O meu gato e eu


Teresa Ribeiro,

Se pudesse fazer-te uma árvore genealógica descobriria um estendal de horrores. Os gatos sempre foram objecto preferencial do sadismo humano. Vens de uma linhagem de bichanos estripados, meu lindo. De bichanos a quem não se perdoou a natureza indomável. A fragilidade e beleza natural própria dos da tua espécie pioraram ainda mais as coisas, evidentemente. Deviam também consagrar-te um dia para aliviar a má consciência da Humanidade. O que me dizes?

11 comentários em “O meu gato e eu”

  1. Olá Teresa.
    É parecido com certas pessoas que parece que mais vale cairem em graça que serem engraçadas.
    Tirando o meu infeliz Pierre, que já te contei a história, não tive mais motivos de desgosto porque também nunca mais tive animais de estimação, mas não tive com eles tive comigo que até aos dezoito anos vivi horrores. Se quiseres conto-te.
    bjns pá ti e pó gatinho.
    M.

      1. Ainda bem que vim aqui que assim conto-te. Porque o Pierre é que me fazia esquecer a minha desgraça de ser uma feiosa. Era tão feia tão feia que até tinha medo de mim e esses problemas ocupavam-me o espírito, andava sempre enervada e ninguém me podia aturar, quanto mais ter um bicho. Só pensava na minha fealdade, nem o barro da formosura me valeu, até cheguei a ir ao bruxo, tudo sem resultado
        Depois a fazer os 18 anos, ao entrar para a faculdade, um rapaz que já lá andava e resolvera proteger a caloira, abençoado rapaz, eu pensei, quer dizer, não pensei e mandei os vinténs às urtigas e oh! Milagre! Abençoada e Divinal milagre do Céu! Comecei a ficar bonita, mais e mais, cada vez mais e tornei-me numa beleza deslumbrante.
        Comecei a ser feliz, cada vez mais feliz e nunca mais pensei num bichinho de estimação.
        Depois de formada fui trabalhar com o pai, para o hospital dele e dediquei-me muito ao trabalho, tanto que às vezes vou a África em missões humanitárias, dessas que deves conhecer.
        Há dois anos casei e logo logo fiquei grávida e tive duas gémeas, que têm agora um ano.
        Por isso tenho uma vida tão preenchida que não dá mesmo para pensar num animal de estimação

  2. muitas vezes reagimos com antagonismo ao que nos parece estranho ou nos escapa.
    outras vezes, reagimos com admiração, tal como o pablo neruda:

    oda al gato
    …
    Yo no conozco al gato.
    Todo lo sé, la vida y su archipiélago,
    el mar y la ciudad incalculable,
    la botánica,
    el gineceo con sus extravíos,
    el por y el menos de la matemática,
    los embudos volcánicos del mundo,
    la cáscara irreal del cocodrilo,
    la bondad ignorada del bombero,
    el atavismo azul del sacerdote,
    pero no puedo descifrar un gato.
    Mi razón resbaló en su indiferencia,
    sus ojos tienen números de oro.

    não penso que pablo neruda gostasse mais de gatos que de cães, porque também tem uma fantástica ode ao cão.

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