
Não gosto de muros, seja qual for a sua origem ou a justificação esfarrapada para os erguer. Não fiquei por isso, indiferente, quando há 20 anos o muro de Berlim começou a ser derrubado. Mas, como antevi no próprio dia em que o muro de Berlim se começou a desmoronar, outros se ergueram depois. Com o mesmo ódio e insensibilidade que levou a construir o de Berlim, separando famílias, matando sonhos, privando milhões de cidadãos da liberdade. Ergueram-se perante a indiferença dos que aplaudem a queda do muro de Berlim.
Não encontro, por isso, razões para festejar seja o que for, enquanto houver muros a servir de barreira à liberdade. Fá-lo-ia, se a queda do muro de Berlim tivesse contribuído para a paz e segurança no mundo. Mas, se isso tivesse acontecido, as Twin Towers ainda estariam de pé, não teria havido a invasão do Iraque, os Balcãs não se teriam tornado num barril de pólvora, não estaríamos a assistir às chacinas diárias no Afeganistão, no Iraque ou no Paquistão. Arrisco mesmo dizer, que as democracias ocidentais talvez estivessem mais solidificadas, a corrupção não teria alastrado como um cancro e teríamos mais paz e estaríamos mais seguros, se o império soviético não se tivesse desmoronado como um baralho de cartas, deixando o ocidente de mãos livres para agir, sem a ameaça do inimigo de Leste.
Dir-me-ão alguns que os cidadãos de Leste vivem agora mais livres e mais felizes. Nos últimos dias, li vários testemunhos de cidadãos dos países de Leste na imprensa portuguesa e estrangeira, que o desmentem. Não se enxerga por lá tanto entusiasmo como no ocidente e entrevê-se, aqui e ali, algum saudosismo do passado. Todos os que foram capazes de olhar para o Muro dos dois lados, compreenderão porquê.. A maioria, porém, ficou do lado ocidental e guardou um bocadinho como “souvenir”. Inebriada com a queda, esqueceu-se que do outro lado também havia vidas. Foi isso que jornais como o “Público” ou o “El País” quiseram mostrar. Que do lado de lá nem todos comungam da euforia ocidental. Mesmo sem serem simpatizantes do comunismo, nem terem pertencido à Stasi, não apreciam um modelo social que aprofunda as desigualdades, e se baseia exclusivamente no poder do dinheiro.
Os muros têm sempre duas faces. Estive do "outro lado"antes e depois da queda do muro e do desmembramento da URSS. A viajar e a trabalhar.
Dois anos depois da queda, os países de Leste eram invadidos por uma parafernália de produtos ocidentais, mas também de contrafacção feita na China, Tailândia ou Taiwan e pagavam custos sociais elevados.Na Polónia, Hungria e Checoslováquia o desemprego crescia assustadoramente ( 2 milhões na Polónia no final de 1991) o poder de compra descia 30 por cento e os mendigos começavam a invadir as ruas de Varsóvia, Budapeste e de outras cidades do Leste Europeu.
Os preços dos bens essenciais duplicavam em 12 horas, a inflação era galopante, registava-se uma queda na produção (por dificuldades em exportar e pela reduzida procura interna) e a descida vertiginosa do Produto Nacional Bruto, que atingia 28 por cento na Roménia e 30 na Bulgária.
A queda do muro de Berlim, tão festejada no ocidente, não contribuiu para a queda dos fundamentalismos, nem para a paz e cooperação entre os povos, porque representou, apenas, a vitória da Internacional Consumista, que edificou outros muros muito mais difíceis de derrubar.

Vinte anos depois da queda, as pedras ainda continuam a marcar presença.
Li algures que este aforismo teria corrido do lado de lá da Europa, pelos anos 90:
“Tudo o que nos disseram sobre o comunismo era mentira.
Mas tudo o que nos disseram sobre o capitalismo era verdade…”
Desconhecia o aforismo mas parece-me muito bem.
Se não comemorarmos o fim de uma tirania, quando é que o poderemos fazer? Não é por isso que o mundo vai ficar perfeito; no início do Séc. XX reinava o optimismo e a crença no “progresso” e depois viu-se o seguimento.
