Delitos poéticos (14)


Sérgio de Almeida Correia,

Desenho de José Pádua (Beira, 13/05/1934)

 

Posteridade

Rui Knopfli

 

Um dia eu, que passei metade
da vida voando como passageiro,
tomarei lugar na carlinga
de um monomotor ligeiro
e subirei alto, bem alto,
até desaparecer para além
da última nuvem. Os jornais dirão:
Cansado da terra poeta
fugiu para o céu. E não
voltarei de facto. Serei lembrado
instantes por minha família,
meus amigos, alguma mulher
que amei verdadeiramente
e meus trinta leitores. Então
meu nome começará aparecendo
nas selectas e, para tédio
de mestres e meninos, far-se-ão
edições escolares de meus livros.
Nessa altura estarei esquecido.

 

2 comentários em “Delitos poéticos (14)”

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *