Ainda 2013 nuns quantos álbuns. 13: Almost Visible Orchestra, de noiserv.


escafandro,

Faz-me confusão que a revista Blitz tenha elegido Almost Visible Orchestra, de noiserv, como o segundo melhor álbum nacional de 2013. Não por razões musicais (o segundo lugar serve, como serviriam o primeiro, o terceiro ou o sétimo) mas porque a Almost Visible Orchestra faltam seis segundos para atingir os trinta minutos de duração. Serão vinte e nove minutos e cinquenta e quatro segundos de música suficientes para constituir um álbum? Nos tempos do vinil, a falta de espaço forçava-os a não irem além dos quarenta e poucos minutos. A capacidade do CD (quase 80 minutos) fez disparar as durações. Agora, com a transição para o mundo digital, os álbuns voltam a encolher, de tal forma que menos de 30 minutos de música já parecem suficientes para justificar a designação. A mim, que faço questão de os adquirir, parece-me pouco. Almost Visible Orchestra é, quando muito, um mini-álbum. Um almost visible album. De qualquer modo, Almost Visible Orchestra constitui inegavelmente um prazer, ainda que de curta duração. Ou até dois, se levarmos em conta a beleza e inteligência da embalagem (optem pela versão em CD). É verdade que, nos meus piores momentos, a música de David Santos me parece uma versão invertida da dos The Knife: enquanto a dos suecos ameaça com um futuro ominoso, a do português remete para um passado de inocência infantil – que o ouvinte (bom, pelo menos eu, nos tais maus momentos) sabe não apenas que não voltará como que provavelmente nunca existiu. Nos outros momentos, porém, este mini-álbum (não sou teimoso, sou coerente) com temas intitulados Today is the same as yesterday, but yesterday is not today, Life is like a fried egg, once perfect everyone wants to destroy it, I will try to stop thinking about a way to stop thinking, It’s useless to think about something bad without something good to compare e Don’t say hi if you don’t have time for a nice goodbye é pura filigrana.

 

 

P.S.: Mais uma vez, não resisto a deixar aqui dois vídeos. Se acharem mal, peçam fiscalização sucessiva ao TC.

Ainda 2013 nuns quantos discos. 11: Matangi, de M.I.A.


escafandro,

Nutro por M. I. A. (Maya Arulpragasam, nascida em Londres, residente no Sri Lanka entre os seis meses e os dez anos de idade, pai activista Tamil), a mais pura relação de amor-ódio. O que é cinquenta por cento mais simpático do que ela sentiria por mim, se me conhecesse. Estranhamente (ou não), o álbum de M.I.A. que prefiro é aquele de que menos gente parece gostar: Maya, de 2010. Matangi, o mais recente, tem tudo o que seria de esperar: ritmos variados, exagero de auto-referências, letras simplistas. Mas também uma refrescante falta de consideração por opiniões alheias. Estando lá incluído, este tema surgiu há um par de anos, mais ou menos na época em que as dificuldades encontradas pelas mulheres sauditas para conduzirem veículos tiveram algum eco nos meios de comunicação. O vídeo é… não sei se há adjectivos adequados.

Ainda 2013 nuns quantos discos. 10: Pés que Sonham Ser Cabeças, de Mesa.


escafandro,

A saída de Mónica Ferraz podia ter sido mortal e, de certo modo, foi. É inevitável: procura-se a sua voz enquanto se ouve Pés Que Sonham Ser Cabeças. E acaba por ser tão complicado parecer encontrá-la como detectar as diferenças. Não que Rita Reis cante mal. Pelo contrário. E a pop inteligente dos Mesa não desapareceu. Mas talvez esteja um bocadinho demasiado igual a si mesma para que a troca de vocalista passe sem causar desconforto no ouvinte. Coisas lixadas, a expectativa e o hábito. Talvez no próximo álbum fique mais fácil.

Súbitas alterações de humor


escafandro,

Roubar costuma ser mau. Roubar justificando que, através do exagero de taxas e impostos, o Estado também rouba costuma ser especialmente mau para certas fatias ideológicas. Roubar a partir de uma posição de empresário capitalista, nem se fala. Mas todos estes pontos são esquecidos quando o roubo é feito pelo patrão de um restaurante da Mealhada e os alvos do roubo uns deputados do CDS. Então aplaude-se e diz-se que foi bem feito. Ainda veremos gente que parecia sensata minimizando a gravidade de homicídios, desde que tenham sido cometidos sobre a vítima «certa» e justificados com os cortes na Saúde.