Só se fôssemos perfeitamente líricos é que pensaríamos que o futuro iria ser eternamente radioso. Se assim fosse, as comemorações pelo fim da 2ª Guerra não fariam sentido, porque depois se seguiu a Guerra Fria e quarenta anos de divisão da Europa. Celebre-se o momento, sem se pensar que o futuro é perfeito.
Quanto ao pós-89, é verdade que a ressaca doeu, e o capitalismo emergente foi muitas vezes o pronto-a-vestir e o obscurio, que permitiu a ascensão destas classes novas-ricas ostentatórias. Mas a verdade é que as coisas mudaram, o antigo Pacto de Varsóvia aderiu à UE, e em geral estão melhor do que há vinte anos. Há nostálgicos, claro que há (na antiga Alemanha de Leste existe mesmo a expressão “Oestalgie”) , assim como cá há saudosistas do Estado Novo, da lei e da ordem, do império, etc. Mas não há Stasis, PIDEs, Securitates, escazzes crónica, etc. E quem passar hoje pelos países da Europa central e de Leste veria as diferenças positivas de vinte anos de mudanças. Garanto com toda a certeza que a maioria dos romenos não quereria voltar a Ceausescu.
Subscrevo com gosto e convicção, meu caro.
É evidente que ninguém com juízo desejará a reconstrução do muro, nem o renascimento dos regimes comunistas. Lamento aliás, que haja saudosistas e que a revitalização dos partidos comunistas do Leste comece a ser uma realidade. Só possível, porque o ultra-liberalismo é um sistema que cultiva o canibalismo.
Apesar de concordar contigo, Carlos, quando dizes que do lado de lá havia vidas, comemoro sempre o fim do Muro. Não há ideologia que possa justificar a falta de liberdade e a opressão. Ainda voltando atrás a reunificação está longe de ser pacífica porque, na verdade, foi mais uma anexação do que um encontro das duas culturas e de dois povos. Foi quase pedido às pessoas que esquecessem de onde tinham vindo ou até que o renegassem, como se deixassem de ser elas próprias e se a sua existência não pudesse ser legitimada apenas porque teve como pano de fundo o comunismo. Não foi por acaso que pouco tempo depois uma parte dos alemães da BRD começou a pedir o Muro de volta e a questionar-se se seriam mesmo e afinal um povo. Sou muito crítica em relação a esta questão. As feridas são muitas e continuam abertas vinte anos depois, pelo menos para as gerações mais velhas, mas não há nada, rigorosamente nada, nenhuma ideologia ou política que tenha o direito de limitar o direito mais belo do ser humano: a liberdade. Por isso comemoro hoje a libertação de milhões de pessoas.
Assino por baixo, Leonor.
“As feridas são muitas e continuam abertas vinte anos depois, pelo menos para as gerações mais velhas, mas não há nada, rigorosamente nada, nenhuma ideologia ou política que tenha o direito de limitar o direito mais belo do ser humano: a liberdade”.
Completamente de acordo contigo, Leonor ( como com tudo o que escreves no comentário, aliás…).
Por saber que desde 2001 estamos a perder essa liberdade, graças ao papão securitário imposto na sociedades ocidentais, na sequência dos ataques às Twin Towers, é que não tenho vontade de celebrar. Temo, sinceramente, que a democracia esteja em perigo, precisamente porque as democracias ocidentais se deixaram enredar na teia do capitalismo selvagem. Vivemos cercados por um muro que nos tolhe o pensamento, querem impôr-nos o pensamento global e disso, tenho medo. A ideia de que quem não é por nós está contra nós que nos querem impôr assusta-me e é por isso que não celebro.
Nem o mundo não se divide em bons e maus, nem os bons estão só de um lado.
Mas são coisas diferentes, Carlos.
