“A Peste” ou o herói absurdo


josegomesandre,

De entre a fabulosa obra de Camus, o Pedro Correia destacou (e bem) O Estrangeiro, mas confesso que a minha favorita é A Peste. O enredo é curiosamente simples  – sem causa conhecida irrompe uma epidemia numa cidade, que começa por matar os seus ratos, mas logo dizima boa parte da população, acompanhando nós a forma como várias personagens lidam com esta tragédia.Todavia, um conjunto de ramificações simbólicas e temáticas torna aquele livro num dos grandes textos do século XX, evocando o problema do absurdo, a questão da sobrevivência em sociedade e a postura perante a morte.

 

Neste quadro diverso, muito aprecio a figura do Dr. Rieux, o médico da cidade. Surpreendido pela situação, e embora atordoado, Rieux recusa-se porém a assistir à permanência dum mal radical que se presta a destruir a comunidade. Ele cria um sentido, ainda que limitado pelas condições a que está sujeito: uma cidade encerrada, uma dor que se infiltra, um povo que morre. “É verdade que a palavra «peste» tinha sido pronunciada. Mas, que diabo, aquilo podia deter-se! […] Rieux despertou. Aí estava a certeza, no trabalho de todos os dias. O resto dependia de movimentos insignificantes, não se podia perder tempo com isso. O essencial era exercer bem a sua profissão".

 

Não foi em vão que Camus concedeu a Rieux o papel de médico: é como se o compromisso deste assentasse, precisamente, no assumir da sua responsabilidade, no cuidado que o mesmo deve a si próprio e aos outros, agora. Pois o herói absurdo (aquele que coaduna uma acção esperançosa com a compreensão de que não existe um sentido transcendente último e justificativo) luta por causas presentes, não por salvações eternas: “Não sei o que me espera nem o que há-de vir depois de tudo isto. Para já, há doentes e é preciso curá-los. Defendo-os como posso, aí está”.

 

Em última instância, voltamos à bíblica parábola dos talentos: mesmo perante as mais complexas circunstâncias – e mesmo face à percepção de que tudo isto não tem um sentido derradeiro – cabe-nos ainda assim dar o melhor e criar uma narrativa a partir das nossas faculdades (sejam vastas ou reduzidas). Eis uma mensagem pertinente numa sociedade cada vez mais hedonista e que tanto cultiva a desresponsabilização.

Indignações


josegomesandre,

O Presidente promulgou um diploma aprovado por uma maioria dos deputados da Assembleia da República, perfeitamente legítimo e sem inconstitucionalidades conhecidas. Este gesto vulgar numa democracia emancipada mereceu críticas de vários quadrantes e até reacções indignadas. Parece-me natural que se denuncie eventualmente o valor do diploma, mas já me deixa estupefacto que se critique a referida promulgação presidencial de um acto tão básico e natural do processo democrático. A menos que se considere que somente o Governo pode aprovar leis e/ou que o Presidente deve vetar leis meramente por discordar das mesmas. Querem mesmo abrir essa caixa de Pandora?

Um país de tanga


josegomesandre,

O que está a dar são debates sobre o casamento homossexual, ameaças veladas pelos abrantes do costume e sentidos apelos a mais uma vigília por um activista qualquer. Entretanto, Daniel Bessa publicou esta breve peça. 

 

"Dez mil milhões de euros/ano. É quanto, entre aumento de receitas e diminuição de despesas, o Estado Português tem de reduzir o seu défice anual. Não para o anular mas para o trazer para os 3% do PIB. […] Pode fazê-lo de vários modos: subir a taxa máxima do IVA para 35% (e as outras proporcionalmente); subir a taxa máxima de IRS para 87% (e as outras proporcionalmente); reduzir em 47% os salários da função pública; privatizar 35% dos serviços públicos. Pode também proceder a qualquer combinação destas e de outras medidas, em doses variáveis: por exemplo, reduzir para metade o investimento público, fixar a taxa máxima de IVA em 23%, fixar a taxa máxima de IRS em 52%, privatizar ou encerrar 7,5% dos serviços, reduzir em 10% os salários dos restantes funcionários públicos."

 

Num país que não tivesse as suas prioridades completamente baralhadas, este texto assustador justificaria um alarme generalizado. Por cá, no pasa nada.

Blog da semana


josegomesandre,

Escrevo num blog "generalista", mas elogio e muito os blogs "especializados", pois permitem um acesso rápido e ao mesmo tempo profundo a temáticas que, habitualmente, são abordadas com superficialidade pela imprensa tradicional. Aprecio muito em particular O Diplomata, regularmente mantido pelo Alexandre Guerra há vários anos. Excelentes reflexões e comentários na área da política externa e das relações internacionais. Escrita acutilante e informativa, e um grafismo "clean" que aprecio. É o blog da semana.

