Dois pesos e duas notícias


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A meio da tarde, no mesmo bloco noticioso e em curtíssimo espaço de tempo, a SIC-Notícias relata dois acontecimentos.

O primeiro é sobre o rapto de um português na Nigéria, onde está deslocado na qualidade de engenheiro a trabalhar na construção de uma estrada. Diz o pivot: «O Ministério dos Negócios Estrangeiros informou que está a acompanhar este caso.»

O segundo é sobre a possibilidade de Scolari ter abandonado o Chelsea. Diz o mesmo jornalista: «Vamos continuar a acompanhar este caso com muita, muita atenção.»

Quem gosta de situações claras ficou a saber qual é a notícia que realmente interessa ao canal.

A vida chata de Salazar


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A Vida Privada de Salazar (em dois episódios, hoje e amanhã, na SIC) é uma chatice de todo o tamanho. Não tenho grandes dúvidas de que, na sua intimidade, foi uma vida que pouco ou nada teve de empolgante e, por isso, posso até admitir que esta tentativa não ande muito longe do que foi a realidade.

Mesmo assim, ainda que retratasse a realidade, é uma tentativa a que falta tudo: faltam diálogos, falta um mínimo de vivacidade que convença, falta o enquadramento histórico de cada época que ajudasse a criar uma atmosfera mais atraente, falta movimento e as cenas são tão paradas que nem se percebe por que é que surgem e como é que dão lugar umas às outras, falta permitir que se entenda a razão para uma ou outra alternância nas épocas, falta explicar uma quantidade de momentos que podiam nem existir, falta emoção, falta evidenciar o próprio encadeamento e desenvolvimento do guião.

Na intimidade, Salazar teve certamente um ou outro episódio de vida, como toda a gente, mas não necessariamente com interesse. No geral, devia ser uma imensa chatice. Nesse caso, não vejo o que pudesse justificar um telefilme em duas partes. Nem em uma. Resta a possibilidade de ele ter tido uma vida privada menos chata, só que tão privada, tão privada… que ainda não foi desta que veio a público. E é nisto que reside o problema: quando não há nada para contar, não se conta.

Independentes, sim…


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Naquele seu usual tom cordato e sóbrio, Alberto João Jardim apelou ao voto nas próximas eleições europeias e resumiu a coisa assim: «Precisamos muito mais da União Europeia do que da República Portuguesa.» Com esta referência à República Portuguesa como se nada tivesse com ela, dir-se-ia que estava a falar de um país terceiro. O que me leva a insistir naquilo que já tenho dito: começa a ser tempo de Portugal se tornar independente da Madeira…

Sócrates e os casamentos


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Hoje deve ser o Dia Nacional da Esquerda Casamenteira. Primeiro, tivemos Louçã a falar da capacidade de reprodução de dois coelhos — se for um casal (de sexo diferenciado, supõe-se). Depois, foi a vez de Sócrates, que andou pelo centro a promover a sua moção e fez questão de garantir que iria levar em frente a sua proposta de casamento — casamento civil, talvez para que não se pensasse que seria militar ou religioso — entre duas pessoas do mesmo sexo.

Apesar de estar em terras que conhece bem e onde é pago com igual reconhecimento, a audiência não se mostrou propriamente aberta à proposta nupcial. O mais entusiasmado com a garantia de propiciar tais enlaces foi o próprio secretário-geral do PS, que mereceu como resposta um pesado momento de silêncio. O entusiasmo foi, aliás, de curta duração: esmoreceu logo perante os semblantes carregados que enfrentou. Desconfio que, não fossem os malhadores que deve ter levado com ele, Sócrates teria saído de lá a praticar maratona ou um daqueles desportos que gosta de mostrar em público…

Segredos…


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Muito curiosa a dialéctica entre a PGR e o SIS, como ela ressalta dos jornais, sobre investigação e técnicas de recolha de informações. Entre o segredo de Justiça e o segredo dos deuses…

(«Novas do regime», por José Medeiros Ferreira, aqui.)

