Delitos Poéticos (16)


Ana Cláudia Vicente,

 

O Portugal Futuro

 

O portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar                                                             
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro

Ruy Belo, in ‘Homem de Palavra[s]’ (1969)

2 comentários em “Delitos Poéticos (16)”

    1. Tenho-o em recorte, Pedro, colado frente à secretária. Leio-o muitas e muitas vezes, comovo-me sempre, continuo a crer que tem qualquer coisa de profético, que o vou entender melhor mais adiante.

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