Mais duas notas rápidas


escafandro,

1. O Partido Socialista tem razões para estar satisfeito. Ainda que se mantenha fora do governo, a decisão do TC praticamente obriga a que a receita que vem defendendo (confrontar a Troika com uma exigência de renegociação) seja aplicada. Ganhaste, Tozé. Logo veremos os resultados.

(Eu aposto em mais um aumento de impostos.)

 

2. Seria bom que isto acabasse de uma vez por todas com a noção de que é possível aplicar receitas de direita, ou liberais, ou neoliberais, ou o que raio quiserem chamar-lhes, em Portugal. Se nem um governo que baseou a consolidação orçamental na recolha de impostos conseguiu escapar…

(Mas claro que não vai acontecer.)

Acerca da decisão do Tribunal Constitucional


escafandro,

1. LOL!

 

2. Logo agora que o governo, forçado pelas circunstâncias, ia ter de começar a fazer o que devia ter feito há ano e meio. Coincidências.

  

3. E no fim de contas o memorando estava mesmo (muito) mal desenhado: nem um terço do ajustamento pelo lado da despesa será constitucional, quanto mais dois.

 

4. Evidentemente, concordo com a Ana Margarida Craveiro. Em parte por culpa própria, em parte por desvios a que foi obrigado (vide decisão anterior do TC ou polémica sobre a TSU), o governo já se encontrava demasiado longe não apenas do que parecia ser o seu plano original mas de qualquer solução razoável para a crise (vide Irlanda ou países nórdicos no início da década de 90), pelo que não deve agora afundar-se ainda mais, fingindo ter alternativas. Demita-se.

 

5. Depois, levando em conta as ilusões que continua a ser necessário estilhaçar e o quão manietado qualquer executivo fica após esta decisão, (será constitucional cortar ainda mais o subsídio de desemprego ou fechar hospitais e escolas, despedindo os funcionários?) a via mais razoável passaria pela realização de eleições.

 

6. Mas claro que Cavaco assim não o entenderia. E ficaríamos (ficaremos?) então com alguém de mãos atadas à frente de um concentrado de interesses contraditórios com olhos em eventuais eleições. Os resultados só poderiam ser brilhantes.

 

7. De certo modo, mais valeria arranjar um governo que aplicasse as políticas do BE e do PC; também se estilhaçariam muitas ilusões mas pelo menos todas as medidas seriam constitucionais.

 

8. Seja como for, o equilíbrio orçamental fica mais longe e os mercados de dívida deverão adorar os próximos tempos. Segundo resgate, anyone?

  

9. Entretanto, a Irlanda, sobrecarregada com uma Constituição imperfeita que lhe permitiu cortar nos sítios certos, cresceu cerca de 0,7% em 2012 enquanto o défice público descia de 13,4% do PIB em 2011 para 7,7% em 2012.

 

10. Finalmente, o mais marado nem é oficializar-se o sequestro de parte do país por outra parte; é assistir às manifestações da Síndrome de Estocolmo.

Luz superior


escafandro,

O irrealismo é de Passos Coelho e companhia. Ao PS assiste uma luz superior que não o deixa errar. É um jardim infantil em que os meninos brincam à vontade e, quando os contrariam, vão ao Parlamento chorar e berrar.

Vasco Pulido Valente, no Público de hoje.

Relvas, demissões e licenciaturas anuladas


escafandro,

O ministro Miguel Relvas demitiu-se. Acho bem. Devia, aliás, tê-lo feito bastante mais cedo. Contudo, mais do limitar-me à constatação da sua saída do governo, quero realçar outra: Miguel Relvas demitiu-se após um processo de auditoria desencadeado pelo próprio governo, na sequência de notícias acerca do modo como se licenciou, o qual produziu resultados tão contrários ao interesse do governo que outro ministro vai ter que anular a licenciatura e/ou (existem versões contraditórias quanto aos poderes de Nuno Crato) enviar o caso para o Ministério Público. Era bom que este nível de isenção servisse de precedente porque, apesar da minha memória já não ser o que era, quer-me parecer que as coisas nem sempre funcionaram assim.

Alegria


escafandro,

 

Não sou um grande apreciador de fado. Encontro-lhe amiúde uma faceta de lamúria, de incapacidade para reagir à adversidade, de prazer na desgraça, que me desagrada profundamente. A tendência demonstrada por alguns fadistas para intensificar esse lado miserabilista com vocalizações excessivas e trejeitos melodramáticos só piora as coisas.

Tendo isto em consideração, será fácil perceber por que aprecio Cristina Branco. Usa o fado como ponto de partida, não como espartilho, permitindo-se recorrer a autores de outros estilos e basear muitas canções no som de instrumentos que não a guitarra portuguesa (no do piano, por exemplo). Não canta lamentos, canta relatos tocantes, incongruentes, eróticos (no fabuloso Sensus, de 2003), duros, acusatórios. Tem uma voz de incrível limpidez mas não a usa para efeitos grandiloquentes. Alegria, o seu último álbum, foi lançado há poucas semanas. Inclui temas com letras de, entre outros, Sérgio Godinho, Jorge Palma e Chico Buarque. Inclui também um tema em que Cristina lê, sem apoio de música, um texto de Gonçalo M. Tavares que me parece um tiro ao lado: funcionará mais por serem raras as pessoas que aceitam correr o risco de parecerem insensíveis, ainda que apenas perante elas mesmas, do que por a letra ser particularmente brilhante (pelo contrário: é simplista, ilógica, de efeito fácil). O título do disco é uma piada amarga porque não existe nele muita alegria – mas existe consolo. Aproximam-se dois concertos de apresentação: no Teatro São Luiz, em Lisboa, na próxima sexta-feira, e na Casa da Música, no Porto, no próximo domingo.

Salvando os bancos


escafandro,

Por que motivo, em comparação com o que sucedeu nos Estados Unidos, tão poucos bancos encerraram na Europa desde o início da crise financeira? Devem os bancos europeus continuar a ser salvos com dinheiro dos contribuintes ou deve a solução encontrada para Chipre ser alargada a outros países? Este artigo, na edição online em inglês da Der Spiegel, ajuda a perceber que não há respostas fáceis.

A beleza da concertação social


escafandro,
Sindicatos exigem o aumento do salário mínimo. Confederações patronais dizem que sim, senhor, é justo – desde que tal não represente um aumento de custos para as empresas. Quadratura do círculo? Era não conhecer este país. Sindicatos e patrões reúnem-se e congeminam um plano a que a falta de originalidade é incapaz de retirar brilhantismo: o Estado que pague. Num tocante gesto de boa vontade (sindicatos e patrões ouviram dizer que as contas públicas passam por algumas dificuldades), só lhe é pedido que assegure 80% do custo total.

Telefonemas


escafandro,

Ligo a familiares, amigos e colegas por razões particulares (telefonemas profissionais são outra realidade) e passo a duração da chamada em busca de assunto. Hesito. Repito-me. Balbucio trivialidades. Há pessoas capazes de ficar a conversar durante horas – sobre a saúde, o tempo, o almoço, as brincadeiras dos filhos, a idiotice ou a injustiça dos colegas de trabalho, um programa de televisão, os resultados do futebol, a temperatura e o tempo correctos para cozinhar pão-de-ló, os inacreditáveis erros de Gaspar e as inacreditáveis mentiras de Passos. Eu não. Ao vivo, cara a cara, até falo bastante. O telefone, porém, seca-me a verve. Desconfio que as pessoas a quem ligo acham que sou brusco e que só lhes telefono por obrigação. A primeira parte talvez seja verdade, a segunda decididamente não é. Regista-se uma componente de esforço mas advém da antecipação do desconforto, de saber não apenas que serei incapaz de manter a conversa durante muito tempo mas também que depressa isso ficará evidente. Nada mais. Por outro lado, como seria inevitável, não consigo deixar de me interrogar se as pessoas que me telefonam o fazem a contragosto, antecipando o seu próprio desconforto e sentindo executar um acto inútil. Não é inútil. Para ser importante, um telefonema não necessita de durar mais do que dez segundos nem de incluir mais do que algumas frases desconjuntadas. Digo eu, procurando convencer-me de que as aparências não definem a realidade. Como em tudo, regista-se um ponto positivo: estarei entre as pessoas que menos dinheiro gastam neste país em chamadas telefónicas. Mas isso também me impede de usar o argumento económico para terminar as conversas («Olha, vou desligar que isto fica caro»), uma vez que mentir, pela falta de respeito que constituiria, está fora de questão. E, assim, quedo-me totalmente sem assuntos para prosseguir nem desculpas para desligar.

