
Porto, 2005.

Porto, 2005.

Porto, 2006.
e o governo teria finalmente apresentado um muito razoável orçamento para o ano de 2012.
Sem ilusões de que o atraso seja de algum modo fashionable, ando a ver The Wire (vou na quinta e última série de episódios e, sim, trata-se provavavelmente da melhor série televisiva de todos os tempos*). No início da terceira temporada, a polícia não consegue obter resultados das escutas porque, para além de trocarem de telemóvel com regularidade, os traficantes de droga, em especial nos níveis médios e elevados da organização, são extremamente cuidadosos acerca do que dizem ao telefone. Numa tentativa de contornar o problema, a polícia arranja forma de prender uma chefia intermédia, na esperança de ver promovido ao seu posto um familiar de um tipo importante, com tendência para falar demais. Quando o plano é apresentado, um dos polícias pergunta: «Mas porque hão-de eles promover um incompetente?» A resposta é: «Porque não? Nós fazemo-lo todos os dias.»
O plano acaba por não dar certo porque os traficantes são afinal mais espertos do que a hierarquia da policia (ou das muitas outras organizações onde a cunha vence o mérito) e não promovem o idiota. Mas, para mim, este nem é o ponto mais curioso. O ponto mais curioso é eu contar isto à frente de chefias e elas esboçarem trejeitos de compreensão e rirem-se com um prazer que parece genuíno.
* O início do primeiro episódio, para quem nunca tiver visto (ou, tendo visto, quiser relembrar):
Ontem fui cortar o cabelo. Corto-o na terra onde nasci e onde os meus pais ainda vivem, num barbeiro tradicional – por hábito de décadas, falta de paciência para locais cujos donos julgam alcandorar-se a níveis monegascos de sofisticação fazendo luzir sobre a porta designações mais na moda («barbeiro» é termo não só antiquado como pobrezinho, capaz de suscitar em pessoas modernas imagens do período salazarista) e nenhuma predisposição para aceitar promessas vãs (salão de beleza? No que me diz respeito, nem com manipulação genética). O meu barbeiro tem uma hérnia e deve ser operado este mês. Já foi operado há cerca de um ano mas a hérnia reapareceu, desta feita um pouco mais abaixo, encostadinha aos testículos (ele desce a esses pormenores). Tem sessenta e dois anos e está admirado por isto lhe ter acontecido já depois dos sessenta. Um amigo havia-o convencido de que, passada incólume a fase dos quarenta e cinco aos sessenta, os homens estão livres de problemas sérios até aos setenta. «E é verdade», garantia o meu barbeiro enquanto me cortava o cabelo. «A quantidade de pessoas que a gente vê morrer de repente entre os quarenta e cinco e os sessenta… AVCs, ataques cardíacos… Está-se bem num momento e morto no seguinte. Vistas as coisas por esse lado, uma hérnia, mesmo com as dores horríveis que provoca, não é grave. Quando só este ano já morreu tanta gente mais nova, que era aqui cliente, inclusivamente. Conhecia o Manel, da loja de materiais de construção?»
Vinte e cinco minutos, durou o quase monólogo do meu barbeiro, satisfeito por poder contar-me tudo sobre a hérnia que lhe está a chegar aos testículos e elucidar-me com detalhe e exemplos abundantes sobre os riscos acrescidos enfrentados pelos homens na faixa dos quarenta e cinco aos sessenta anos de idade. Podia tê-lo mandado calar mas não quis estragar-lhe o desabafo. De resto, ele lá sabia que hoje eu chegava aos quarenta e cinco anos.
Se a coerência é uma virtude, as decisões do Tribunal Constitucional são dignas dos maiores elogios. Para além de previsíveis: tendem sempre a reforçar o status quo.
(Compreende-se, de resto: em grande medida, o status quo nasceu da Constituição e, por esquecimento, excesso de optimismo ou interesses próprios, nem mesmo nas revisões pós-euro alguém considerou importante prever a hipótese de ele se tornar insustentável. Pelo contrário: quando Passos Coelho, essa criatura acéfala, abordou o assunto ao chegar à liderança do PSD, foi crucificado não apenas por comunistas e bloquistas, para quem a iniciativa individual continua anátema e o Estado o paradigma da bondade e da eficiência, não apenas por socialistas, a quem, após anos de conluio com banqueiros, construtores civis e empresários dos sectores na moda, dava jeito uma viragem à esquerda, mas por vultos do seu próprio partido.)

Porto, 2004.
Após o cancelamento dos concertos previstos para amanhã e depois nos Coliseus de Lisboa e Porto, restam os excertos em vídeo.
1. Das duas, uma: ou os juízes do Tribunal Constitucional não sabem interpretar a Constituição, o que, sendo grave, até um pouco assustador, a gente acaba por entender (incompetência é o que há mais por aí), ou a Constituição deveria deixar de chamar-se «da República Portuguesa» e passar a chamar-se «dos Direitos dos Trabalhadores do Sector Público e dos Dependentes do Estado da República Portuguesa», por ser cada vez mais claro não se destinar a proteger os direitos dos restantes.
2. «Espero que esta leitura do Tribunal Constitucional do princípio da protecção da confiança não tenha sido tão estreita que no futuro não se possa alterar nada no Estado”, referiu Passos Coelho. Caso contrário, “o Estado só conseguiria financiar-se à custa de impostos e eu não acredito que o país consiga suportar mais impostos para resolver um problema do Estado». Passos Coelho tem razão. Mas ter razão é inútil. Por força da Constituição ou dos juízes do TC (na prática, a distinção é irrelevante), qualquer governo (mesmo este, tão frequentemente apodado de liberal) pode apenas seguir um programa. Mais privatização, menos privatização, é um programa socialista. Tão socialista que, neste momento de crise, o PS aplaude por tacticismo enquanto o BE e o PC aplaudem por convicção.
3. Ouve-se frequentemente dizer, em tom de lamento, que PSD e PS são iguais. Claro que sim. Nem quando o desejam podem ser diferentes.
4. No fundo, o sonho de Cavaco está a concretizar-se: há uma única via – só não está a ser definida por ele, nem por acordo entre os partidos, mas pelos juízes do TC. Ironia deliciosa é a aplicação caber aos partidos a que teoricamente menos agrada.
5. O que suscita a questão: em 2015, PSD e CDS devem ser julgados pelo fizeram ou pelo que tentaram fazer?
6. Sendo que a pergunta fulcral talvez seja outra: para que servem as eleições quando a ideologia está constitucionalmente fixada?
Os sonhos são os universos paralelos mais comuns. Aqueles a que ninguém escapa e em que é impossível não acreditar. Recuso acreditar nos outros, os da ficção científica, os que nascem a cada decisão que se toma. Recuso acreditar existiram milhares de «eus» em universos paralelos, ligados por singularidades espaço-temporais ou lá como se chamam essas coisas. «Eus» que tiraram outros cursos, que reagiram de forma diferente quando conheceram certas pessoas (sim, mulheres acima de tudo), que andam neste preciso momento numa furgoneta desconjuntada algures no Tibete. E recuso acreditar por um motivo extraordinariamente simples: era preciso um azar do caraças para ter ficado com a versão mais desinteressante. Que, evidentemente, é a versão geradora de mais sonhos.
Convém ter presente que em Portugal, como em muitos outros países, sempre ocorreram incêndios. Em 1980, por exemplo, arderam mais hectares do que em 2008 (44.251 contra 17.565). Mas é verdade que, ao longo das últimas duas décadas, a tendência foi de subida, tanto ao nível de número de incêndios (na década de 80 apenas em 1989 ocorreram mais de 10.000 enquanto na primeira década deste século apenas em 2008 o valor ficou abaixo de 20.000) como da área ardida (duas vezes acima dos 100.000 hectares na década de oitenta, quatro na de noventa, seis na de 2000), tendo-se registado picos de destruição em 2003 (recorde de área ardida: 425.839 ha) e 2005 (recorde de número de incêndios: 35.824 e segundo valor mais elevado de sempre de área ardida: 339.089 ha). Isto enquanto os meios de detecção e combate eram progressivamente reforçados e a formação dos bombeiros melhorada. Explicações para o aparente contra-senso? Ouve-se diariamente falar no interior cada vez mais desertificado, na alteração de espécies plantadas (com o crescimento das áreas de eucaliptal), nas florestas por limpar, em comportamentos negligentes. Serão factores importantes. Mas permitam-me acrescentar mais dois. O primeiro não ajudará a explicar o aumento (a menos que se adopte uma perspectiva decididamente maquiavélica) mas talvez ajude a explicar a inexistência de diminuição. É tão politicamente incorrecto que, tivesse eu algum senso, esperaria pelo final da «época de fogos» (fantástica