Francesinhas: 40 anos de resistência


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Hoje em dia não precisamos de ir à Argentina para comer um “bife de chorizo”, a Espanha para comer uma boa “paella” , a Marrocos para comer “couscous” nem ao Japão para comer “sushi”. A globalização – para além dessa péssima criação que é a “cozinha de fusão” – permitiu que a gastronomia típica de cada país se internacionalizasse e se tornasse acessível em todo o mundo ocidental.

É verdade que a cozinha portuguesa, talvez fruto das suas características, não tem sido dada a muitas experiências internacionais. De qualquer modo, já é possível encontrar, em vários países, deficientes imitações  do “bife à portuguesa”, do “bacalhau à Lisbonense” ou dos pastéis de nata.

Há, no entanto, um prato que resiste a qualquer internacionalização: a “francesinha”.

Criada nos anos 60 por um cozinheiro que tinha sido emigrante em França, esta iguaria permaneceu, durante quatro décadas, confinada à cidade do Porto – onde teve origem.

Nos últimos anos a sua popularidade propagou-se a outras zonas do país mas, garante-vos um apreciador deste delicioso manjar, que não existe em nenhum outro local uma única réplica que mereça os louvores dessa criação do restaurante “A Regaleira”, na Rua do Bonjardim.

Fiz várias tentativas, em vários restaurantes do país, mas  quase todas se revelaram decepcionantes. Não só ao nível dos ingredientes, mas também no que concerne ao ponto de cozedura do pão e à textura do molho, nenhuma se compara às que se podem comer em alguns locais do Porto (mas aviso desde já que também no Porto se vende muita “francesinha” que não respeita os cânones idealizados pelo seu criador). 

Registo com apreço a resistência à globalização desta iguaria ímpar nascida à beira do Douro, mas  hoje apetecia-me uma “francesinha” para me aliviar a tristeza deste dia plúmbeo que me aviva a memória de um país de cinzentões. Vã é a minha esperança. Em Lisboa, só encontro “francesinhas” de contrafacção.

A facilidade da escolha


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Ninguém escolhe a família. Logo, parece-me abusivo associar a conduta de uns familiares de Sócrates  a eventuais culpas do PM no caso “Freeport”.

Posição diferente tenho em relação ao caso “Face Oculta”. Se não podemos escolher a família, podemos escolher os amigos. Sócrates soube escolher os “amigos” dentro do PS, capazes de assegurar a sua eleição para secretário-geral. Só que em política as amizades, tal como os almoços, nunca são grátis. Por isso, quando foi escolhido pelos portugueses para exercer o cargo de PM Sócrates teve de pagar a “amizade”, escolhendo para seus colaboradores, alguns dos que o ajudaram a chegar a secretário-geral.

A lista de secretários de Estado do actual governo é bem esclarecedora. Alguns dos nomes escolhidos não têm perfil para desempenhar o cargo e estão tão deslocados no elenco que parecem ter sido arrumados como as jóias de família de que os herdeiros não se querem desfazer, mas não sabem onde colocar. O mesmo se terá passado na escolha de determinados nomes para os conselhos de administração de algumas empresas, agora indiciados no caso “Face Oculta”.

Se alguma(s) dessas pessoas vierem a ser constituídas arguidas e posteriormente  acusadas e condenadas, Sócrates não poderá eximir-se a  responsabilidades no plano político. As escolhas foram feitas por ele, logo deverá tirar daí as devidas ilações e consequências. Não pode é fazer como a avestruz.

No longínquo ano de 1989


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1989 foi um ano rico em acontecimentos que provocaram grandes mudanças no mundo. Os ventos de Leste sopraram forte e, logo em Janeiro, morre o imperador japonês Hirohito. Será porém, em Junho, que do Oriente surgem sinais preocupantes. Muitos tiveram oportunidade de assistir, em directo, ao esmagamento de um tímido movimento democrático chinês. O ocidente conheceu uma nova Praça: chama-se Tian an Men, fica em Pequim, para ali convergiu a atenção do mundo inteiro e serve de porta de entrada para a Cidade Proibida. As imagens de um tanque a avançar em direcção a um jovem perduram ainda hoje na memória de muitos.

Já se andava a prever há alguns anos, mas só acontece em Novembro: o Muro de Berlim cai e atrás dele caem os regimes comunistas. O bloco de leste desmorona-se com estrondo mas sem surpresa, deixando um lastro de esperança no futuro. Os comunistas não souberam pactuar com a sociedade de consumo, acabaram devorados por ela!

