Rio Douro, Melres (entre o Porto e Entre-os-Rios), 2010.
Fotografias tiradas por aí (190)
escafandro,
Se a infância é a época em que a vida ainda não se conceptualiza e a hipótese de independência assusta, se a adolescência é a época em que se reivindica uma vida própria e se vai descobrindo quão insatisfatória ela afinal é, a idade adulta não passa da época em que debalde se tenta não pensar no assunto e se encaixa a insatisfação numa normalidade que pode chegar a parecer conforto. Presumo que a velhice seja a época em que a dependência volta a ser um factor inelutável, em que se aceita já não haver tempo para eliminar a insatisfação e em que o mistério se transfere definitivamente da vida para a morte. Com frequência, e talvez isso devesse alarmar-me mas acaba pacificando-me, sinto que, ao cumprir dois dos três critérios, já a atingi.
(É então que, numa espécie de recarga de baterias, revejo um filme do Lubitsch ou dos irmãos Marx.)

Pinhanços, concelho de Seia, circa 2000.
Walking by flashlight
at six in the morning,
my circle of light on the gravel
swinging side to side,
coyote, raccoon, field mouse, sparrow,
each watching from darkness
this man with the moon on a leash.
Ted Kooser, Winter Morning Lights: 100 Postcards to Jim Harrison.
And now, para terminar e como diziam os gloriosos malucos do circo voador, for something completely different. Maria Schneider é compositora de jazz. Tem a sua própria banda, já passou por Portugal e em 2011 até dirigiu a Orquestra de Jazz de Matosinhos na Casa da Música. Dawn Upshaw é soprano. Nasceu em Nashville mas fez carreira cantando Handel, Mozart e compositores contemporâneos como John Adams. Schneider e Upshaw juntaram-se para musicar nove poemas de Winter Morning Walks: 100 Postcards to Jim Harrison, de Ted Kooser, e quatro poemas de Carlos Drummond de Andrade (nas suas versões em inglês). Pendendo mais para o universo da música clássica que para o do jazz, o resultado é belíssimo. Pormenor curioso: foi realizado através do ArtistShare, um site que possibilita a artistas arranjarem financiadores para trabalhos que pretendem desenvolver, em troca de informação sobre o processo criativo, referência no booklet do álbum e acesso privilegiado a espectáculos. É também lá que podem ser compradas versões em CD ou (mais fácil para europeus, estando a ArtistShare sediada em Nova Iorque) MP3 de Winter Morning Walks – que, como Maria Schneider fez o favor de me informar através de correio electrónico (e eu só comprei a versão em MP3), acabou de vencer três grammys na categoria de música clássica.
How important it must be
to someone
that I am alive, and walking,
and that I have written
these poems.
This morning the sun stood
right at the end of the road
and waited for me.
Ted Kooser, Winter Morning Lights: 100 Postcards to Jim Harrison.
Primeiro em busca de uma imagem cool, depois mais ou menos forçadas umas pelas outras (a concorrência é coisa boa), as operadoras móveis de telecomunicações vêm desempenhando um papel importante na divulgação da música pop/rock nacional, seja através do apoio a festivais de Verão, seja através de projectos menos óbvios, de onde se destacam estações de rádio (Vodafone e Meo Sudoeste) e o apoio directo à produção e distribuição de álbuns (Optimus Discos). O último caso será o mais interessante, tendo dado origem a quase noventa álbuns desde 2009. We Will Destroy Each Other foi lançado em Março de 2013. É o primeiro trabalho de John Almeida, um inglês de quarenta anos (convenhamos: o título ligeirissimamente pessimista deixava entender que ele já abandonara a adolescência há uns tempos) descendente de portugueses, hoje a residir no Porto. Pode ser descarregado legal e gratuitamente no site da Optimus Discos. Enquanto lá estão, aproveitem para ouvir (e fazer dowload de) outros trabalhos. Depois voltem aqui que entretanto já deve haver posts novos.
Apesar de Laura Mvula ser praticamente desconhecida, o álbum era aguardado com alguma expectativa, circunstância que, no mundo actual de consumo rápido e opiniões ainda mais rápidas e definitivas, constituía tanto uma vantagem como uma ameaça. Sing to the Moon não desilude. Arrasta-se ligeiramente num par de ocasiões, como se, ao primeiro trabalho de longa duração, Mvula ainda não tivesse conseguido separar totalmente o acessório do essencial, os pontos em que já é forte (quando transmite ritmo e energia positiva) daqueles em que deve melhorar (quando aponta a canções intimistas, mais afastadas dos hinos gospel executados pelos coros em que participou), mas nem por isso deixa de merecer destaque entre os lançamentos de 2013. Este tema, Green Garden, é talvez o mais infecciosamente optimista que ouvi no ano passado.