Give my children sunny smiles, give them moon and cloudless skies


escafandro,

Apesar de Bowie ter inesperadamente lançado um novo álbum há um par de semanas, não resisto a recuperar este tema de Heathen, de 2002. Trata-se de uma espécie de canção de protesto, ou talvez de reivindicação, que me parece muito adequada aos tempos que correm, especialmente por se encontrar impregnada de uma teimosia ingénua que falta a outras (sim, a essa também). O vídeo, amador mas delicioso, é composto por imagens da Dinamarca nas décadas de 50, 60 e 70.

Coisas privadas


escafandro,

Why not leave their private sorrows to people? Is sorrow not, one asks, the only thing in the world people really possess?

Vladimir Nabokov, através do professor Timofey Pnin, resmungando contra a psicanálise (um dos seus ódios de estimação) em Pnin, meio século antes da criação das redes sociais. 

Duas acusações recorrentes


escafandro,

Passos Coelho e Vítor Gaspar não conhecem o país.

Com uma parte desta acusação é fácil simpatizar: eu também preferiria que a carreira profissional dos actuais líderes políticos fosse mais rica. Mas convém não ter ilusões: em Portugal como noutros países (afinal, que carreira fora da política teve François Hollande, essa momentaneamente imprescindível referência da esquerda?), os líderes políticos emergem dos partidos, pouco mais tendo feito na vida que não política. Nem sequer é difícil perceber a razão: muitos empresários e gestores preferem quedar-se na sombra, beneficiando de um regime de interesse mútuo, e os restantes, aqueles verdadeiramente dinâmicos e competentes, não têm tempo nem apetência para os meandros insalubres do jogo político (excepção feita a esse expoente da qualidade governativa e do conhecimento das necessidades dos cidadãos chamado Silvio Berlusconi, evidentemente). Esta última razão aplica-se também a médicos, académicos, juristas, economistas, cientistas, contabilistas, funcionários de escritório, comentadores televisivos e surfistas. Sendo que conviria reconhecer um ponto importante: quando muito, a diferença no conhecimento do «mundo real» – ou, noutra expressão adorável, do «país real» – entre políticos como Passos Coelho ou Vítor Gaspar (ou António José Seguro) e a maioria dos médicos, académicos, juristas, economistas, cientistas, contabilistas, funcionários de escritório, comentadores televisivos e surfistas não ultrapassa dois ou três pontos numa longuíssima escala – e estou a ser simpático para os médicos, académicos, juristas, economistas, cientistas, contabilistas, funcionários de escritório, comentadores televisivos e surfistas. Na verdade, quem se pode reclamar da capacidade de conhecer o «país»? Mais: o que é «o país»? Um pescador de caxinas, um maquinista da CP, um doutorado pela Católica, um reformado sentado num banco de jardim, um broquista da indústria da cortiça, o Fernando Ulrich, o sem-abrigo que dorme junto à porta do balcão da Praça da Galiza do BPI (no kidding), o proprietário de um café em Olhão, um investigador bolseiro, o emplastro que aparecia na televisão atrás de políticos e desportistas, um elemento dos No Name Boys, o António Lobo Antunes, o pensionista que, em conluio com o patrão, passou anos a declarar apenas três dias de trabalho por semana e agora se queixa do montante da pensão de reforma, uma dona de casa de Castelo de Vide, um cirurgião da unidade cardiotorácica dos Hospitais de Coimbra, um