Amor e uma cabana de luxo


escafandro,

Ao discutirmos o nível irreal de fama que ela suportara durante o casamento com Cruise, mencionei como Elizabeth Taylor e Richard Burton haviam sido afectados por ele. Era algo com que Burton não conseguia lidar bem mas, para Elizabeth, que crescera com ele, constituía uma segunda natureza. Quando Kidman chegou a Londres, em 1996, para filmar Eyes Wide Shut, era uma das mulheres mais famosas do mundo. Quando abandonou Londres, 15 meses depois, era ainda mais famosa. O dramaturgo David Hare, que adaptou ao ecrã As Horas, o livro de Michael Cunningham, e em cuja peça The Blue Room Kidman apareceria em Londres e na Broadway, contou-me: “Havia uma espécie de solidão em torno dela. Não podia descer a rua. Chegava apenas num comboio de veículos, com mais veículos para impossibilitar que outros veículos se aproximassem. Mas, no centro, ela parecia completamente calma, nada afectada. Nesse aspecto, lembrava-me Elizabeth Taylor.” […]

“Há algo nesse tipo de existência”, disse Kidman, “que, se nos focarmos um no outro e estivermos nessa bolha, é muito intoxicante, porque somos apenas dois. […] Isso aproxima imenso e é profundamente romântico. Tenho a certeza de que Brad e Angelina têm isso – porque não há mais ninguém que o entenda a não ser a pessoa que dorme ao teu lado.”

in artigo de Sam Kashner sobre Nicole Kidman na Vanity Fair de Dezembro. Tradução minha.

Pobre, nem por isso; mal-agradecido, certamente


escafandro,

A excepção concedida aos políticos madeirenses, permitindo-lhes acumular salários e pensões, é inqualificável (como a Teresa Ribeiro já salientou). Que Alberto João Jardim retribua prometendo um reforço da luta pela autonomia é não só típico da criatura como muito bem feito para quem lhe apara os golpes.

Problemas de consciência


escafandro,

A vitória do SPD nas negociações alemãs para a formação de uma coligação governamental não é tanto uma vitória sobre Merkel e a CDU (embora, após uma derrota clara nas urnas, também o seja – e não particularmente democrática) como uma vitória sobre o SPD de Schröder que, há pouco mais de uma década, numa altura em que a Alemanha se esforçava por ‘encaixar’ os custos combinados da reunificação e da globalização, iniciou as reformas que permitiram o relativo bem-estar actual. Apesar desta pequena ironia, a posição do SPD compreende-se. A esquerda preocupa-se bastante mais com o que deve ser – e, mais ainda, como o que  devia ser – do que com o que pode ser (embora frequentemente apresente consequências negativas, a utopia não deixa de constituir um dos seus encantos). Daqui resulta a tendência para privilegiar o papel do Estado, sobrecarregar a economia com taxas e impostos e recusar concessões no campo dos «direitos adquiridos», ainda que fazê-lo coloque em risco direitos similares em processo de constituição (noutro ponto a favor da esquerda, admita-se que, no momento em que ficar evidente não ser possível ressarci-los, berrará ainda mais alto). Quando, chegadas as épocas de crise (e chegarão sempre, em qualquer tipo de sistema político ou económico), se torna necessário aplicar uma dose de pragmatismo, os partidos de esquerda apanhados no poder experimentam graves problemas de identidade. E assim, logo que a economia o permite, a reacção instintiva dos seus políticos é atacar ferozmente quaisquer indícios de concessões feitas à lógica da direita, ainda que dessas concessões tenham saído excelentes resultados (como claramente saíram no caso alemão). Vistas as coisas por este prisma, não é sequer difícil entender a sanha com que alguns veneráveis socialistas lusitanos atacam as medidas de contenção orçamental e todos os reais e imaginados defensores destas. É uma sanha que pretende apagar o facto de, em tempos – e com excelentes resultados –, terem «metido o socialismo na gaveta».

Défice de leitura


escafandro,

É um dos pontos mais negativos desta altura do ano. O frio não me incomoda por aí além. Até gosto. Mas o meu nível de leitura diminui. Culpo a roupa de Inverno, especialmente a feminina. E não apenas devido aos casacos grossos. Mesmo por baixo deles, as camisolas de Inverno, quase sempre de malha, não têm que ler. É verdade que a literatura, hmmmm, digamos peitoral, tende a ser light. Ainda assim, encontro-lhe frequentemente uma relevância significativa. Duas dúzias de t-shirts equivalem praticamente a dois meses de Twitter. Ou a um livro pequeno do Gonçalo M. Tavares. E depois há o outro sentido de «relevância» que, como se diria numa canção a puxar para o pimba, também tem a sua importância. Epigramas, aforismos ou frases enigmáticas flutuando delicadamente sobre determinadas partes do corpo são uma provocação irresistível. Um estímulo à capacidade de ler depressa e de esguelha. Uma forma de manter os neurónios ocupados e um nível mínimo de adrenalina no sangue. No Inverno, como seria de esperar, sinto-lhe a falta. Ando pelas ruas sem saber onde pousar o olhar. Já tentei ler painéis publicitários mas não gosto. Falta-lhes calor humano. Restam-me as pontas de nariz enregeladas que, mesmo não possuindo texto, são como pequenas short stories visuais. Haverá consequências positivas desta redução de material de leitura: o risco de atravessar inadvertidamente uma rua com o semáforo vermelho deve ficar mais baixo. Ler menos terá no mínimo esse efeito positivo. E, enfim, suponho que posso tentar compensar a falta de leitura de peito reforçando a leitura daquelas coisas antiquadas – e, tanto nas formas tradicionais como nas novas e cibernéticas encarnações, desesperadamente lisas – chamadas livros. Mas não será a mesma coisa. Ler blusas é como uma dose de vitaminas que só existe num determinado alimento. É como a vitamina D, que apenas se obtém com abundância no Verão, ao sol. Deve até ser por isto que tantas pessoas olham para mim e comentam que ando anémico. Têm razão: ando com tão pouca energia que nem no blogue tenho escrito. Tudo bate certo, agora que penso no assunto. Mas preciso de reagir. Hei-de ir a uma farmácia ver se há suplementos para suprir esta deficiência. Ou então talvez experimente ler outro livro do Gonçalo M. Tavares.

Alívios


escafandro,

Passos Coelho olha para a reacção dos portugueses à pantomima de Blatter e dos adeptos portistas a um conjunto de resultados medianos e, não obstante um ou outro exercício aeróbico de step na escadaria do Parlamento, só pode pensar: «Ainda bem que isto não é futebol.» Mas, evidentemente, a racionalidade pode assumir um papel muito secundário nas questões em que a maioria das pessoas tem apenas investida paixão.

 

E perdoe-se-me o «apenas».

Pepitas de ironia


escafandro,

Com receio de Costa, o preferido dos socratistas, Seguro endureceu posições. Agora vê Costa criticá-lo e posicionar-se como o moderado sensato. Restaria conhecer a opinião dos socratistas sobre a vontade de temperança de Costa se os socratistas não fossem acima de tudo pragmáticos: atingir o poder com um dos deles à frente do partido é tudo o que lhes interessa. Ligeiramente chato para eles seria Costa estar a preparar uma candidatura ao cargo de Presidente da República e não ao de Primeiro-Ministro.