[Pub.]


josegomesandre,

Bem sei que este vosso escriba tem primado pela ausência, mas garanto-vos que a situação se vai alterar em breve. No entretanto, os interessados podem matar saudades (!) clicando nos dois links abaixo, referentes a conversas/debates na RTPN e TVI24 a propósito da Administração Obama, nos quais tive o prazer de participar.

 

http://www.rtp.pt/programas-rtp/index.php?p_id=19920&e_id=&c_id=7&dif=tv

 

http://www.videos.iol.pt/consola.php?projecto=27&pagina_actual=1&mul_id=13183624&tipo_conteudo=1&tipo=2&referer=1

 

P.S. Caro João, lamento mas optei pela "camisa para gravata" sem gravata. Espero que me possas perdoar, na senda do espírito natalício que se aproxima.

O jornalismo do “diz que disse”


josegomesandre,

Não faço ideia se isto é obra de assessores bem posicionados ou simplesmente de mau jornalismo, mas nos últimos dias tem-se assistido a um verdadeiro regabofe opinador na imprensa. Notícias veiculadas pela comunicação social, da qual espero objectividade, imparcialidade e facticidade, parecem ceder a um achismo permanente, não justificando as afirmações apresentadas. Gabriel Silva dá aqui um excelente exemplo, num artigo no "Público" cheio de recadinhos e generalizações sem fundamento. Mas o "Expresso" vai pelo mesmo caminho. Alguns breves exemplos (p. 6):

 

Sobre António Mendonça, futuro Ministro das Obras Públicas: "É bastante afável. […] Não domina o mercado das obras públicas. Admite-se que terá apoios junto de gestores seniores, como Pina Moura". É bastante afável? E diz quem? A mulher? O primo? Não sabemos. "Não domina o mercado das obras públicas". Porquê? Não sabemos. "Admite-se que terá apoios"? Admite quem? E porquê? E por que é que não se há-de admitir o contrário? Não sabemos.

 

Sobre Isabel Alçada, futura Ministra da Educação: "o nome de Isabel Alçada até é pacífico entre os docentes". Isto baseia-se em quê? Num estudo? Numa sondagem? Numa entrevista porta-a-porta? Num comunicado dos sindicatos? Ou na "fé" do jornalista? Não sabemos.

 

Sobre Dulce Pássaro, futura Ministra do Ambiente: "É uma servidora da causa pública, mas não uma combatente política". Porquê? Não sabemos.

 

Sobre Luís Amado, MNE: "Tem o consenso à direita e à esquerda e o respeito dos seus pares no estrangeiro". O jornalista em causa sabe o que pensa a direita, a esquerda e até os ministros dos negócios estrangeiros espalhados por esse mundo fora sobre Luís Amado. Notável. 

 

Sobre Gabriela Canavilhas, futura Ministra da Cultura: "Mulher polémica, que suscita ódios e paixões […]". Momento SIC 10 horas meets Dr. Phil, sobre o qual, confesso, não sei o que dizer.

 

E isto foi só numa página. Sinceramente, não percebo. Ou se calhar percebo, mas não quero acreditar.

República vs. Monarquia


josegomesandre,

Durante os últimos dias reavivou-se um curioso debate sobre as virtudes e defeitos do republicanismo e da monarquia, com excelentes contributos (ler por exemplo o Carlos Abreu Amorim, o Henrique Raposo ou o João Távora). Basicamente, o que tenho a dizer sobre este assunto foi sintetizado por James Madison, em 1792:

 

“Uma república envolve a ideia de direitos populares. Uma república representativa escolhe a sabedoria, a qual numa aristocracia hereditária é uma hipótese [chance], excluindo ademais a opressão dessa forma [de governo].”

 

Com efeito, o republicanismo permite escolher os mais competentes para a acção governativa ou para exercerem funções de soberania (e substituí-los caso se revelem inaptos), enquanto um modelo hereditário submete os destinos do povo a um acaso (a existência putativa de um soberano capaz). No primeiro caso, a virtude política é seleccionável; no segundo, resume-se a uma eventualidade. It’s that simple.

Dir-me-ão: mas numa república o povo pode de qualquer forma escolher um governante idiota. Pois pode. Mas não deixará de ser o idiota que o povo escolheu, e não o idiota que lhe calhou em sorte.

O que faz correr Cavaco?


josegomesandre,

Bem sei que todo o caso Cavaco-Sócrates-escutas é complexo e merecedor de várias análises. Mas quando tento compreender o fundo da questão, só consigo pensar em duas explicações válidas para o sucedido.

