Escolhi-o por ser o mais bonito da ninhada. Saiu-me um peluche caprichoso, interesseiro, vingativo, teimoso, arisco e desastrado (já me partiu duas televisões). A beleza é equívoca e tem sempre custos associados.
O meu gato e eu
Teresa Ribeiro,
Escolhi-o por ser o mais bonito da ninhada. Saiu-me um peluche caprichoso, interesseiro, vingativo, teimoso, arisco e desastrado (já me partiu duas televisões). A beleza é equívoca e tem sempre custos associados.
Gostava de chegar e sentir a casa só para si. O bafo quente da presença delas, os cheiros da cozinha, a respiração forte e ritmada da criança que se ouvia do corredor envolviam-no como uma benção. As marcas delas, que mudavam todos os dias de sítio, eram as provas de vida da casa. Jornais espalhados no sofá, alguma loiça por lavar, pingos de gordura no fogão. A desarrumação que as mulheres consentem. Saudável e harmoniosa. Precisava disso. De chegar ao fim de um dia cheio e voltar para o seu ninho disfuncional. Infrequentável aos fins-de-semana, mas adorável quando de madrugada o tinha só para si.
Não sabia determinar o momento exacto em que começou a desinteressar-se. Teria sido no dia em que ele confundiu Montaigne com Montesquieu, ou quando se descalçou e lhe viu as meias rotas? A verdade é que eram sempre esses excessos de humanidade que acabavam por condenar ao fracasso todas as suas relações.
Hum… aquele amor em letra de forma enchia-lhe o coração. Era um amor portátil, podia levá-lo consigo para todo o lado. E discreto, podia namorá-lo em qualquer circunstância. Não era carnal mas era táctil. E sobre todos os outros tinha a enorme vantagem de se poder ligar e desligar e até deixar em silêncio a qualquer momento. Na sua vida precisava de um amor assim: infinito, pelo menos enquanto durasse a promoção que oferecia mensagens gratuitas para outras redes.
Quando o rasto de perfume riscou a sala atrás dela, levantou os olhos do jornal. Ainda era uma bonita mulher – surpreendeu-se a pensar enquanto de través lhe escrutinava as curvas do busto, e das pernas, caminhos tantas vezes percorridos. Voltou ao Egipto: Irmandade muçulmana quer criar partido político. Gostava do som acetinado das coxas quando ela, antes de se pôr nos saltos, acelerava pela casa em collants de lycra.
A única coisa que impedia a Irmandade Muçulmana de o fazer era a lei sobre os partidos, que proibe a formaçao de partidos de base religiosa. Estaria aquele povo preparado para uma democracia? Era um conservador, por isso desconfiava, por instinto, das mudanças.
O encarnado ficava-lhe bem. Teria emagrecido? Estava bonita. Parecia diferente. Estaria feliz? Como uma seta focou o topo da página que lia. Quinze. Hoje são quinze. Pigarreou nervoso. Se calhar vai à prima. As mulheres também se produzem para sair umas com as outras – reflectiu, desdenhoso.
O barulho irritante dos saltinhos não o deixava concentrar-se na leitura: Há receios no ocidente de que a Irmandade Muçulmana pretenda a instauração de um regime islâmico. Olhou-a com atenção: as marcas da idade estavam lá. Se as procurasse encontrava-as sem a menor dificuldade no contorno do rosto, nas mãos, no pescoço. Remexeu-se no sofá, incomodado com uma dor que se fixara de súbito nas costas. Ontem, ontem é que foi dia de S.Valentim.
Se quisesse, o ambiente entre os dois mudava – pensou entre o apático e o divertido. Bastaria puxar outro tema de conversa para passarem do clima mais agreste à harmonia. Com a ponta do seu gume de três sílabas seria até possível restaurar a paixão e fazer o carrocel girar de novo, por entre abraços e suspiros. Mas no momento seguinte um arrepio de silêncio poderia instalar o desconforto outra vez e o elan desabaria à medida que fosse esfriando a sua voz, desfocando o olhar, para depois, in extremis, se desejasse, recuperá-lo com um beijo inesperado, uma promessa ou uma piada. Ah, o amor. Tão poderoso e tão plástico. Bastaria uma palavra sua, um instante de dúvida e o clima entre os dois mudaria.