Louçã e os casamentos


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Francisco Louçã contou uma historieta tristíssima durante a convenção nacional do Bloco de Esquerda que está a decorrer. Queria, com ela, ilustrar o que tentava explicar, mas a coisa não lhe correu nada bem e acabou por fazer fraca figura.

A ideia parece que era demonstrar que o capital nada produz; o trabalho é que produz. Ao caricaturar isto em palavras, saiu-lhe mais ou menos como tentarei reproduzir.

Imaginemos que se metiam dois coelhos numa toca — disse Louçã. Em breve haverá muitos coelhinhos. E apressou-se a acrescentar: «se for um casal». Agora metam-se duas notas de cem euros numa caixinha — continuou ele. Alguém acha que irão nascer notas de vinte?

Realmente, isto não lembrava a ninguém. Duas notas de cem não se reproduzem. Só se for uma nota e um noto, não é? O pior, no entanto, foi o caso dos dois coelhos. «Se for um casal» — apressou-se Louçã a acrescentar, perante o silêncio da plateia. Mas o remendo tardio não surtiu efeito e a audiência manteve-se muda. Não admira: e se fosse um casal de coelhos do mesmo sexo? Partindo isto de um guru na ciência dos casamentos entre dois seres do mesmo sexo, a coisa saiu-lhe mal, mal, mal…

O intelectual da propaganda


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Ministro por eleição, sociólogo por formação. Augusto Ernesto Santos Silva tornou-se, sem disso dar conta, num autêntico objecto de estudo Weberiano.

Quando escreve livros e mete o chapéu do sociólogo é racional, imparcial e neutro — como manda a cartilha das boas ciências sociais. Já quando liga o megafone do intelectual da propaganda Socrática…

[«Política como (in)vocação», por Hidden Persuader, aqui.]

Quem se mete com o PS, é malhado…


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A elevação das intervenções de Augusto Santos Silva é notável. Veja-se só o bom gosto do detalhe desta mais recente: (…) gosto de malhar com especial prazer nesses sujeitos e sujeitas (…) Faz-me lembrar aquele programa ‘O Preço Certo’ de grande audiência doméstica, que tem anos de antena e em que o bom do Fernando Mendes continua a dizer invariavelmente, vezes sem conta em cada emissão, meus senhores e minhas senhoras. Bem, pelo menos, este sempre diz senhores e senhoras; não diz sujeitos e sujeitas.

Mesmo para fazer ‘partes gagas’, é preciso ter tomado chá no momento certo da vida. Até Manuel Alegre não queria acreditar e saltou-lhe a tampa! Mas Santos Silva não se deu por achado: tinha-se encostado a ele quando julgou que isso lhe dava jeito, mas agora fez-se esquecido e malhou nele também. Sempre com aquele fino recorte literário que é seu apanágio!

Tempos houve em que o PS tinha uma pose entre o castiço e o gingão. Quem se metia com o PS, levava — lembram-se? Também se lembram de quem o disse? Pois que lhe perdoem e que ele volte, porque o PS está a passar de marialva para o tipo insuportável do macho latino suburbano. Ou então é apenas o resultado de haver vários PS’s. Nesse caso, não há muito a fazer que não seja esperar que este PS desapareça para vir outro…

Um PS, dois sistemas


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O PS começou a provocar a oposição. Talvez por andar a sentir-se muito isolado e precisar de ver a oposição vir a terreno, para tentar orientar o seu discurso.

José Sócrates, por exemplo, desafiou a oposição a vir explicar o que deve fazer-se que não esteja já a ser feito para enfrentar a crise.

Por seu turno, também Santos Silva desafiou a líder do maior partido da oposição a vir dizer se gosta ou não do cartaz do ‘Pinócrates’ produzido pela JSD.

Os dois casos parece fazerem parte da mesma estratégia. O que os diferencia é que, se fosse na hierarquia católica romana, o primeiro era digno de cardeal e o segundo era mais de pároco de aldeia.