Porto, 2010. O que está no chão merecia figurar neste site.
Portanto o álbum chama-se Woman. Escutem um pouco, antes de prosseguirem a leitura. Já está? Não façam batota, cliquem no triangulozinho e aguardem – com o som ligado – cerca de um minuto antes de continuarem a ler. 1, 2, 3, …, 30, …,59, 60. OK, vamos lá. Não, não é a Sade. É – aqui vai – um gajo. Pois, já estavam à espera, depois de tanto suspense de má qualidade. Ah, já conheciam. Cambada de… pessoas bem informadas. Então para os três distraídos que passam pelo Delito nos dias em que não se esquecem de o fazer: os Rhye são um duo baseado em Los Angeles composto por um canadiano (o vocalista) e um dinamarquês. (Quem disse que a globalização não é uma coisa bonita?) Woman é o álbum de estreia e inclui algumas canções que soam um bocadinho menos a Sade do que esta. Numa ou noutra até se nota que o vocalista é um homem. Especialmente depois de já se saber.
Como se diz que não há duas sem três e, pelo menos um par de vezes por ano, gosto de dar uso às velhas pérolas de sabedoria popular, vou começar este texto da mesma forma que comecei os dois anteriores: com um desabafo. Detesto o nome artístico desta rapariga. Tentar fazer carreira com base no nome próprio é de cantor pimba – ou da Beyoncé mas essa é um caso à parte e, de resto, toda a gente lhe conhece o apelido enquanto eu tive que pesquisar imenso para descobrir o de Márcia (Santos). Tem isto importância? Não. Sim. Não. Depende. Não devia ter. Se calhar não tem. Mas pronto. Rant over.
O melhor termo para descrever o segundo álbum de Márcia Santos – a partir de agora vou tratá-la assim – é «depurado». Tanto que, por vezes, tão habituados estamos a música pop demasiado produzida, parece faltar algo. Não falta. É «apenas» delicado (título de uma das canções), preciso, quase nada – passe o trocadilho básico – marcial. O tema deste vídeo conta com a participação de Samuel Úria, cujo álbum do ano passado não surgirá nesta série apenas porque recuso voltar a aumentar o número de entradas (tem o sublime título O Grande Medo do Pequeno Mundo e – amor com amor se paga e, eureka, ainda estamos em Janeiro e já despachei a quota de pérolas de sabedoria popular – inclui um dueto com Márcia Santos que, em primeira audição descuidada, cheguei a pensar basear-se na vida de António José Seguro). Informação acessória: Márcia Santos estará no Centro Cultural Olga Cadaval, em Sintra, no dia 7 de Fevereiro, e na Casa da Música, no Porto, no dia 14 do mesmo mês.
Actores que decidem começar a cantar profissionalmente são uma das coisas mais irritantes que há. Sendo que o inverso é igualmente mau. (For the record, a lista de coisas que me irritam é apenas um tudo-nada mais curta que a lista de promessas quebradas pelos políticos portugueses desde a época em que Dom Afonso Henriques ainda levava palmadas da mãe.) A minha convicção a este respeito é tão forte que não vale a pena mencionarem exemplos que imaginam provar o contrário: obrigar-me-iam a escarnecer da maioria e a ignorar os restantes. Excepções são excepções e fiquemos por aí.
Clarificado este ponto, devo dizer que gosto de Hugh Laurie, até mesmo quando canta. Já gostava quando ele se limitava a temas de candente humor cínico vindos da época do programa Fry & Laurie e gosto agora, que decidiu dedicar-se aos blues. Gosto porque se nota que é um fã genuíno e porque mantém uma faceta de auto-derisão (repare-se no início do vídeo – e atenção à ortografia) que torna difícil acusá-lo de inconsciência ou pretensiosismo, mesmo sabendo-se que nasceu em Oxford, Reino Unido, um sítio tão ligado à comunidade negra do Sul dos Estados Unidos como eu estou ligado à Charlize Theron. Que é como quem diz: fisicamente nenhuma relação, espiritualmente tudo é possível.