@Leonor – a questão da reunificação é tema para daqui a 1 ano, lá para 3 de Outubro, quando se “comemorarem” os 20 anos da mesma. Também tenho algumas dúvidas sobre o processo de reunificação. Desde a sua inconstitucionalidade (vidé artº 146 da Lei Fundamental de 1949) aos impactos provocados numa geração de gente nascida na RDA e que, de repente, se vê como cidadãos de um outro país, muita coisa há a referir.
Mas, o que importa agora, é festejar – sim, festejar – o derrube do Muro. Porque acelerou a queda de um regime opressor, de uma ditadura, devolvendo aos cidadãos de um país a Liberdade de que estavam privados. Só por isso valeu a pena!
Claro, João, embora hoje se comemora a Queda do Mutro e a data me toque particularmente, não consigo dissociá-la do que veio a seguir e que não foi bom de igual forma para todos. Mas discutamos isso então lá para Outubro. Até lá fico-me com aquela sua belíssima fotografia da Estátua na Strasse des 17. Juni.
Depois de ler o Carlos Barbosa Oliveira fiquei com a sensação que o pior que sucedeu à sociedade ocidental foi o 25 de Abril, em Portugal. Antes do 25 do A, não havia (ou quase não havia) inflação em Portugal, desemprego nem vê-lo, bons costumes (pornografia out ) era o que se sabia, as pessoas eram pobres, mas eram… enfim… felizes. Tal e qual como na antiga RDA . Depois veio o 25 do A e mais tarde a queda do muro de Berlim, o que acabou por deitar por terra tudo o que existia de bom, para se abrir a caixa de Pandora. No seu legítimo desejo de ver os muros todos do mundo derrubados, acho que deveríamos começar pela Muralha da China. Havia ali trabalho para dezenas de anos e para milhões de almas desempregadas.
Desculpe a ironia, mas não resisti a glosar a toda a sua argumentação. É que não consegui vislumbrar a conclusão: era melhor continuar a haver muro? ou a queda do dito trouxe todos os males existentes na sociedade ocidental actual?
Cumprimentos
Lamento se não me fiz compreender. Não foi nada disso que procurei transmitir
Carlos: não festejar a queda das ditaduras do Leste europeu em 1989-90 é o mesmo que não festejar a queda das ditaduras portuguesa, espanhola e grega em 1974-75. Os europeus de Leste têm tanto direito à liberdade como nós, os que vivemos no extremo ocidental do continente.
Não há mundos perfeitos, não existem sociedades perfeitas: quando se pretendeu essa perfeição ‘igualitária’, como no Camboja de Pol Pot, o resultado foi um genocídio. Claro que existem muros: além dos que mencionas há o mais célebre do planeta: aquele que divide a Coreia no paralelo 38. E ainda a ‘linha da paz’, na Irlanda do Norte, que separa católicos e protestantes. E a ‘linha verde’, em Chipre: 180km de extensão separando cipriotas gregos e turcos.
Cada muro que se derruba, cada ditadura que termina, é sempre motivo para celebrar. Mesmo que existam outros ainda por deitar abaixo. A menos que se pense – e sei que tu não pensas isso – que alguém desejasse verdadeiramente viver sob os regimes esclerosados e opressores dos Jivkov e dos Honecker e dos Ceaucescu e Enver Hoxha e ‘tutti quanti’.
Há os saudosistas do Muro? Há. Também em Portugal existem os saudosistas do Salazar: às vezes basta entrarmos num táxi para perceber isso. Mas para irmos um pouco além do ‘achismo’, consultemos a mais recente sondagem alemã, do ‘Leipziger Volkszeitung’: 79% dos alemães considera que a reunificação foi positiva. Só 12,5% gostaria de voltar a ver o Muro de pé. Por mim, fico esclarecido.
Nem mais.
Pedro:
Na resposta aos comentários da Leonor e do João Pedro, creio já ter respondido parcialmente às questões que colocas. Apenas mais duas coisas: não referi propositadamente os muros de que falas, porque quis retringir-me aos que foram construídos depois da queda do muro de Berlm. Pensei que depois desse ter sido derrubado, nunca mais se edficassem muros que separassem as pessoas e restringissem as liberdades. Afinal, enganei-me. E a explicação é simples: o mundo está demasiado inclinado para um lado. E isso não é nada bom, como a História já mostrou ao longo dos tempos.
