Como não morre o peixe


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Quando Miguel Vale de Almeida, do Jugular, não sabia «como é que um ser humano normal se sujeita a ir ao programa de Fátima Campos Ferreira» (aqui), também não sabia como é que ele mesmo se sujeitaria a ir ao mesmo programa dias depois. Não sabia, mas agora já sabe: basta ser convidado, aceitar o convite e comparecer a horas, como se viu.

O caso podia ser considerado uma anormalidade, lá isso podia, mas valeu-lhe a opinião insuspeita de João Galamba, outro ser igualmente humano e igualmente do Jugular (aqui): «O Miguel esteve mais do que irrepreensível: ele pôs as coisas nos termos que verdadeiramente importam.»

Moral da história: para um peixe não morrer pela boca é preciso que haja simultaneamente um opinador tolerante no mesmo aquário e, sobretudo, o peixe ser mais do que irrepreensível. Quer dizer: ele pode não saber isto e aquilo, mas tem de saber nadar em todas as direcções — em todas as águas…

 

(As cores deste aquário são da nossa responsabilidade e apenas servem para fazer bem aos olhos; não servem para lavar estados de alma.)

Ora pró, ora contra


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Com isto que vos deixei mais abaixo ontem à noite, devem ter pensado que eu não conseguiria dormir. Certo. Quem é que dorme em condições depois de assistir a tal debate, mesmo sem ficar atento de fio a pavio? Esta manhã, no entanto, levantei-me com as ideias claras, talvez menos pelo efeito da noite negra e mais por tê-la passado em branco. Vejamos.

A propósito dos casamentos entre pessoas do mesmo sexo que encheram o horário nobre da RTP-1, não vos garanto que a proposta de Sócrates seja serviço público que justifique tamanha deferência. Mas estou em condições de vos anunciar (na presunção de que não tiveram pachorra para assistir àquilo) que os homossexuais, afinal, em nada diferem de qualquer outra minoria (excepto nas suas inclinações sexuais, mas não necessariamente). Ou seja: ora exigem o direito à igualdade, às segundas, quartas e sextas, ora reivindicam o direito à diferença, às terças, quintas e sábados. Aos domingos descansam ou fazem outras coisas.

A única dúvida que me ficou e que, se for também a vossa, não consigo esclarecer é esta: e se aquele programa fosse à terça, como teria corrido? Aquela jurista antipática arvorada em constitucionalista e cujo nome não fixei poderia fornecer-nos um ensaio jurídico-constitucional sobre aquela intrigante variação de humores ao longo da semana? Convinha que fosse ainda hoje, terça-feira, porque o estado de espírito das segundas-feiras já foi observado ontem…

‘Tanasiando’…


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Mário Crespo insurgiu-se no JN (aqui) contra as propostas de José Sócrates sobre o casamento entre homossexuais e de Almeida Santos sobre a eutanásia, para assinalar que elas «em comum têm a ausência de vida» e para concluir que «Sócrates e Santos não querem discutir meios de cuidar da vida (que era o que se impunha nesta crise)». Vai daí, Rogério da Costa Pereira atira-se no Jugular (aqui) a Mário Crespo, pese embora nada explicar de concreto sobre a sua manifesta agitação.

No fundo, o que se infere parece ser uma coisa muito simples: um discorda daquelas propostas e o outro concorda com elas. Afinal, são iguais a todos nós: uns sim, outros não. Por isso, não se percebe o que Costa Pereira podia ter para acrescentar em oposição a Crespo e menos ainda por que razão é que nada acrescentou. Que diabo: se eu tanásia e tu tanásias, porque é que ele queria tanasiar e não tanasiou também?…

Oponho-me à oposição!


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Ao assistir a um pedaço do debate sobre casamentos homossexuais na RTP-1, nunca tantas vezes em tão pouco tempo ouvi a expressão «sexo oposto». Oponho-me terminantemente a este conceito e aproveito para declarar definitiva e solenemente a todas as mulheres da Terra (e às marcianas, se ainda houver algumas) que, na parte que me toca, não pertenço ao sexo oposto. Sou diferente de todas elas, sim, mas nunca me opus a isso. Bem pelo contrário: sempre me senti tão próximo quanto me tem sido permitido…

Ainda as freguesias


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Quando ripostei aqui o que António Proa escreveu aqui sobre freguesias e a sua ideia de que é precisa uma «alteração da divisão administrativa» e que isso «pode e deve ser um caminho para a reaproximação entre quem é eleito e os respectivos eleitores», foi para manifestar o meu natural espanto. Ao nível das juntas de freguesia, que representam a política de maior proximidade que temos, não se entende o que possa ter distanciado os eleitos dos eleitores e menos ainda se entende o que possa ser reaproximá-los.

Agora, António Proa volta à carga para acrescentar isto, designadamente: «Mesmo com a teoria da proximidade referida, na verdade a grande maioria dos lisboetas, especialmente nas freguesias mais recentes, não conhece os seus autarcas.» E insiste na «necessidade de adequar os limites administrativos das freguesias de Lisboa às dinâmicas do desenvolvimento da cidade passados que estão 50 anos sobre a última reforma administrativa».

Cada vez se entende menos: por um lado, é preciso actualizar os limites das freguesias, porque as últimas criadas já têm 50 anos; por outro, o estranho fenómeno do distanciamento entre eleitos e eleitores é mais notório nas freguesias mais recentes.

Até pode ser que Lisboa precise de uma reforma administrativa. Não vai ser fácil: nem o grande Mouzinho da Silveira conseguiu a aprovação do seu plano. Mas até pode ser que sim. Porém, até lá, se a política de proximidade se desfez nas freguesias mais recentes, talvez fosse bom dar uma espreitadela ao que fazem as juntas de freguesia mais antigas. Aquelas em que a proximidade não é uma teoria…

Pouco inteligente


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O casamento entre homossexuais regressou à ordem do dia e Maldonado aproveitou para dizer aqui que foi por causa da actual «proposta do PS», o que não é verdade: não há qualquer proposta; apenas parece que o PS vai apresentar uma moção interna que inclui o relançamento do tema para a próxima legislatura, sem deixar de ser o mesmo PS que recusou recentemente uma proposta idêntica apresentada no Parlamento por outros. Mas vamos ao que interessa.

Maldonado tece várias considerações pouco ou nada fundamentadas, mas vou apenas deter-me na que se segue. «A legalização dos casamentos homossexuais é uma questão de vontade política. Os nossos vizinhos espanhóis legalizaram-nos a arrepio da opinião da Igreja. Se o Estado é laico, então a Igreja deve-se manter fora das questões de política partidária, correndo o risco de ser identificada com os partidos de direita…» A questão é partidária? E eu a pensar que é social…

Na verdade, está tudo ao contrário. Desde logo, se o Estado é laico, é o Estado que deve manter-se fora das questões da Igreja e não o inverso. Se Maldonado pode opinar, se eu posso opinar, se todas as pessoas podem opinar singular e colectivamente, a Igreja tem todos os motivos e mais alguns para opinar também. Tem até o dever de lembrar os seus princípios e, mais ainda, a legitimidade que a sua acção social lhe confere.

Sabemos todos como o Estado se demite de muitas das suas obrigações e como a Igreja se lhe substitui, exercendo-as solidariamente sem olhar às diferenças de cada um — designadamente, de credo. É pouco inteligente, por isso, esperar (e pior ainda desejar) que a Igreja desempenhe um papel social indiscutível enquanto prega a sua doutrina e, ao mesmo tempo, que faça de conta que é cega, surda e muda…

Reaproximar?


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Escreveu aqui António Proa sobre «freguesias para o século XXI», para dizer que Lisboa precisa de uma «alteração da divisão administrativa» e que isso «pode e deve ser um caminho para a reaproximação entre quem é eleito e os respectivos eleitores». Em ano de eleições autárquicas, a opinião de Proa intriga-me: reaproximar os eleitos dos eleitores ao nível das juntas de freguesia, que representam a política de maior proximidade que temos? Ou há politiquice rasteira nisto, ou a coisa é totalmente irreflectida.

Que eu saiba, a maioria dos eleitos para as freguesias de todo o País (mesmo dentro da capital) é constituída pelo merceeiro do bairro, o dono do café da esquina, o caixa da agência bancária, o gerente da oficina de motociclos, o contabilista que nos ajuda a preencher o IRS, etc., que mais não são do que pessoas iguaizinhas aos eleitores — vizinhos muitas vezes. Estarão uns e outros assim tão separados? Quanto a mim, se estamos a falar do nível básico das freguesias, aproximar mais os eleitos dos eleitores só se for pô-los a dormir juntos…

14 de Fevereiro


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São Valentim não tem culpa. Nem quero que paguem os justos pelos pecadores. Mas o nome do santo lembra-me que os casos de justiça do presidente da Câmara de Gondomar continuam por esclarecer e que as eleições autárquicas estão aí. Não é justo.