Na última década, alimentada por trintões e quarentões saudosistas, a música dos anos oitenta tornou-se uma praga. Agora, alimentada por miúdos que mal a conhecem, faz nascer uma catrefada de bandas para quem os sintetizadores são um universo de inovação. Hesitei entre incluir nesta série os escoceses Chvrches, as manas californianas Haim e a (parece que) luso-descendente e também californiana Sky Ferreira. Escolhi a última não por ser gira (as Haim e a vocalista dos Chvrches também são) nem por ter genes lusos (bom, talvez isso tenha pesado um pouco) mas por, sendo esta série de posts acerca de álbuns, as Haim me parecerem melhores ao vivo (ver actuação no link anterior) e Lauren Mayberry, dos Chvrches, ter uma voz que tão depressa me parece adorável como extremamente irritante. Ah, e ainda porque, escolhendo Sky Ferreira, posso apresentar-vos Toby. Surge no vídeo abaixo, realizado para o tema Red Lips, pertencente ao EP Ghost, de 2012. Num indício de que Sky ainda buscava (e provavelmente busca) um registo próprio, soa (sem grande surpresa, atendendo a que foi co-escrito por Shirley Manson, dos Garbage) mais a bandas de riot girls como as Hole ou as L7 do que a electropop. Começar a ver e desistir a meio será considerado batota e fará perder o acesso ao blogue.
(O estilo anos oitenta de Sky nota-se mais no primeiro single mas eu prefiro o tema do vídeo acima.)
Fez uma paragem de sete anos entre o lançamento de “The Ghost of Tom Joad” em 1995 e “The Rising” em 2002. Mas ultimamente parece estar a lançar música a um ritmo bastante mais elevado. O que motiva isso?
É a velha história da luz do comboio que se aproxima focar a mente.
Vê um comboio a aproximar-se?
Você não? Que idade tem?
Tenho 32.
Oh. (Grande gargalhada.) Você ainda não o vê, mas ele está a caminho.
Bruce Springsteen, em entrevista à Rolling Stone. Tradução minha.
Tal como os Peixe:Avião (com quem partilham o baterista), nasceram em Braga. No site deles, na zona da biografia, encontra-se o seguinte: They were inspired by the 1976 short-film “Dear Phone” by Peter Greenaway, to express their will to decant soap operas and cheesy pocket paperback dramas through hard, frugal, minimalist compositions. Concordo com a parte das composições minimalistas (num registo de pop electrónica) e talvez concordasse com a decantação de telenovelas e livros de bolso pirosos se eles não tivessem incluído no álbum uma versão electrónica do ainda bastante recente mas já clássico e nada piroso The Revelator, de Gillian Welch. Ponto digno de menção: conseguem que um fã do original não se torça de desagrado ao ouvi-la. E, sim, no que me diz respeito isto é um grande elogio.
P.S.: Fica a informação de que, ao ouvir as primeiras quatro palavras do tema apresentado no vídeo, sinto-me invariavelmente obrigado a devolvê-las à vocalista (chama-se Graciela, o que a torna uma espécie em vias de extinção e, por conseguinte, digna de todos os cuidados) enquanto, com um suspiro mental, penso: «Mentirosa».
P.P.S.: Uma vez pareceu-me que também havia um gajo a cantar mas a alucinação passou-me depressa.
Para que não restem dúvidas, estamparam o manifesto na capa do álbum e debitam-no no início deste vídeo. As Savages (três britânicas, uma francesa – a vocalista) recusam perder tempo com frivolidades. Acham que o mundo tem demasiado ruído. Que as pessoas andam distraídas e, com ajuda da tecnologia e das redes sociais, num frenesi de comunicação irrelevante. É também por isso que espalham cartazes pelas salas onde se apresentam ao vivo proibindo a utilização de telemóveis. Por desejarem que os espectadores estejam verdadeiramente ali, verdadeiramente naquele instante. Por isso e por não gostarem de actuar para uma plateia de aparelhos digitais. Evidentemente, com a pitada de ironia que se vai tornando inevitável, a posição delas (que parece genuína) gerou bastante discussão nas redes sociais, servindo como excelente instrumento de marketing (a internet é actualmente um dos expoentes da sociedade consumista: assimila e aproveita tudo, até mesmo as críticas). Quanto à música, trata-se de um post-punk à Joy Division ou Siouxsie and the Banshees, dificilmente original (o que é original, hoje em dia?) mas debitado com uma convicção digna de registo.
De forma similar a muitos brasileiros (não por acaso lhes vai buscar os ritmos em vários temas) ou a génios do calibre de Sérgio Godinho, JP Simões é capaz de usar a língua portuguesa como se fosse plasticina, esticando-a de modo a adquirir sentidos inesperados, torcendo-a em trocadilhos fonéticos, encaixando-a na música como se a velha história de ela não se prestar a ser cantada fosse um refúgio para pessoas sem talento. Mais: como Godinho, é capaz de fazer música com conteúdo político mantendo uma ironia e uma leveza dignas de registo.
