Estarrecido


jmmcc,

Estou a assistir ao telejornal. Vejo câmaras municipais preocupadas com o frio que afecta os sem-abrigo e com a fome das crianças escolares. Vejo câmaras municipais preocupadas com as tolerâncias de ponto e com os carnavais. Fico estarrecido com este país assustador.

D. Duarte vai voltar à Síria?


jmmcc,

Há meio ano, assinalei aqui que o duque de Bragança tinha ido a Damasco descobrir que o presidente da Síria, Bashar al-Assad, é “um homem muito bem-intencionado” que “tem tentado democratizar e humanizar a política“. É evidente que isto de humanizar a política naquele país a ferro-e-fogo dá cada vez menos trabalho, porque os humanos são cada vez menos.

Só ontem, as forças militares do presidente, certamente orientadas pelas boas intenções do seu chefe supremo, mataram mais de 270 civis, daqueles que continuam a opor-se à democracia musculada de Bashar al-Assad em manifestações de rua às claras.

Gostava de saber se D. Duarte de Bragança, com o seu especial interesse pela evolução do regime sírio, tenciona regressar a Damasco para acompanhar as centenas de enterros dos que têm uma opinião diferente sobre as intenções do ainda presidente da Síria. Se não voltar lá, D. Duarte criou há seis meses uma obrigação de que tem andado a furtar-se, sem desculpa para tamanho silêncio: denunciar publicamente o massacre que o tenebroso ditador tem promovido, entre as mentiras de que está a abrir o regime e as promessas de que irá retirar-se.

Não sou necessariamente monárquico, mas sempre respeitei as monarquias constitucionais e não estou habituado a ver um rei calado e encostado a posições dúbias como D. Duarte entendeu fazer. Parece que tenho andado enganado, afinal.

Português Seguro


jmmcc,

Gostei de ouvir António José Seguro interrogar o primeiro-ministro no Parlamento sobre o cumprimento da aplicação do desacordo ortográfico. Tocou-me e comoveu-me. Mas não deixo de sugerir a Seguro que, antes desta suma preocupação que agita a sua veia política, comece por pôr muitos dos deputados socialistas a falar português correcto, que é uma coisa que anda tão arredada dos hábitos dos dirigentes políticos como dos hábitos dos dirigentes desportivos.

Se uma boa parte dos deputados conseguir passar a falar bom português clássico, é meio caminho andado para que a redacção dos diplomas venha a ser publicada numa versão definitiva à primeira e entendida por toda a gente. Como se vê, Seguro tem muito com que se entreter nesta matéria, se estiver verdadeiramente preocupado.

Coitado do Egipto


jmmcc,

Acabo de ouvir na televisão uma explicação da tragédia em Port Said que só por ser dita em egípcio sem sotaque é que percebi que não tinha saído da perspicácia de um português. À frente da câmara de reportagem, dizia o homem que «as forças de segurança foram impedidas de actuar».

Fiquei a pensar naquilo. Não seria mesmo o Rui Santos a falar egípcio? Então as forças de segurança foram impedidas de actuar?!? Será que as forças de segurança foram cercadas por algum desordeiro?

Coitado do Egipto. Primeiro, tiram-lhe o P. Depois, barram-lhe as forças de segurança. Agora, impingem-lhe o Rui Santos. O que mais poderá seguir-se? A extinção das percas do Nilo?

PS: paternidade e orfandade


jmmcc,

 

Sempre que ouço António José Seguro a perorar, fico com a sensação de déjà vu. Ele abre a boca e até já adivinho mais ou menos o que vai sair dali. São sempre as mesmas ideias (ou as mesmas faltas de ideias), naquele tom pouco firme e com a débil convicção de quem está metido no enorme molho de bróculos em que José Sócrates meteu o PS.

