O Sorriso
Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.
Eugénio de Andrade
O Portugal Futuro
O portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro
Ruy Belo, in ‘Homem de Palavra[s]’ (1969)
Retrato de Eleonora de Toledo com o seu filho João. Bronzino. (óleo sobre painel, 115×96 c. 1545) Galleria degli Uffizi. Florença
“ELEONORA DI TOLEDO, GRANDUCHESSA DI TOSCANA”,
DE BRONZINO
Ao Murilo Mendes
Pomposa e digna, oficialmente séria,
é geometria ideal de príncipes banqueiros,
sobrinhos, primos, tios de toda a Europa,
de reis, senhores de terras e armadores,
severamente equilibrados entre
o sexo, a devoção e as hipotecas.
O mundo é um imenso cais de intolerância austera,
a que aportam escravos, pimenta, a caridade
à sombra das colunas sem barbárie gótica.
Na boca firme, como no olhar duro,
ou o cabelo ferozmente preso
ou nas imensas pérolas que se multiplicam,
ou nos bordados do vestido que nem seios
se alteiam muito, há uma virtude fria,
uma ciência de não pecar na confissão e na alcova,
uma reserva de discreto encanto
em que a Razão de Estado era um passeio altivo
por entre as árvores de um jardim areado,
com áleas racionais e relva em secção aúrea.
Sem dúvida que os astros presidiram,
numa ciência de terra já redonda,
às próprias proporções que o quadro regem.
Palácios, festas, complicadas odes,
e procissões e cadafalsos e a
de um céu toscano limpidez que pousa no
pó e nas ruínas da imperial Toledo,
tudo isto se condensa em penetrante
tom de ocre vago, onde as cores se opõem
como teses tridentinas muito práticas
elaboradas com paciência para o descanso eterno
dos príncipes cristãos que se devoram sob
a paternal vigilância de uma Roma éterea,
guardada pelos suiços, por cardeias e frades.
A grã-duquesa – se o foi, não foi de quem é filha,
de quem foi mãe, ante um retrato assim
tão pouco importa! – fez-se pintar.
Mas a pintura era outra coisa, um escudo,
um escudo de armas e um broquel tauxiado,
para morrer tranquilo quando a angústia brota,
como um vómito de sangue, do singelo facto
de ter-se ou não ter alma, os mundos serem múltiplos,
e o Sol rodar ou não em torno à terra inteira,
iluminando as multidões, as raças, tudo,
e os príncipes e os súbditos, nessa harmonia do mundo,
cujo estridor silente ao madrugar se ouvia
ranger discretamente, às portas dos castelos.
Jorge de Sena
Lisboa, 6/6/1959
somewhere i have never travelled,gladly beyond any experience,your eyes have their silence: in your most frail gesture are things which enclose me, or which i cannot touch because they are too near your slightest look easily will unclose me though i have closed myself as fingers, you open always petal by petal myself as Spring opens (touching skilfully,mysteriously)her first rose or if your wish be to close me, i and my life will shut very beautifully ,suddenly, as when the heart of this flower imagines the snow carefully everywhere descending; nothing which we are to perceive in this world equals the power of your intense fragility:whose texture compels me with the color of its countries, rendering death and forever with each breathing (i do not know what it is about you that closes and opens;only something in me understands the voice of your eyes is deeper than all roses) nobody,not even the rain, has such small hands

Desenho de José Pádua (Beira, 13/05/1934)
Posteridade
Rui Knopfli
Um dia eu, que passei metade
da vida voando como passageiro,
tomarei lugar na carlinga
de um monomotor ligeiro
e subirei alto, bem alto,
até desaparecer para além
da última nuvem. Os jornais dirão:
Cansado da terra poeta
fugiu para o céu. E não
voltarei de facto. Serei lembrado
instantes por minha família,
meus amigos, alguma mulher
que amei verdadeiramente
e meus trinta leitores. Então
meu nome começará aparecendo
nas selectas e, para tédio
de mestres e meninos, far-se-ão
edições escolares de meus livros.
Nessa altura estarei esquecido.
LOS NADIES
Sueñan las pulgas con comprarse un perro y sueñan los nadies con salir de pobres, que algún mágico llueva de pronto la buena suerte, que llueva a cántaros la buena suerte; pero la buena suerte no llueve ayer, ni hoy, ni mañana, ni nunca. Ni en lloviznita cae del la buena suerte, por mucho que los nadies la llamen, aunque les pique la izquierda, o se levanten con el derecho, o empiecen el año cambiando de escoba.
Los nadie: los de nadie, los dueños de nada.
Los nadie: los ningunos, los ninguneados, corriendo la liebre, muriendo la , jodidos, rejodidos.
Que no son, aunque sean.
Que no hablan idiomas, sino dialectos.
