A minha infância teria sido bem diferente se não tivesse a casa cheia de cães e outros animais. Gostava de ter tido pássaros, mas os meus pais sempre me disseram que prender uma ave numa gaiola era criminoso. Depois de muita insistência, acabaram por me oferecer duas tartarugas. Nunca percebi se os meus pais queriam que eu estabelecesse qualquer relação entre os pássaros e as tartarugas. Da mesma forma que não percebo a razão de faltar uma pequena alínea à lei que estabelece novas regras para os animais do circo.

Carlos, confesso-me desde já uma aficionada convicta, embora sem argumentos racionais – porque não os há (pensavas que caía nessa?) – mas aficionada mesmo assim. E desde que ouvi o Daniel Oliveira e a presidente da câmara de Salvaterra de Magos confessarem o mesmo, sendo ambos destacados membros do Bloco de Esquerda (que condena vigorosamente os espectáculos taurinos), sinto-me apesar de tudo mais acompanhada.
Um dia destes publico aqui um texto que escrevi sobre as corridas de toiros. Não para me justificar, mas para dizer o que penso e sinto sobre o assunto.
E agora crucifiquem-me, vá lá.
Não sou aficionado. Mas a ti ninguém crucifica, que eu não deixo. Hehe…
Obrigada, caríssimo defensor de uma selvagem indefensável… a tua tarefa vai ser difícil.
🙂
Ninguém te vai crucificar pelos teus gostos, Ana. Aliás, a maioria dos meus amigos gosta de touradas e temos discussões acesas sobre o assunto. A única coisa que não consigo entender é como há pessoas que defendem acerrimamente os direitos dos animais e perante as touradas acham tudo muito natural, mas já percebi que a limitação é minha.
Fico a aguardar com interesse o teu post.
Não, Carlos, a limitação não é tua. É de todos nós, humanos, porque não somos perfeitos e temos muitas incoerências e contradições. Muito bem, vou postar esse texto. E espero com imenso interesse o teu contributo na discussão que, aposto, se seguirá.
Certamente que participarei, desde que esteja por cá, Ana. Dentro de dias vou ausentar-me e, provavelmente, vou andar durante uns tempos num toca e foge com o país.
Nada de crucificações, Ana. Era o que mais faltava!
:))))
Eu aguento, Maria do Sol. Mas obrigada pela simpatia.
🙂
carlos
penso que as touradas não foram contempladas na portaria do ministério do ambiente porque o lóbi dos tauromáquicos e dos ganadeiros é mais poderoso do que o das actividades circenses.
quanto a mim, touradas circos, zoos, fazem-me sofrer até ao mais profundo do meu ser. não percebo qual é o gozo de maltratar animais e fazer disso um espectáculo
zoe
Quando acabei de escrever o post, lembrei-me que também devia ter feito referência aos zoomarines e aos espectáculos de golfinhos, por exemplo. A não inclusão destes espectáculos na lei deixa-me ainda masi estupefacto. Porquê então os circos?
Acho que os golfinhos têm enorme prazer na galhofa, que também fazem sozinhos ou junto à costa quando encontram homens num barco. Mas percebo o inconveniente do cativeiro, ainda que estejam a salvo de predadores e tenham tratamento garantido.
Enfim, acho difícil varrer tudo com a mesma vassoura e juntar tudo no mesmo saco.
Concordo, João, mas continuo sem perceber a razão de a medida legislativa contemplar apenas os circos.
E tens razão.
Carlos eu, ignorante na arte das lides tauromáquicas, me confesso. Nunca assisti a nenhuma tourada ao vivo, mas sou contra que se proíbam ou que se regulamentem as tradições de uma forma que as possam descaracterizar. E ao contrário, penso que a posição dos catalães neste particular é que é provinciana. Tanto se querem demarcar do resto de Espanha que proíbem as touradas para serem mais europeus, e não lhes falta vontade, mas se não caíssem no ridículo, também proibiam os espectáculos de flamenco. Enfim, eles lá sabem da vida deles e nós da nossa. Et voilà já dei o corpo às balas.