Por isso, não estranho que circule com força crescente a mensagem que tem chegado aos meios públicos de que os socialistas estão a sentir-se órfãos. Acredito. Seguro não só não é o pai como só lhes oferece um asilo que ainda nem sequer foi aprovado pela inspecção. Mas tenham calma, porque é muito capaz de ser melhor assim do que ter o padrasto que tiveram.

Biblioteca no banco


jmmcc,

 

Após este, este e este posts, as fotos de hoje ficam a dever-se à simpatia da nossa comentadora Gi. São pequenas bibliotecas junto de bancos para quem passa e tem tempo para sentar-se um bocado e ler. Encontram-se em Sogndalstrand, perto de Stavanger (Noruega).

 

 

Realmente, aliar o conforto à leitura no espaço público é um sinal de civilização que ainda anda bem longe de nós.

A biblioteca na paragem


jmmcc,

 

Depois deste e deste posts, ficamos agora a dever estas fotografias de bibliotecas em paragens de transportes públicos à nossa comentadora Madalena. São em Israel e recomenda-se que quem levar livros das prateleiras montadas nos abrigos os devolva ou deixe ficar outros, mas ninguém é obrigado a isso.

 

 

A verdade é que os livros andam de mão em mão e a iniciativa é apreciada por muita gente. Passageiros ou não.

A biblioteca na árvore


jmmcc,

 

No seguimento deste post, ficamos agora a dever esta fotografia da biblioteca numa árvore à gentileza da nossa comentadora Rita Maria. É em Berlim e recomenda-se que quem levar livros do tronco deixe ficar outros, mas ninguém é obrigado a fazer essa troca.

O certo é que os livros mudam facilmente de mãos, o que só pode ser bom.

Justiça: pelo prestígio e celeridade


jmmcc,

O projecto da actual ministra da Justiça é encerrar uma série de tribunais que tenham supostamente um reduzido número de processos, processos esses que passariam para outros tribunais. A ideia parece-me que vai para lá do mero factor económico, uma vez que tende a sobrecarregar tribunais maiores e até, provavelmente, com problemas de pendências. Vejamos.

A Saúde e a Educação, como se sabe, são sectores públicos que não é suposto darem lucro, certo? O mesmo acontece com a Justiça: como aqueles, este quer-se um sector que deve apostar, tanto quanto possível, na proximidade. Assim, como poderá encarar-se pacificamente que se fechem tribunais onde se faz justiça com maior rapidez e se agravem as situações mais complexas e demoradas?

Se houver boa-fé, a ideia da ministra deve ser repensada e revista. Não é difícil encontrar soluções alternativas para melhorar o deplorável estado em que a Justiça se encontra.

Uma das soluções é terminar com a chamada “competência territorial”. Ou seja: permitir que as partes em litígio não tenham de sujeitar-se à comarca a que pertencem, mas antes poderem escolher a comarca que melhor as sirva. Dir-me-ão: uma das partes (a arguida) é capaz de não estar muito interessada na celeridade dos tribunais. Pois bem: a escolha que referi pode ficar ao critério dos autores dos processos, que constituem seguramente a parte interessada na sua mais rápida conclusão.

Não me parece ser necessário lembrar que a degradação crescente do prestígio que devia enformar a Justiça está directamente relacionada com a falta de celeridade. E a celeridade constitui um dos aspectos mais sensíveis e decisivos do Estado, nas suas competências específicas a favor do desenvolvimento e do crescimento que procuramos com o dramatismo que se sabe.

Centremo-nos, pois, no prestígio exigível e em soluções exequíveis, visto que a Justiça já está de rastos o bastante para que ainda andemos a inventar.

A biblioteca do sem-abrigo


jmmcc,

 

Esta ilustração tem o seu quê de estranho e improvável, mas atrai-me. Imagino um sem-abrigo recente, alguém a quem a crise não quis poupar e atirou para uma situação indigente. Imagino o novo pobre, arruinado. Tudo perdido num ápice. Tudo, menos a sua biblioteca. Mesmo na rua, não é coisa que um homem dispense, enquanto for possível.