Porto, 2012.
Fotografias tiradas por aí (163)
escafandro,

Ria de Aveiro, 2000.
É claro que hoje em dia a assunção de Nossa Senhora seria imediatamente travada por um míssil Patriot.

Ervedal da Beira, concelho de Oliveira do Hospital, circa 1998.
Agora desculpem mas vou ver a sessão desta tarde, que deixei a gravar. A Lolo não está em Moscovo (snif) mas o heptatlo acabou hoje.
Nas fotos, da direita para a esquerda e de cima para baixo: Dafne Schippers (Holanda); Ellen Sprunger (Suíça); Ganna Melnichenko (Ucrânia); Grit Šadeiko (Estónia); Györgi Farkas-Zsivoczky (Hungria); Ida Marcussen (Noruega); Karolina Tyminska (Polónia); Katarina Johnson-Thompson (Grã-Bretanha); Kristina Savistkaya (Rússia); Laura Ikauniece (Letónia); Mari Klaup (Estónia); Nadine Broersen (Holanda); Nafissatou Thiam (Bélgica); Sharon Day (EUA); Yasmina Omrani (Argélia).
Existe há muito em Portugal a tendência para considerar que o dinheiro do Estado é inesgotável e que este apenas o recusa por maldade. Da exigência de cada vez mais serviços públicos (com consequente aumento de custos) à solicitação de apoios sempre que algo corre mal (cheias, incêndios, granizo, dificuldades financeiras de empresas públicas e privadas), os exemplos abundam. Ao tornar visível que o dinheiro do Estado sai do bolso dos contribuintes, a crise abalou ligeiramente esta mentalidade mas não a eliminou. Longe disso. Ainda recentemente (um exemplo entre muitos possíveis) o bastonário da ordem dos médicos admitia que a situação financeira do Serviço Nacional de Saúde é preocupante mas acrescentava de imediato que tal não revela a existência de um problema no SNS, antes de um problema no país. Como se o país fosse uma realidade inteiramente separada das suas componentes. Como se fosse possível resolver problemas sem mexer na área em que eles ocorrem. Como se, aplicada a todos os sectores, tão brilhante conclusão não levasse a um (de resto, tradicional) completo imobilismo (em nada de específico se toca porque o problema não é específico), do qual resulta o irritante problema de saber quem no fim paga as contas (algo que não pareceu preocupar o bastonário porque, evidentemente, ele continua a acreditar que o dinheiro só não surge por má vontade). E a maioria das pessoas terá ouvido o bastonário e concordado se não com a interpretação altamente dissociativa que ele produziu pelo menos com a mensagem mais perceptível de que é preciso arranjar dinheiro para injectar no SNS.
Existe, todavia, uma área em que os portugueses parecem hoje incomodar-se a sério com a utilização de dinheiros públicos: o auxílio aos bancos. Aumentar impostos ou cortar salários e pensões para salvar os bancos? Inaceitável. Na verdade, nem tanto. Como se vê pelas reacções às soluções adoptadas em Espanha (o auxílio aos bancos não conta para o défice) e em Chipre (onde os maiores depositantes foram atingidos), bem como a várias notícias relacionadas com a união bancária, não é a ajuda aos bancos que incomoda os portugueses. Tendo mais ou menos percebido que o dinheiro público nacional lhes sai dos bolsos, os portugueses apenas passaram a desejar que outro dinheiro público resolva os problemas. O dinheiro público europeu, que, evidentemente, só não é inesgotável por má vontade de alguns povos (ou melhor: dos governantes de alguns povos). Com esse dinheiro, e entre muitas outras coisas, salvar os bancos não tem mal nenhum.
Viajo numa furgoneta velha, cor da ferrugem que tem. Uma Volkswagen Pão-de-Forma, não fosse o cliché e os níveis de poluição. Ando por muitos países, paro onde me apetece, meto conversa gestual com as pessoas e tiro fotografias com uma Leica M. No tejadilho da carrinha há uma antena discreta, no seu interior equipamento informático topo de gama e muitos livros – tantos que não preciso de cadeiras nem de cama, apenas de um colchão disposto sobre eles. Mantenho um blogue onde descrevo as viagens mas minto acerca da minha localização. Quase sempre sob pseudónimo, publico fotografias fabulosas, que trazem o mundo siderado. No Tibete, sob o olhar atento de um militar chinês, um monge aponta para a furgoneta e, rindo-se, diz-me qualquer coisa que não percebo. Rio-me também, digo «Tashi delek» e ele parece satisfeito mas o militar continua desconfiado. Na Argentina, o condutor de uma carrinha de caixa aberta onde se pode ver um conjunto de boleadoras grita-me «Boludo!» quando me ultrapassa na estrada, e eu berro-lhe, pondo a cabeça de fora da janela, «Gracias!», o que o leva a erguer a mão esquerda no ar com o dedo médio espetado a apontar para cima. Encontro-o dez minutos mais tarde, num bar poeirento à beira da estrada, e acabamos a beber cerveja Quilmes e a discutir as hipóteses das selecções argentina e portuguesa no mundial de futebol (eu elogio Messi, ele elogia Ronaldo, eu estou pessimista quanto às chances de Portugal, ele garante que a Argentina será campeã). Passo da Indonésia para a Austrália num ferry que a internet me dissera não existir e fico dois dias parado no deserto a algumas centenas de quilómetros de Ayers Rock, lutando com aranhas e escorpiões que entram na carrinha pelos muitos buracos que ela tem, à espera que me tragam as peças de que necessito para poder continuar. No deserto do Saara fico trinta e duas vezes atascado nas dunas e sou libertado por um tuaregue que, após a quarta operação de socorro, me segue a cerca de cinquenta metros de distância no seu jipe Nissan, e se esforça por conter o sorriso de cada vez que pára ao meu lado, depois de eu ficar novamente preso na areia. Numa zona pouco habitada do noroeste do Irão sou cercado por uma patrulha militar que me acusa de trabalhar para os americanos, ou para os israelitas, ou para a Agência Internacional de Energia Atómica. Os computadores e a antena não ajudam mas consigo finalmente convencê-los de que os inspectores da Agência não andam em furgonetas ferrugentas e que o equipamento funciona tão mal que eu até pensava estar no Azerbeijão. Mesmo assim, depois de me autorizarem a seguir viagem, vejo-os a olhar para o céu com expressões apreensivas, como se esperassem a chegada de mísseis israelitas. Em pleno Inverno siberiano tento saber se, colocando correntes nos pneus da furgoneta, conseguirei atravessar o Estreito de Bering até ao Alaska. Todos me dizem que estou сумасшедший, ou pelo menos é isso que percebo, e, porque na realidade nunca estive tão são na minha vida mas quero mesmo visitar o Alaska, acabo por decidir lá chegar pelo outro lado. Numa estrada secundária portuguesa querem multar-me por não ter feito a inspecção da carrinha e por não trazer colete reflector, mas começo a falar uma mistura de cantonês e hebraico (as poucas palavras que sei em cada uma das línguas) e os elementos da GNR entreolham-se e resolvem mandar-me embora. Na Escócia, enquanto limpo a Leica sentado nas margens de um lago perto de Inverness, tiro inadvertidamente a primeira fotografia em décadas que parece mostrar Nessie com nitidez. Em todo o lado tentam vender-me sexo e droga e até armas mas recuso, excepto quando sinto que seria indelicado fazê-lo. Vivo de quê? É segredo. Se não fosse, todos poderiam fazer o mesmo e as estradas ficariam sobrelotadas com furgonetas iguais à minha.
(Este post não inclui fotografias porque seria um desperdício utilizá-las apenas para ilustrar o texto. Usem a imaginação, acrescentem uma pitada de pôr-do-sol. E mantenham os olhos abertos porque elas vão surgindo por aí.)