(Os deputados do CDS até merecem que se lhes diga «bem feito». Mas não por isto. Antes porque quem aprecia leitão banal e, mesmo nos instantes de honestidade do patrão, demasiado caro merece tudo o que de mau lhe acontece.)

 

Como sabemos, as agências de rating são instituições execráveis. Quando não mentem por interesse, erram por incompetência (é capaz de haver aqui uma dicotomia com piada mas estou sem tempo para pensar no assunto). Nunca se deve confiar nelas. Bom, nunca excepto quando alertam para a fragilidade financeira de grupos que acabam de vencer processos de privatização. Nessa altura, os seus AA+ e BB- ficam mais sagrados que os dez mandamentos.

(Parece-me bem. Mas eu faço parte do clube – pequenino; reunimo-nos num T1 e há quem traga o cão – dos que sempre as acharam demasiado laxistas.)

Ainda 2013 nuns quantos discos. 8: The Electric Lady, de Janelle Monáe.


escafandro,

Há participações de Prince e de Erykah Badu e, numa época em que os álbuns regressaram aos trinta e tal minutos de duração (voltarei ao assunto), é composto por quase vinte temas e mais de uma hora de música. Juntando-lhe os vídeos e a pose geral, é como se as Supremes, vestindo fatos de cat woman, tivessem invadido o planeta Mongo (consultar Flash Gordon), entretanto redesenhado pelo espírito de Júlio Verne com uma ajudinha dos tipos que na Google projectam carros autónomos e vestuário com ligação à internet.

P.S.: Não resisto a incluir dois vídeos em vez de um. No primeiro, a frase repetida na folha da máquina de escrever é «We will create and destroy ten art movements in ten years».

Ainda 2013 nuns quantos discos. 7: Peixe:Avião, de Peixe:Avião.


escafandro,

Os Peixe:Avião, nascidos na cidade dos Mão Morta e do Rui Rocha, são uma daquelas bandas que, desde o primeiro disco e no que pode muito bem constituir a situação ideal para uma banda de rock alternativo, parecem encontrar-se um par de centímetros fora da zona iluminada pelas luzes da ribalta. Têm sido acusados de se deixarem influenciar em excesso pelos Radiohead mas, existindo de facto angústia e sonoridades escuras e ambientais na sua música, tais acusações sempre me pareceram um bocadinho exageradas (seja como for, convenhamos que há piores influências). O álbum mais recente é o melhor dos três que já lançaram, apesar de, como os anteriores, não me convencer inteiramente. Talvez porque também o som deles me pareça sempre no limiar de algo ainda melhor. Mas vai-se a ver e é esta sensação de estar à beira de qualquer coisa verdadeiramente significativa (uma sensação reforçada pela voz frágil – no bom e no mau sentido do termo – do vocalista Ronaldo Fonseca) que torna a sua música tão fascinante.

Ainda 2013 nuns quantos discos. 6: Once I Was an Eagle, de Laura Marling.


escafandro,

Houve outros breakup albums em 2013. About Farewell, de Alela Diane, e If You Leave, de Daughter, para mencionar apenas dois. Numa época em que a estabilidade das relações parece cada vez menos importante, talvez seja estranho terem sido tantos. Ou então, precisamente porque as relações são cada vez mais efémeras, será natural: separações frequentes significam desgostos frequentes e uma percepção acrescida de que a felicidade absoluta (um objectivo de sempre, transformado em quimera dos dias que correm) não existe. 2013 terá até gerado demasiados breakup albuns, considerando como alguns pareceram simples lamentos (um bom álbum de ruptura amorosa tem de passar da incompreensão a algo mais virado para o futuro, nem que seja através de uma demonstração de raiva). Tudo somado e revelando-se bastante mais do que isto, Once I Was an Eagle, de Laura Marling, foi, de entre os que ouvi, o melhor breakup album do ano passado.

Ainda 2013 nuns quantos discos. 5: Shaking the Habitual, de The Knife


escafandro,

O último álbum dos suecos The Knife (os irmãos Karin e Olof Dreijer, até há poucos anos avessos a entrevistas, fotografias e espectáculos ao vivo) é assustador. Não em resultado de qualquer subtexto político (que possui; para que não restem dúvidas sobre o seu posicionamento, no site oficial os The Knife exigem End Extreme Wealth em vez de, por exemplo, End Extreme Poverty) nem deste vídeo (que inquieta). É assustador por causa da música que contém. Estamos mais habituados a (e predispostos para) música que relaxa ou anima do que a música que perturba. Mas, de quando em vez, citando um político nacional que provavelmente apreciaria tanto a música dos The Knife como estes apreciariam as suas políticas, necessitamos de abandonar a nossa zona de conforto.

