Quando o rasto de perfume riscou a sala atrás dela, levantou os olhos do jornal. Ainda era uma bonita mulher – surpreendeu-se a pensar enquanto de través lhe escrutinava as curvas do busto, e das pernas, caminhos tantas vezes percorridos. Voltou ao Egipto: Irmandade muçulmana quer criar partido político. Gostava do som acetinado das coxas quando ela, antes de se pôr nos saltos, acelerava pela casa em collants de lycra.
A única coisa que impedia a Irmandade Muçulmana de o fazer era a lei sobre os partidos, que proibe a formaçao de partidos de base religiosa. Estaria aquele povo preparado para uma democracia? Era um conservador, por isso desconfiava, por instinto, das mudanças.
O encarnado ficava-lhe bem. Teria emagrecido? Estava bonita. Parecia diferente. Estaria feliz? Como uma seta focou o topo da página que lia. Quinze. Hoje são quinze. Pigarreou nervoso. Se calhar vai à prima. As mulheres também se produzem para sair umas com as outras – reflectiu, desdenhoso.
O barulho irritante dos saltinhos não o deixava concentrar-se na leitura: Há receios no ocidente de que a Irmandade Muçulmana pretenda a instauração de um regime islâmico. Olhou-a com atenção: as marcas da idade estavam lá. Se as procurasse encontrava-as sem a menor dificuldade no contorno do rosto, nas mãos, no pescoço. Remexeu-se no sofá, incomodado com uma dor que se fixara de súbito nas costas. Ontem, ontem é que foi dia de S.Valentim.

… Acho que há um sofá onde nunca me sentarei e uma idade que nunca terei – a menos que isto já seja uma ameaça. Pelo sim pelo não vou guardar o teu flash. Venha outro.
Não te sentes, Fernando. É uma seca. E envelheceres tanto assim está fora de questão 🙂