(Republicado para ver se arranjo coragem.)
A minha mulher quer um cão. Já tem uma bebé. A bebé tem quase dois anos. A minha mulher diz que a bebé quer o cão.
Há já muito tempo que a minha mulher quer um cão. Tive de ser eu a dizer-lhe que não podia ser. Mas agora a bebé quer um cão, diz a minha mulher. Talvez seja verdade. A bebé é muito chegada à minha mulher. Vão juntas para toda a parte, agarradas uma à outra com muita força. Pergunto à bebé: – És a filha querida de quem? És a filha querida do papá? – E a bebé responde: – Mamã –, e não se limita a dizer isto uma vez, repete-o vezes sem conta: – Mamã mamã mamã. – Não vejo porque é que hei-de comprar um cão que me vai custar cem dólares só para fazer a vontade ao raio da bebé.
A raça do cão que a bebé quer, diz a minha mulher, é um Cairn terrier. Os cães desta raça, diz a minha mulher, são presbiterianos como ela própria e a bebé. No ano passado, a bebé era baptista, isto é, a minha mulher levava-a duas vezes por semana ao Programa de Apoio às Mães da Primeira Igreja Baptista. Este ano é presbiteriana porque os presbiterianos têm mais baloiços e escorregas e essas coisas. Acho isto uma grande pouca-vergonha, e já o disse. A minha mulher é presbiteriana de gema desde a infância e diz que assim não faz mal; nos seus tempos de criança, ia à Primeira Igreja Presbiteriana de Evansville, no Illinois. Eu não ia à igreja porque era a ovelha negra. Os meus pais tiveram cinco filhos, e os rapazes revezavam-se no papel de ovelha negra, o qual foi ocupado pelo mais velho durante uns tempos enquanto estava na sua fase de bebedeiras ao volante ou outra coisa qualquer, e depois ficou mais cinzento quando arranjou um emprego ou então quando fez a tropa, nem sei ao certo, até que finalmente se converteu numa ovelha branca quando casou e teve um neto. A minha irmã nunca chegou a ser a ovelha negra porque era rapariga.
Donald Barthelme, início de Chablis, a primeira de 40 Histórias. Edição Antígona, tradução de Paulo Faria. Ortografia em desacordo.
Alongando-se um nadinha em tempos de austeridade, por regra a memória colectiva é muito curta. E, assim, praticamente todas as recordações de acontecimentos com mais de três ou quatro anos se esvairão logo que a economia melhore um pouco. Uma sorte para os socialistas, que poderão aproveitar um efeito similar ao de que o PSD liderado por Cavaco Silva beneficiou em 1985, após o governo de bloco central, e exclamar: «As dificuldades? Foram eles.» Caso contrário, obrigados a excluir gente que tentou vender coisas, gente que comprou coisas, gente que autorizou coisas, gente que renegociou coisas, gente que fechou os olhos a coisas e gente que lucrou com coisas, e atendendo a quão difícil já é para o PSD, ser-lhes-ia impossível formar governo.
O secretário de Estado devia ter dito: «Sim, estive no Citigroup e, entre outras propostas, apresentámos ao governo um produto destinado a melhorar os números oficiais do défice. Retrospectivamente, admito que, a longo prazo, aquilo talvez não fosse conveniente para o governo mas na altura não se sabia o que se sabe hoje e, acima de tudo, fazia parte das minhas funções procurar vender os produtos do banco.» Em vez disso, tentou disfarçar. Em vez disso, o governo tentou assobiar para o lado e Pedro Lomba – que, até começar com esta coisa dos briefings diários, eu sempre considerara um tipo inteligente – meteu os pés pelas mãos.