As crises pela mudança


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A crise financeira estalou nos EUA e alastrou ao mundo. Com ela, inevitavelmente, surgiu a crise económica: se há uma crise financeira profunda, a economia é afectada sem remédio e não é preciso ser-se economista ou financeiro para o entender. Seguiu-se-lhe a crise social, que muitos ainda não gostam de referir por incomodidade política e por razões difíceis de entender: com a economia em crise, não há como fugir à quebra do investimento, por um lado, e do consumo, por outro, o que leva à quebra de produção, ao desemprego e à degradação social. A crise de que se fala é, portanto, um conjunto de crises encadeadas.

De modo muito simplificado, este é o quadro geral que está a condicionar o mundo. Contudo, é possível que a crise múltipla que vivemos vá ainda mais longe e só o arrastamento no tempo o dirá. Ninguém sabe se estamos também perante uma crise ambiental: a instabilidade da qualidade de vida, a falta de recursos, etc., podem estar a determinar contornos desta crise múltipla que ainda não estão avaliados.

A crise tem dado lugar, como se sabe, à tomada de medidas de excepção no sentido de tentar minorar as consequências nefastas que alastram diária e paulatinamente. Entre essas medidas — designadamente, de intervenção pública na economia, no mercado e na protecção social — algumas vão-se mostrando subavaliadas e outras nem sequer se sabe se servem os objectivos ou se estão a subvertê-los.

Com efeito, ter em mente a manutenção possível de uma situação conveniente para o desenvolvimento logo que a crise esteja dominada e possa ser ultrapassada é um risco ainda por calcular. Quer isto dizer que a protecção a sectores hoje considerados fundamentais para o arranque pós-crise pode ser um rotundo fracasso: nada garante que o mundo será o mesmo nessa altura.

A título de exemplo, veja-se a indústria automóvel: tentar protegê-la tem sido nota dominante em vários países e, no entanto, ninguém sabe se o sector automóvel continuará a evoluir como até aqui. E se a produção de veículos vier a passar definitivamente para modelos ambientais e tudo o que conhecemos ficar enterrado de vez no passado? Este é apenas um dos muitos cenários de mudança possíveis: a evolução interrompida pela crise dará lugar à mudança radical, determinada pela exigência, pela degradação ambiental e pela carência de recursos? Já a concentração de esforços, por exemplo, em energias alternativas e limpas pode ser positiva, se tiver em vista a sua eficiência e custos razoáveis.

Uma crise multifacetada e longa no tempo poderá implicar de facto uma viragem tão radical que o mundo jamais será o mesmo. As várias faces da crise são muitas e talvez ainda nem sejam todas visíveis. Ora, todos os planos para enfrentar a realidade e proteger os males estão a ser avaliados à luz do mundo actual. Quem consegue adiantar-se e preparar as coisas para o mundo novo que pode estar a formar-se? A saída da crise não devia ser um novo pesadelo, para que a mudança responda ao sonho de um mundo melhor, cuja necessidade é evidente há muito e se vinha acentuando em passo acelerado nos últimos tempos.

Visionários, precisam-se. Para que os meios, sempre parcos, não sejam desbaratados à toa e para que a crise, afinal, não seja completamente inútil.

Atrás???


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Ainda a promover a moção que vai levar ao congresso, José Sócrates voltou hoje a defender o casamento entre homossexuais e lembrou que Portugal ainda os discriminava «há umas décadas atrás». Redundante: apesar de ter-se tornado vulgar, dizer ‘há décadas atrás’ ou ‘há uma semana atrás’ é tão certo como dizer ‘subir para cima’ ou ‘descer para baixo’.

Por acaso, Sócrates faz parte dos que cometem essa falta vezes sem conta. Ora, se há momentos infelizes, um deles é seguramente falar de homossexuais e acrescentar ‘atrás’. Não há necessidade…

Continuação do País


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Portugal em recessão. «(…) As dificuldades que esta situação representa são dificuldades que continuam. Os sinais neste início de 2009 continuam a ser sinais de que a economia portuguesa continua a sofrer (…)» Esta eloquente explicação é do ministro das Finanças e da continuidade.

As palavras de Teixeira dos Santos permitem tirar outra conclusão: o primeiro-ministro que temos é um primeiro-ministro que continua e as medidas deste governo continuam a ser as medidas de um governo que continua a ser um governo continuado.