Uma história em três tempos


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1. Chama-se José Miguel Fernandes e presidia à Entidade das Contas dos Partidos, uma instituição posta a funcionar na dependência formal do Tribunal Constitucional. Há poucos meses e com assinalável sobriedade, disse qualquer coisa mais ou menos assim (e estou a citar de memória): com a legislação e os meios existentes, pode conseguir-se melhorar, mas nunca se acabará com a possibilidade de corrupção em torno das contas dos partidos.

2. No dia seguinte, em nome do PS, Vitalino Canas foi desabrido e desproporcionado a dar para trás naquela simples declaração, chegando ao ponto de dizer que o presidente daquela instituição devia era trabalhar, porque era para isso que lhe pagavam. Poucos dias depois, José Miguel Fernandes (que tinha começado a sua acção pela pedagogia) demitia-se e batia com a porta.

3. Recentemente, soube-se que houve candidaturas a não-sei-que-eleições com contas irregulares, mas que os casos foram arquivados sem consequências. Quer dizer que não há cidadãos acima da lei, excepto se forem candidatos? Não sei. O que sei é que, se a legislação serve para coisa nenhuma, Vitalino Canas devia ter reaparecido — mas não reapareceu — para pedir publicamente desculpas a José Miguel Fernandes. O incrível porta-voz do PS quis protagonizar um enxovalho pouco edificante e não reconhece que se saiu mal. Entende-se o incómodo: como diria a minha avó, «foi à lã e voltou tosquiado».

A deusa não é cega


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Ao contrário do que é corrente afirmar-se, a Justiça nunca foi cega e deixou há muito de ter os olhos vendados. Témis, a deusa da Justiça, da Moral e da Ordem do Panteão grego, é uma titânide e representa uma herança do mais forte simbolismo em toda a vida judiciária.

 

Conforme a teogonia (ou genealogia dos deuses) na mitologia pagã, titãs e titânides são os filhos e as filhas de Urano e Geia, a mais antiga geração de deuses. Témis possui uma sabedoria superior à das restantes divindades e, por isso, na Antiguidade, os gregos reconhecem-lhe o direito de ter assento ao lado de Zeus, de quem é esposa e conselheira.

Témis é a criadora dos oráculos, das leis e dos ritos, que emite para valerem tanto para os deuses como para os homens, através da grande influência que exerce. A sua acção verifica-se em todas as vertentes da vida, caracterizada pelo papel que lhe é atribuído no domínio moral e no material, simultaneamente.

Mãe de muitos filhos, como as Horas, as Parcas, a virgem Astreia e as ninfas de Eridan, a deusa grega da Justiça assiste aos nascimentos de Artemisa e de Apolo, a quem oferece o oráculo de Delfos. A sua importância coloca-a também entre as poucas divindades ligadas aos Olímpicos, segundo a tradição mitológica.

 

Pese embora ser rara a iconografia que se lhe conhece, Témis costuma ser representada a segurar a balança da Justiça numa mão, ou a «tábua das leis», e com os olhos vendados (para julgar sem distinção de pessoas); também é habitual vê-la com a outra mão a empunhar a espada justiceira, ou a «vara da Justiça» (com o escudo português, no nosso caso). No entanto, nas últimas décadas, a Justiça passou a adoptar a figura sem a venda nos olhos, mais de acordo com o princípio de que ela deve manter toda a atenção e ter presente a realidade envolvente, por forma a ser realmente justa.

Sinal dos tempos e da respectiva evolução social que as leis procuram reflectir e acompanhar, este pragmatismo, associado à consciência e à equidade, é o que prevalece entre nós, onde a imagem da deusa igualmente representa a Justiça: ela passa a surgir de olhos abertos e expressão atenta, retirando todo o sentido à velha máxima tradicional de que «a Justiça é cega».

