Francesinhas: 40 anos de resistência


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Hoje em dia não precisamos de ir à Argentina para comer um “bife de chorizo”, a Espanha para comer uma boa “paella” , a Marrocos para comer “couscous” nem ao Japão para comer “sushi”. A globalização – para além dessa péssima criação que é a “cozinha de fusão” – permitiu que a gastronomia típica de cada país se internacionalizasse e se tornasse acessível em todo o mundo ocidental.

É verdade que a cozinha portuguesa, talvez fruto das suas características, não tem sido dada a muitas experiências internacionais. De qualquer modo, já é possível encontrar, em vários países, deficientes imitações  do “bife à portuguesa”, do “bacalhau à Lisbonense” ou dos pastéis de nata.

Há, no entanto, um prato que resiste a qualquer internacionalização: a “francesinha”.

Criada nos anos 60 por um cozinheiro que tinha sido emigrante em França, esta iguaria permaneceu, durante quatro décadas, confinada à cidade do Porto – onde teve origem.

Nos últimos anos a sua popularidade propagou-se a outras zonas do país mas, garante-vos um apreciador deste delicioso manjar, que não existe em nenhum outro local uma única réplica que mereça os louvores dessa criação do restaurante “A Regaleira”, na Rua do Bonjardim.

Fiz várias tentativas, em vários restaurantes do país, mas  quase todas se revelaram decepcionantes. Não só ao nível dos ingredientes, mas também no que concerne ao ponto de cozedura do pão e à textura do molho, nenhuma se compara às que se podem comer em alguns locais do Porto (mas aviso desde já que também no Porto se vende muita “francesinha” que não respeita os cânones idealizados pelo seu criador). 

Registo com apreço a resistência à globalização desta iguaria ímpar nascida à beira do Douro, mas  hoje apetecia-me uma “francesinha” para me aliviar a tristeza deste dia plúmbeo que me aviva a memória de um país de cinzentões. Vã é a minha esperança. Em Lisboa, só encontro “francesinhas” de contrafacção.

45 comentários em “Francesinhas: 40 anos de resistência”

  1. Tens toda a razão. Para os apreciadores da iguaria que passou em poucas décadas a prato típico, há no Porto um “circuito das francesinhas”, para não haver engano: as melhores, as autênticas, para os verdadeiros ‘experts’.

    1. Com a idade já “perdi a mão” para o molho, maloud. ( Uma boa desculpa para a preguiça…)
      Mas também comer francesinhas, em casa, feitas por mim não dá gozo!
      Bem , o melhor é ficar por aqui… não tarda nada vou para a cozinha!

      1. O Bufete Fase foi o primeiro classificado no concurso para eleger a melhor Francesinha da Cidade do Porto do JN. Se for até lá poderá ver esses recortes de jornal em quadros na parede. É um local muito pequeno apenas com 4/5 mesas, onde só se come francesinhas, feitas à vista de toda a gente. Diria que é um lugar secreto dos apreciadores desta iguaria. Recomendo-lhe uma visita:

        Rua de Santa Catarina 1143 – Porto
        4049-050 PORTO

          1. Puxadote demais, Carlos! Fico a ferver! preciso de 2 ou 3 finos para empurrar a coisa!

  2. Mas, Carlos, a francesinha tem esse nome porque é uma variante (muito mais elaborada, admito) do muito parisiense “croque monsieur” (ou “croque madame”). Acabou por tornar-se uma especialidade do Porto, é verdade, mas nasceu em França…
    🙂

    1. Nã, nã, nã, Ana! As francesinhas são muito diferentes dos “croque”. Se é verdade que o cozinheiro emigrante se inspirou neles, o facto é que o resultado é radicalmente diferente e muito mais saboroso. A começar no molho divinal ( quando é bem feito, claro…) e a acabar na variedade dos ingredientes. Os “croque” estão muito mais próximos das tostas mistas do que das francesinhas, podes crer. Já as prováste num dos locais de eleição do Porto? E já experimentaste dizer a um francês vamos ali comer um “croque” e apresentares-lhe uma francesinha?
      Criou-se essa ideia aqui em Lisboa, mas não corresponde à verdade. Talvez por pensarem o mesmo, é que aqui em Lisboa, ninguém sabe fazer esse delicioso manjar.

          1. Frio, frio: sou de Fevereiro, meu amigo. Aquário, portanto. Mas o prazer da provocação é transversal aos signos…
            😉

  3. Bem lembrado, Carlos. Quando vou ao Porto nunca deixo de ir comer uma francesinha ao Capa Negra ou ao Galiza. As do Cunha também se recomendam. Na Regaleira, um verdadeiro clássico, prefiro matar saudades de umas boas tripas.

      1. Percebo-te, Carlos. Mas o que gosto mais daquelas tripas é mesmo do… arroz. Não se faz tão bom arroz em Portugal como no Norte em geral e no Porto em particular. Outro clássico são os filetes de pescada ou de polvo do Aleixo, com um arroz divinal.

        1. Filetes de polvo com arroz do mesmo, Pedro? Simplesmente divinal! Quanto ao Aleixo, já teve melhores dias, em minha opinião, mas já lá não vou há anos. Há uma série de restaurantes na Foz e em Matosinhos que merecem umas visitas atentas e demoradas. E agora, na zona mais animada do Porto ( junto aos Clérigos), há também uns restaurantes que merecem visita gastronómica com direito a roteiro.

  4. Carlos (e restantes interessados), deixo aqui uma dica para uma francesinha que faz parte do circuito das ditas, mas que poucos conhecem. Não me lembro do nome da rua, mas explico onde é.
    Quem contorna a Praça da República e fica de frente para o quartel-general, em vez de seguir em frente para a Lapa, tem uma rua à direita para descer a pé (de carro, só em sentido contrário). Descendo-a até ao fundo, do lado direito e quase na esquina com a Rua de Camões há uma casa pequena e modesta, ligeiramente abaixo do nível da rua, onde se entra e desce dois ou três degraus.
    O senhor António e a mulher, italiana, são uns castiços. E servem uma das melhores francesinhas do roteiro. Atenção: é preciso ir com a barriga vazia e com fome, ou não será fácil acabá-la, mais as batatas fritas aos palitos e o ovo estrelado estatelado no topo da obra de arte.

    1. Vocês são loucos. A francesinha é uma arma mais letal do que o plutónio enriquecido… e como se não bastasse, ainda lhe juntam batatas fritas e um ovo a cavalo!

  5. Também me estreei nas francesinhas lá na Regaleira, mas da última vez – 1º de Janeiro de 2009 – foi um fiasco e tive pena, pois levei lá amigos para as experimentarem.

  6. Prezado Carlos Barbosa de Oliveira,
    É na qualidade de zelador-mor da Confraria da Francesinha que me permito vir ao seu encontro. Ao longo dos anos tenho assistido a um sem-número de comentários sobre a dita que me têm deixado boquiaberto. Se desejar, terei muito gosto em enviar-lhe elementos sobre a francesinha.
    Disponha.
    Amadeu Silva

    1. Caro Amadeu Silva:
      Será com muito gosto que receberei esses elementos que desde já agradeço. Na verdade sabia da existência da Confraria, mas nunca tinha contactado com nenhum dos seus elementos. Agradeço a disponibilidade

      1. Muito bem. Logo que possível, enviarei alguns dados sobre a francesinha mas sob a forma de .doc e .jpg pelo que agradeço que me indique um e-mail.
        Depois, terá toda a liberdade para utilizá-los no seu blog, para o que agradeço apenas que cite a fonte. Tenho a certeza de que vai apreciar o material.
        Obrigado.
        Amadeu Silva

  7. O Carlos referiu-se à Cunha. Não seria A. Cunha, ou referia-se à pastelaria de Sá da Bandeira?
    Há anos que estou para ir à Regaleira, mas por uma ou outra razão, nunca lá entrei.
    Conheço uma data de pessoas que conhecem “o sítio onde se fazem as melhores francesinhas”. Pela minha parte, gosto das do Poeta, um café restaurante, que fica numa rua entre a Constituição e a Avenida de França, perto do Carvalhido.
    Curiosamente só comecei a comer francesinhas há pouco mais de meia dúzia de anos, por não gostar de quijo. Mas no molho picante nem se sente.

    1. A francesinha do Poeta é agradável, mas deixe-me dizer-lhe que não é melhor do que muitas outras.
      Os lugares do ‘circuito’ sáo todos superiores. Há estes, que são as catedrais da francesinha, há os lugares normais (como o Poeta), que constituem a maioria, e há aqueles que nem aos inimigos se apontam.

  8. As melhores francesinhas como-as em minha casa, fruto de anos de experiências desenvolvi um molho ao nível dos melhores das grandes casas, tendo os meus amigos o desplante de me “roubarem” os sábados à noite e se autoconvidarem para as ir comer chez moi “, umas das minhas inovações, que de inovação não tem nada, é a francesinha no forno de lenha, que lhe dá um gosto fenomenal com o queijo a ficar num estado divinal…
    Fora de casa sempre gostei das francesinhas do Cenáculo, do Chamiço (de outros tempos, actualmente não sei como serão), as do Barcarola não são de deitar fora e o Requinte em Matosinhos também servia umas francesinhas de qualidade, abraço e bons apetites!

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