A informação volta-se toda para leste e a televisão assenta arraiais do lado de lá da "Cortina de Ferro". Inconsciente, pérfida e gulosa apresenta ao mundo o primeiro "reality show" ao transmitir em directo a morte do ditador romeno Ceausescu. O mundo mostra-se chocado, mas no fundo não esconde a sua tendência "voyeurista", por isso, não resiste a rever a cena em diferido. A televisão inicia uma nova era. Para contrabalançar, na Checoslováquia um poeta – Vaclav Havel – é eleito Presidente.

A queda do Muro ocorreu em Novembro mas, em Maio, abrira-se a primeira brecha, com a Hungria a abrir as suas fronteiras com a Áustria, proporcionando assim a fuga de milhares de pessoas para a Europa Ocidental.

As convulsões chegam também à América Latina. Os ditadores sul-americanos começam a ser derrubados. No Paraguai , Stroessner é destituído por um golpe de estado e foge para o Brasil, onde a eleição do presidente Collor de Melo abria sinais de esperança. O bárbaro Pinochet, que durante 16 anos inundou de sangue o Chile, é finalmente arredado do poder pelo democrata-cristão Patrício Aylwin. Não se podia ainda falar de democracia no Chile, mas a ditadura de Pinochet terminara e o povo chileno respirava de alívio. Também na Argentina, Carlos Menem – presidente que apesar de tudo não deixaria saudades na pátria azul-celeste – coloca fim às sucessivas tentativas golpistas da direita.

Em Inglaterra, “ Os 4 de Guilford” tornam-se protagonistas do maior escândalo judicial na terra de Sua Majestade. Condenados a prisão perpétua, em 1975, quatro irlandeses são finalmente libertados, depois de conseguirem provar a sua inocência. O caso foi rocambolesco, com a justiça inglesa a recusar, durante 12 anos, aceitar o seu erro, apesar de os verdadeiros autores dos atentados terem confessado a autoria. Dava-se início a uma série de casos de erros judiciais que colocam em causa a isenção da justiça nos regimes democráticos.

 

Os jovens do mundo ocidental vivem empolgados o desenrolar dos acontecimentos de 89. (Alguém, reparou que lido ao contrário é 68?) Mas os ídolos e os ícones são diferentes. Cohn Bendit é preterido em favor de Karl Popper, em vez de flores na cabeça usam cartões de crédito nos bolsos, e trocam a leitura da Rolling Stone pelo Financial Times. Ao interesse pela evolução dos tops musicais sucede-se uma crescente atenção às cotações da bolsa. É que os jovens do final dos anos oitenta já não são hippies. São yuppies e em vez dos jeans coçados envergam gravatas de padrões psicadélicos, fatos de marca e circulam em carros topo de gama, de telemóvel em riste.

Khomeiny apela à condenação à morte Salmon Rushdie, autor de "Versículos Satânicos", mas quem morre é o ayatollah.

Mais um desastre ecológico de grandes proporções é protagonizado pelo petroleiro Exon Valdez, ao derramar 42 mil toneladas de petróleo no Alasca. Em Espanha regista-se, em Outubro, um grave acidente na central nuclear de Tarragona. Quem já não assiste ao incidente é Salvador Dali que meses antes (em Janeiro) morrera em Figueres, a escassas centenas de quilómetros da central nuclear. Entretanto começa a falar-se que em Inglaterra e na Holanda as vacas estão a ficar loucas. Para muitos trata-se de mera ficção, mas em breve vão perceber que estavam enganados.

A costa alentejana é atingida por uma maré negra, enquanto o País dança nas discotecas ao ritmo da Lambada. O telemóvel chega a Portugal e os portugueses lêem a "Crónica do Rei Pasmado". O novo aparelho é muito caro, apenas ao alcance de bolsas mais abonadas, mas não tardará que se transforme numa praga e um restaurante lisboeta afixe à porta: "Proibida a entrada a cães e a telemóveis".

É ainda neste ano que, com três letras apenas, se passa a escrever a palavra imposto (IRS).

 

 (nota: este texto foi recuperado da série "Rochedo das Memórias – A História do século XX"

Olha que giro!


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«No entanto, se era uma ditadura do proletariado,

"não era tudo preto ou branco".

