Há meio ano, assinalei aqui que o duque de Bragança tinha ido a Damasco descobrir que o presidente da Síria, Bashar al-Assad, é “um homem muito bem-intencionado” que “tem tentado democratizar e humanizar a política“. É evidente que isto de humanizar a política naquele país a ferro-e-fogo dá cada vez menos trabalho, porque os humanos são cada vez menos.
Só ontem, as forças militares do presidente, certamente orientadas pelas boas intenções do seu chefe supremo, mataram mais de 270 civis, daqueles que continuam a opor-se à democracia musculada de Bashar al-Assad em manifestações de rua às claras.
Gostava de saber se D. Duarte de Bragança, com o seu especial interesse pela evolução do regime sírio, tenciona regressar a Damasco para acompanhar as centenas de enterros dos que têm uma opinião diferente sobre as intenções do ainda presidente da Síria. Se não voltar lá, D. Duarte criou há seis meses uma obrigação de que tem andado a furtar-se, sem desculpa para tamanho silêncio: denunciar publicamente o massacre que o tenebroso ditador tem promovido, entre as mentiras de que está a abrir o regime e as promessas de que irá retirar-se.
Não sou necessariamente monárquico, mas sempre respeitei as monarquias constitucionais e não estou habituado a ver um rei calado e encostado a posições dúbias como D. Duarte entendeu fazer. Parece que tenho andado enganado, afinal.

Também eu lamento neste ponto, D. Duarte, meu caro.
Voltamos a estar de acordo, Joaquim.
Quando visitei a Jordânia, hospedei-me uns dias no Kempinski, em Amman.
No primeiro dia, quando precisei de utilizar a sanita, surpreendi-me com o pormenor de encontrar pétalas de rosa vermelha a boiar na água. Confesso, hesitei entre urinar ali ou no duche, só para não estragar aquele “mimo”. Por sorte, mesmo após ter descarregado o autoclismo, restaram algumas pétalas na água da sanita. No entanto, a maior surpresa surgiu na manhã seguinte, quando precisei de aliviar a tripa e quando pretendi usar o piaçaba… népias… não havia.
Óh raios, não queria deixar a sanita tracejada de castanho, mas, uma vez que não disponho da ferramenta adequada, terá mesmo de ficar assim.
Quando regressei ao quarto, a curiosidade levou-me a confirmar se já havia sido colocado o apetrecho junto à sanita. Nada, não encontrei nem tracajado, nem apetrecho. Quando desci para jantar, um pouco constrangido, dirigi-me à recepção e pedi para colocarem um piaçaba junto à sanita do meu quarto, o 212. O funcionário, sem desafivelar o sorriso, via-se que não estava a perceber o meu pedido. Depois de grande esforço, lá me fiz entender. Disse-me que não que a limpeza da sanita era feita pelos funcionários do hotel.
Xiça, pensei… mas que raio de gente é esta que limpa a merda que os outros cagam?!
Sim, eu sei que Jordânia não é Síria mas… humanizar deve ter o mesmo significado em qualquer parte do mundo.
Meu Deus, Bartolomeu, este seu comentário dificilmente ganhará o prémio de “comentário da semana”, mas está no papo o primeiro lugar para o prémio da escatologia…
É o que se chama um “quadro vivo”!
Oh minha Amiga… só posso garantir-lhe que o substantivo escatologia, não foi criado somente para definir aquilo que escrevo…
Pois não, mas olhe que foi muito bem aproveitado por si… 🙂
Fico-lhe eternamente grato pelo elogio, Ana.
;))
Não é preciso tanto tempo, Bartolomeu. 🙂
O tempo renova-se, por períodos mais ou menos longos, Ana.
;)))
Lolada Ana.
🙂
D. Duarte, entre visitas à Síria e o apoio ao imperialismo brasileiro, vai perdendo simpatias que granjeou ao longo de uma vida e tornando-se um exemplo vivo das desvantagens de um chefe de estado vitalício.
Hum…
Indecente cumplicidade de quem se cala.
Regime de fato e gravata, o ditador de requinte. E dizem-me que ele é médico. Uma nação culta e com história, com tanto potencial, está a ser terrível ver estes massacres.
Sem dúvida.
Foi na altura de uma ofensiva de charme do regime. Em várias revistas bonitas da moda americanas muito democratas vinha lá a esposa elegante. rchive/2011/02/vogue-defends-profile-of-s yrian-first-lady/71764/
http://www.theatlantic.com/international/a
O link para a Vogue já morreu..
Também aconteceu o mesmo com Kadhaffi e os seus filhos e as Universidades como a famosa LSE. Nada que alías também não aconteça com o dinheiro saudita e as Universidades…
Sintomático.
Tens toda a razão.
Como acontece em tanta coisa e com tanta gente, D. Duarte é muitas vezes mal interpretado, a comunicação sofre interferências e a mensagem chega-nos estropiada.
Mas nem por um segundo acredito que o defensor da causa do povo de Cabinda e do povo de Timor – quando essa defesa não angariava visibilidade alguma – sancione as atrocidades na Síria.
Aquele Gabinete que o rodeia é de uma inoperacionalidade confrangedora, não sei em que é que ocupa os seus dias… Só sei que fazer o seu trabalho, não faz.
Ainda bem que me dizes que deve ser inépcia do Gabinete. Mas o duque é que se sai mal.
Na prática a minha leitura não interessa nada, porque ele é senhor dos seus actos e só por eles é avaliado. Mas eu sei que ele está servido por uma péssima estatégia de comunicação. Serei tudo menos uma especialista nessa matéria, mas quem o é sabe muito bem quanto isso é crucial.