Porém, mais preocupante para o futuro é o facto da combinação entre a lavagem de roupa suja em que PSD e PS andam mergulhados e a existência de órgãos de informação que se limitam a transmitir acriticamente ‘notícias’ fornecidas pelos partidos gerar um sistema mediático esquizofrénico no qual o nível de gravidade dos acontecimentos não obedece a qualquer escala de razoabilidade. Podem arranjar-se inúmeros exemplos mas nem é preciso mudar de caso: tentar vender os produtos da empresa para que se trabalha é aparentemente inaceitável e motivo de demissão; já renegociar as PPP em nome do Estado com prejuízo para este – algo que, na minha opinião (e a ser provado), constituiria um motivo de demissão bastante mais forte – passou razoavelmente sem debate, uma vez que nem PS (que governava durante a renegociação) nem PSD (que procurava evitar a demissão, quaisquer que fossem as causas) tinham interesse em que o assunto fosse debatido. Ficámos, assim, pelos swaps e por uma comunicação social cada vez mais especialista no papel de caixa de ressonância e geração de histeria. Pior: por entre urros escandalizados, iniciou-se uma pequena caça às bruxas, de momento centrada em ex-funcionários do Citigroup mas que poderá – mantenhamos o optimismo – estender-se a outros grupos financeiros. Enquanto isto, até o corte nas pensões dos funcionários públicos foi relegado para segundo plano no alinhamento dos noticiários. Mas esta parte o governo agradece.
Numa hora e três quartos é possível ver um filme de duração média. Numa hora e três quartos é possível ler O Sobrinho de Wittgenstein, de Thomas Bernhard (pode dizer-se que ele foi possuído pela sua loucura enquanto eu sempre explorei a minha), ou meia dúzia de contos de Alice Munro. Numa hora e três quartos é possível voltar a ouvir The Downward Spiral, dos Nine Inch Nails (I am denial guilt and fear and I control you, I am the prayers of the naive and I control you, I am the lie that you believe and I control you), e ainda dispor de quarenta minutos de silêncio para recuperar. Tendo com quem, numa hora e três quartos é possível que já se consiga fazer sexo tântrico (qual a duração mínima exigida?). Numa hora e três quartos talvez seja possível eu acabar este post. Mas numa hora e três quartos também se podem fazer coisas menos previsíveis. Há dias, numa hora e três quartos foi-me possível assistir a quase toda a primeira parte da audição da ministra das Finanças na comissão de inquérito parlamentar sobre os contratos swap. «Quase» porque falhei os primeiros minutos e «à primeira parte» porque no intervalo consegui libertar um dedo do torpor em que o meu corpo caíra e mudei de canal. Mas a primeira parte foi suficiente para ficar com várias ideias sobre o assunto que partilharei agora com todos aqueles que não tiveram o bom senso de evitar começar a ler este post nem têm – e isso deve reflectir uma qualquer patologia – o bom senso suficiente para, no final deste parágrafo, irem ler O Sobrinho de Wittgenstein, ouvir The Downward Spiral ou fazer sexo, ainda que não tântrico.
Agora que já devo estar a falar sozinho, vamos lá às conclusões, que – adoro frustrar expectativas – não incluirão uma posição clara sobre a magna questão de saber se a ministra mentiu na visita anterior à comissão de inquérito.
1. Os deputados da oposição marimbam-se para os contratos swap, querem é lixar a ministra. Isto até entendo; o que me custa a entender é o género de tácticas e poses que adoptaram durante a audiência. Vejamo-las caso a caso.
1a. O deputado do PS, Filipe Neto Brandão, optou por fazer perguntas que exigiam resposta «sim» ou «não» («objectivas», chamava-lhes ele) e pela pose do acusador duro, inflexível – e impassível. Esbarrou num ligeiríssimo e altamente subjectivo detalhe: a necessidade de, para aceitarmos a tese que defendia, ser necessário escolher acreditar no ex-secretário de Estado Costa Pina em vez de na actual ministra. Ora a ministra até pode estar a mentir com os dentes todos mas enquanto não existirem provas tão irrefutáveis que até a levem a admitir: «É verdade, menti» (sem acrescentar, com um sorriso maroto: «e continuo a mentir agora») eu preferiria acreditar no Dr. Vale e Azevedo dos bons velhos tempos ou nos latidos de um rafeiro de rua, tal como traduzidos pelo sem-abrigo que momentos antes anunciava o fim do mundo, do que no ex-secretário de Estado Costa Pina. Há sujeitos a quem só voltarei a dar o benefício da dúvida a título póstumo e apenas por estarmos num país em que não se pode dizer mal dos mortos.