Facciosismo


escafandro,

Look around at the hyperbolic and uncivil discourse between Democrats and Republicans, socialists and capitalists, Zionists and anti-Zionists, libertarians and liberals, the religious and the secular, pro-choice and anti-abortion: If you believe in anything completely — to the point of a rigorous purity — then you will at moments behave as an intellectual cripple. If you think any one ideology is greater than the potential of your own intellect and moral sense, you have likely impaired your ability to think and act honestly. If you can abide every all-encompassing cliche uttered on behalf of any single cause or argument, you are very likely poised to say, or do, something foolish, if not destructive.

David Simon, criador das séries The Wire, Generation Kill e Treme.

Ainda 2013 nuns quantos discos. 4:The Civil Wars, de The Civil Wars.


escafandro,

Atendendo aos frequentes diferendos entre Joy Williams e John Paul White, que culminaram numa separação quiçá definitiva em meados do ano passado, The Civil Wars pode constituir um dos nomes mais apropriados de sempre para uma banda. Com ou sem desentendimentos, o álbum homónimo do duo é excelente e, muito embora Williams e White sempre tenham garantido que a sua relação nunca ultrapassou o plano profissional, a polémica apenas acrescenta a canções como a deste vídeo, onde se afirma: I miss the way you wanted me when I was staying just out of your reach (não nos acontece a todos?) e, no refrão, Oh, I wish I’d never ever seen your face, I wish you were the one, wish you were the one that got away.

P.S.: É só a mim que, pelo menos de certos ângulos, ele lembra o Johnny Depp?

P.P.S.: Escrever «álbum homónimo» não teve metade da piada que julguei que iria ter.

Ainda 2013 nuns quantos discos. 3: Gisela João, de Gisela João.


escafandro,

Como admiti neste post sobre o álbum mais recente de Cristina Branco, a minha relação com o fado está longe de ser de admiração incondicional. Incomoda-me o seu lado lamentoso, de desgraça constante contra a qual se é impotente. (Por alguma razão reflecte tão bem os portugueses.) Devo todavia reconhecer que, apesar de não passar incólume a estas características (nem poderia; são intrínsecas) e dos riscos assumidos serem elevados (cantar temas imortalizados por Amália logo ao primeiro disco só pode denotar coragem ou inconsciência), o álbum de estreia de Gisela João é um exemplo de variedade na escolha de temas, contenção no registo e bom gosto geral.

Ainda 2013 nuns quantos discos. 2: Aventine, de Agnes Obel.


escafandro,

Philarmonics, o primeiro álbum da dinamarquesa residente em Berlim, continha momentos de relativa expansividade mas, no cômputo geral, era uma obra de delicadeza e intimismo desarmantes. Em entrevistas recentes, Obel declarou que o plano era tornar o segundo mais alegre. Como o criador nem sempre controla a criatura, saiu-lhe um trabalho ainda mais suave e melancólico. De tal forma que, se ouvido com a disposição inadequada, pode revelar-se um nadinha monocórdico. Com a disposição certa, é sublime.

Ainda 2013 nuns quantos discos. 1: Pure Heroine, de Lorde.


escafandro,

Sim, houve os Arcade Fire, os Arctic Monkeys e os Vampire Weekend. Houve os The National, Kanye West e os Daft Punk. Houve uma mão-cheia de álbuns folk e uma mão pouco cheia de álbuns rock (…Like Clockwork, dos Queens of the Stone Age, sobressaiu). Houve um excelente álbum dos Nine Inch Nails. Mas isto não vai ser uma lista dos melhores discos do ano: gosto pouco de listas hierarquizadas e, assim como assim, essas listas surgem em Dezembro. Isto é apenas uma vintena de álbuns de nomes quase sempre menos conhecidos que os anteriores que, por uma razão ou outra, me cativaram em 2013 e que não mencionara no blogue. A ordem só não é aleatória porque não tirei papelinhos de um boné. Seis são portugueses, catorze estrangeiros. Dezassete têm como lead singer uma mulher. (Mais pareceria esquisito.)

 

  

Despachemos já o mais óbvio. A neozelandesa de 17 anos (16 quando o álbum saiu) que conseguiu exprimir a confusão de ser teenager num mundo materialista e obcecado pela fama em canções simples de três minutos, sem se deixar cair em clichés de diário de adolescente. Começando num ponto muito mais maduro do que aquele de onde partiram Miley Cyrus e Britney Spears, fica a questão de saber para onde evoluirá Ella Maria Lani Yelich-O’Connor.

