Estava escrito nas estrelas. Portugal nunca quis dois partidos distintos para escolher, nunca aceitou duas filosofias diferenciadas para se deixar governar — e isso tinha de acabar mal.
Conservadores e trabalhistas, republicanos e democratas, PP e PSOE, democratas-cristãos e sociais-democratas, centristas-populares e socialistas-democratas, etc., foi sempre coisa dos outros. Nós, traumatizados e complexados com a chamada pesada herança, sem sabermos romper e deixar para trás o que pertence ao passado, tivemos sempre medo de assumir uma direita moderna e fomo-nos deixando inclinar sempre para a esquerda, ora para uma esquerda-não-muito-à-esquerda e capaz de não chocar quem fosse conservador, ora para uma esquerda-esquerda de raiz socialista e capaz de se portar com moderação.
Esta realidade estava condenada há muito: a direita ia evoluir claramente para preocupações de natureza social e a esquerda tinha de adaptar-se melhor à iniciativa privada que move a economia de mercado. Os nossos partidos preferenciais foram sempre, portanto, o velho PPD, depois PSD, e o PS, cujo vermelho desbotou para o cor-de-rosa. A sua proximidade era já óbvia, se nos lembrarmos da dificuldade que o PPD/PSD teve para encontrar uma família europeia de acolhimento, enquanto o PS era recebido no seio dos sociais-democratas da Internacional Socialista e procurava rever-se na esquerda aberta dos países nórdicos.
Sem nunca experimentarmos uma autêntica alternância de poder, o resultado da opção é o que já tenho apontado em outras ocasiões: nunca votámos por convicções ideológicas, mas por simpatias pessoais; à medida que o tempo foi passando, habituámo-nos a nunca eleger o mérito de uns, mas a punir o demérito dos outros. Ora, entre os dois grandes partidos, se eles não constituem alternativa real um do outro, também não são adversários de facto: cada vez que um abre a boca está a tirar a palavra ao outro (e o outro cala-se porque fica sem palavras).
Hoje, praticamente assim esbatidas quaisquer pequenas diferenças entre duas propostas cada vez mais semelhantes, confrontados que estamos com pequeníssimos detalhes diferenciadores mantidos mais por teimosia do que por pragmatismo, ficamos de braços caídos a pensar se é melhor votarmos ou abstermo-nos, ancorados na desculpa de que ninguém merece o voto e que todos precisam de ser castigados.
É possível que sim: a óbvia falta de mérito e de capacidade deve castigar-se. O problema é que os mais castigados somos todos nós, que fomos tecendo a teia em que nos deixámos enrolar. Há forma de sair disto? É bom que haja. Por todos os motivos e mais um: o binómio que nunca tivemos verdadeiramente — a alternância que nunca quisemos ter — está agora a desenhar-se paulatinamente. Veja-se como os dois grandes partidos de sempre são agora os novos conservadores e como a esquerda que está emergir das velhas ultra-esquerdas mais radicais é agora o novo socialismo. Quanto a mim, isto dá que pensar. Mas é que dá mesmo.

Bom texto. Dá MESMO que pensar.
Mesmo.
Até havia quem dissesse que os portugueses não se encaixavam na democracia…
É verdade.
Eu penso precisamente o mesmo. O que, atendendo ao que dizem os demais comantadores, significa que já somos alguns. Logo, é possíevl que isto mudo algum dia. Que seja breve.
Realmente, convinha que fosse mais cedo do que mais tarde.
O funil estava a esteitar-se há muito tempo, sem dúvida. Excelente nálise que subscrevo na íntegra, João.
Obrigado, Carlos. Infelizmente, estava escrito, não é?
PS/PSD como podem ser diferentes?
Os proprietários destes partidos são os mesmos.
Só mudam os empregados e os directores.
Vejam só este caso na sexta feira anterior há votação para a Presidência da Republica, o governo dito Socialista afim de garantir que não haveria segunda volta das referidas eleições, aumentou o imposto sobre os combustíveis para que um militante seu não impedisse que o vencedor já designado fosse eleito logo há primeira.
Por ordem de quem?
JOJORATAZANA
É uma excelente reflexão, meu caro. E muito oportuna, em ano eleitoral.
Ainda bem que o dizes. Também me pareceu, compadre.