1b. A deputada do Bloco de Esquerda, Ana Drago, que vai abandonar o Parlamento (é impressão minha ou a bancada do Bloco, que há anos não é adornada pelos olhos, pelo cabelo, pelas maçãs do rosto e pela pose altiva de Joana Amaral Dias, está a ficar mais cinzenta?), usou uma táctica engraçada: disparava uma pergunta e depois olhava e falava para o lado enquanto a ministra procurava decidir se devia continuar a olhar para ela durante a resposta. Desconheço que efeito Ana Drago tentava obter. Pode dar-se o caso de ter sido apenas má educação. Mas ficou-me na memória um instante em que repetiu uma pergunta (nada estranho, atendendo a que não parecera ter prestado atenção à resposta anterior) e a ministra suspirou: «Vamos lá então outra vez, mais devagar». Ana Drago não acusou o remoque porque estava a olhar e falar para o lado.
1c. O deputado do PCP, Paulo Sá, foi o ponto alto daquela hora e três quartos. Paulo Sá poderia fazer carreira no mundo dos dirigentes de clubes de futebol – e fazê-los a todos parecer meninos de coro na arte da parcialidade. As respostas da ministra irritavam-no à brava porque – quelle surprise – não continham o que ele queria que contivessem. Enquanto ela respondia, ele esbugalhava os olhos e gesticulava. O problema é que não tinha como provar que a ministra mentia – apenas achava tanto que ela mentia que o facto se transformara numa evidência no interior da sua cabeça. A certa altura a ministra atirou-lhe: «Eu sou responsável pelo que digo, não pelo que o senhor entende». Também podia ter-lhe dito «Olhe, para não perdermos tempo e reduzirmos o nível de stress, releia as minhas declarações e sinta-se à vontade para entender o contrário do que ler.» Eu fiquei a pensar que o estilo de interrogatório do deputado Paulo Sá teria sido considerado promissor pelos camaradas Yezhov ou Beria, tivesse o deputado Paulo Sá vivido no paraíso terrestre que foi a URSS.
2. Da intervenção dos deputados do PSD e do CDS não vale a pena falar. Estavam lá para agradecerem à ministra o esforço da deslocação, afirmarem que, evidentemente, como ficava agora ainda mais claro do que antes já estava, ela não mentira da última vez que lá estivera, e acusarem os governos Sócrates (e, mais especificamente, o ex-secretário de Estado Costa Pina) de incompetência. Cumpriram o papel de modo adequado, o que significa que foram apenas ligeiramente enjoativos.
3. Mas se não vale a pena abordar a acção dos deputados do PSD e do CDS na audiência da passada terça-feira, para memória futura convém abordar o papel dos governos Sócrates em toda a questão. Em Janeiro de 2009, pela mão do então secretário de Estado Costa Pina, o governo Sócrates emitiu um despacho que, face à crise financeira instalada, recomendava cuidado às empresas públicas – e também que substituíssem dívida de curto prazo por dívida de mais longo prazo. Para além de haver aqui um modus operandi típico dos governos liderados pelo supracitado indivíduo – ah, a renegociação das PPP, de que resultou o adiamento dos pagamentos para o período pós-2013, com (evidentemente) subida dos montantes a pagar – há também, segundo algumas opiniões, um incentivo à contratação de instrumentos derivados. Ainda que não se avance até tão maldosa leitura, existem montanhas de incompetência a registar, uma vez que a maioria dos swaps foi contratada durante os governos Sócrates e, nos anos em que já devia ser óbvio que eles constituiriam um problema, nada de substancial foi feito. Apenas em Junho de 2011, dias antes de Passos Coelho entrar em S. Bento cheio de ilusões, decidiu o governo socialista aprovar legislação (ainda em vigor, como a ministra repetiu ad nauseum) proibindo as empresas públicas de contratarem swaps sem autorização da tutela. Quanto aos que estavam feitos, o governo seguinte e a Troika que encontrassem uma solução. Os socialistas cá estariam para a criticar.