Durante séculos, o Portugal que se imaginava culto ambicionava ser francês. França era o exemplo e a inspiração. Hoje somos bastante mais influenciados pelo universo anglo-saxónico mas a velha ligação ainda tem consequências. Já mencionei isto no blogue um par de vezes mas repito-o: num debate das últimas eleições presidenciais francesas, Hollande referia a cada cinco minutos como a França perdera terreno para a Alemanha; a certa altura, Sarkozy atirou-lhe: «Mas a Alemanha fez há dez anos aquilo que o senhor ainda recusa que se faça em França.» Bingo. Nem por isso Sarkozy venceu as eleições. E, como seria de esperar, desde a eleição de Hollande a França continuou basicamente a fazer o oposto do que a Alemanha fez há mais de uma dúzia de anos (e do que os países nórdicos fizeram há cerca de uma vintena). Os resultados? Comecemos por um número curioso. Se olharmos apenas para o PIB, pouco mudou. Em 2001, o PIB francês representava 73,6% do PIB alemão. Em 2012 (último ano do qual existem estatísticas razoavelmente definitivas), mantinha-se nos 73,1% (com uma ligeira vantagem de oito décimas para o lado da Alemanha, ambos cresceram cerca de 12% nesses onze anos). Por trás do crescimento quase igual, há no entanto diferenças enormes na evolução da competitividade das duas economias. Tome-se o sector automóvel como exemplo. Em 2001, a Renault tinha acabado de comprar uma posição maioritária na Nissan e o grupo PSA começava a multiplicar gamas. Actualmente, a Renault compensa prejuízos com os lucros da Nissan (e da Dacia) e a PSA procura desesperadamente convencer o grupo chinês Dongfeng de que seria um cônjuge útil e leal. Em 2001, na Alemanha que ainda suportava os custos da reunificação e começava a reformar as leis laborais e o sistema de segurança social, BMW e Daimler iam-se apercebendo de que teriam de deixar cair a ideia de tornar lucrativas Rover e Chrysler, respectivamente. Hoje, as marcas alemãs dominam a Europa e o objectivo do grupo VAG de atingir o número um mundial em 2018 parece não apenas realista como inevitável. Mas talvez seja preferível que nos concentremos nas estatísticas. Em 2001, a partir de uma população representando 72,0% da população alemã, as exportações francesas de bens e serviços representavam 61,1% das exportações alemãs. Em 2012, tendo a população – que aumentou em França e diminuiu ligeiramente na Alemanha – passado para os 77,4% da população alemã, limitavam-se a 46,8% (se excluirmos os serviços, a evolução é ainda mais reveladora: de 56,6% para 40,4%). No que a volume de exportações diz respeito, Hollande poderá até reclamar um prémio (e, se quiser ser justo, partilhá-lo com o antecessor) pela anedota fonética de ter visto a França ser ultrapassada pela Holanda, um país com 26,4% da população francesa. (Por habitante, a Holanda consegue a proeza de exportar mais do dobro da Alemanha: 47,1 versus 20,4 mil dólares, quedando-se a França pelos 12,3 – e Portugal pelos 7,8.) Sem surpresas, a taxa de desemprego acompanhou estes números. Em 2001, era de 8,2% em França e de 7,9% na Alemanha; em 2012, subira para 10,3% em França e descera para 5,5% na Alemanha. Tudo isto – será conveniente relembrar – quando, em percentagem, o PIB francês subiu sensivelmente o mesmo que o alemão (ou que o holandês) nos onze anos desde o fim do euro. Ou seja, a economia francesa, antes ligeiramente menos competitiva do que a alemã, fechou-se sobre si mesma, derivou para sectores não exportadores e em grande medida apoiou-se no Estado (percentualmente, a despesa pública francesa é a mais elevada da zona Euro; entre 2001 e 2012, subiu de 51,7 para 56,7% do PIB enquanto a alemã desceu de 47,6 para 44,7%). No fundo, salvaguardando a diferença de escala, que a torna too big to fail (escrever isto em inglês é provocação suplementar), a França tem exactamente o mesmo tipo de problemas e a mesma mentalidade vigente que Portugal. Permanecer agarrado à ideia da defesa do Estado Social, em vez de o defender efectiva e realisticamente, dá nisto. E as velhas influências demoram a morrer.
Notas
1. Encontra-se implícito mas, de modo a que não restem dúvidas, acrescente-se que dificilmente se poderá culpar o euro pela totalidade dos problemas franceses. As situações de partida não eram assim tão diferentes.