Faço minhas, naturalmente, as palavras da Ariel.
Concordo, Ariel. Não sejamos ingénuos: as motivações dos catalães não têm nada que ver com a nobre causa da defesa dos animais.
Desculpe, Ariel ( e também tu Pedro) mas não percebo a razão de manter tradições que, em inha opinião são um bocado selvagens. Extrapolando, poderíamos aplicar o mesmo raciocínio a outras tradições bárbaras que se praticam pelo mundo fora. Em miúdo vi um filme que se chamava “Mundo Cão” , onde eram analisadas as barbáries praticadas em vários países do mundo. Algumas já foram banidas, mas a a tourada persiste.
também acho que falta uma alínea e sinceramente, os argumentos do nao sei porquê mas gosto, nao me caiem bem. Do ponto de vista do puro instinto primário e selvagem, eu também sinto alguma “coisa” se vejo imagens de lutas de caes. Sao dois animais, normalmente de porte altivo e guerreiro que se degladiam até à morte, mostrando a sua força e a sua raça. Mas do ponto de vista racional e emocional, sei que o que está em causa é o sofrimento dos bichos, é o tratamento bárbaro a que sao submetidos.
Peço desculpa antecipadamente se atento contra alguma sensibilidade, mas a luta entre touro e homem (ainda por cima de collants rosa) só me causa repudio. Os unicos momentos em que tenho visto alguma imagem e sentido algum prazer é quando o cavaleiro leva uma cornada e fica, nem que seja ligeiramente ferido. Se vai para o hospital, resplandeço de alegria. Justamente porque aquela luta parece encarnar a luta entre o forte e o fraco. Só que nao é o touro o fraco…
Justamente, Rafael: esse tipo de prazer que diz sentir nessa circunstância é totalmente primitivo e irracional. Tenha cuidado…
espero que se tenha sentido como eu senti: falar com o que me pareceu ser alguma ligeireza sobre o sofrimento de outro ser vivo. E peço desculpas por exprimi-lo de forma sincera, nao pretendo nem ser cinico, nem insultuoso, apenas demonstrar que há várias formas de chocar a sensibilidade dos outros. E que todas sao diferentes…
Não leia ligeireza nas minhas palavras, porque ela não existe. Concordará que não é fácil confessar-me adepta de um espectáculo que já reconheci ser racionalmente indefensável. Faça-me ao menos a justiça de admitir que já pensei bastante no assunto.
O que lhe quis demonstrar com a minha resposta é que nos é muito fácil – a todos nós, humanos – resvalar para o irracional. Porquê? Porque não somos só feitos de razão.
Cara Ana,
eu disse “parecer ser alguma ligeireza”, nao a acusei de leviandade no tratamento do assunto. Acredito que tenha reflectido, pela mençao que faz a um post a publicar, aguardo com atençao, estou bastante curioso pela argumentaçao.
Já vou pô-lo aqui, Rafael. Peço desde já desculpa pela extensão do texto, mas achei preferível postá-lo na íntegra. Se não tiver paciência para lê-lo todo, compreendo perfeitamente. Foi escrito há cerca de dois anos mas ainda não mudei de ideias até agora.
Embora discordando dessa sua alegria, subscrevo a parte das lutas de cães, galos e até grilos ( que vi uma vez em Macau). Quando o Homem se diverte com o sofrimento dos animais, parece-me que algo está errado, mas provavelmente isto é da velhice.
O prazer e a alegria de que falo prendem-se exactamente com o primitivismo que considero que todos somos portadores. Acusem-me de moralista, mas acho que há sentimentos que temos de reprimir…
Nem todos os circos tratam mal os animais…concordo que o facto de estarem fora do seu habitat natural não é benéfico…mas se pensarmos nos animais que estão no jardim zoológico, alguns tbm não têm ar de muito bem tratados.