designação, que por um lado parece tentar empurrar os incêndios para uma normalidade similar à «época balnear» mas por outro contém um horror implícito, como que antecipando épocas ainda piores: a «época oficial das mortes na estrada», por exemplo, ou a «época dos afogamentos em massa») antes de o abordar, ou, se tivesse ainda um pouco mais de senso (o nível adequado às noções do politicamente correcto), nem sequer o abordaria. É, no entanto, muito simples: como noutras áreas, por incompetência e por interesses, do investimento efectuado nem sempre terão saído os resultados esperados. A prevenção dos incêndios e o combate aos mesmos são uma realidade com bastante que elogiar (acima de tudo, a abnegação de tantos voluntários) mas também são um negócio, um emprego para muita gente e um universo de hierarquias, jogos de poder, interesses cruzados e aparências. Nem sempre se terá comprado o equipamento mais adequado. Nem sempre se terá ministrado a formação mais útil. Nem sempre a competência terá sido premiada. Nem sempre o dinheiro terá chegado onde era suposto chegar. Nem sempre se terá funcionado de acordo com regras de sensatez financeira e operacional. Adoptando a tal visão maquiavélica, talvez até se possa acrescentar que nem sempre terá existido interesse em que os incêndios deixassem de assustar a população e, mais importante (mas uma coisa decorre da outra), os responsáveis políticos que assinam a maioria dos cheques (passatempo para um fã de teorias de conspiração: tentar estabelecer uma relação entre as épocas de cortes orçamentais e o valor da área ardida).
O segundo factor gera menos polémica. Muita gente já o referiu mas (desta feita, compreensivelmente) também é pouco abordado nos meios de comunicação social. Trata-se da histeria televisiva, inexistente há vinte e tal anos. Do mesmo modo que noticiar suicídios tende a fazer com que ocorram novos suicídios, o espectáculo televisivo das chamas, do fumo, do medo, da impotência, opera simultaneamente como prémio e incentivo aos pirómanos. Há pouco mais de vinte anos somente existia a RTP e os incêndios ocupavam dois ou três minutos de um noticiário que demorava meia hora. Há pouco mais de trinta, as chamas nem sequer tinham cor. Hoje, as televisões dedicam aos incêndios mais de meia hora de cada serviço noticioso (alongado para hora e meia) e mostram aos pirómanos, com som, cor, transpiração, desespero, a grandiosidade dos seus actos. O que fazer? A única solução credível passaria pela auto-regulação e isso significa que dificilmente algo mudará. Continuaremos lamentando e protestando, horrorizados (mas também mais do que ligeiramente fascinados), diante dos televisores. O mundo em que vivemos é o mundo em que vivemos.

S. Romão, concelho de Seia, 2009.
Por motivos que vêm tão ao caso como salientar a falta de senso de qualquer pessoa que, tendo visto dois ou mais filmes recentes com Jessica Chastain, não a considere a melhor actriz norte-americana da sua geração, nos últimos meses tenho visitado poucos blogues e descoberto menos ainda (eufemismo para «zero»). Cabendo-me a escolha do blogue da semana, resta-me assim ficar pelos velhos conhecidos. O Complexidade e Contradição já foi mencionado no Delito várias vezes mas, tanto quanto o sublime (eufemismo para «bleurgh») motor de busca dos blogues do Sapo me permitiu determinar, nunca obteve a transcendental honra de ser escolhido como blogue da semana (hipérbole para «seja como for, uma honra pelo menos comparável a ganhar um Globo de Ouro da SIC»). Ainda que o excelso (eufemismo para «#$/”%*£@§!») motor de busca dos blogues do Sapo se (e me) tenha enganado, a ironia, a concisão e a frontalidade de Lourenço Cordeiro merecem destaque frequente. Sendo que «ironia, concisão e frontalidade» não é eufemismo, como este par de textos do mês em curso demonstra:
Outras maneiras, para apreciadores de corridas de touros;
Menos é mais, para apreciadores de praia (coisa diferente – digo eu – de apreciadores de praias).
P.S.: De forma a evitar surpresas desagradáveis, quiçá mesmo (nestes tempos de egos frágeis) traumáticas, aviso que serei muitíssimo pouco simpático (eufemismo para «insultarei», «injuriarei» e «chamarei nomes») com comentadores que deixem evidente não partilhar a minha opinião sobre a Jessica Chastain.