Eu diria que os seus causídicos o defendem de tudo menos daquilo que verdadeiramente interessa.
Cambada de serviçais à sombra do bem-bom, portanto.
Errare humanum est.
Não percebo porquê o também de começarem de repente a falara numa visita que já foi há imenso tempo.
Cheira-me a situacionismo…
Pois aqui cheira-me mal.
O duque foi à Síria e disse o que disse de abonatório. Criou com isso uma obrigação, que é agora denunciar as atrocidades. Se não queria falar agora disto, não teria lá ido para falar o que falou. Quem não quer ser lobo não lhe veste a pele.
Mas eu acho que já tinha explicado muito bem o que queria e estou a repetir-me. Afinal, qual foi a palavra que não tinha percebido antes?
Caríssimo João Carvalho, de novo nos encontramos nestas “lides” e o debate promete continuar, melhorando, claro, mesmo com um cenário um pouco obscuro.
Para começar deixo já claro que também reprovo em absoluto o massacre que se acentua nos últimos dias, mas a situação na Síria e dos países vizinhos tem-se mostrado muito pouco clara nestes meses de desenvolvimento. Talvez se lembre que num seu outro post sobre o mesmo assunto eu salientei a nossa “condição de receptores de uma informação possivelmente filtrada numa versão oficial”, e é aqui que eu quero tocar, pois o que não falta são depoimentos que contrariam esta tal versão oficial. Melhor era que fosse tudo mais preto e branco, mas infelizmente quando o que está em jogo são interesses políticos e económicos os dados são sempre bastante complexos. Primeiro porque o que acontece não é simplesmente um povo que exige uma democratização de um regime, já com aspectos ocidentalizados para a norma, mas antes uma imensa massa denominada de sociedade civil onde se crê que estejam infiltradas associações muito pouco democráticas como a Irmandade Muçulmana e que vêem agora a possibilidade de aumentar a sua área de influência. De seguida, há também que questionar os verdadeiros interesses dos EUA e das potências europeias como a França e Alemanha na saída de Bashar al-Assad do poder : já temos a experiência do Iraque para poder desconfiar da bondade ocidental. Por fim, tal como já se falava, tem-se visto que as quedas dos grandes ditadores não têm sido propriamente o sinal de uma democratização desses países, daí que dá para adivinhar o que sucederá com a Síria. Volto portanto a salientar a obscuridade dos dados de que dispomos.
Em relação a Dom Duarte, dou-lhe inteira razão quando diz que “criou há seis meses uma obrigação”, a de vir publicamente condenar estes actos e fechar um capitulo que foi aberto na altura em que atendeu ao pedido de ajuda do presidente sírio para o avanço da democratização da Síria. Acontece é que o faço com a absoluta certeza de que D. Duarte tomou essa atitude com a consciência de que tinha meios para o poder ajudar. Ele esteve no terreno, falou com a oposição e sentiu que havia condições para avançar nas negociações para a redacção de uma constituição, acontece é que al-Assad não aproveitou a deixa…ou não o deixaram…incógnita!
Quanto a D. Duarte tem já o sucesso das negociações com a Indonésia na altura da libertação de Timor, que chegaram a bom porto graças à sua influência na diplomacia internacional, que em todo o caso deveria ser tida mais em conta. E que lembro agora que, antes de terem tido um final feliz, também lhe valeram acérrimas criticas até se provar que afinal tinha razão.
Meu caro, o futuro a curto prazo da Síria e dos restantes países que entram na eufemisticamente chamada “Primavera Árabe” é mais do que duvidoso, efectivamente. Estamos, pois, de acordo. Mas ninguém espera que a transição seja pacífica e rápida: quer-se que tais sociedades estejam a descobrir que precisam de mudar e elas descobriram-no e estão a mover-se.
Porém, Henrique, não é disso que trata este meu post. O que eu assinalei (aliás, com desgosto) é que D. Duarte criou, por vontade própria, uma obrigação: ao defender Bashar al-Assad de forma inusitada há seis meses, deixou de poder ficar calado perante as atrocidades que pesam nas decisões do ditador contra o seu próprio povo.
Em suma: ninguém pediu a D. Duarte que fosse a Damasco pôr-se ao lado do chefe do regime sírio, mas passou a ser exigível, desde então e por isso mesmo, que o duque de Bragança não se escondesse no silêncio perante o massacre continuado na Síria.
Só que ele escondeu-se, Henrique. Lembro-lhe as palavras que escreveu em Julho do ano passado: «D. Duarte está de facto a apoiar al-Assad na sua transição democrática, e se um sistema democrático na Síria for mais eficazmente implantado pelas mãos do ditador a prazo, então que assim seja».
No entanto, a transição não chegou nem está a chegar e D. Duarte, sem corrigir e actualizar o que declarou há seis meses, está a perpetuar essas inesperadas e insólitas declarações. Continua escondido, portanto, mas não mais escondido do que a avestruz.
Ainda bem, estamos então de acordo com a evolução dúbia da Primavera Árabe. É que era preciso que isso ficasse claro.
Quanto a Dom Duarte, vejamos: o que se passará? Escondido será talvez uma expressão forte demais, pressupõe medo e não há razões para tal, mas não quero ir por aí! Espero é que o seu Gabinete não esteja, sim a esconde-lo, porque, embora cada um seja responsável pelos seus actos, o ambiente formado por quem deve aconselhar e ser ouvido tem um papel importante.
Certo. Mas não mais importante do que o assessorado, que é quem deve escolher os assessores de que se faz rodear.
Escondido é uma expressão que retrata a situação política de quem deixa de dar a cara quando deve. Apenas isso.
Um abraço, Henrique.