O pulsar dos líderes


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Um líder, para ser líder, tem de ser forte. No mínimo, tem de mostrar-se forte, por muito que isso não retrate o que lhe vai na alma. Alguém consegue imaginar Barack Obama queixar-se publicamente de ser vítima de uma ‘campanha negra‘?…

Perdemos sempre…


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Portugal já teve uma importante indústria de calçado. Hoje em dia, presumo que as fábricas sobreviventes e as recentes sejam pouco mais do que residuais, em termos numéricos. É pena. Andamos sempre ao contrário.

O ex-presidente dos Estados Unidos levou com dois sapatos há pouco tempo. O primeiro-ministro chinês levou com um sapato hoje. Ao todo, são já três sapatos voadores. Algum desses sapatos era português? Nenhum. Em três sapatos, nem sequer um só era português. Lamentável. Dizem as previsões que este novo nicho de mercado está em franco crescimento. Espera-se que Vítor Constâncio faça em breve uma revisão em alta do consumo esperado e que o José Rodrigues dos Santos anuncie um novo máximo histórico. Mas estamos condenados ao costumeiro crescimento negativo.

Perdemos sempre o mercado internacional. E já será uma sorte se tivermos sapatos suficientes para uso interno…

Especial para mulheres


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Há coisas que uma mulher nunca deve dizer a um homem, por muito íntima e perfeita que seja a relação. Umas devem ficar com ela, outras talvez possa partilhar com as amigas. Ou com a mãe, sei lá. Segundo um estudo recente (aqui), há sobretudo quatro temas destacados que podem estragar a maior das harmonias:

— a obcessão por um tipo célebre, seja ele quem for;

— as qualidades e habilidades de um ‘ex’;

— a preocupação doentia com o peso e a linha;

— as histórias sobre o excepcional relacionamento que transpira de outro casal.

Vão ler e meditar, que eu não duro sempre. Mas confirmo enquanto posso: na mouche. Ou melhor (mais adequado ao artigo que vão encontrar): na fly…

Farto!


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Estou farto de ouvir jornalistas licenciados nas televisões a apontar o dia inteiro as regiões que estão sobre alerta amarelo e sobre alerta laranja. Se já não há hierarquia nem responsáveis, não há ao menos um voluntário que faça o favor de lhes explicar as coisitas mais básicas? É que estou mesmo farto, que diabo!

Pensadores estão de saída…


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Manhã cedo. Mal acordo, o primeiro susto. Em notícia que passa no rodapé da pantalha leio isto: «Clube de Pensadores sai em Março com prefácio de Santana Lopes».

Num país em que eles são tão escassos — nem têm federação, mas apenas um clube — e nesta situação aflitiva em que raramente se lhes dá oportunidade, é natural que queiram sair. Compreende-se, não é? Mas tinha de ser agora, quando nos afundamos mais a cada dia que passa? Portugal precisa de quem ainda saiba pensar como de pão para a boca. Não saiam para longe, por favor. Sigam antes o grandioso exemplo do vosso glorioso prefaciador e condutor, esse autêntico timoneiro da classe pensante: só precisam de sair da frente, mas deixem-se andar por aí…

A explicação


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J.M. Coutinho Ribeiro diz aqui por baixo que Luís Nobre Guedes deve ser um visionário, ao rever-se naqueles que já decidiram que José Sócrates é vítima de «uma campanha cobarde». Mas expõe a sua dúvida: «não percebo é como é que Guedes conseguiu perceber tudo antes de todos». Pois bem, eu posso explicar. É que Nobre Guedes tirou a sua brilhante conclusão sobre o caso Freeport a partir do caso Portucale. A semelhança entre os dois casos salta à vista e soletra-se assim: p-o-r-t.

Não foi feliz


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Há pouco, apanhei Marcelo Rebelo de Sousa a opinar sobre a semana dos outros. Mais ou menos assim: Pinto Monteiro não foi feliz, Cândida Almeida não foi feliz, José Sócrates não foi feliz, o tio Júlio não foi feliz, Freitas do Amaral não foi feliz, Santos Silva não foi feliz…

Acho que Marcelo não foi feliz. Mas não só esta semana.