(O estilo em palco já suscitou muitos comentários. A explicação dela pode ser encontrada aqui.)

23:59:59


escafandro,

Às 23:59:59 do dia 31 de Dezembro todos os relógios pararam na Nova Zelândia, Fiji, Kiribati e outras ilhas do Pacífico. As pessoas, que já levantavam os braços para festejar a passagem do ano, ficaram imóveis nas ruas, nos restaurantes e nas casas, sem saber o que fazer. Exactamente duas horas mais tarde aconteceu o mesmo em Sydney e noutras cidades da costa Leste australiana. Depois foi a vez das cidades da Austrália central e do Japão. Cinco horas após o início do fenómeno, os relógios pararam em Perth, em Hong Kong, em Xangai, em Pequim. Entretanto, já os governos estavam reunidos e as forças militares em alerta máximo. Quando, outras cinco horas decorridas (dez desde o momento inicial), os ponteiros se aproximaram da meia-noite em Moscovo, São Petersburgo, Bagdade e Nairobi, milhares de cidadãos permaneciam nas praças e ruas, muitas delas enfeitadas com luzes coloridas e sistemas de som, mas a expectativa e o receio haviam substituído a alegria. O salto das 23:59:58 para as 23:59:59 foi o último que os ponteiros dos segundos efectuaram. O mesmo se passou sessenta minutos depois em Helsínquia, Bucareste, Jerusalém, Damasco, Cairo, Maputo, Pretória. Nas cidades e aldeias dos países onde os relógios ainda funcionavam normalmente, as pessoas juntavam-se agora por curiosidade e medo, para estarem juntas de outras pessoas quando os relógios parassem. Especialistas avançavam teorias nas rádios e televisões. Questões climáticas, excesso de magnetismo, uma arma desconhecida. As comunicações dependentes de sistemas de contagem do tempo bloqueavam. Deixava de se conseguir telefonar ou navegar na internet. Enquanto, com a inexorabilidade de um relógio em perfeito funcionamento, o tempo deixava de ser contado na Europa e em África, muitos olhos voltavam-se, desconfiados, para os Estados Unidos. O presidente norte-americano fez uma declaração ao país e ao mundo garantindo que o seu governo nada tinha a ver com o assunto. Por todo o lado, cientistas verificavam os mecanismos dos principais relógios, mediam todos os parâmetros em que conseguiam pensar (a intensidade do campo magnético, os níveis de radioactividade, o grau de vibração da superfície terrestre) e vigiavam o cosmos, pois era opinião de muita gente que um tal acontecimento só podia ter origem no espaço: a Terra, afirmavam vozes apocalípticas um pouco por todo o planeta, estava prestes a ser atacada. Questionavam-se os fabricantes de relógios mas estes não tinham respostas: a Suíça era um país em estado de choque. Começando em cidades como o Rio de Janeiro, Brasília e Montevideu, também no continente americano os relógios foram deixando de funcionar às 23:59:59. Buenos Aires, Recife, Salvador. Manaus, La Paz, Halifax. Toronto, Nova Iorque, Quito. Manágua, Cidade do México, Minneapolis. A última região do continente a ser afectada foi o Alaska, com os relógios de Anchorage parando exactamente vinte e duas horas após o mesmo ter sucedido aos relógios de Auckland. Uma hora mais tarde encravaram os últimos relógios ainda funcionais do planeta, em arquipélagos do Pacífico como a Polinésia Francesa e Samoa. Iniciou-se então um período em que não era possível medir o tempo pelos meios a que os humanos se haviam habituado pois todos os relógios, independentemente do tipo de mecanismo que os fazia operar (mecânico, de quartzo, atómico, de água) haviam deixado de funcionar. Pela primeira vez em séculos, o tempo não foi dividido em horas, minutos e segundos. Entretanto, a noite voltara a cair na Nova Zelândia onde, com excepção das crianças, ainda ninguém pregara olho. As pessoas já não estavam nas ruas mas reunidas em casa ou em bares, defronte de televisores. Discutia-se o que poderia estar por trás do acontecimento mas também muitos outros assuntos. Dever-se-ia ir trabalhar no dia seguinte? Como acordar na altura certa? De que forma seriam garantidos os horários? Como marcar reuniões? E então, de repente, sem aviso nem espalhafato, os relógios recomeçaram a funcionar. Clique. Clique. Passaram para as 00:00:00 e depois para as 00:00:01 e depois para as 00:00:02 e não mais pararam. As pessoas entreolharam-se e muitas voltaram a sair para a rua e ergueram os olhos para o céu. Tudo parecia normal. A noite estava limpa, com o firmamento coberto de estrelas e a lua a brilhar. Progressivamente, com as mesmas diferenças horárias que se tinham verificado ao pararem, os relógios voltaram a trabalhar em todos os pontos da Terra. Na televisão, especialistas não se sabe bem em que assunto diziam que os relógios haviam estado parados exactamente vinte e quatro horas. Por razões que se desconhecem, nesse ano o tempo recusou comemorar a passagem do ano e saltou por cima do dia 1 de Janeiro.

