Delitos poéticos (7)


Adolfo Mesquita Nunes,

Andy Warhol, Eggs (1982)

 

 

Omeleta

 

Quando se mis­tu­ram gema e clara,

se trans­forma o branco em ama­relo e o ama­relo

em branco, e a púr­pura do meio se con­funde

com um raio de sol, invento um canto

para que o ovo se não que­bre. Então, vejo-o

ficar sus­penso no equi­lí­brio do poema. De

um lado, dá-lhe a luz do sol; do outro, a pali­dez

da lua rouba-lhe o bri­lho. Gira

sobre si pró­prio: e a sua rota­ção sobrepõe-se

ao movi­mento da terra. Depois, com um gesto brusco,

parto-o: para que a sua gemada se espa­lhe pelo chão.

e o som do poema se mis­ture com os seus pedaços

– ali­te­ra­ções duras como as cas­cas, vogais

divi­di­das pela sime­tria do ovo.

 

Nuno Júdice

2 comentários em “Delitos poéticos (7)”

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *