Os Independentes


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As eleições autárquicas vieram demonstrar que as listas de Independentes são, na generalidade, um logro. Raras vezes emanam de iniciativas de cidadãos sem conotações partidárias, mas sim de militantes de partidos que, desavindos  com  quem anteriormente os apoiou, arrebanham alguns amigos e concorrem contra o seu próprio partido.

As candidaturas de Narciso Miranda (Matosinhos) e Maria José Azevedo (Valongo), embora perdedoras, foram candidaturas contra o PS  e ambos manifestaram, garantido um lugar na vereação, que continuarão a fazer oposição ao PS no executivo camarário. Não se percebe que estes militantes se tenham candidatado como independentes, mantendo o seu vínculo ao partido. Teria sido mais honesto desfiliarem-se antes de apresentarem as suas candidaturas. Não o fizeram e o PS vai expulsá-los. Com toda a legitimidade. Seria no entanto aconselhável que no PS nacional se reflectisse um pouco sobre a razão das várias  candidaturas “independentes “ de militantes do PS no distrito do Porto.

Não creio é que haja essa vontade, porque o “grupo”  que dirige o PS/Porto teve grande influência na eleição de Sócrates para secretário-geral do PS. E às vezes, mesmo na política, os favores agradecem-se.

Deixem os pássaros voar. E as tartarugas?


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A minha infância teria sido bem diferente se não tivesse a casa cheia de cães e outros animais. Gostava de ter tido pássaros, mas os meus pais sempre me disseram que prender uma ave numa gaiola era criminoso. Depois de muita insistência, acabaram por me oferecer duas tartarugas. Nunca percebi se os meus pais queriam que eu estabelecesse qualquer relação entre os pássaros e as tartarugas. Da mesma forma que não percebo a razão de faltar uma pequena alínea à lei que estabelece novas regras para os animais do circo.  

 

Divagações à volta do umbigo


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A campanha eleitoral terminou há mais de uma semana.

Feito o rescaldo das legislativas e das autárquicas e mencionadas as europeias em nota de rodapé, a  especulação em volta do sucessor de MFL e a composição do novo governo preencherão os próximos dias. Alguns afiarão as facas e partirão à descoberta de casos que envolvam alguns dos nomeados.  Depois especular-se-á sobre a posição dos diferentes partidos no debate sobre o orçamento, que decorrerá em Janeiro.  MFL terá mais algumas tiradas dignas de registo no livro das nossas memórias No fim de Janeiro,  o mais tardar, começarão a discutir-se os candidatos às presidenciais. Até final do ano os “opinion makers”, os politólogos e os colunistas com falta de assunto  têm emprego garantido.

Após o rescaldo das eleições presidenciais, o tema da dissolução da AR voltará a concentrar as atenções  até que se realize novo acto eleitoral  (entre Setembro de 2011 e Outubro de 2013).

Entretanto, o mundo lá fora continua a girar, hão-de ocorrer alguns episódios de grande importância para o futuro da Humanidade. Os resultados do Ano Europeu da Luta Contra a Pobreza (2010)  e o provável  fracasso da Conferência de Copenhague sobre as alterações climáticas merecerão algumas referências breves, porque a comunicação social portuguesa continuará, como sempre, a pensar que isso não interessa às pessoas. 

Os portugueses continuarão a olhar para o umbigo. Centrados em casos Freeport e outros que eventualmente surjam ou sejam fabricados. Continuarão a reclamar de tudo e de nada, enquanto o mundo pula e avança, indiferente às suas lamúrias.

Daqui a quatro anos – se o governo sobreviver até  lá – Portugal estará na mesma. Haverá quem continue a defender que a culpa é toda dos políticos. Os políticos continuarão a não apresentar programas e os cidadãos, robotizados, voltarão a votar de acordo com a sua consciência. Ou seja, votarão na carinha mais laroca, ou no partido clubístico cuja cor seja mais do seu agrado, sem exigir aos candidatos que apresentem soluções para resolver os problemas do país. E assim continuará a correr a vida, doce  e lerda, neste rectângulo à beira-mar plantado.

Vão brincar com o Tio Patinhas!


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Os “dias de…” valem o que valem e cada um associa-se a eles  como melhor entende.

Hoje comemora-se o “Dia Mundial da Alimentação” e eu, que até já  vi o meu nome utilizado por uma cadeia de fast food, e publicitado como a combinação perfeita, não podia deixar de o assinalar.

Desta vez, porém, não é para enaltecer a iniciativa, mas para sublinhar a hipocrisia. Quando a fome aumenta no mundo, a agricultura é secundarizada  para favorecer  as multinacionais de produtos transgénicos, os apoios à agricultura biológica são escassos e o mundo segue um modelo de desenvolvimento que  tem contribuído para  aumentar as desigualdades, a pobreza e a fome, só podem estar a gozar comigo!

Enquanto a fome aumenta no mundo,  há cada vez mais crianças obesas, em resultado da alimentação irracional que a publicidade, o marketing  e a falência de programas de educação alimentar, erigiram a padrão de sucesso.

Enquanto a  fome atinge mil milhões de pessoas em  todo o mundo, incluindo os países desenvolvidos, os governos destes  países  gastam milhões na saúde para tratar doenças relacionadas com as más práticas alimentares,  que a sociedade de consumo popularizou.

Enquanto em África há milhões de crianças a morrer de fome, nos países desenvolvidos, muitas morrem, ou ficam  com a saúde afectada  a vida inteira,  por problemas de excesso de peso.

Hipócrita sociedade esta, que proclama um Dia Mundial da Alimentação para lembrar más práticas que ela própria fomenta. Vão mas é bugiar!   

Unidos na defesa do ambiente


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Mais de 13 mil blogs (registados no Blog Action Day) de 155 países publicaram, ontem,  mais de 27 mil posts, lidos por quase 18 milhões de pessoas. Estes são os números oficiais que, no entanto, ficarão muito aquém da realidade, pois muitos blogs participantes não se inscreveram oficialmente na iniciativa.

No blogobairro onde habito a adesão foi significativa, tendo participado os seguintes blogs:

A Nossa Candeia

Ares da Minha Graça

Bluevelvet

Carta de Tarot

De dentro para fora

Em prosa e verso

No gabinete

(Once) Twice, three times (a Lady)

Rosmaninho da Serra

Salvoconduto

Só falta um 31 na minha vida

Vekiki Projects

(em actualização)

The final countdown


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Em apenas 10 anos, assim mudou  a paisagem de Iguazu

 

O desaparecimento dos glaciares na Patagónia ( Argentina)

Se pensa que não está nas suas mão evitar isto, saiba que está enganado. As suas decisões contam. Informe-se sobre o que pode fazer para salvar o Planeta!

Se pretende alguma informação complementar, a Martinha, a Brites e o Sebastião tentam dar uma ajuda lá no Rochedo.

Em tempo: eu sei  que há quem considere um exagero o que aqui escrevi hoje, mas para os mais cépticos recomendo a leitura deste artigo.  

 

Salvemos as florestas


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Gosta desta fotografia? Deu-lhe, súbita, uma grande vontade de visitar o local? Então apresse-se, porque se ficar aí de braços cruzados, talvez não chegue a tempo de ver esta paisagem da Amazónia. Está nas suas mãos contribuir para a preservar.

 

A importância da florestação nos equilíbrios ambientais é vital. As florestas têm uma função de “esponja” por ocasião das estações das chuvas, reduzindo os efeitos das inundações.

As florestas são, porém, objecto de cobiça por parte de algumas indústrias, continuando a ser  devastadas a um ritmo alucinante. Em cada ano desaparecem cerca de 10 milhões de hectares, à razão de um campo de futebol em cada dois segundos. Um dos casos mais terríveis é o da Indonésia, que já perdeu cerca de 75 por cento das suas florestas originais.

Enquanto os países industrializados  tomam medidas para preservar a sua área florestal(cerca de 90 por cento das florestas situadas nestes países são exploradas de acordo com um plano de gestão, nos países em desenvolvimento essa percentagem é de uns escassos 6 por cento. Conclusão: o abate ilegal de árvores cresce desmesuradamente em países sul americanos, asiáticos e africanos, onde se situam espécies de grande interesse para a indústria mobiliária e farmacêutica.

Quanto custariam anualmente as medidas necessárias para salvaguardar as florestas antigas nos próximos 10 anos? 17 mil milhões de euros, responde a Greenpeace, sublinhando que essa soma astronómica de dinheiro está muito longe dos apenas 70 milhões de euros disponibilizados desde a Cimeira do Rio, em 1992, pelo Fundo Mundial para o Ambiente.

No entanto, aquele montante é o equivalente a apenas 1 por cento dos financiamentos mundiais dos Estados e organismos regionais ou internacionais à indústria, aos serviços ou à agricultura – 1700 mil milhões de euros por ano.

A urgência de pôr este programa em prática decorre dos factos revelados por instituições tão insuspeitas como a FAO: entre 2001 e 2010 os países ocidentais vão consumir até mais 50 por cento dos produtos de origem florestal, muitas vezes na mais completa ilegalidade. Segundo as autoridades governamentais brasileiras, por exemplo, 80 por cento dos cortes de árvores no Brasil são feitos sem autorização.

O problema é ainda mais grave se considerarmos que, mesmo quando esses abates são legais, a exploração comercial dos recursos florestais ameaça a sobrevivência de 70 por cento das florestas antigas que ainda existem à superfície da Terra. Acontece que as florestas tropicais abrigam, só por si, entre 50 e 90 por cento das espécies vegetais e animais do planeta, segundo uma estimativa da Organização das Nações Unidas (ONU). Representam, por isso, um negócio mundial de milhões que é dominado por cerca de 150 empresas do ramo florestal, sem contar com outros interesses a jusante, como a indústria farmacêutica. Segundo os próprios laboratórios, 70 por cento dos medicamentos testados contra os diversos tipos de doenças, provêem de plantas originárias de florestas tropicais…

O aviso do Perito Moreno


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Durante todo o dia de hoje, decorre o Blog Action Day. O objectivo é alertar a comunidade blogueira para os problemas ambientais.  Deixarei aqui os meus contributos, ao longo do dia, em textos e imagens.

Situado no Parque Nacional de Los Glaciares, na Patagónia Argentina,o Perito Moreno é uma das maiores maravilhas da Natureza que eu já pude observar.

Quando lá estive pela primeira vez, poucos meses depois da Cimeira do Rio de Janeiro, tinha programado uma visita de meio dia. Era Verão e esperava ver o Perito Moreno a deixar desprender das entranhas um bocado de si, em jeito de lágrima lançada por alguém que sofre em silêncio a violência do ser humano. Acabei por ficar um dia inteiro a contemplar aquela maravilha.

Senti-me pigmeu perante aquela grandiosidade. Senti a fragilidade do ser humano perante aquele monstro que, apesar de amputado durante os meses de verão do hemisfério sul, continuava a crescer. Visitei as grutas de Cueva de Galicho (nas margens do Lago Argentino) marcadas pela arte rupestre de habitantes pré-históricos que ali se refugiavam.

 

 

Seriam umas três da tarde quando, sob um límpido céu azul, ouvi estrondos de trovão. Era um enorme bloco de gelo, com algumas toneladas, que se desprendia do Perito Moreno e mergulhava na água. Espectáculo sublime, único, ímpar, só possível de ser visto entre Janeiro e Março.

Há uns meses ouvi na Sic-Notícias que bocados do Perito Moreno se estavam a desprender em pleno mês de Julho (inverno no hemisfério sul), fenómeno raro que não se verificava há quase um século.

Eu sei que há sempre aqueles ambientalistas cépticos que dizem que é uma situação normal. Não é. É um aviso  à Humanidade, principalmente aos abutres do G-8, do G-20 e de outros G de ganância que àquela hora discutiam no Japão o preço do petróleo, armas de defesa, a Guerra das Estrelas e essa merda da economia global que nos há-de permitir morrer afogados em telemóveis, i-phones, i-pods e uma parafernália de maravilhas tecnológicas, mas que se recusa a dar de comer a milhões de famintos que diariamente morrem às mãos das suas leis aberrantes.

 

O Perito Moreno lançou um alerta, ao jeito de quem diz: “Salvem-me e salvem a Natureza enquanto é tempo”, mas os abutres dos Gês encolheram os ombros, indiferentes e engravatados, e voltaram a exigir o aumento da produção de petróleo, de modo a que os cidadãos dos países ricos continuem a poder andar de rabo tremido para, embalados pelo canto da sereia consumista, desaguarem nas catedrais do faz -de-conta e do supérfluo.

Os  Gês percebem é de números, de notas, de cartões de crédito, de taxas de juro, de acções, obrigações e de PIB’s . Não percebem nada da Natureza.

Os Gês querem é cidadãos adormecidos e amorfos, desprovidos da capacidade de pensar e de se indignarem, abismados com os brinquedos da sociedade da hiperescolha, feitos à medida, com que se entretêm todos os dias. De Natureza, os cidadãos não precisam de saber nada. O importante é que continuem a trautear, felizes, a música da Internacional Consumista e de quando em vez, como forma de expiação dos seus pecados, dêem uns donativos para o Banco Alimentar Contra a Fome.

Revelações


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Ontem, enquanto assistia às deambulações nocturnas de Santana Lopes entre a sede de candidatura e o seu escritório, percebi finalmente o que ele queria dizer com o “vou andar por aí”.

Na hora do balanço


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Parece-me abusiva  a leitura nacional dos resultados das autárquicas. Muitos eleitores – entre os quais me incluo – mudam o seu voto das legislativas para as autárquicas. Parece, no entanto, ser uma tentação dos líderes partidários fazer extrapolações. Por vezes precipitadas, como aconteceu com Guterres.

Ontem, PS e PSD proclamaram vitória. Ambos terão razões para isso. O PSD porque ganhou mais câmaras e freguesias, o PS porque reforçou a votação em relação a 2005 e às legislativas de há duas semanas, foi o partido mais votado e com maior número de mandatos.

O PS partiu para estas eleições numa situação difícil. Venceu as legislativas, mas desceu substancialmente em relação a 2005 (o que alguns aproveitaram para dizer que se tratou de uma derrota) e todos estariam à espera de nova descida nas autárquicas, para proclamar vitória.

Os resultados do PS são, por isso, surpreendentes. Não só ganhou  mais 22 câmaras como pode afirmar que foi o partido que, concorrendo sozinho, venceu mais câmaras, porque o PSD, sem a muleta  do CDS, apenas conquistou 116. Cidades importantes,  como Faro, teriam continuado nas mãos do PS, no caso de o PSD não se ter coligado com a  direita.

Ana Gomes, Leonor Coutinho, Marcos Perestrello ou Elisa Ferreira foram escolhas erradas de Sócrates que a vitória em Lisboa fez esquecer. Vitória de grande importância para o futuro do PS, pois a sucessão de Sócrates parece estar assegurada, com um candidato que congrega alguma esquerda que Sócrates desbaratou e tem possibilidade de ir buscar votos a uma franja do PSD.

O PSD pode, com toda a legitimidade, dizer que ganhou as eleições mas, utilizando os mesmos argumentos a que recorreu para minimizar a vitória do PS nas legislativas, dir-se-á que foi uma vitória com sabor a derrota, pois perdeu 18 câmaras, enquanto o PS ganhou 22.

Todos os outros partidos perderam, embora seja a CDU quem tenha menos razões para se lamentar. Perdeu algumas câmaras, é certo, mas reforçou a sua votação e em algumas cidades, como Beja, foi vítima da canibalização do PSD (desceu de 17 para 5 por cento)  pelo PS, o que determinou perdas, apesar do aumento do número de votos expressos.

O CDS perdeu a euforia de há 15 dias, de pouco lhe valendo a parceria com o PSD. Os seus ganhos foram pouco significativos, numa aliança em mais de um quarto dos municípios.

O BE foi, porém, o grande derrotado. A estratégia em Lisboa e Porto  foi destroçada nas urnas e, no país, os ganhos foram igualmente  insignificantes. Seria a altura de o BE perceber que não é hostilizando o PS que se conseguirá afirmar. Mas a esquerda folclórica portuguesa não aprenderá nunca que há  “clichés” que estão definitivamente arrumados no sótão das velharias.

Ainda o Nobel da Paz


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Como era de esperar, multiplicam-se as críticas à atribuição do Nobel da Paz  a Obama.  Muito provavelmente, alguma rapaziada preferia que o Nobel fosse atribuído a esse grande amante da paz que por mera distracção invadiu o Iraque e pôs o mundo inteiro a ferro e fogo. Para quem não saiba, dá pelo nome de George W. Bush.

Já  aqui afirmei que considero precoce a atribuição do Nobel a Obama, mas não me repugna a escolha. Até porque a atribuição do Nobel é mais ou menos como as estrelas do Michelin.

Rostos do Sul (6)


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Nasceu em 1935 em Tucuman, a província mais pobre da Argentina. Filha de trabalhadores rurais, teve uma infância modesta mas sem problemas e aos 15 anos venceu um concurso de rádio local, cujo prémio era um contrato  para actuar durante dois meses  em estúdio.

Apaixonada pela dança e pela canção popular, Mercedes Sosa recebeu influências de Atahualpa Yupanqui, o maior divulgador da música folclórica argentina, que aos 10 anos foi viver para Tucuman.  Tornou-se, assim,  uma das primeiras vozes a integrar o Movimento  Novo Cancioneiro, nascido na região andina do Cuyo,  na  província de Mendoza, cujo objectivo era recuperar o folclore local.

Só em 1965, depois de participar num festival de folclore,  Mercedes Sosa obtém o reconhecimento de toda a Argentina. Devido à  sua longa e farta cabeleira preta, passa a ser conhecida como ”A Negra”.

Quando faz a sua primeira tournée pela Europa, em 1967, a  sua voz, a postura  e a mensagem ideológica que traz nas suas canções contribui para que rapidamente seja   comparada a Violeta Parra, a quem mais tarde dedicará um disco com interpretações de  temas da popular cantora chilena.

Durante o seu périplo europeu actuou em Lisboa e Porto. Os censores desconheciam o envolvimento político  de Mercedes Sosa, pelo que não levantaram obstáculos à realização dos concertos. Não deixa de ser curioso, porém, que na mesma altura exercessem forte vigilância sobre Zeca Afonso, Fausto ou José Mário Branco e proibissem os discos de Luís Cília, então exilado em Paris…

A forte componente contestatária das canções de Mercedes Sosa não agradou à ditadura argentina e, em 1979, quando dava um concerto na cidade universitária de La Plata, foi detida e proibida de cantar na Argentina. Os seus discos desapareceram  das discotecas mas, em algumas livrarias e locais de tertúlia  da Av Corrientes,  vendiam-se  clandestinamente cópias compradas na Europa. Exilou-se em Paris, tendo a sua primeira actuação europeia sido em Lisboa, na Festa do Avante.

Quando regressa à Argentina – um mês antes do início da Guerra das Malvinas, que representou o início da agonia da ditadura -, Mercedes Sosa já é uma figura popular em toda a América Latina.  As suas canções – onde critica o consumismo, as desigualdades sociais e a opressão dos povos pelas ditaduras-  a sua cabeleira negra e o seu inseparável poncho eram  símbolos dos jovens latino-americanos. Voz da resistência e da revolta , era também um símbolo dos jovens europeus, surgindo sempre  o seu nome, a par de Violeta Parra e Victor Jara, como um dos mais importantes da música sul-americana.

Intervirá na política até à morte. Nos anos 90 declara-se uma feroz opositora de Carlos Menem, o presidente argentino que conduziria o país, em 2001, ao maior desastre financeiro da história do pais das Pampas, conhecido como Corralito. Com a queda de Menem  apoia Nestor e Cristina Kirchner .

Entre um vasto rol de distinções que lhe foram atribuídas um pouco por todo o mundo, destacam-se a  francesa “Ordem da Comenda das Artes e Letras” , o prémio de Música da UNESCO, como reconhecimento da importância da sua música na aproximação entre os povos e o Prémio UNIFEM, que sublinha a sua luta em defesa dos direitos das mulheres.

A sua discografia é vastíssima e cheia de sucessos celebrados no mundo inteiro, tendo gravado e actuado  em concertos nas mais prestigiadas salas de todos os continentes, a solo ou ao lado de alguns dos nomes mais sonantes da música latino-americana (como  Fito Paez, Milton Nascimento, Pablo Milanés ou Chico Buarque), mas também da música internacional, como Sting, Pavarotti, Shakira ou Joan Baez .

No ano 2000 realiza um dos seus maiores sonhos: interpretar a obra suprema do folclore argentino: “Misa Criolla”. Pouco depois a saúde impede a sua aparição em público, só voltando a actuar em 2005. Continuou a dar concertos  por todo o mundo até pouco antes da sua morte: 4 de Outubro de 2009. O dia de aniversário de Violeta Parra. 

Viva o Rei(zinho)*


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Andam por aí uns inflamados a reclamar o regresso da Monarquia. Não precisam. Basta olhar para as listas de candidatos a algumas autarquias, para perceber que a Monarquia já está (re) instalada em Portugal .

Pais, filhos, primos, sobrinhos, netos, noras, genros e sogras concorrem nas listas de alguns dos candidatos com reeleição (quase) assegurada, garantindo assim a continuidade do clã familiar na gestão dos destinos de alguns municípios. Só falta serem coroados.

 

* O título deste post é uma homenagem póstuma a uma figura de banda desenhada do "Primeiro de Janeiro" que animava a minha infância.

Prever o futuro nos Andes


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                 San Martín de Los Andes

 

Fevereiro de 1994.

Acabara de chegar a Tucuman, última etapa antes de penetrar nos Vales de Calchaquies e rumar a  Salta para uma viagem no Tren a Las Nubes.

Depositadas as malas no hotel, fui jantar. Na altura de pagar a conta entreguei pesos argentinos e recebi, como troco, um conjunto de notas – que me fizeram lembrar os “remimbi” chineses – onde se lia: “Circulação válida apenas para as províncias de Salta e Tucuman”.

Perguntei ao empregado o que queria dizer aquilo. Chamou o gerente que me explicou, então, que face à grave crise financeira da província, o governo local fora autorizado a emitir moeda com circulação restrita às províncias de Salta e Tucuman. As notas tinham valor igual ao peso, mas só podiam circular naquelas províncias, não podendo ser utilizadas em mais nenhuma parte da Argentina. Ou seja, o dinheiro que circulava por ali era uma espécie de dinheiro do Monopólio que apenas tem valor quando jogamos.

Tren a Las Nubes

 

Andei por Salta durante duas semanas sempre a pagar e receber dinheiro falso. (Admito que haja um termo técnico mais apropriado, mas a realidade é que se tratava mesmo de dinheiro virtual, uma vez que não tinha valor em mais nenhuma província argentina). Fiquei entretanto a saber que a maioria das empresas pagava os seus salários com aquela moeda.

Em Cafayate, uma pequena localidade cercada pelos Andes, maioritariamente habitada por índios, hospedei-me no único hotel existente. Na altura de pagar a conta, pretendi fazê-lo com moeda local, mas não aceitaram o pagamento e exigiram que pagasse com cartão de crédito ou em pesos emitidos pelo banco central. Perguntei a dois empregados como eram pagos os seus salários: em moeda local, responderam-me.

Foi então que percebi como o esquema funcionava. O hotel recebia em dinheiro real e pagava aos empregados com “notas de Monopólio”. Justificava a sua actuação, alegando ter de pagar os impostos em moeda “real”!

E como fazem os habitantes de Salta quando viajam, pela Argentina? – perguntei a um funcionário de um banco.

 

Quebrada de Humahuaca (Andes)

 

 

A resposta meio envergonhada, embrulhada em sorrisos de celofane, fez-me adivinhar o futuro.

"Aqui as pessoas viajam pouco, porque esta é a província mais pobre da Argentina. Mas se tiverem necessidade de o fazer, podem trocar o dinheiro no banco. "

E como é feito o câmbio?

– Por cada quatro pesos locais, recebem um peso federal!

Por momentos, pensei-me a viver uma aventura de Lewis Carrol, uma versão melodramática de "Alice no País das Maravilhas" . Recuperado do choque, antevi o futuro da Argentina.

Sete anos mais tarde, no quarto do meu hotel de Buenos Aires, em vésperas de Natal, impossibilitado de regressar a Portugal para passar a noite com a família, pude reviver o pesadelo anunciado  por um funcionário de um banco, à mesa de um restaurante em Tucuman.

 

Bancos assaltados, supermercados pilhados, ruas transformadas em campos de batalha, famílias prósperas à beira da ruína, um povo inteiro em banca rota, em fúria contra Caballo e Menem

De um dia para o outro, a próspera Argentina cantada em loas por Bush pai, como exemplo a seguir, despertava para a realidade, desaguando no oásis da miséria.

Durante quase um mês vivi dentro do Corralito. Soube o que era ter de me levantar às 3 da manhã para ir para uma fila de um banco levantar 250 pesos, que me tinham de dar para a semana inteira, porque não era possível levantar mais dinheiro

Conheci a inutilidade dos cartões de crédito e dos telemóveis. Sobrevivi. E vivi momentos mágicos no meu país azul celeste. 

Na Europa  e nos EUA não aprenderam nada com o Corralito. Foi pena, porque nos poderiam ter evitado alguns dissabores. 

Anúncios de Outono (1)


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Chegaram as castanhas.

Na semana passada, ainda vendia gelados. Ontem apareceu, no seu poiso habitual do Saldanha, a vender castanhas.

Como ainda não está frio para comer castanhas e já não está calor que convide àqueles gelados , os clientes têm sido poucos.

As temperaturas elevadas que se anunciam para este mês de Outubro são um aviso para os vendedores ambulantes que vendem produtos sazonais. Têm que repensar a sua oferta. É preciso encontrar um produto meia estação que alicie os fregueses. Há sugestões por aí?

Rumo a uma nova Europa


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Vislumbro, ao longe, os contornos da nova Europa. Retirada a maioria dos direitos sociais aos trabalhadores, engordadas as contas bancárias do capital à custa de horários de trabalho de 65 horas semanais, alcançada a autonomia de alguns territórios como o Kosovo (outros se seguirão a curto prazo) aos governantes europeus que emergiram da geração dourada de 60, resta-lhes aguardar que se cumpra o seu último desígnio: uma democracia com novo rosto.

Traduzida para a nomenclatura moderna destes governantes sem passado e sem futuro, democracia significa: hás-de votar como eu quero, nem que tenhamos que fazer eleições e referendos as vezes que for preciso.

O modelo inspira-se em Mugabe. Depois de convocar novas eleições, recusando assumir a derrota, teve esta frase lapidar: só comigo morto é que a oposição governará.

Estaremos preparados para a grande chacina dos actuais governantes europeus? Não me parece.

O lado positivo da gripe A


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Há males que vêm por bem. A gripe A fez cair o turismo em todo o mundo, afectando  principalmente os países onde o turismo é a principal indústria (sim, indústria.) Mas é preciso ver o lado bom da coisa. Graças à gripe A foi possível reduzir  a poluição, pois  o turismo é uma das actividades mais poluidoras do planeta.

Além disso, andar nos transportes públicos pode ser menos penoso…

Tango, Património da Humanidade


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Como salientei há dias na caixa de comentários, o tango foi considerado, pela UNESCO,  “Património Imaterial da Humanidade”. Embora seja amante  do tango e veja neste reconhecimento mais um sinal da crescente importância da América do Sul no mundo, encaro-o com algum cepticismo. Ou, pelo menos, com a cautela com que o tango foi recebido em Portugal no início do século passado.

 

Mistérios do Sul


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Tenho aproveitado o fim de semana para algumas releituras, mantendo uma saudável distância  da internet e até  das notícias.

Hoje,ao final da tarde, acabei de reler “ O cantor de tango” de Tomás Eloy Martinez . Quando acabei, deixei-me ficar alguns minutos a viajar por Buenos Aires. Deambulando pela Corrientes e Santa Fé cheguei à Palermo de Borges, com  a renovada  esperança de ver o Aleph. 

Numa cadeia de recordações que nem sempre somos capazes de explicar, lembrei-me de Atahualpa Yupanqui – um dos maiores nomes da música argentina do século XX, estudioso incansável do folclore andino- e decidi ouvir um disco com alguns dos seus sucessos.

Viajei um pouco pelos Andes. Enquanto ouvia, pensei  dedicar-lhe  o próximo Rostos do Sul.

Começara a escrever  sobre o seu nascimento nas pampas mas, na incerteza quanto à idade em que fora viver com a família  para Tucuman, decidi consultar o Google.

Antes, passei pelo Rochedo para postar os comentários dos leitores. Num desses comentários, a nossa leitora Maria, frequentadora assídua do Rochedo e do Delito, informava-me da morte de Mercedes Sosa. Foi como se me tivessem anunciado a morte inesperada de um amigo querido. Não consegui conter a emoção e recolhi-me, durante uns momentos, para lhe prestar a minha homenagem.

Depois lembrei-me de coincidências. Mercedes Sosa nasceu em Tucuman, a cidade para onde  Yupanqui foi viver, no ano em que Mercedes Sosa nasceu. A cidade para onde me levou a releitura de um livro de Eloy Martinez, passado em Buenos Aires, onde  a personagem que gera toda a trama, se chama… Tucumano.