Um Polvo no País das Maravilhas


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No caminho de regresso a Lisboa  fico a saber do mais recente escândalo de corrupção, envolvendo nomes que abandonaram a política, para exercer cargos bem remunerados no sector privado.  De imediato sou forçado a recordar os casos que no último ano  têm animado a comunicação social e ajudado a vender alguns jornais:  o BPN e o Freeport. Não posso evitar a  recordação de outros casos ainda mais antigos, como o Portucale que continua, como tantos outros, a marinar nas malhas das investigações ou da justiça.

A comparação com a rapidez do julgamento de Madoff foi inevitável. Por cá espera-se que as coisas caiam no esquecimento.

Nesta associação de pensamentos recordo um amigo chinês que, há meses, foi acusado de tentativa de corrupção. Era visto no seio das comunidades portuguesa  e chinesa, de Macau, como uma pessoa honesta. Trabalhei com ele no Conselho de Consumidores, acompanhei-o  em diversas viagens de trabalho e a sua conduta sempre me pareceu irrepreensível .

A suspeição foi levantada pelo Comissariado  da Corrupção e nunca chegou ao Ministério Público, nunca foi constituído arguido, nem viu formulada qualquer acusação. Talvez por não suportar ver o seu nome arrastado na lama, Alexandre Ho  foi até à vizinha cidade chinesa de Zuhai, alugou um quarto num hotel e suicidou-se.  Era acusado de ter recebido 20 mil patacas (cerca de dois  mil euros)

Por cá os arguidos, mesmo condenados em primeira instância, proclamam inocência, declaram ser vítimas de “linchamentos”, recusam abandonar os seus cargos públicos e esperam deixar de ser notícia, quando vier à baila o caso seguinte. Este sentimento de impunidade, a quase certeza que todos têm de que nunca serão condenados, não é só preocupante. É nojento! 

6 comentários em “Um Polvo no País das Maravilhas”

  1. Aos que declaram ser vítimas de linchamentos, devíamos dar mais substância aos seus queixumes. Que o lamento não seja injustificado.

  2. Conheci bem Alexandre Ho, que sempre considerei uma pessoa honesta. Fiquei chocado ao saber o que lhe sucedeu. Por cá, é o que se sabe – e o que bem apontas. Apesar de tudo, acho que já estivemos pior em matéria de investigação criminal, organização de processos-crime e até de julgamentos dos ‘poderosos’. Pelo menos Isaltino já foi condenado em segunda instância.
    O problema é o excesso de ‘garantismo’ do nosso código penal, nomeadamente para crimes de corrupção. O corrupto, em regra, está em condições de pagar os melhores advogados, que protelam o processo até às calendas.

    1. E todos se protegem, neste Bloco Central de interesses onde Portugal mergulhou, seguindo o exemplo de uma União Europeia ( Chirac, Berlusconni,etc) onde a política se transformou num mero expediente de enriquecimento fácil.
      Como escrevi no post, trabalhei e convivi de perto com Alexandre Ho. Não ponho as mãos no fogo por ninguém, mas se há pessoas cujo comportamento em serviço no estrangeiro nos deixam com algumas dúvidas sobre a sua honorabilidade, o caso de Alexandre Ho era exacatamente o oposto. Quando regressava de uma viagem devolvia sempre as ajudas de custo que não tinha gasto, embora a elas tivesse direito. Só um exemplo…

  3. Mais um prato polvilhado…

    Neste país maravilhado
    por polvos e mexilhões,
    mais um prato polvilhado
    de políticos brincalhões.

    Vítimas de linchamentos
    em lume brando a marinar,
    são estes os argumentos
    para a verdade profanar.

    Com Portugal a definhar
    de forma ameaçadora,
    não é preciso adivinhar
    qual a marca reveladora.

    Vence o golpe ordinário
    arrecadando uns milhões,
    como um chupista unário
    parasitando os mexilhões.

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