 

1. Há coisa de ano e meio, Cavaco Silva decidiu entrar claramente no jogo político, inventou a história das escutas (talvez motivado pela episódio do putativo "espião do PS" na Madeira) e deu ordens a Fernando Lima para levar o pseudo-caso para os jornais, na esperança de que a sua amiga de longa data Ferreira Leite chegasse ao poder. Deu-se mal porque o episódio veio a público, envolvendo o seu nome. E desde aí, Cavaco mais parece aquela pessoa que tenta corrigir um erro cometendo pelo menos mais três no caminho. Se assim for, o buraco é enorme e não parará de crescer, como assinalou o Paulo Gorjão.

 

2. Cavaco acha que está de facto a ser vigiado pelo governo, ou que Sócrates utilizou meios ilícitos para o controlar, só que não tem provas disso. Neste quadro, quereria demitir o governo, mas não tinha condições políticas para o fazer, uma vez que não poderia provar as acusações e não dispunha de outros motivos institucionais para tomar esta acção. Não quer Sócrates como Primeiro-Ministro, porque acha que ele está a cometer (ou cometeu) uma ilegalidade particularmente grave e antidemocrática, mas não sabe – nem pode, na ausência de provas – explicar ao país porque tomaria uma decisão tão drástica como recusar empossá-lo como chefe do governo. 

 

Haverá certamente mais análises possíveis, mas – a menos que estejamos perante uma brincadeira de crianças – acabarão em última instância por ir dar a uma das duas hipóteses referidas. Qual delas é verdadeira? Confesso sinceramente que não sei.

O adeus ao rigor


josegomesandre,

Certos namoros dão nisto. O Eduardo Pitta, durante anos um dos mais lúcidos comentadores da blogosfera nacional, entusiasmou-se de tal forma com o socratismo que abandonou o rigor em detrimento de wishful thinkings e imprecisões sistemáticas. A ver se nos entendemos:

1. O PSD não elegeu 77 deputados, mas sim 78. E pode chegar aos 80 ou 81, consoante resultados da emigração. Se atendermos ao facto de, em 2005, quatro lugares terem sido oferecidos ao PPM e MPT, no âmbito da coligação forjada por Santana Lopes, o PSD ganha objectivamente mais 9 ou 10 deputados. Foi um mau resultado, mas é um bocadinho diferente dos mais dois de que o Eduardo fala.

2. O PS "deixou o PSD a seis pontos de distância" no concelho de Lisboa. Pois foi. Mas não está esquecido que Santana Lopes concorre numa coligação com CDS, PPM e MPT, pois não? É que se contarmos com isso – e fazendo o paralelo para a corrida contra Costa, como o Eduardo faz – então ficamos com 34,8% (PS) versus 40,9%. Também são seis pontos de diferença, mas é para o lado contrário.

3. "61% dos portugueses que votaram apoia o casamento entre pessoas do mesmo sexo". Onde desencantou estes números? É que a soma de PS+PCP+BE nem chega perto. Ou está a depreender que os votos nulos e brancos são de apoio ao casamento homossexual? É uma leitura original, pelo menos.

 

Adenda: parece que este texto teve alguma utilidade: Eduardo Pitta já alterou os dados referentes ao número de deputados do PSD (sem contar com círculo de emigração) e do putativo número de portugueses que apoia o casamento homossexual. Continuo a achar precipitada a inferência, mas para início de conversa já não é mau.

País (quase) ingovernável


josegomesandre,

As condições de governabilidade estão por um fio. O Bloco Central está morto (com catástrofe PSD não poderia ser de outro modo). BE e PCP sozinhos não chegam ao PS, que em última instância está dependente do CDS. Mas uma aliança formal teria efeitos gravíssimos para o PS (cuja ala esquerda poderia até bloquear essa opção) e em certa medida para o próprio CDS (cuja força advém de muitos votos de protesto anti-Sócrates). Sobram "acordos pontuais" no Parlamento. Mas como vai o PS simultaneamente cortejar a extrema-esquerda e negociar com partidos de direita?

Eleições: algumas notas


josegomesandre,

1. Os portugueses convivem bem com a mediocridade.

2. É espantoso que o PS consiga uma vitória clara num quadro actual de crise económica e social gravíssimo. Sócrates e a máquina socialista têm muito mérito neste resultado.

3. O reconhecimento desta vitória não deve fazer esquecer o óbvio: o PS foi penalizado pelos eleitores, perdeu 500 mil votos (o meu foi um deles), disse adeus à maioria absoluta e teve o seu pior resultado em Legislativas desde 1991.

4. O PSD sofre uma derrota colossal. Na situação actual, era obrigado a fazer muito mais. Os sociais-democratas vão ter de repensar a sua mensagem e a forma como a comunicam, por mais que lhes custe.

5. Desengane-se quem pensa que a derrota do PSD se deve exclusivamente a Manuela Ferreira Leite. Desde 2004 que o partido está encalhado nos 30%. Falamos de quatro eleições, três líderes diferentes, resultados semelhantes.