Que no profesan religiones, sino supersticiones.
Que no hacen arte, sino artesanía.
Que no practican cultura, sino folklore.
Que no son seres humanos, sino recursos humanos.
Que no tienen cara, sino brazos.
Que no tienen nombre, sino número.
Que no figuran en la historia universal, sino en la crónica roja de la prensa local.
Los nadies, que cuestan menos que la bala que los mata.
Eduardo Galeano
Este poema tem história e delito, que tentarei contar:
Alguns dias antes de ser assassinado, o poeta húngaro Miklos Radnoti escreveu Razglednica-4, um dos mais extraordinários poemas que conheço. Esta é uma tradução possível:
Caí ao lado dele, o seu corpo virou-se,
tão esticado como a corda quando parte.
Tiro na nuca. “É assim que também vais acabar”,
murmurei para dentro. “Deixa-te ficar deitado, calmamente”.
A paciência agora floresce morte.
“Der springt noch auf”, ouviu-se por cima de mim.
Na minha orelha secava sangue enlameado.
Szentkiralyszabadja, 31 outubro 1944
Radnoti tinha 35 anos e cometera dois crimes: era judeu e escrevinhava coisas. Este momento em que antecipa a própria morte não tem sentimentalismo nem puxa à piedade do leitor. Aliás, os sobreviventes do Holocausto tiveram sempre dificuldade em explicar esta sensação de vazio e a resignação da vítima, como se as lágrimas fossem um estorvo que dificultava ainda mais a explicação do inexplicável.
Neste caso, é impossível transmitir o abismo contido no poema. A tradução é literal, não literária, perderam-se as subtilezas do texto, o ritmo, a musicalidade da língua húngara e a sua concisão (basta ouvir no youtube para se perceber a complexidade). Há rimas internas que se perdem, sobretudo nos dois últimos versos, e seria possível alterar certas frases. Por exemplo, ‘a paciência agora floresce morte‘ pode ser ‘a flor da paciência é agora morte’. A ideia é a seguinte: o poeta está ao lado de um homem que acabou de ser abatido e pensa, ou antes sabe, que vai morrer da mesma maneira (como aconteceu). Um dos soldados diz em alemão ‘aquele ainda anda aos saltos‘ e, nesse instante, o poeta sente, misturado com lama, o sangue seco que lhe cobre a orelha. A frase em alemão é importante, pois o soldado podia dizer ‘aquele ainda mexe’, mas trata-se de algo mais complexo, havendo aqui a sugestão de saltos, pulos, alegria, Primavera, ressurreição. Isso em contraste com o verso anterior, o da resignação e aceitação da morte.
Esta sequência de quatro poemas, Razglednica, foi escrita durante uma marcha da morte por alguém que estava a experimentar o horror. Aqui não há teorias nem impressões. Estamos perante a verdade vivida.
A terrível marcha começou na localidade da Voivodina que dá nome aos textos e envolveu 3500 prisioneiros judeus. O número quatro é o último poema da sequência e foi escrito numa aldeia húngara, a 50 quilómetros do local onde Radnoti seria morto com outras vinte pessoas. Depois da guerra, a viúva (que morreu recentemente, com 101 anos de idade) procurou o corpo do marido e encontrou a vala comum. Junto do cadáver estava o bloco de notas com os últimos poemas, contendo instruções em várias línguas sobre a sua entrega a um eminente professor de Budapeste.
Foi assim que Miklos Radnoti, já relativamente famoso antes da guerra, se tornou um dos maiores poetas húngaros. Este é também um dos grandes poemas escritos durante o Holocausto e o derradeiro do autor. Aqui, não existe ódio ou raiva, apenas Humanidade. Só por isso, pertenceria à História da Literatura.
Outro elemento trágico é que provavelmente o poeta morreu devido ao impulso de escrever. Segundo afirmaram os sobreviventes da marcha da morte, ele foi vítima do espancamento selvagem de um guarda que o viu a escrevinhar no bloco de notas e talvez este poema esteja relacionado com o episódio da brutalidade que o condenava. Talvez estivesse a escrever este poema.
A 9 de Novembro de 1944, ferido pelo espancamento, incapaz de continuar o caminho, o poeta foi abatido com um tiro na nuca. Porventura, viveu o quarto verso, onde brilha a palavra ‘nyugodtan’ (calmamente).
nota: Os dois primeiros Razglednica foram traduzidos para português pelo poeta e escritor Ernesto Rodrigues, que publicou uma antologia dos maiores poetas húngaros, onde estão incluídos outros poemas de Radnoti.
Os Fuzilamentos de 3 de Maio de 1808 (Francisco de Goya)
CARTA A MEUS FILHOS SOBRE OS FUZILAMENTOS DE GOYA
Jorge de Sena
Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente à secular justiça,
para que os liquidasse “com suma piedade e sem efusão de sangue.”