4. E estão. Oh, se estão. Ajudados por uma comunicação social tendencialmente de esquerda (nenhum governo teve alguma vez um período de graça tão longo quanto o primeiro de Sócrates), que vê tão longe quanto o típico participante de fórum radiofónico (a curto prazo – i.e., enquanto há dinheiro –, as medidas da esquerda tendem a parecer mais agradáveis) e que adora o fait divers, conseguiram fazer com que os pontos essenciais (na comunicação social mas também nos trabalhos da comissão parlamentar) não sejam hoje quem autorizou a contratação de swaps, quem fechou os olhos aos riscos e quem talvez até os tenha incentivado, não seja sequer determinar se a solução encontrada foi ou não a melhor, mas se a ministra mentiu ao dizer que nenhum membro do governo anterior lhe falou no assunto durante a transição de pastas. Sendo que aceitar que ela mentiu passa por acreditar no ex-secretário de Estado Costa Pina (cruzes canhoto) ou por Vítor Gaspar vir dizer preto no branco (ou branco no preto, solução com o mesmo grau de legibilidade favorecida por muita gente) que, tendo-lhe Teixeira dos Santos falado do assunto (o que Gaspar admitiu), ele informou Maria Luís Albuquerque (o que ele parece – eu não acompanhei a audição de Vítor Gaspar – não ter admitido).
5. Chegamos agora à pergunta que, durante aquela hora e três quartos, mais frequentemente me coloquei: como agir numa comissão de inquérito para minimizar os riscos de ser acusado de mentir? A melhor via parece-me ser responder uma vez a cada pergunta e depois, sempre que ela for repetida (uma e outra e ainda outra vez), pedir que a resposta original seja lida. Ou então escrevinhar a primeira resposta (convém que seja curta) e depois repeti-la uma e outra e ainda outra vez. Creio que apenas assim será possível eliminar o risco de, quanto mais não seja por motivos de cansaço, vir a afirmar algo que, numa interpretação cristalinamente óbvia ou estonteantemente rebuscada, possa parecer diferente do que se afirmou uma hora e três quartos mais cedo, e evitar, nessa ou em futuras presenças na comissão, discutir a relevância da falta ocasional de complementos em algumas frases («ah, mas quando cá esteve há um mês, senhora ministra, conforme página 123 da transcrição, não especificou que não existia informação ‘na pasta de transição’, referiu apenas que não lhe foi transmitida informação»; «Mas umas horas antes, senhor deputado, conforme página 57, eu disse que nada foi transmitido ‘na reunião entre secretários de Estado’.»). Porque, convenhamos, é provável que a ministra tenha mentido mas toda a gente que já esteve envolvido num debate aceso – numa discussão conjugal, por exemplo – sabe que nem sempre uma ideia que se quer repetir sai da mesma maneira, com duras consequências na forma como é percebida, em especial quando o cansaço de quem diz e a má vontade de quem ouve são significativos.