pastor da Serra da Estrela, a presidente da Assembleia da República e a sua reforma aos 42 anos, o vimaranense que gritou «Messi, Messi, Messi» porque o Ronaldo não lhe ligou às miúdas? Ou será o próprio Ronaldo e o seu Lamborghini Aventador? O país é demasiadas coisas para que alguém possa reclamar conhecê-lo bem e não são três, dez ou vinte anos numa empresa (ou em duas ou em três), ou numa universidade, ou num escritório de advocacia que permitem conhecê-lo. Não da forma como parecemos exigi-lo aos líderes políticos. Mas talvez consigamos chegar a uma resposta satisfatória acerca do que significa «o país» e, muito especialmente, «conhecer o país» notando que Sócrates, com o seu currículo de ligações a câmaras municipais e a projectos manhosos, com as suas políticas beneficiando invariavelmente os empresários amigos e as classes habituadas a serem prioritárias em qualquer decisão governamental, raramente ouviu a acusação. Deve ser isto, então, «conhecer o país»: estar mergulhado nos seus vícios e disponível para os perpetuar. De resto, só assim se entende que alguns comentadores incluam nos pontos negativos a circunstância de Passos, Gaspar e Seguro, para além de nunca terem tido um emprego «normal», nunca terem sequer desempenhado cargos em governos anteriores ou autarquias – o que, equivalendo a acusá-los de fazerem parte do sistema por não terem desempenhado um papel oficial no sistema, tem lógica porque, na realidade, o que toda a gente continua a desejar é continuidade: as políticas e a retórica do costume. Só que Portugal não precisa de continuidade. Precisa de mudança. E, infelizmente, para a implementar, talvez Passos – como muitas pessoas em torno dele; como Seguro – ainda conheça o país demasiado bem. Só assim se explicam a força inabalável com que avançou para os aumentos de impostos e todas as dúvidas que parecem restar-lhe quanto ao corte da despesa.

 

Eles só olham para os números; as pessoas não são números.

Depois de tantas previsões falhadas por parte de Vítor Gaspar, esta parece hoje uma acusação incongruente mas, há três ou quatro meses, o Bloco de Esquerda, benza-lhe Deus o voluntarismo, até colocou a segunda parte da frase num cartaz. É verdade que, nas últimas décadas, à medida que as pessoas iam conseguindo melhores níveis de vida do que em alguma outra época da História, o calor humano parecia descer. A posse – nisto os marxistas tinham razão – implica egoísmo. É também verdade que muita gente em cargos de responsabilidade possui mais bagagem teórica do que experiência prática. Mas o nosso problema não advém de os nossos governantes olharem demasiado para os números. Pelo contrário: o problema nasceu ou, pelo menos, agravou-se muito para além do necessário por, ao longo de anos, não terem olhado o suficiente. Tivessem-no feito, e tivessem agido em função do que viam, e as pessoas estariam hoje melhor. As mesmas pessoas que, não sendo números, deviam aprender que eles querem dizer algo, que têm consequências práticas nas suas vidas – e deviam aprender a exigir aos políticos que olhassem bem para eles e não apenas numa perspectiva de curto prazo. Mas ignorar os avisos (enquanto o pau vai e vem, folgam as costas, certo?) ou até, como no caso do Bloco de Esquerda, do PC, da CGTP, exigir continuamente medidas que agravam as hipóteses de «os números» virem a ter consequências nefastas e depois regurgitar clichés é tão mais fácil, não é?