha asas, transcende o contexto histórico em que se situa, adquire um simbolismo universal que supera qualquer rótulo. Somos parcelas de uma alma mais vasta.

 

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As Vinhas da Ira (The Grapes of Wrath, 1940). Realizador: John Ford. Principais intérpretes: Henry Fonda, Jane Darwell, John Carradine, Russell Simpson, Charley Grapewin, John Qualen

18 comentários em “Os filmes da minha vida (9)”

  1. Vi o filme depois de ter lido o livro, ainda adolescente. A verdade é que o efeito que a leitura do livro teve em mim foi de tal forma forte e abalou de maneira tão definitiva o mundo cor-de-rosa em que vivia, que talvez não tenha apreciado devidamente o filme.

    1. O filme, que segue fielmente o livro, vale por si: espantosa obra-prima assinada por Ford com um desempenho inesquecível de Fonda (ninguém diria que é um astro de Hollywood que está ali, defronte dos nossos olhos) e a magnífica fotografia de Gregg Toland, um dos mestres do género na Sétima Arte. Mas é como diz, Ariel: o nosso olhar é condicionado pelo facto de termos chegado primeiro ao livro ou primeiro ao filme.

  2. Li este livro algures entre num Verão da minha adolescência. Num daqueles Verões enormes que se arrastavam entre idas ao Algarve e as partidas para férias dos amigos. A única fuga que me restava era a estante branca cheia livros da colecção dois mundos, com as suas capas de faixas às cores.
    Vou leva-lo comigo, agora que os Verões são mais curtos. Há viagens que por acontecerem demasiado cedo, devem ser repetidas mais tarde. Fiquei hoje com a certeza que as Vinhas da Ira é uma dessas viagens.

    1. Tenho a certeza que sim, aconteceu-me isso também com vários livros. O ‘Admirável Mundo Novo’, de Huxley, por exemplo.
      ‘As Vinhas da Ira’ é um romance incomparável sobre a pobreza mais extrema. Em diversos parágrafos Steinbeck quase consegue transmitir ao leitor a sensação física da fome. Neste aspecto, nunca li nenhum outro livro de ficção que me transmitisse algo do género. Há os livros-reportagem de Jack London (‘O Povo do Abismo’) e George Orwell (‘Na Penúria em Paris e em Londres’), mas não é a mesma coisa.

  3. Esta tua série é uma maravilha, Pedro. Não só pelas escolhas como pelas análises que fazes, que vão ao fundo de cada filme. Ler-te é uma lição sobre cinema e deixa-me sempre com vontade de ver (ou rever) os filmes da tua vida, que nem sempre são os meus eleitos. A Teresa também tem esse condão.

  4. Um enorme filme, um enorme livro, um enorme cineasta e um enorme actor. E enormes todos os elementos da equipa, actores, fotógrafos, figurinistas, etc, e suspeito que até condutores. Um filme obrigatório seja onde for e que deve estar no topo de qualquer lista.

    Uma nota curiosa é a música que o livro (e talvez o filme também) inspirou a Bruce Springsteen, The Ghost of Tom Joad (também nome do álbum). Minimal e suave. Mas também dura. Como o livro/filme.

    1. Comentaria, nem que fosse para manifestar ao Pedro a minha total concordância (espero que não seja uma “daquelas” palavras). Mas estou como o João, depois deste texto quereria sempre fazê-lo. Grande filme, grande texto. Abraço.

      1. Obrigado, caro Mike. De facto, João Pedro, Bruce Springsteen inspirou-se na personagem principal d’«As Vinhas da Ira» para a sua canção ‘The Ghost of Tom Joad’, de que tanto gosto.

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