Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola.
Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade.
Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência.
Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato.
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro.
Penteiam-nos os crânios ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós.
Dão-nos um bolo que é a história
da nossa história sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo.
Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro.
Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco.
Dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco.
Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura.
Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante.
Dão-nos um nome e um jornal,
um avião e um violino.
Mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino.
Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte.
Por isso a nossa dimensão
não é a vida. Nem é a morte.
Natália Correia, Dimensão Encontrada, 1957
Maria Madalena, pintura existente na Igreja da Graça


Natália Correia , um poeta maior.
http://g1.globo.com/mundo/noticia/2014/0 6/imigrantes-morrem-enquanto-viajavam-de-b arco-perto-da-italia.html
“Dão-nos marujos de papelão com carimbo no passaporte.Por isso a nossa dimensão não é a vida. Nem é a morte.”
Pela voz da própria: http://youtu.be/2sVD-2nHPcU (confesso que gosto mais da versão do José Mário Branco, que considero uma das mais belas canções de sempre em português: http://youtu.be/e7adFDo1Dyw).
Grande poema, grande canção…
https://www.youtube.com/watch?v=Do4eVLR W6qI
Poema mais conhecido por ter sido cantado por José Mário Branco.
Começou com o O’Neill, continua com a Natália. Ou seja, é o que se chama “arrancar em grande”. Daqui para a frente (pelo menos em língua portuguesa) não vai ser possível subir a fasquia muito mais. Tratemos de mantê-la, pelo menos.
Lindíssimo!
Muito perfeita esta magnifica poesia,eu gostei bastante!!