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de urna classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de té-la.
É isto o que mais importa – essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém
está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
– mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga –
não hão-de ser em vão. Confesso que
multas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam “amanhã”.
E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.
PEDRO, LEMBRANDO INÊS
Em quem pensar, agora, senão em ti? Tu, que
me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a
manhã da minha noite. É verdade que te podia
dizer: “Como é mais fácil deixar que as coisas
não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos
apenas dentro de nós próprios?” Mas ensinaste-me
a sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou,
até sermos um apenas no amor que nos une,
contra a solidão que nos divide. Mas é isto o amor:
ver-te mesmo quanto te não vejo, ouvir a tua
voz que abre as fontes de todos os rios, mesmo
esse que mal corria quando por ele passámos,
subindo a margem em que descobri o sentido
de irmos contra o tempo, para ganhar o tempo
que o tempo nos rouba. Como gosto, meu amor,
de chegar antes de ti para te ver chegar: com
a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água
fresca que eu bebo, com esta sede que não passa. Tu:
a primavera luminosa da minha expectativa,
a mais certa certeza de que gosto de ti, como
gostas de mim, até ao fim do mundo que me deste.
Nuno Júdice
CANÇÃO DA ERRÂNCIA.
Eu sou o irregular o vagabundo o erradio
eu sou da errância e da distância e da errática
e proibida margem de outro rio.
Haverá sempre em mim a linha matemática
e a gramática secreta do Padre António Vieira.
A minha terra é sempre em terra estranha
quem me quiser procure na fronteira
eu sou de algures entre o azul e a Espanha.
Manuel Alegre


Andy Warhol, Eggs (1982)
Omeleta
Quando se misturam gema e clara,
se transforma o branco em amarelo e o amarelo
em branco, e a púrpura do meio se confunde
com um raio de sol, invento um canto
para que o ovo se não quebre. Então, vejo-o
ficar suspenso no equilíbrio do poema. De
um lado, dá-lhe a luz do sol; do outro, a palidez
da lua rouba-lhe o brilho. Gira
sobre si próprio: e a sua rotação sobrepõe-se
ao movimento da terra. Depois, com um gesto brusco,
parto-o: para que a sua gemada se espalhe pelo chão.
e o som do poema se misture com os seus pedaços
– aliterações duras como as cascas, vogais
divididas pela simetria do ovo.
Nuno Júdice
COM LICENÇA POÉTICA
Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.
Adélia Prado
Foto de Eduardo Gageiro
UM ADEUS PORTUGUÊS
Alexandre O’Neill
Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz dos ombros pura e a sombra
duma angústia já purificada
Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor
Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver
Não podias ficar nesta casa comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual
Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal
Mas tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser
Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal
Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti
(Sandy Skoglund – The Wedding)
ILEGAIS
Tira a aliança do dedo. O gozo
é redobrado se
nos assinto ilegais. Porque
esse
aro dourado concede-te
direito a mim
não há pecado assim:
o meu
nome em ti o
teu
nome em mim
e
essa data grafada em que assinamos
de Cruz
o arbítrio da união.
As
mãos procuram respostas como
quem ergue rosas pelo espinho:
tira a aliança do dedo. Se
esta lei é sagrada nós
somos apenas mortais precisamos
de pecado:
vamos
dormir ilegais.
(João Luís Barreto Guimarães)
Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola.
Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade.
Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência.
Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato.
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro.
Penteiam-nos os crânios ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós.
Dão-nos um bolo que é a história
da nossa história sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo.
Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro.
Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco.
Dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco.
Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura.
Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante.
Dão-nos um nome e um jornal,
um avião e um violino.
Mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino.
Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte.
Por isso a nossa dimensão
não é a vida. Nem é a morte.
Natália Correia, Dimensão Encontrada, 1957
Maria Madalena, pintura existente na Igreja da Graça
NINGUÉM SE MEXA! MÃOS AO AR!
“Ninguém se mexa! Mãos ao ar!” disse o histérico
e frívolo homenzinho com mais medo
da arma que empunhava que de nós.
“Mãos ao ar!”, repetiu para convencer-se.
Mas ninguém se mexeu, como ele queria…
Deu-lhe então a maldade. Quase à toa,
Escaqueirou o espelho biselado
Que tinha as Boas-Festas da gerência
Escritas a sabão. Todos baixámos,
Medrosos, a cabeça. Se era um louco,
Melhor deixá-lo. (O barman escondera-se
Por detrás do balcão). Ali estivemos
Um ror de medo, até que o rabioso
Virou a arma à boca e disparou.
Alexandre O’Neill
Alex Colville, “Pacific”, 1967