Nesse mundo da sotaina onde, a par de gente sem mácula, se movem pedófilos, criminosos, delatores e agiotas, tenho dois bons velhos amigos que frequentemente lamentam a perda de vocações. Ambos são figuras públicas e um deles foi meu professor de Filosofia. Tendo em consideração a idade e as dúvidas que me assaltavam nessa época, as conversas que com ele tinha ajudaram-me a fazer opções. Extraí, com a sua ajuda, uma preciosa lição: é perfeitamente possível estar do lado de Deus sem estar ao lado da Igreja. O que não é possível é estar do lado de Deus sendo intolerante.
No dia em que Saramago fez aquelas declarações sobre a Bíblia e assisti às primeiras reacções, lembrei-me desses meus amigos. Pouco depois, lia as reacções ponderadas de um deles num jornal, contrastando com um coro de vozes de batina que se indignavam, ao lado de vozes civis mas pouco civilizadas, como Mário David.
Telefonei ao meu ex-professor de Filosofia a perguntar-lhe a opinião. Depois de me dizer que já tinha recusado fazer qualquer declaração sobre o assunto, a meia dúzia de jornalistas que o interpelaram, justificou o seu silêncio prenunciando o que se ia seguir. Manifestou o seu desejo de ver a Igreja a pôr água na fervura e lembrou-me uma reportagem que fiz em Macau (e na altura lhe enviei), quando “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” despertou a ira indignada de alguns católicos conservadores.
“Vais ver que agora se vai passar o mesmo. A comunicação social vai empolar o assunto, alguns sectores católicos mais conservadores vão reagir de forma desabrida e fazer o jogo de Saramago, ajudando-o a vender livros. Essa gente em vez de ajudar a difundir a Fé, complica. Seria bem melhor se estivessem calados e não dessem importância ”.
Esta é a forma de pensar deste meu amigo que, ao contrário de alguns fervorosos crentes, até reconhece aos ateus o direito de serem humanos. Talvez por isso ele seja respeitado e a comunicação social goste de ouvir as suas opiniões.
* Título de um filme de Pedro Almodóvar, que me pareceu apropriado

Também tive óptimos professores e cheios de bom senso.
abraço
Ainda bem, Pedro
Abarço
Muito bem, Carlos. Lembro o modo discreto e tom conciliador com que o Patriacado reagiu (e desvalorizou) as palavras de Saramago, bem ao contrário do “fogo novamente ateado” que alguns inventaram. O teu amigo tem carradas de razão.
O Patriarcado reagiu bem, alguns lacaios é que exacerbaram nas críticas.
É da História, Carlos: o problema vem sempre dos que são «mais papistas que o Papa».
Almodóvar com acento no o.
Em português, as palavras têm o acento na penúltima sílaba por defeito. Em castelhano as palavras por defeito são acentuadas na última sílaba, e precisam de acento se é para serem acentuadas na penúltima.
Assim Almodóvar como Rodríguez e Fernández.
Para quem se fartou de desvalorizar o ensino do Português, cai-me o queixo…
Mas isto não é para ensinar Português…, isto é para ensinar Castelhano, que é aquilo de que os portugueses mais precisam…
Acho que tens razão…
LOL
Quinta-feira não é decididamente o melhor dia para o Luis lavoura
Quinta-feira e as outras feiras…
Não se perdeu tudo, deu-me pretexto para um post
… “é perfeitamente possível estar do lado de Deus sem estar ao lado da Igreja. O que não é possível, é estar do lado de Deus sendo intolerante”.
Ora bem.
🙂
Desconfio quem seja esse teu amigo. E para quem ande com atenção não será difícil, dado a sua inteligência, cultura e bom senso, nas questões deste calibre.
E este equilíbrio não é para todos. Acima de tudo, enisna-nos.
Óptimo texto, Carlos.
Quem, como tu, frequenta o Rochedo chega lá, não é, Lúcia?
Obrigado pelas tuas palavras
“um deles foi meu professor de Filosofia”
Não se nota nada.
Pois não. É que não basta ser-se observador: é preciso ser-se bom observador.
É natural que você não note. Deve Observar com um olho cego, como é comum nos anónimos e aparentados.
Muito bem, Carlos.
:))
Obrigado, Mdo Sol 🙂
Gostei, Carlos. Reagir com fúria assassina às palavras de Saramago é fazer o jogo delee ajudá-lo a vender mais livros, um contrasenso para os que querem calá-lo. A serenidade não fica mal a ninguém.
Quanto ao mundo da sotaina,não é mais nem menos do que uma amostra do mundo em geral: há de tudo.
Carlos, parece-me que não houve exactamente um “coro de batinas” a responder: os respnsáveis da igreja tiveram muito nível na sua breve resposta (assim como o Rabi judeu). Quanto à intolerância, eu também me farto de ver gente que acha que quando alguém defende valores religiosos em público começa logo com referências à Inquisição; nos últimos dias pude ver isso em alguns fóruns de opinião. A liberdade religiosa dá tanto direito a questionar Deus e a Fé como a defendê-la. Se os católicos, entre os quais me incluo, se sentem ofendidos, têm o direito de responder.
Carlos, só agora é que li este texto e surpreendi-me com trechos que combinam perfeitamente com o que penso. Hoje escrevi sobre o Saramago e com o que ofende ou deveria deixar ofendido o ser humano, coisas como por exemplo, La Mala Educación*.
E o texto de amanhã, só estou esperando deixar de ferver o sangue, tem relação direta com a dsiciplina de Filosofia :o)