Ligo a familiares, amigos e colegas por razões particulares (telefonemas profissionais são outra realidade) e passo a duração da chamada em busca de assunto. Hesito. Repito-me. Balbucio trivialidades. Há pessoas capazes de ficar a conversar durante horas – sobre a saúde, o tempo, o almoço, as brincadeiras dos filhos, a idiotice ou a injustiça dos colegas de trabalho, um programa de televisão, os resultados do futebol, a temperatura e o tempo correctos para cozinhar pão-de-ló, os inacreditáveis erros de Gaspar e as inacreditáveis mentiras de Passos. Eu não. Ao vivo, cara a cara, até falo bastante. O telefone, porém, seca-me a verve. Desconfio que as pessoas a quem ligo acham que sou brusco e que só lhes telefono por obrigação. A primeira parte talvez seja verdade, a segunda decididamente não é. Regista-se uma componente de esforço mas advém da antecipação do desconforto, de saber não apenas que serei incapaz de manter a conversa durante muito tempo mas também que depressa isso ficará evidente. Nada mais. Por outro lado, como seria inevitável, não consigo deixar de me interrogar se as pessoas que me telefonam o fazem a contragosto, antecipando o seu próprio desconforto e sentindo executar um acto inútil. Não é inútil. Para ser importante, um telefonema não necessita de durar mais do que dez segundos nem de incluir mais do que algumas frases desconjuntadas. Digo eu, procurando convencer-me de que as aparências não definem a realidade. Como em tudo, regista-se um ponto positivo: estarei entre as pessoas que menos dinheiro gastam neste país em chamadas telefónicas. Mas isso também me impede de usar o argumento económico para terminar as conversas («Olha, vou desligar que isto fica caro»), uma vez que mentir, pela falta de respeito que constituiria, está fora de questão. E, assim, quedo-me totalmente sem assuntos para prosseguir nem desculpas para desligar.
Telefonemas
escafandro,

Como eu te compreendo! Odeio telefones, a perspectiva de uma chamada longa gela-me o sangue. E há sempre quem adore estar a conversar ao telefone, quase sempre aquelas pessoas a quem sou incapaz de cortar a palavra por total inabilidade ou cerimónia. Fico à espera de que se cansem ou de que percebam que eu já nem estou a ouvi-las, mas não costumo ter muita sorte.
Por acaso, eu fico à espera de que não percebam que já não estou a ouvi-las… 🙂
Isso acontece-me até metade do telefonema. Daí em diante espero ansiosamente que percebam mesmo.
Eu também não gosto de telefonemas; para mim o telemovel (porque não tenho telefone fixo) deve ser usado apenas para uma mensagem que não pode ser enviada por email, ou para um “olá” brevíssimo só para mostrar que nos lembramos da pessoa e queremos saber se está bem 🙂
Usado, portanto, para contactos breves. Sempre me faz muita impressão as pessoas que passam toda a viagem de autocarro (ainda que demore 40 minutos ou mais) a conversar ao telemovel… E aquelas pessoas que estão a contar algum episódio da sua vida e que quando acabam todos os pormenores, voltam a contar de novo!! arrrg! Acho que querem mesmo é estar a telefonar, não importa se têm ou não assunto…
Devo confessar que eu gosto muito de uma publicidade que anda por aí por me sentir bastante parecida com o tal Salvador…
Também tenho essa relação com o telefone, JAA. Sempre detestei falar ao telefone.