6. O CDS é o vencedor da noite. Passa a terceira força partidária, supera os 10%, obtém 21 deputados e torna-se o fiel da balança de uma governação estável. Ganhou com campanha focada e um líder carismático.

7. Embora melhore a votação de 2005, o Bloco de Esquerda tem noite amarga. Desce em função das europeias, fica muito abaixo do que sondagens previam, perde para o CDS e nem sequer consegue surgir como parceiro possível para o PS. Sem o monopólio das "causas fracturantes", sobra ao BE um programa económico populista e irresponsável, que uma esmagadora maioria dos eleitores repudia. 

8. A CDU mantém votação de 2005 e até conquista mais um deputado, mas torna-se a quinta força política – pela primeira vez na sua história. É praticamente irrelevante no quadro da governação e mantém-se encerrada num discurso anacrónico. Pergunto-me o que sucederá ao PCP quando perder o seu actual líder, cujo carisma ainda vai fixando muitos milhares de votos.

9. Os pequenos partidos voltam a falhar, especialmente o promissor MEP. Muitas expectativas para tão mau resultado (25 mil). O PCTP-MRPP do "eterno" Garcia Pereira obteve surpreendentes 52 mil votos e assim ganhou subvenção estatal. Nada mau para um partido que tem visibilidade nula na comunicação social.

Toma lá, dá cá


josegomesandre,

"Eu sei que não estamos habituados a questionar a moralidade das campanhas eleitorais. Só nós sabemos o que já foi feito e dito em campanhas passadas e a vacina já é demasiado forte. Mas, ainda assim, é importante que se vejam estas subtis diferenças: um dos lados está a oferecer «coisas fixes» a todos: empresas, concelhos em particular, etc., em troca de votos; o outro lado está a oferecer um não favorecimento, um esforço para o bem comum, um projecto em que o Estado não privilegia ninguém, privilegiando, assim, todos.

São estas pequenas diferenças que têm de pesar dia 27 próximo."

 

Tiago Moreira Ramalho.

Twitteiros


josegomesandre,

Agora que o Luís Jorge se juntou a nós (bem-vindo, desde logo!), o número de twitteiros "delituosos" já é mais que uma mera facção. Se não estou em erro, já temos pelo Twitter o referido Luís, o Paulo Gorjão, a Ana Margarida Craveiro, o Jorge Assunção e eu próprio. Em regime mais contido, também por lá estão a Leonor Barros, o André Couto, a Sofia Vieira e o Joaquim Coutinho Ribeiro (esqueci-me de alguém?). Quem será o próximo a juntar-se à nau? O meu dedo mindinho diz-me que o nosso timoneiro já esteve mais longe…

Só para contrariar


josegomesandre,

Bem sei que não está na moda, não é moderno, nem progressista, nem futurista, e que se calhar até é coisa de negativista, maledicente, retrógrado e provinciano, mas arrisco na mesma: confesso que gosto de Manuela Ferreira Leite.

Gosto da hipótese de ter uma chefe de governo que está mais preocupada com a situação económica, política e social do país do que com estratégias de marketing eleitoral. Gosto de uma pessoa que, se quiser, pode viver de outra coisa que não a política. Gosto de uma pessoa séria. Gosto de uma pessoa que não dá prioridade à "imagem" e às "técnicas de comunicação". Gosto de uma pessoa que muda de ideias se achar que as circunstâncias o justificam. Gosto de uma pessoa que tem idade suficiente para não precisar dos jogos da política para se afirmar, e que pode realmente operar as reformas necessárias sem ter de pensar em reeleições.

E arrisco dizer ainda mais: gosto do programa do PSD. Gosto que se peça mais sociedade e menos Estado. Gosto que se queira reflectir sobre o modelo da segurança social. Gosto que se defina como prioridade o apoio às pequenas e médias empresas. Gosto que não se desvalorize por preconceito a iniciativa privada. Gosto que se fale de investimento de proximidade e de apoio às comunidades locais. Gosto que se promova uma cultura de rigor, disciplina e mérito na educação. Gosto que se suspendam os grandes investimentos públicos se as circunstâncias o recomendarem.

Não sei se é risível ou patético o que acabei de escrever, mas garanto-vos que é sincero. Não chega? Para mim, é quanto basta.

TAP: 2+2=4.


josegomesandre,

Parece que a TAP está quase falida. Do ponto de vista do utilizador, não surpreende. Atrasos sistemáticos nas partidas e chegadas. Poucos voos com tarifas promocionais. Preços exageradíssimos (sobretudo quando comparados com companhias low-cost). Refeições intragáveis. Serviços de bordo minimalistas. Entrega de bagagem lenta – quando não inexistente. Estavam à espera de quê?