Eu era feliz, e não quero esquecer

esses 35 anos da minha vida»

Estas palavras não foram proferidas por um agente da Stasi.Saíram da boca  da chanceler alemã Angela Merkel, que viveu na RDA de 1954 a 1989. ( Obrigado ao Vítor Dias,Tempo das Cerejas, por me ter lembrado).

Depois de ler tantas opiniões, tantas reportagens,  tantos posts  sobre o Muro de Berlim e constatar que a maioria das pessoas só consegue analisar as coisas, do lado de cá, estas palavras da chanceler alemã foram um autêntico bálsamo para os meus ouvidos.

Aprendi, em pequenino, que se o Criador nos deu dois olhos, foi para nos permitir ver tudo em duas perspectivas. Já adolescente, estudante de Direito, aprendi a descobrir o lado bom dos criminosos e o lado mau das suas vítimas. Uma das primeiras coisas que aprendi no jornalismo, foi que a notícia tem sempre duas faces. Infelizmente são princípios que se perderam ao longo do tempo, especialmente quando a informação passou a ver o mundo, apenas pelos olhos do ocidente.

O que ontem escrevi nas Crónicas do Rochedo e no Delito de Opinião, não era uma provocação.Pretendia, apenas, chamar a atenção para o perigo de ver o mundo apenas de um lado.  Há quatro pontos cardeais, cada um deles tem a sua razão de existir. O arco íris tem sete cores, não apenas uma. E se os períodos de 24 horas se dividem entre noite e dia, nem todos os dias está sol, nem todas as noites o céu está estrelado. Foi essa reflexão, e esse alerta  que quis deixar ontem.Porque o pensamento único e politicamente correcto, que nos querem impôr, francamente chateia-me!

As aparências (às vezes) iludem…


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Uma velhinha estava parada no passeio, junto à rua, aparentando dificuldade em atravessar. Um jovem que passava viu a oportunidade de praticar uma boa acção. Abeirou-se dela  e disse:

– Eu ajudo-a a atravessar, venha comigo!

– Não, não se incomode…

– Não custa nada, venha lá comigo…

A senhora deixou-se levar.  Quando chegaram ao outro lado da rua, o jovem perguntou:

– Quer que a leve a algum sítio?

– Não, eu só estou à espera que o meu filho me venha buscar.

– E onde é que o seu filho a vem buscar?

– Ao pé da farmácia, do outro lado da rua…

(Moral da história: nem sempre a prática de uma boa acção permite alcançar os resultados desejados)

O champagne ainda está no congelador


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Não gosto de muros, seja qual for a sua origem ou a justificação esfarrapada para os erguer. Não fiquei por isso, indiferente, quando há 20 anos o muro de Berlim começou a ser derrubado. Mas, como antevi no próprio dia em que o muro de Berlim se começou a desmoronar,  outros se ergueram depois. Com o mesmo ódio e insensibilidade que levou a construir o de Berlim, separando famílias, matando sonhos, privando milhões de cidadãos da liberdade. Ergueram-se perante a indiferença dos que aplaudem a queda do muro de Berlim.

Não encontro, por isso, razões para festejar seja o que for, enquanto houver muros a servir de barreira à liberdade. Fá-lo-ia, se  a queda do muro de Berlim tivesse contribuído para a paz e segurança no mundo. Mas, se isso tivesse acontecido, as Twin Towers ainda estariam de pé, não teria havido a invasão do Iraque, os Balcãs não se teriam tornado num barril de pólvora, não estaríamos a assistir às chacinas diárias no Afeganistão, no Iraque ou no Paquistão. Arrisco mesmo dizer, que as democracias ocidentais talvez estivessem mais solidificadas, a corrupção não teria alastrado como um cancro e teríamos mais paz e estaríamos mais seguros, se o império soviético não se tivesse desmoronado como um baralho de cartas, deixando o ocidente de mãos livres para agir, sem a ameaça do inimigo de Leste.

Dir-me-ão alguns que os cidadãos de Leste vivem agora mais livres e mais felizes. Nos últimos dias, li vários testemunhos de cidadãos dos países de Leste na imprensa portuguesa e estrangeira, que o desmentem. Não se enxerga por lá tanto entusiasmo como no ocidente e entrevê-se, aqui e ali, algum saudosismo do passado. Todos os que foram capazes de olhar para o Muro dos dois lados, compreenderão porquê.. A maioria, porém, ficou do lado ocidental e guardou um bocadinho como “souvenir”. Inebriada com a queda, esqueceu-se que do outro lado também havia vidas. Foi isso que jornais como o “Público” ou o “El País”  quiseram mostrar. Que do lado de lá  nem todos comungam da euforia ocidental. Mesmo sem serem simpatizantes do comunismo, nem terem pertencido à Stasi, não apreciam um modelo social que aprofunda as desigualdades, e se baseia exclusivamente no poder do dinheiro. 