2. Nas exportações, o problema de Portugal nem foi de ter registado uma queda – no período 2001-2012 desceram de 5,0% para 4,9% das alemãs – mas de serem demasiado baixas logo à partida e não ter conseguido fazê-las subir pelo menos ao ritmo da Holanda.
3. Dos quatro países constantes dos gráficos, França e Portugal foram os únicos que nunca apresentaram receitas superiores às despesas durante os vinte e dois anos considerados e foram também os que mais fizeram crescer a diferença entre umas e outras na sequência da crise de 2008 (ver gráfico abaixo).
4. Certas más-línguas poderiam apontar como factor-chave na diferença de capacidade de reforma entre França e Alemanha o facto de, em 2001 como hoje, a fatia da população dependente do Estado (ver despesa pública em relação ao PIB) ser maior em França. Acrescentariam (as tais más-línguas) que os privados protestam menos, têm sindicatos mais disponíveis para estabelecer compromissos e dificilmente conseguem paralisar o país em que vivem.
5. Hollande promete agora aumentar a competitividade da economia francesa através de um alívio da carga fiscal recaindo sobre as empresas, a ser compensado por cortes de cinquenta mil milhões de euros na despesa pública. Veremos se a medida avança. Prova da falta de juízo que grassa em França (e da importância excessiva das aparências que grassa um pouco por todo o lado) é a intenção de criar uma comissão pública para avaliar se as empresas não estão a abusar da benesse.
6. Como os dados das exportações de vários países revelam e ainda que se desconte o efeito da valorização do euro, o tremendo pessimismo que muitos europeus mostram perante os resultados da globalização é exagerado. Sendo difícil, pode continuar-se competitivo pagando salários altos (mesmo em sectores onde tal pareceria improvável; exemplo: mais de 20% das exportações dinamarquesas de bens vêm do sector agro-pecuário). Já o peso do Estado (e, por conseguinte, das prestações sociais pagas por este) não pode continuar a subir ao ritmo a que subiu nas últimas décadas, até por pressões demográficas que apenas uma gigantesca dose de imaginação permitirá atribuir aos chineses ou ao sistema financeiro.
Fontes: Organização Mundial do Comércio para os dados relativos às exportações, Fundo Monetário Internacional (World Economic Outlook Database, Outubro de 2013) para os restantes.
(Clicar nas imagens – e depois uma segunda vez – para aceder a versões maiores. O ano de 1991 foi escolhido para permitir obter um retrato da situação na época imediatamente após a reunificação alemã. A Base do FMI não inclui os dados da despesa e da dívida da Holanda para os anos anteriores a 1995.)
Pensem em alguém que normalmente use penteados e roupa extravagantes. O grau de surpresa que causa nos outros vai diminuindo com a passagem do tempo. A partir de certa altura, surpreenderia mesmo mais adoptando um estilo conservador. É sensivelmente isto que se passa com a carreira de Eleanor Friedberger. Os Fiery Furnaces, de que constituiu (ou constitui, visto não estarem oficialmente extintos) cinquenta por cento, faziam canções que pareciam colagens de ideias para três ou quatro canções diferentes, cada uma delas num estilo musical distinto. Personal Record (título nada inocente), o segundo álbum que lança a solo, apresenta 12 temas que parecem mesmo 12 temas, todos num estilo que poderá enquadrar-se no pop/rock clássico. Mais normal? Sem dúvida, apesar da voz de Eleanor manter o lado ligeiramente offbeat que me deixa sempre (e suponho que a qualquer outro fã dos Fiery Furnaces) à espera do momento em que o tema guinará bruscamente, entrando em contramão na auto-estrada.
(Quem preferir evitar a entrevista pode saltar para os 12’25” após os primeiros dois temas.)
Os nórdicos parecem especialistas nos extremos: têm bandas de heavy aos pontapés (por vezes literalmente) mas também debitam paletes de intérpretes pop. A Big Fox sueca Charlotta Perers (ei, foi ela quem escolheu o nome) é mais um óptimo exemplo de pop elegante e despretensiosa.
Informação importante (ou talvez mesmo muito importante)
Como, a avaliar pelo número total de comentadores registado até ao momento (três, se descontarmos um pertencente à casa), esta série de posts está a suscitar um interesse fora do comum, decidi que terá vinte e cinco entradas em vez das vinte inicialmente previstas. Quaisquer reclamações devem ser enviadas para a gerência (i.e., Pedro Correia ou Ana Vidal) através de correio electrónico, sendo apenas consideradas as que incluírem nome, morada, número de telefone e duas fotos do(a) reclamante, uma das quais de corpo inteiro.