Desde então, como por vezes sucede perante acontecimentos que os humanos se revelam incapazes de explicar, um véu de silêncio tombou sobre o assunto. Mas a possibilidade de que possa suceder novamente, e até com consequências mais graves, permanece no inconsciente colectivo um pouco por todo o planeta. É também por isso que hoje, às 23:59:59, milhares de milhões de pessoas susterão a respiração, exalando apenas quando os ponteiros dos relógios saltarem para a meia-noite.

 

(Republicado com ligeiras alterações. Boas entradas e bom ano.)

O que seria de nós sem o TC?


escafandro,

Sem protecção constitucional da despesa pública, a Irlanda viu a economia crescer 1,5% no terceiro trimestre. Portugal terá provavelmente mais um aumento de impostos.

 

(O qual – e se isto diz imenso sobre o país que somos, diz ainda mais sobre o país que nunca fomos nem nunca seremos – causará incomparavelmente menos polémica do que quaisquer cortes, para além de zero suspeitas de inconstitucionalidade.)

Tolice


escafandro,

Sei demasiado sobre rapazes para ter uma perspectiva sentimental a seu respeito. Também fui um deles e sei o que isso significa; ou seja, que há um tolo ou um homem apaixonado no seu interior que luta por se libertar.

Robertson Davies, O Quinto da Discórdia. Edição Ahab, tradução de Maria João Freire de Andrade.

 

Gostava de conhecer a versão original para perceber que termo foi traduzido por «tolo». Provavelmente «fool», que também serve. Julgo entender o «ou»: pode libertar-se um tolo (no sentido de parvalhão, de macho com o nível de sensibilidade de um tractor velho sacolejando uma charrua em piso empedrado*) ou um homem apaixonado. Mas, neste caso, mesmo levando em conta que a paixão nem sempre é dirigida a outro humano mas a uma causa, a um assunto, a um animal doméstico, não ocorre sempre uma aglutinação? Não é ponto assente fazer parte da condição de homem apaixonado uma boa dose de tolice? Aliás, conquanto por norma apenas se consiga percebê-lo em retrospectiva e até apenas depois de dissipados os efeitos de uns quantos actos irreflectidos, não constituirá a tolice um dos aspectos mais positivos da paixão – aquele que estilhaça a imagem construída e torna os homens (como, de resto, as mulheres) mais humanos? Nenhum cão, gato ou ave do paraíso tem capacidade para detectar tolice na forma como age quando fortemente atraído por algo. Só os humanos a têm. Só os humanos conseguem perceber que estão a ser tolos e, por conseguinte, pelo menos em teoria, deixar de o ser. Não o fazendo, os humanos constituirão até os únicos tolos genuínos. Sendo que, na sua versão mais benigna (mais leve, mais etérea, mais slapstickiana), a tolice é também o oposto do cinismo, outra característica eminentemente humana. Deixemos então claro: ser tolo é muito diferente de ser estúpido ou parvalhão. Ser estúpido ou parvalhão é sempre mau. Ser tolo é frequentemente uma coisa boa.

Ou assim espero. Até um humano ligeiramente cínico como eu precisa de ilusões.

 

* Sim, podem ficar impressionados: analogias destas vêm-me sem esforço.

I’m calling out, find me a stronger hand


escafandro,

Por razões que qualquer psicólogo de qualidade mediana (ou espectador atento dos programas matinais de TV) certamente identificaria sem dificuldade, a combinação de uma pose reservada (mais notória em palco e em entrevistas como esta, há um ano e meio no Festival de Paredes de Coura, ou esta, recente e quase dolorosa de ver) com música dramaticamente grandiosa (ou será grandiosamente dramática?) é-me atraente. Ainda por cima quando o inverso parece constituir a norma.

 

Anna Calvi, galesa de Twickenham, com dois álbuns lançados (o último, One Breath, há poucos meses), estará na Casa da Música amanhã e na Aula Magna no dia seguinte.