Ler e esperar


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Pedro Passos Coelho fez saber que espera que Manuela Ferreira Leite esteja a ler bem as sondagens. Pode esperar sentado. E também pode ler qualquer coisa, para se entreter. A líder do PSD já disse que se está nas tintas para as sondagens…

Acordo-ortografiquês…


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Em curto espaço de tempo, ouço gente conhecida com direito a tempos de antena e a quem Deus deu o dom da fala.

Diz o Luís Represas: «Beneficiar a instalação de placas solares é uma medida que vai de encontro (…)» Diz um deputado: «Chamo a atenção que (…)» Diz o Cristiano Ronaldo: «(…) porque o futuro só Deus pertence.» Diz o pivot do bloco noticioso: «Foi o nosso enviado especial em directo desde o local.»

Começo a entender as vantagens do acordo-ortografiquês. Quanto mais fórmulas para falar houver, mais se dilui o crescente chorrilho de asneiras…

Mais uma cabala…


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Decisão judicial não dá provimento ao recurso interposto e confirma que Isaltino é arguido e será julgado pelos vários crimes de que é acusado. Não consta que o presidente da Câmara de Oeiras tenha arrolado como testemunha qualquer sobrinho motorista de táxi na Suíça, mas consta que, por ser ano eleitoral, o processo volta a mexer por via de poderes obscuros que estão a mover-lhe uma campanha negra…

A moldura do trato


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Ainda há pouco tempo, tive ocasião de assinalar a chamada de atenção que o presidente da Assembleia da República fez a um secretário de Estado, quando este se dirigiu aos deputados tratando-os por «vocês». Esteve bem Jaime Gama, ao ensinar o tal secretário de Estado a portar-se com educação e respeito naquele órgão de soberania.

Ontem, de novo com o Governo presente no Parlamento, na sequência de uma cena acalorada entre Paulo Rangel e José Sócrates, ouviu-se alguém gritar: «Palhaço!» Pelas imagens, a intempestiva interjeição (?) pareceu partir de um deputado, pareceu saída de quem estava ao lado de Rangel e pareceu dirigida a Sócrates. Foi bem sonora e não constituiu um bom exemplo da elevação que devia caracterizar o hemiciclo. Jaime Gama deixou passar aquilo em claro, o que também não foi um bom exemplo.

O caso dá que pensar. Entre os habituais protagonistas das discussões mais acaloradas (membros de órgãos de soberania que até cultivam um linguajar apropriado), veja-se como José Sócrates, Paulo Rangel, Francisco Louçã, Paulo Portas, etc., se tratam entre si e se dirigem aos demais parlamentares e membros do governo: «é da sua competência», «cabe-lhe a si», «chamo a sua atenção», «fiz-lhe uma pergunta» e por aí fora.

Há tempos, este tratamento era impensável. Dizia-se: «é da competência de Vossa Excelência», «cabe a Vossa Excelência», «chamo a atenção de Vossa Excelência», «fiz uma pergunta a Vossa Excelência», etc., o que contribuía para um trato elevado, por mais aceso que fosse o tom da discórdia.

É mais ou menos como termos uma gravura pouco vistosa, mas razoavelmente interessante, ou talvez só uma mera reprodução que nos agrada, e decidirmos torná-la mais vistosa através de uma boa moldura. O resultado satisfaz o objectivo, que é valorizá-la e dignificá-la.

Ora, a crescente ligeireza no trato, ao invés de valorizar o confronto e dignificar o lugar, tem o resultado deplorável que se vê. Primeiro, dispensa-se a gravata; depois, vai-se discursar na tribuna em camisolinha de algodão de gola em colar e sem camisa por baixo; finalmente, passa-se à linguagem brejeira, à gíria e (quem sabe?) ao calão. Como se a vida em sociedade não tivesse regras e como se estar na Assembleia da República fosse o mesmo que ir comer uma sardinhada no tasco ali ao lado do mercado.

É grave não usar gravata? Sei lá se é grave. Grave é a camisa aberta e o que se lhe segue. Se a camisa ‘à padre’ sem colarinho e fechada em cima ou a camisola de gola alta não servem, como farão os da postura inadequada perante uma recepção em traje de noite, por exemplo? Imagino: «A esta palhaçada não vou! Cambada de palhaços!»

Palhaços? Talvez, sim. A juntar aos malabaristas, acrobatas e contorcionistas da nossa política. Se querem que o hemiciclo seja um circo, acho que já faltou mais…

Hesitações…


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Ainda a propósito da infeliz mini-série na SIC sobre A Vida Privada de Salazar, leio este apontamento no Bicho Carpinteiro em que José Medeiros Ferreira lembra o que Cerejeira teria dito, «segundo a embaixada de França em Lisboa em 1958: Salazar hesitou em ser padre, hesitou em casar e até para ser ditador hesitou.»

É pena que, entre as partes envolvidas, ninguém tenha também hesitado em levar para a frente aquela tristíssima mini-série. Podia ser que tivesse acabado por imperar o bom-senso. Fazer um filme televisivo sobre aquela vida dita privada de Salazar é tão palpitante como produzir uma longa-metragem sobre os horários dos combóios na Itália de Mussolini…

Sabedoria…


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Um grupo de 26 socialistas quer levar o tema da eutanásia ao próximo congresso do PS. Entre Almeida Santos e alguns subscritores da ideia, quem é que também falou, quem foi? Vitalino Canas, o inenarrável. Se não o escutaram, não conseguirão imaginar o que ele sabe sobre o assunto. Eu escutei-o e já não me lembro, mas que fiquei estupefacto perante tanta sabedoria, lá isso fiquei.

Augusto Santos Silva é que devia saber mais, se tivesse falado com os camaradas daquele grupo antes de ter dado a recente entrevista ao JN. «Assassinato moral»? Eutanásia política, isso é que é! Assistida, claro…

Eleições: o que mais dá que pensar


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Estava escrito nas estrelas. Portugal nunca quis dois partidos distintos para escolher, nunca aceitou duas filosofias diferenciadas para se deixar governar — e isso tinha de acabar mal.

Conservadores e trabalhistas, republicanos e democratas, PP e PSOE, democratas-cristãos e sociais-democratas, centristas-populares e socialistas-democratas, etc., foi sempre coisa dos outros. Nós, traumatizados e complexados com a chamada pesada herança, sem sabermos romper e deixar para trás o que pertence ao passado, tivemos sempre medo de assumir uma direita moderna e fomo-nos deixando inclinar sempre para a esquerda, ora para uma esquerda-não-muito-à-esquerda e capaz de não chocar quem fosse conservador, ora para uma esquerda-esquerda de raiz socialista e capaz de se portar com moderação.

Esta realidade estava condenada há muito: a direita ia evoluir claramente para preocupações de natureza social e a esquerda tinha de adaptar-se melhor à iniciativa privada que move a economia de mercado. Os nossos partidos preferenciais foram sempre, portanto, o velho PPD, depois PSD, e o PS, cujo vermelho desbotou para o cor-de-rosa. A sua proximidade era já óbvia, se nos lembrarmos da dificuldade que o PPD/PSD teve para encontrar uma família europeia de acolhimento, enquanto o PS era recebido no seio dos sociais-democratas da Internacional Socialista e procurava rever-se na esquerda aberta dos países nórdicos.

Sem nunca experimentarmos uma autêntica alternância de poder, o resultado da opção é o que já tenho apontado em outras ocasiões: nunca votámos por convicções ideológicas, mas por simpatias pessoais; à medida que o tempo foi passando, habituámo-nos a nunca eleger o mérito de uns, mas a punir o demérito dos outros. Ora, entre os dois grandes partidos, se eles não constituem alternativa real um do outro, também não são adversários de facto: cada vez que um abre a boca está a tirar a palavra ao outro (e o outro cala-se porque fica sem palavras).

Hoje, praticamente assim esbatidas quaisquer pequenas diferenças entre duas propostas cada vez mais semelhantes, confrontados que estamos com pequeníssimos detalhes diferenciadores mantidos mais por teimosia do que por pragmatismo, ficamos de braços caídos a pensar se é melhor votarmos ou abstermo-nos, ancorados na desculpa de que ninguém merece o voto e que todos precisam de ser castigados.

É possível que sim: a óbvia falta de mérito e de capacidade deve castigar-se. O problema é que os mais castigados somos todos nós, que fomos tecendo a teia em que nos deixámos enrolar. Há forma de sair disto? É bom que haja. Por todos os motivos e mais um: o binómio que nunca tivemos verdadeiramente — a alternância que nunca quisemos ter — está agora a desenhar-se paulatinamente. Veja-se como os dois grandes partidos de sempre são agora os novos conservadores e como a esquerda que está emergir das velhas ultra-esquerdas mais radicais é agora o novo socialismo. Quanto a mim, isto dá que pensar. Mas é que dá mesmo.