
San Martín de Los Andes
Fevereiro de 1994.
Acabara de chegar a Tucuman, última etapa antes de penetrar nos Vales de Calchaquies e rumar a Salta para uma viagem no Tren a Las Nubes.
Depositadas as malas no hotel, fui jantar. Na altura de pagar a conta entreguei pesos argentinos e recebi, como troco, um conjunto de notas – que me fizeram lembrar os “remimbi” chineses – onde se lia: “Circulação válida apenas para as províncias de Salta e Tucuman”.
Perguntei ao empregado o que queria dizer aquilo. Chamou o gerente que me explicou, então, que face à grave crise financeira da província, o governo local fora autorizado a emitir moeda com circulação restrita às províncias de Salta e Tucuman. As notas tinham valor igual ao peso, mas só podiam circular naquelas províncias, não podendo ser utilizadas em mais nenhuma parte da Argentina. Ou seja, o dinheiro que circulava por ali era uma espécie de dinheiro do Monopólio que apenas tem valor quando jogamos.

Tren a Las Nubes
Andei por Salta durante duas semanas sempre a pagar e receber dinheiro falso. (Admito que haja um termo técnico mais apropriado, mas a realidade é que se tratava mesmo de dinheiro virtual, uma vez que não tinha valor em mais nenhuma província argentina). Fiquei entretanto a saber que a maioria das empresas pagava os seus salários com aquela moeda.
Em Cafayate, uma pequena localidade cercada pelos Andes, maioritariamente habitada por índios, hospedei-me no único hotel existente. Na altura de pagar a conta, pretendi fazê-lo com moeda local, mas não aceitaram o pagamento e exigiram que pagasse com cartão de crédito ou em pesos emitidos pelo banco central. Perguntei a dois empregados como eram pagos os seus salários: em moeda local, responderam-me.
Foi então que percebi como o esquema funcionava. O hotel recebia em dinheiro real e pagava aos empregados com “notas de Monopólio”. Justificava a sua actuação, alegando ter de pagar os impostos em moeda “real”!
E como fazem os habitantes de Salta quando viajam, pela Argentina? – perguntei a um funcionário de um banco.

Quebrada de Humahuaca (Andes)
A resposta meio envergonhada, embrulhada em sorrisos de celofane, fez-me adivinhar o futuro.
"Aqui as pessoas viajam pouco, porque esta é a província mais pobre da Argentina. Mas se tiverem necessidade de o fazer, podem trocar o dinheiro no banco. "
E como é feito o câmbio?
– Por cada quatro pesos locais, recebem um peso federal!
Por momentos, pensei-me a viver uma aventura de Lewis Carrol, uma versão melodramática de "Alice no País das Maravilhas" . Recuperado do choque, antevi o futuro da Argentina.
Sete anos mais tarde, no quarto do meu hotel de Buenos Aires, em vésperas de Natal, impossibilitado de regressar a Portugal para passar a noite com a família, pude reviver o pesadelo anunciado por um funcionário de um banco, à mesa de um restaurante em Tucuman.

Bancos assaltados, supermercados pilhados, ruas transformadas em campos de batalha, famílias prósperas à beira da ruína, um povo inteiro em banca rota, em fúria contra Caballo e Menem
De um dia para o outro, a próspera Argentina cantada em loas por Bush pai, como exemplo a seguir, despertava para a realidade, desaguando no oásis da miséria.
Durante quase um mês vivi dentro do Corralito. Soube o que era ter de me levantar às 3 da manhã para ir para uma fila de um banco levantar 250 pesos, que me tinham de dar para a semana inteira, porque não era possível levantar mais dinheiro
Conheci a inutilidade dos cartões de crédito e dos telemóveis. Sobrevivi. E vivi momentos mágicos no meu país azul celeste.
Na Europa e nos EUA não aprenderam nada com o Corralito. Foi pena, porque nos poderiam ter evitado alguns dissabores.

Ainda não tive tempo de ler, Carlos. Mas as imagens que trazes aqui são belíssimas.
Muito bom post, Carlos.
Obrigado, Mike.
Tem uma viagem ao Douro à sua espera, no local que você sabe.
Que nerbos Carlos… Olho para as fotografias e inda fico com mais urgência de ir por essas bandas.
:))))
Então apresse-se, Maria do Sol, porque daqui a alguns anos tudo aquilo corre o risco de estar irreconhecível. A Patagónia -e particularmente a Terra do Fogo- está a ser alvo de uma devastação pela indústria farmacêutica. E os turistas no Perito Moreno são tantos, que ver a queda de um pedaço do iceberg – coisa há uns anos muito rara- se tornou agora muito frequente. as pessoas deliram com o espectáculo, claro, mas não lhe percebem ( ou não querem perceber…) o significado.
Só agora te li, Carlos. Venham mais crónicas destas. Gostei muito!
Vamos lá a ver Teresa, se consigo escrever uma por semana. A dispersão tem sido muita…
Muito bom.
Afoto com a legenda “Tren de las nubes” não é mais do que o Landwasser Viadukt, que se situa no cantão Graubunden na Suiça…