Os muros têm sempre duas faces. Estive do "outro lado"antes e depois da queda do muro e do desmembramento  da URSS. A viajar e a trabalhar.

Dois anos depois da queda, os países de Leste eram invadidos por uma parafernália de produtos ocidentais, mas também de contrafacção feita na China, Tailândia ou Taiwan e pagavam custos sociais elevados.Na Polónia, Hungria e Checoslováquia o desemprego crescia assustadoramente ( 2 milhões na Polónia no final de 1991) o poder de compra descia 30 por cento e os mendigos começavam a invadir as ruas de Varsóvia, Budapeste  e de outras cidades do Leste Europeu.

Os preços dos bens essenciais duplicavam em 12 horas, a inflação  era galopante, registava-se  uma queda na produção (por dificuldades em exportar e pela reduzida procura interna) e  a descida vertiginosa do Produto Nacional Bruto, que atingia 28 por cento na Roménia e 30 na Bulgária.  

A queda do muro de Berlim, tão festejada no ocidente, não contribuiu para a queda dos  fundamentalismos, nem para a paz e cooperação entre os povos, porque representou, apenas, a vitória da Internacional Consumista, que edificou outros muros muito mais difíceis de derrubar.

Um mundo mais seguro?


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Radovan  Karadzic, líder do Partido Democrata Sérvio, é apenas um dos rostos  da tribo sanguinária emergente após a libertação dos países do Leste Europeu do jugo soviético. Acusado de genocídio pelo TPI,  durante a guerra da Bósnia (1992-1995), RK  terá sido o mentor do massacre de Srebrenica, onde oito mil muçulmanos foram assassinados,  e de “limpeza étnica” durante o cerco a Sarajevo – que vitimou 12 mil civis.

Caiu um Muro, mas continuou o terror.

Desculpem, mas não resisti…


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Pensava que só os pulhas e os escroques utilizavam a blogosfera para  recorrer à calúnia e à difamação. Afinal, também há jornalistas – que se autoproclamam candidatos ao prémio Nobel da Literatura – capazes de escrever textos com um chorrilho de mentiras e dislates. Se o post não estivesse assinado, diria que tinha sido escrito por um atrasado mental. Mas não. É só um post de um frustrado.

Tantos Muros para derrubar…


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É óbvio que me congratulo pela queda do muro de Berlim. No entanto, lamento, mas não festejo. Porquê? Porque vejo, 20 anos depois da anunciada liberdade, os Estados Unidos a construírem um muro na fronteira com o México; vejo Lampedusa;  vejo Guantánamo; vejo alguns governos europeus a fazerem leis discriminatórias para os imigrantes; vejo, na Eslováquia, um muro a erguer-se para isolar a comunidade cigana.  E, acima de tudo, incomoda-me o silêncio ensurdecedor e hipócrita a respeito deste muro.

Noites de Ljubliana


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Estava uma noite escura como breu quando aterrei em Ljubliana. Não se ouvia o ribombar dos trovões, mas os sucessivos relâmpagos que rasgavam o céu testemunhavam a intempérie.

Uma luz branca suja  iluminava a sala de desembarque, conferindo ao ambiente um ar de presídio. As pessoas alinhavam-se em duas longas filas, diante de homens fardados que escondiam a carranca por detrás de óculos escuros. Perguntei-me a razão de os guardas da alfândega usarem óculos escuros numa noite de tempestade, mas os meus botões, únicos interlocutores possíveis naquele momento, não me deram resposta. Optei pela fila da direita. Estava  avisado do rigor do inquérito alfandegário e preparei-me para uma longa espera. Era quase meia-noite, o avião aterrara com duas horas de atraso, devido a uma paragem não prevista em Milão, forçada pela tempestade. Fiz figas para que a pessoa que me devia esperar do outro lado da fronteira não  tivesse debandado. Sabia o nome do hotel, mas não tinha moeda local para pagar o transporte e a agência do banco local já encerrara. .

A fila foi avançando lentamente e o mau humor dos guardas alfandegários parecia aumentar à medida que ia engrossando. Passara quase uma hora quando enfrentei o guarda. Apresentei-lhe o meu passaporte diplomático. Ele tirou os óculos escuros, fixou demoradamente o olhar em mim e finalmente perguntou:

-Quanto tempo vai ficar na Jugoslávia?

– Para já, três meses…

O corpo de quase dois metros de altura virou-me as costas mostrando o coldre que abrigava uma arma. Parecia procurar qualquer coisa que não encontrava. Fez-me um sinal para esperar e afastou-se em passo lento. Levou com ele o meu passaporte, que segurava na mão direita e fazia bater na esquerda em compassos impacientes. Vi-o desaparecer por detrás de uma parede cujo único ornamento era uma fotografia de Tito.  Passados uns minutos, voltou acompanhado de uma mulher  igualmente fardada em tons de castanho esmaecido debroados  a vermelho vivo. A farda escondia-lhe as formas, mas não o cabelo loiro curto e dois olhos verdes emoldurando um rosto agreste e másculo.  Olhou-me sem mexer um músculo da face. Depois folheou o passaporte e perguntou:

– Vai ficar em Ljubliana?

– Apenas esta noite. Amanhã sigo para Split . É lá que vou ficar.

-Onde vai ficar esta noite?

– No hotel …

– Como vai para lá?

– Tenho alguém à minha espera lá fora.

– Nome?

– Jorge Martinez. É funcionário da OCDE.

– Sabe onde é que ele está à sua espera?

– Creio que deva estar na sala de espera, mas é a primeira vez que cá venho, não conheço o aeroporto. Provavelmente terá um cartaz com o meu nome.

Mandou-me sair da fila e aguardar.

Embora um silêncio respeitoso continuasse a pesar no ambiente da sala, senti que as pessoas respiravam de alívio atrás de mim. A fila  ia voltar a mover-se.

O guarda alfandegário voltou à sua rotina.

Já só havia três ou quatro pessoas na fila, quando a mulher regressou. Vinha com cara de poucos amigos.

– Não há ninguém com esse nome à sua espera.

– Mas deverá estar alguém. Não viu nenhum cartaz com o meu nome?

– Não. Acompanhe-me.

Deixei-me conduzir. Desaguei numa sala tão inóspita como a anterior. Apenas os tectos eram mais altos e no topo havia um varandim onde meia dúzia de pessoas deviam estar a aguardar  familiares.  Olhei em volta, à procura de um cartaz com o meu nome. Em vão.

– Se não estiver ninguém à sua espera, nós levamo-lo ao hotel. Amanhã de manhã  resolveremos o assunto. Sabe como vai para Split?

– Não. Alguém irá buscar-me ao hotel.

Finalmente o rosto da mulher abriu-se num sorriso.

– A mesma pessoa que devia estar aqui à sua espera?

– Tenho um número de telefone. Amanhã de manhã entro em contacto, no caso de não aparecer ninguém.

Um homem apareceu junto de nós, vindo do nada. És o Carlos Oliveira? Desculpa, mas atrasei-me com o temporal. Devia ter saído de Split mais cedo, porque a estrada está um caos. Acompanhou a frase, em espanhol, com um gesto indicador de destruição.

A zelosa funcionária perguntou:

– É esta a pessoa que devia estar à sua espera? Virando-se para o Jorge pediu-lhe os documentos.

……..

Saímos do aeroporto em direcção ao hotel. A cidade estava deserta.

No dia seguinte, um sol anémico espreitava entre nuvens ameaçadoras. Antes de partirmos para Split, o Jorge ofereceu-me uma visita rápida pela cidade. Subimos ao castelo, descemos para o centro histórico, atravessámos o rio Ljublinica, percorremos algumas ruas ladeadas de edifícios belíssimos, respirando história. Tomámos um café num  local que me pareceu inóspito, na rua Mestni. Passavam pela rua algumas pessoas, cujo caminhar me fazia lembrar a marcha dos militares. Mulheres jovens, altas e bonitas vestiam de forma simples, embora mais descontraída do que noutros países de leste. A breve visita deixou-me uma sensação de incomodidade. Estava lá tudo que qualquer cidade deve ter, mas faltava-lhe um sopro de vida. Quiçá um beijo de um príncipe encantado que a despertasse do torpor em que parecia mergulhada.

Esta foi a Ljubliana que eu vi em 1985. Cerca de 20 anos depois, quando lá voltei, a cidade parecia ter ressuscitado de um período de hibernação. Resta saber se foi graças ao beijo de um príncipe, ou de uma malévola figura disfarçada de fada madrinha, que a cidade ficou assim. 

 

Da gripe A à gripe C


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A gripe A tem sido a grande figura mediática do Outono. Os vírus, como algumas pessoas, ganham protagonismo não pela sua capacidade  técnica ou intelectual, mas pela forma como se insinuam e conseguem passar a sua mensagem junto da comunicação social. Foi o que aconteceu com o vírus da gripe A. Sendo menos letal do que o vírus da gripe sazonal, ganhou mediatismo graças à prodigiosa capacidade de contágio, que pôs a Organização Mundial de Saúde em alerta e a indústria farmacêutica com os cofres a abarrotar.

Acontece o mesmo com algumas pessoas. Sendo medianamente competentes , conseguem alcançar um lugar  mediano que lhes permite  exercer, de forma tentacular, a sua influência. Vão ganhando  prestígio e poder até se transformarem em  vírus disseminadores da corrupção.

Foi  este vírus  que espalhou pelo  mundo  a gripe C. De crise. A gripe C é muito mais letal do que a gripe A. Ao longo deste ano condenou milhões de pessoas a uma morte lenta, atirando-as para o desemprego, de onde não sairão até ao fim das suas vidas. O vírus da gripe C é sádico. Não mata, mas infecta, sujeitando as vítimas a um sofrimento terrível: desemprego,   miséria e fome. Não provoca uma doença física, mas uma doença moral que mina toda a sociedade. A competência deste vírus não deixou dúvidas a ninguém  e a crise por ele desencadeada foi anunciada como sendo a mais grave desde 1929.  Não admira, por isso, que tenha estado no centro das atenções do mundo inteiro durante quase um ano.

Entretanto, os governos descobriram a vacina contra o vírus da gripe C. Para o combater,  injectaram dinheiro dos contribuintes nos agentes disseminadores: os bancos.  Os contribuintes reagiram mal, quando souberam que teriam ser eles a pagar a vacina. O ambiente social ameaçava entrar ebulição, quando se deu o milagre.

Corria a Primavera para o fim, no hemisfério norte, quando   o México anunciou que um vírus turista desembarcara em Cancún e lançara o pânico e a morte entre a população local. De imediato o centro das atenções desviou-se para este novo agente. As doenças físicas exercem sempre maior atracção sobre os media do que as doenças morais. São mais visíveis as suas características e os seus efeitos mais devastadores e espectaculares. Por isso os media se agarraram a ela com unhas e dentes. Mostrar cadáveres é muito mais emocionante do que falar de cidadãos enfermos.

Chegado o Outono ao hemisfério norte,  sendo o número de mortes provocados pela gripe A insignificante,as notícias centraram-se nos seus potenciais efeitos devastadores. Simultaneamente, era anunciado que a gripe C dava fortes indícios de rápidas melhoras. Sintomas da convalescença?  As bolsas recuperam,os governos continuam a injectar dinheiro nos bancos, para que os administradores possam continuar a receber vencimentos principescos,à custa do dinheiro dos contribuintes, e renova-se o apelo à moderação salarial.

Obviamente, as notícias de recuperação da crise são manifestamente exageradas. Assim como nenhum doente recupera de uma doença gastro-intestinal, comendo feijoada e caril todos os dias, também nenhuma crise financeira pode ser debelada se os seus agentes continuarem a ser premiados com salários indecorosos pagos pelos contribuintes. Não se recupera de uma doença grave com recurso às mèzinhas das receitas tradicionais: fortalecendo vírus (os bancos e o grande capital)  e mantendo os doentes à míngua, com salários baixos.

Com este receituário, a convalescença da crise é uma quimera. Uma recaída (esperada) poderá fazer o mundo entrar em coma profundo. É preciso fazer alguma coisa, antes que seja tarde mas, por agora, a única notícia boa é que o vírus Blair – ideólogo da mentira, do nihilismo da Terceira Via e um dos grandes  responsáveis pelo retrocesso da Europa  – foi afastado da corrida à  presidência europeia. Paz à sua alma.

Estamos taxados


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A sociedade de consumo tem destas peculiaridades. Oferece-nos  gratuitamente um produto ou um serviço mas, no momento em que o retorno dessa “oferta” se esgota, passa a cobrá-lo.

