Ser naturalmente bem-humorado quando se tem elevados níveis de dopamina no cérebro não é uma qualidade, é um sintoma.
Mérito relativo – 6
Teresa Ribeiro,
Ser naturalmente bem-humorado quando se tem elevados níveis de dopamina no cérebro não é uma qualidade, é um sintoma.
Envelhecer bem quando se tem bons genes não é uma qualidade, é uma tendência.
Saber conciliar trabalho e família quando se tem marido colaborante, empregada, família alargada disponível e vizinhança prestável não é notável, é – quando se passa essa mensagem – marketing pessoal.
A honestidade que deriva da falta de habilidade para mentir não é uma qualidade, é uma limitação.
Ser-se fiel por falta de capacidade de sedução não é uma qualidade, é uma condição.
Ter sucesso quando se nasce desejado, se cresce amado, numa família próspera, feliz e bem relacionada não é uma qualidade, é uma obrigação.
Desembaraçou-se daquele braço que lhe travava os movimentos, saiu da cama de mansinho e passou-se para a sala, pé ante pé, com o smartphone na mão. Não sabia o que lhe tinha inspirado aquele sonho, mas a ocorrência estava a incendiá-lo de tal forma, que precisava de partilhar. “Ela vai gostar”, pensou, enquanto teclava a verdade do momento: “Amo-te”.
“Ao fim de meses de silêncio será o bastante para a incendiar também, mesmo que à revelia”. Sorriu ao imaginá-la a esgrimir contra o desejo. Conhecia-lhe os hábitos: “A esta hora ainda não foi dormir de certeza”. Remexeu-se no sofá, ansioso: “Deve estar a pensar o que há-de responder”. Ah, como ele gostaria de voltar a sentir aquelas unhas nas costas. Estava tão absorto que se sobressaltou quando o telemóvel começou a vibrar. “É ela! As mulheres não resistem a este género de surpresas”. A confirmação das suas expectativas fê-lo evoluir da excitação para a ternura: “Que saudades de ver aparecer aquele nome no ecrã!” Abriu a mensagem sem pressa, para saborear o momento. Em maiúsculas lia-se: V A I MORRER LONGE.
Levantou-se do sofá num ápice. “Estúpida!” E lembrou-se dos motivos que o levaram a deixá-la: “Tinha muito mau feitio”.
Falar de quê? Dos amigos que não tinham em comum? Da vida profissional que é o tema dos chatos? Falar de quê? Do que fizera na véspera? Era o que faltava. Ainda estava para nascer o tipo a quem iria dar satisfações sobre a sua agenda pessoal. Olhou-o e apercebeu-se, como tantas vezes já lhe tinha acontecido, que já não havia palavras.
– Queres ir ao cinema?
Dorme como se não houvesse amanhã. Deviam inventar pílulas de gato para as insónias.
Dizem que os gatos são falsos. Mero preconceito. Eles são bons a mostrar os seus limites de tolerância, só isso. Quem os ultrapassa, habilita-se. É justo.
Tem uma auto-estima inabalável, mas uma péssima relação com o espelho. Vá-se lá entender os gatos.
As moscas enlouquecem-nos. A ele porque lhe invadem o território e a mim porque se tornaram uma séria ameaça à integridade das minhas cortinas e objectos de decoração.
Às vezes ele faz de inspector Clouseau e eu de Cato Fong. Ele adora os meus ataques surpresa e eu também. Especialmente nos dias em que me esqueço de tomar os comprimidos.
Se pudesse fazer-te uma árvore genealógica descobriria um estendal de horrores. Os gatos sempre foram objecto preferencial do sadismo humano. Vens de uma linhagem de bichanos estripados, meu lindo. De bichanos a quem não se perdoou a natureza indomável. A fragilidade e beleza natural própria dos da tua espécie pioraram ainda mais as coisas, evidentemente. Deviam também consagrar-te um dia para aliviar a má consciência da Humanidade. O que me dizes?
Tem nojo de mim, o insolente. Quando o abraço e beijo a seguir lava-se repetidamente para eliminar o meu cheiro. “Estúpido!”, grito-lhe às vezes divertida.
Seria impossível achar-lhe graça se fosse gente. Quem disse que as diferenças tendem a aumentar os nossos níveis de intolerância?
Manipular um cão é abusar da sua pureza, mas com um gato é diferente. Um gato está mesmo a pedi-las.
O teu mutismo poupa-nos imensas discussões. Desentendemo-nos às mil maravilhas.
Tinha coragem física, intelectual e uma auto-confiança inabalável. Além disso era uma pessoa íntegra, de uma só palavra. Sabia-se por todos estes motivos respeitado e quando tomava consciência destas suas qualidades sentia-se enamorado de si mesmo. Era um homem. Primeiro entre iguais, mas também, não por acaso, muito apreciado pelo belo sexo. Ah, as mulheres. Com essas era um fraco. Num piscar de olhos minavam-lhe a integridade, a moral, a decência. Ele que tanto desprezava quem tinha duas caras, com as mulheres, se fosse preciso, arranjava mil. Mas com elas, já se sabe, com elas é diferente.
Tal como o meu primeiro gato, também é filho de sem-abrigo. Mas ao contrário do outro, que foi alimentado a seringa, este teve a sorte de ser amamentado por uma gata até ao momento em que o adoptei, quase com três meses. Pode falar-se de personalidade quando se fala de bichos? Tecnicamente não, mas vou falar. O primeiro era muito tímido, inseguro, dócil, assustadiço. Este é uma pestinha cheia de si. Será que o Freud também explica isto?
Gosta de ir comigo para o duche. Não para me espiar, mas para sentir o ar encher-se de vapor de água tépido. Quando me olha, apenas me vê. Algo que jamais serei capaz de fazer.