No fundo, o que eu gostaria de perceber é a razão deste conformismo e aquiescência em relação aos muros que foram construídos depois. Isso nunca ninguém me explicou de forma convincente. Será porque os mexicanos são perigosos, os palestinianos indesejáveis e os ciganos um povo que não se recomenda?
Carlos, habituei-me a ver em ti o resistente pela utopia, que tão arredada anda nos dias que correm. Agrada-me ver isso em ti, de tão necessário que é resistir.
Porém, desafio-te a celebrar: jamais o mundo perfeito deixará de ser utópico, pelo que vale a pena celebrar cada vitória, mesmo sabendo que outros males estarão para vir.
Admito a utopia de querer ver um mundo justo, solidário e com mesnos desigualdades, João. Custa-me mais admitir que em pleno século XXI se tenham construído – e continuem a construir- outros muros. E também me custa admitir que os males estejam todos de um só lado.
Não, não me agrada esta sociedade tão desigual onde vivo, João. Não me agrada a crescente xeofobia, o aumento as desigualdades, os muros da Eslováquia isolando os ciganos, ou os de Ceuta e Melilla.
O ultra-liberalismo está a lvar-nos para caminhos de retrocesso e não de desenvolvimento. É por isso que não celebro embora, repito, me congratule.
PS: Eu também estva a gracejar no comentário que fiz ao teu post
Este artigo (post) de Carlos Barbosa de Oliveira (CBO) merece-me alguns comentários e só a falta de tempo não me permite dilatar a prosa.
Seria fastidioso respingar algumas das afirmações de CBO mas, mesmo assim, aqui vai o meu contributo para este debate:
O seu primeiro parágrafo define-lhe o pensamento: “Não gosto de muros (…) Mas, como antevi no próprio dia em que o muro de Berlim se começou a desmoronar, outros se ergueram depois”.
Isto é, CBO, em 1989, tem as suas reticências, manifestadas num evidente “mas”, sobre o derrube do Muro de Berlim. Na ocasião, presumo, a CBO ocorreu a pressuposição de outras barreiras limitadoras da Liberdade. Elogio-lhe, caro CBO, essa capacidade de prever o futuro.
Diz CBO, sem mágoa, que “Não encontro, por isso, razões para festejar (o derrube do Muro)”, ligando o fim do regime comunista da RDA a factos como destruição das Twin Towers (11/9/2001) e, claro (para CBO), como a génese do terrorismo no mundo ocidental. Não me tinha ocorrido que a conquista da Liberdade levasse ao terrorismo, mas é coisa com a qual não vou perder tempo.
CBO vai mais longe. A queda do regime soviético, que CBO sonha como ligada ao derrube do Muro levam-no a afirmar “que as democracias ocidentais talvez estivessem mais solidificadas (…) teríamos mais paz e estaríamos mais seguros, se o império soviético não se tivesse desmoronado (…)”. Deverá CBO explicar, se quiser, como se poderia viver numa Democracia, em Liberdade, sob um regime ditatorial.
Antes de terminar este meu comentário pretendo “provocar” CBO, já que ele nos diz que “
Estive do “outro lado”antes e depois da queda do muro e do desmembramento da URSS. A viajar e a trabalhar”. Pergunto-lhe: alguma vez falou com alguém ligado/a à STASI? Obviamente que não. Mas eu tenho histórias para lhe contar, porque também lá estive.
Também tenho muitas histórias para contar, acredite, mas divulga-las-ei noutro registo.
Quanto à minha visão de futuro, foi expressa não apenas em roda de amigos, mas também num programa de televisão exibido na TDM, dias depois da queda do muro de Berlim.
Quanto ao resto, espero que o post que hoje escrevo ajude a clarificar algumas das sua dúvidas.
Concordo plenamente.
APENAS UM MURO FOI DESTRUÍDO AINDA FALTAM MUITOS COMEÇARAM PELO MURO DA IGNORÂNCIA DAS PESSOAS