Tão cheia de nada


jmmcc,

Se há estilo que aprecio na blogosfera é o de f. (vulgo Fernanda Câncio). Vejo naquele seu jeito tão especial para renunciar de alma e coração às maiúsculas, naquela convicção que-parece-preguicite-mas-não-é, uma forma visionária de pincelar harmoniosamente a tela do MSWord ou da caixa do blogue.

Rendo-me perante esse modo sublime de sintetizar a "reinvenção da escrita sem pontuação" à Saramago e a "experimentação das letras sem compaixão" à menino na pré-primária que mora aqui perto na minha rua.

Só tenho pena que ela seja obrigada a escrever à moda antiga no jornal, mas compreendo que até um artista também precisa de ganhar a vida e perdoo-lhe essa faceta conservadora.

Vão ler o que f. escreve (e como escreve, senhores!) aqui sobre o livro apreendido pela polícia em Braga. Não sei se é importante, mas verte profusa informação essencial para qualquer candidato a intelectual e até tem o cuidado de dizer (como quem não quer a coisa, claro) que não teve pachorra para procurar não-sei-o-quê na net. Portanto, tudo feito de memória, como seria de esperar.

Mas o melhor, como já disse, é irem ler. A única desilusão é ela desfiar aquele conhecimento todo para concluir nada.

Senhoras nada e senhores tudo


jmmcc,

O governo está hoje de regresso à Assembleia da República. É quando ganha novamente visibilidade uma fórmula que tem vindo a vulgarizar-se entre quase todos os parlamentares (e membros do executivo, nestas tardes de visita). Trata-se do vocativo lançado quase invariavelmente por quem começa a usar da palavra: «Senhoras e senhores deputados»!

Eu entendo: dá muito trabalho dizer senhoras deputadas e senhores deputados. Por isso é que, em bom português, se dissessem apenas senhores deputados estariam a ser correctos e a dirigir-se a todos sem excepção (a todas e a todos). Mas não: quiseram antes inventarar um modo de ficar por esse meio-caminho entre a ‘modernidade’ e a preguiça. E o resultado é o que está à vista: senhoras coisa-nenhuma e senhores deputados…

Festarola?


jmmcc,

O homem da Bragaparques foi hoje dado como culpado de corrupção activa, tentada com José Sá Fernandes, para não perder um negócio chorudo com a Câmara de Lisboa. Condenado a pagar cinco mil euros, saiu do tribunal com um sorriso. Cá para mim, vai fazer como Fátima Felgueiras depois de condenada: uma grande festa.

Às armas


jmmcc,

A oficialidade agita-se com a proliferação de armas em Portugal. Circulam muitas fora de qualquer controlo. Dizem que há quatro armas furtadas ou extraviadas por dia.

Cá por baixo, ao nível dos comuns mortais, a coisa é diferente: a gente sente-se cada vez mais desarmada. A abstenção é que está fora de controlo. Longe vai o tempo em que o voto era a arma do povo.

Atrás???


jmmcc,

Ainda a promover a moção que vai levar ao congresso, José Sócrates voltou hoje a defender o casamento entre homossexuais e lembrou que Portugal ainda os discriminava «há umas décadas atrás». Redundante: apesar de ter-se tornado vulgar, dizer ‘há décadas atrás’ ou ‘há uma semana atrás’ é tão certo como dizer ‘subir para cima’ ou ‘descer para baixo’.

Por acaso, Sócrates faz parte dos que cometem essa falta vezes sem conta. Ora, se há momentos infelizes, um deles é seguramente falar de homossexuais e acrescentar ‘atrás’. Não há necessidade…

Acordo-ortografiquês…


jmmcc,

Em curto espaço de tempo, ouço gente conhecida com direito a tempos de antena e a quem Deus deu o dom da fala.