Foi o que aconteceu com os cartões multibanco, por exemplo. Ao lançar o cartão multibanco e a generosa rede de caixas automáticas que nos permite levantar dinheiro com a sensação de que estamos a sacar dinheiro de uma “slot machine”, os bancos não estavam apenas a facilitar-nos a vida. Estavam a incentivar os consumidores a  utilizar   um serviço que, num breve prazo, lhes iria diminuir os custos de funcionamento, mediante a dispensa de um grande número de trabalhadores. Por isso, os cartões multibanco  começaram por ser gratuitos.

Depois, a pretexto da introdução de novas funcionalidades, como a possibilidade de fazer transferências e efectuar pagamentos de serviço,  passaram a cobrar anuidades. A fase seguinte consistiu em estratificar socialmente os utilizadores dos cartões de crédito, com a criação dos cartões de ouro e platina, cujas anuidades eram directamente proporcionais à conta bancária do seu possuidor.

Agora, que os cartões dourados estão mais disseminados na sociedade portuguesa do que as falsas loiras, e os bancos já não podem reduzir mais o número de funcionários, pretendem aplicar uma taxa por cada operação realizada.

Não é a primeira vez que os bancos ensaiam esta proposta. Já o fizeram em 2001 e, na altura, tive oportunidade de alertar os consumidores portugueses para as acções que deviam tomar, no caso de a ameaça se concretizar.

Nem de propósito. Uma directiva comunitária vem  permitir aos comerciantes cobrar uma taxa aos consumidores que pretendam pagar as suas compras com cartão de débito ou crédito. Provavelmente, a maioria dos comerciantes não  a aplicarão, mas muitos sentir-se-ão incentivados a fazer repercutir esse “extra”no preço dos produtos. É que isto do mercado livre e da concorrência é uma treta, quando as associações incentivam os seus associados a aproveitar janelas de oportunidade…

Assim, como a moda corre o risco de ser mais contagiosa do que a gripe A, aqui fica uma lista de eventuais taxas que podem vir a ser aplicadas aos consumidores, num futuro próximo, se a influência de alguns grupos de interesses, em Bruxelas,  almejar os seus objectivos e conseguir alargar o âmbito da Directiva.

Um Polvo no País das Maravilhas


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No caminho de regresso a Lisboa  fico a saber do mais recente escândalo de corrupção, envolvendo nomes que abandonaram a política, para exercer cargos bem remunerados no sector privado.  De imediato sou forçado a recordar os casos que no último ano  têm animado a comunicação social e ajudado a vender alguns jornais:  o BPN e o Freeport. Não posso evitar a  recordação de outros casos ainda mais antigos, como o Portucale que continua, como tantos outros, a marinar nas malhas das investigações ou da justiça.

A comparação com a rapidez do julgamento de Madoff foi inevitável. Por cá espera-se que as coisas caiam no esquecimento.

Nesta associação de pensamentos recordo um amigo chinês que, há meses, foi acusado de tentativa de corrupção. Era visto no seio das comunidades portuguesa  e chinesa, de Macau, como uma pessoa honesta. Trabalhei com ele no Conselho de Consumidores, acompanhei-o  em diversas viagens de trabalho e a sua conduta sempre me pareceu irrepreensível .

A suspeição foi levantada pelo Comissariado  da Corrupção e nunca chegou ao Ministério Público, nunca foi constituído arguido, nem viu formulada qualquer acusação. Talvez por não suportar ver o seu nome arrastado na lama, Alexandre Ho  foi até à vizinha cidade chinesa de Zuhai, alugou um quarto num hotel e suicidou-se.  Era acusado de ter recebido 20 mil patacas (cerca de dois  mil euros)

Por cá os arguidos, mesmo condenados em primeira instância, proclamam inocência, declaram ser vítimas de “linchamentos”, recusam abandonar os seus cargos públicos e esperam deixar de ser notícia, quando vier à baila o caso seguinte. Este sentimento de impunidade, a quase certeza que todos têm de que nunca serão condenados, não é só preocupante. É nojento! 

A demissão de Dalila Rodrigues


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Quando Dalila Rodrigues foi demitida por Isabel Pires de Lima, do  Museu Nacional de Arte Antiga, levantou-se um coro de protestos, organizaram-se vigílias, fizeram uma manifestação de apoio com contornos  surrealistas, acusaram a ministra da Cultura de estar a fazer um saneamento político e Marques Mendes acusou o governo de partidarite. Era notório, nessa altura, o desagrado de um certo grupo de subsidio dependentes, a que Dalila Rodrigues deu voz, manifestando a sua discordância com a política seguida pela ministra.

