As crises pela mudança


jmmcc,

A crise financeira estalou nos EUA e alastrou ao mundo. Com ela, inevitavelmente, surgiu a crise económica: se há uma crise financeira profunda, a economia é afectada sem remédio e não é preciso ser-se economista ou financeiro para o entender. Seguiu-se-lhe a crise social, que muitos ainda não gostam de referir por incomodidade política e por razões difíceis de entender: com a economia em crise, não há como fugir à quebra do investimento, por um lado, e do consumo, por outro, o que leva à quebra de produção, ao desemprego e à degradação social. A crise de que se fala é, portanto, um conjunto de crises encadeadas.

De modo muito simplificado, este é o quadro geral que está a condicionar o mundo. Contudo, é possível que a crise múltipla que vivemos vá ainda mais longe e só o arrastamento no tempo o dirá. Ninguém sabe se estamos também perante uma crise ambiental: a instabilidade da qualidade de vida, a falta de recursos, etc., podem estar a determinar contornos desta crise múltipla que ainda não estão avaliados.

A crise tem dado lugar, como se sabe, à tomada de medidas de excepção no sentido de tentar minorar as consequências nefastas que alastram diária e paulatinamente. Entre essas medidas — designadamente, de intervenção pública na economia, no mercado e na protecção social — algumas vão-se mostrando subavaliadas e outras nem sequer se sabe se servem os objectivos ou se estão a subvertê-los.

Com efeito, ter em mente a manutenção possível de uma situação conveniente para o desenvolvimento logo que a crise esteja dominada e possa ser ultrapassada é um risco ainda por calcular. Quer isto dizer que a protecção a sectores hoje considerados fundamentais para o arranque pós-crise pode ser um rotundo fracasso: nada garante que o mundo será o mesmo nessa altura.

A título de exemplo, veja-se a indústria automóvel: tentar protegê-la tem sido nota dominante em vários países e, no entanto, ninguém sabe se o sector automóvel continuará a evoluir como até aqui. E se a produção de veículos vier a passar definitivamente para modelos ambientais e tudo o que conhecemos ficar enterrado de vez no passado? Este é apenas um dos muitos cenários de mudança possíveis: a evolução interrompida pela crise dará lugar à mudança radical, determinada pela exigência, pela degradação ambiental e pela carência de recursos? Já a concentração de esforços, por exemplo, em energias alternativas e limpas pode ser positiva, se tiver em vista a sua eficiência e custos razoáveis.

Uma crise multifacetada e longa no tempo poderá implicar de facto uma viragem tão radical que o mundo jamais será o mesmo. As várias faces da crise são muitas e talvez ainda nem sejam todas visíveis. Ora, todos os planos para enfrentar a realidade e proteger os males estão a ser avaliados à luz do mundo actual. Quem consegue adiantar-se e preparar as coisas para o mundo novo que pode estar a formar-se? A saída da crise não devia ser um novo pesadelo, para que a mudança responda ao sonho de um mundo melhor, cuja necessidade é evidente há muito e se vinha acentuando em passo acelerado nos últimos tempos.

Visionários, precisam-se. Para que os meios, sempre parcos, não sejam desbaratados à toa e para que a crise, afinal, não seja completamente inútil.

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