Diz o Luís Represas: «Beneficiar a instalação de placas solares é uma medida que vai de encontro (…)» Diz um deputado: «Chamo a atenção que (…)» Diz o Cristiano Ronaldo: «(…) porque o futuro só Deus pertence.» Diz o pivot do bloco noticioso: «Foi o nosso enviado especial em directo desde o local.»

Começo a entender as vantagens do acordo-ortografiquês. Quanto mais fórmulas para falar houver, mais se dilui o crescente chorrilho de asneiras…

Sócrates e os casamentos


jmmcc,

Hoje deve ser o Dia Nacional da Esquerda Casamenteira. Primeiro, tivemos Louçã a falar da capacidade de reprodução de dois coelhos — se for um casal (de sexo diferenciado, supõe-se). Depois, foi a vez de Sócrates, que andou pelo centro a promover a sua moção e fez questão de garantir que iria levar em frente a sua proposta de casamento — casamento civil, talvez para que não se pensasse que seria militar ou religioso — entre duas pessoas do mesmo sexo.

Apesar de estar em terras que conhece bem e onde é pago com igual reconhecimento, a audiência não se mostrou propriamente aberta à proposta nupcial. O mais entusiasmado com a garantia de propiciar tais enlaces foi o próprio secretário-geral do PS, que mereceu como resposta um pesado momento de silêncio. O entusiasmo foi, aliás, de curta duração: esmoreceu logo perante os semblantes carregados que enfrentou. Desconfio que, não fossem os malhadores que deve ter levado com ele, Sócrates teria saído de lá a praticar maratona ou um daqueles desportos que gosta de mostrar em público…

Louçã e os casamentos


jmmcc,

Francisco Louçã contou uma historieta tristíssima durante a convenção nacional do Bloco de Esquerda que está a decorrer. Queria, com ela, ilustrar o que tentava explicar, mas a coisa não lhe correu nada bem e acabou por fazer fraca figura.

A ideia parece que era demonstrar que o capital nada produz; o trabalho é que produz. Ao caricaturar isto em palavras, saiu-lhe mais ou menos como tentarei reproduzir.

Imaginemos que se metiam dois coelhos numa toca — disse Louçã. Em breve haverá muitos coelhinhos. E apressou-se a acrescentar: «se for um casal». Agora metam-se duas notas de cem euros numa caixinha — continuou ele. Alguém acha que irão nascer notas de vinte?

Realmente, isto não lembrava a ninguém. Duas notas de cem não se reproduzem. Só se for uma nota e um noto, não é? O pior, no entanto, foi o caso dos dois coelhos. «Se for um casal» — apressou-se Louçã a acrescentar, perante o silêncio da plateia. Mas o remendo tardio não surtiu efeito e a audiência manteve-se muda. Não admira: e se fosse um casal de coelhos do mesmo sexo? Partindo isto de um guru na ciência dos casamentos entre dois seres do mesmo sexo, a coisa saiu-lhe mal, mal, mal…

O pulsar dos líderes


jmmcc,

Um líder, para ser líder, tem de ser forte. No mínimo, tem de mostrar-se forte, por muito que isso não retrate o que lhe vai na alma. Alguém consegue imaginar Barack Obama queixar-se publicamente de ser vítima de uma ‘campanha negra‘?…

Especial para mulheres


jmmcc,

Há coisas que uma mulher nunca deve dizer a um homem, por muito íntima e perfeita que seja a relação. Umas devem ficar com ela, outras talvez possa partilhar com as amigas. Ou com a mãe, sei lá. Segundo um estudo recente (aqui), há sobretudo quatro temas destacados que podem estragar a maior das harmonias:

— a obcessão por um tipo célebre, seja ele quem for;

— as qualidades e habilidades de um ‘ex’;

— a preocupação doentia com o peso e a linha;

— as histórias sobre o excepcional relacionamento que transpira de outro casal.

Vão ler e meditar, que eu não duro sempre. Mas confirmo enquanto posso: na mouche. Ou melhor (mais adequado ao artigo que vão encontrar): na fly…