Depois de lhe ter sido confirmada, em Agosto, a continuidade à fente da Casa das Histórias, Dalila Rodrigues  acaba de ser informada,  pela Câmara de Cascais, que afinal deixará de desempenhar o cargo  em Dezembro, porque a sua continuidade  não reúne  os necessários consensos.

Estranhamente (ou talvez não), Dalila Rodrigues ainda não reagiu e  não vejo quaisquer movimentações para uma manifestação de desagravo à pintora, nem ouço uma voz a levantar-se contra a câmara de Cascais. Onde estão os fervorosos amigos de Dalila Rodrigues? Só aparecem quando ela é demitida por alguém do PS e escondem-se quando é o PSD a tomar a decisão?  

Que chatice!


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Estas semanas que medeiam o fim do ciclo eleitoral e o anúncio do próximo governo são de uma riqueza extraordinária. Permitem fortalecer o nosso orgulho nacional. Na semana passada foram as declarações de Maité Proença, proferidas em 2007, a exaltar as virgens ofendidas que, à época, se esqueceram das manifestações de repúdio.

Esta semana foi a vez de Saramago atiçar a padeira de Aljubarrota que há em cada português, com umas declarações sobre a Bíblia.

Na próxima semana será anunciada a composição do novo governo. Acaba-se o exercício de levantamento do orgulho nacional e começa a época do tiro ao alvo. Regressa a lamúria habitual, zangam-se as comadres e voltam as críticas ao país. Que chatice!

Não se arranjará aí mais um mártir que diga umas coisas capazes de inflamar o nosso orgulho?  Só mais uma semana, vá!

La mala educación *


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Nesse mundo da sotaina  onde, a par de gente sem mácula, se movem pedófilos, criminosos, delatores e agiotas, tenho dois bons velhos amigos que frequentemente lamentam a perda de vocações. Ambos são figuras públicas e um deles foi meu professor de Filosofia. Tendo em consideração a idade e as dúvidas que me assaltavam nessa época, as conversas que com ele tinha ajudaram-me a fazer opções.  Extraí, com a sua ajuda, uma preciosa lição: é perfeitamente possível estar  do lado de Deus sem  estar ao lado da Igreja. O que não é possível é estar do lado de Deus sendo intolerante.

No dia em que Saramago fez aquelas declarações sobre  a Bíblia e assisti às primeiras reacções, lembrei-me desses meus amigos. Pouco depois, lia as reacções ponderadas de um deles num jornal, contrastando com um coro de vozes de batina que se indignavam, ao lado de vozes civis mas pouco civilizadas, como  Mário David.

Telefonei ao meu ex-professor de Filosofia a perguntar-lhe a opinião. Depois de me dizer que já tinha recusado fazer qualquer declaração sobre o assunto, a meia dúzia de jornalistas que o interpelaram, justificou o seu silêncio prenunciando o que se ia seguir. Manifestou o seu desejo de ver a Igreja a pôr água na fervura e lembrou-me uma reportagem que fiz em Macau (e na altura lhe enviei), quando “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” despertou a ira indignada de alguns católicos conservadores.

“Vais ver que agora se vai passar o mesmo. A comunicação social vai empolar o assunto, alguns sectores católicos mais conservadores vão reagir de forma  desabrida  e fazer o jogo de Saramago, ajudando-o a vender livros. Essa gente  em vez de ajudar a difundir a Fé, complica. Seria bem melhor se estivessem calados e não dessem importância ”. 

Esta é a forma de pensar deste meu amigo que, ao contrário de alguns fervorosos crentes, até reconhece aos ateus o direito de serem humanos. Talvez por isso ele seja respeitado e a comunicação social goste de ouvir as suas opiniões.

 

* Título de um filme de Pedro Almodóvar, que me pareceu apropriado

 

Sousa Lara II


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Sousa Lara, o imprestável sub-secretário de estado da cultura, figurinha  obscura que teve os seus minutos de fama depois de umas tonterias visando  Saramago e o "Evangelho Segundo Jesus Cristo", já tem sucessor à altura. 

Como não podia deixar de ser, é outra figurinha patética que se pavoneia por Bruxelas sem qualquer trabalho de mérito visível. Chama-se Mário David e não faz a coisa por menos. Pediu a Saramago que renuncie à nacionalidade portuguesa. Fez-me lembrar a reacção dos talibãs às caricaturas de Maomé, ou a fúria muçulmana contra os "Versículos Satânicos".