6. Claro está que o cansaço também pode fazer baixar as guardas e permitir que a verdade se escape. Mas, caramba (quase me saiu um termo começado por ‘f’ e acabado em ‘se’ mas contive-me para não incomodar os leitores mais sensíveis de entre os leitores mais insensatos – sendo estes últimos, como é óbvio, os que os que não levaram o meu aviso a sério e ainda estão a ler), depois de assistir àquela hora e três quartos (relembre-se, apenas a primeira parte da segunda audição) até eu tenderia a recusar um cargo de ministro, apesar do aumento salarial que representaria, das portas que abriria e do facto de as boas relações que os governantes mantêm com a banca me permitirem certamente acesso a um crédito habitação em condições bonificadas (sim, estou a precisar de mudar de casa). É que… aturar interrogatórios do deputado Filipe Brandão, ou do deputado João Galamba (que, sendo suplente, estava ao lado do deputado Filipe Brandão mas – aleluia – não falou durante a hora e três quartos), ou do deputado Paulo Sá? Antes assistir no meu acanhado apartamento a onze horas e três quartos de programas apresentados pela Júlia Pinheiro.
7. E pronto, termino com esta referência à verdadeira excelência televisiva, que o texto ameaça ficar comprido. Ou ainda uma última nota. Aquela hora e três quartos também me fez perceber que a ministra tem o tique de empurrar algumas madeixas revoltas de cabelo para a testa, deixando as restantes ainda mais revoltas, e – estranho não o ter notado antes – que é bastante sardenta. Como eu tenho um fraquinho por mulheres sardentas, a hora e três quartos acabou por não ser totalmente desperdiçada.
(Este texto demorou muito mais do que uma hora e três quartos a escrever, o que significa que já perdi várias horas com aquela sessão da comissão de inquérito. Por favor internem-me.)
Adendas
1. Que os banqueiros não percebiam os riscos para os seus próprios bancos de negociar em produtos derivados é um facto há muito estabelecido.
2. A primeira obrigação de um funcionário de qualquer empresa é seguir as indicações do seu empregador, desde que estas não impliquem violação da lei.
3. Interessa-me acima de tudo a acção dos governantes. Consideraria motivo de escândalo que os governantes de então tivessem comprado o produto que o actual secretário de Estado vendia. Não compraram. É menos uma coisa a acrescentar à longuíssima lista de erros que cometeram.
4. Para ministros e secretários de Estado das finanças é quase inevitável ir buscar pessoal que trabalhou em bancos.
5. O secretário de Estado não poderá alegar não perceber do assunto.
6. Como sempre, o ponto fundamental é o nível (intensidade e qualidade) do escrutínio existente sobre os governantes. Reconheço que em Portugal ainda é fraco e alvo de enormes distorções. Muito fica por detectar, barbaridades passam por entre encolheres de ombros e factos menores geram histeria.

Cidade da Praia, Cabo Verde, 2007.
– As empresas fabricantes de calçado são isentadas do pagamento de IRC.
– É criada nova taxa de IVA de 50%, a aplicar a bilhetes de futebol, de touradas, de combates de boxe e de bilhetes de cinema para filmes com mais de três explosões ou duas perseguições de automóvel. Em contrapartida, os bilhetes de cinema para comédias românticas baixam para a taxa reduzida.
– Com excepção dos de culinária, dos de auto-ajuda e dos escritos por Nicholas Sparks ou Nora Roberts, os livros transitam para a taxa normal de IVA.
– A percentagem do valor do IVA respeitante a refeições dedutível no IRS quadruplica se as refeições forem constituídas apenas por saladas e águas sem gás (ou sumos naturais). No caso de cabeleireiros, o valor da dedução pode atingir seis vezes o actual mas introduz-se uma avaliação de necessidade e mérito, a qual exige o envio de prova fotográfica das operações realizadas para a Autoridade Tributária e Aduaneira (de modo a evitar problemas com a comissão de protecção de dados, ficam de fora da necessidade de prova fotográfica as depilações a partes íntimas).
– Gastos com cosméticos, perfumes, shampoos, amaciadores, produtos de higiene feminina e produtos de decoração de interiores passam a poder ser deduzidos no IRS.
– Os escalões do imposto automóvel passam a ser definidos pela cor do veículo.
A ministra propõe ainda que as negociações com a Troika sejam marcadas para dias com conjugação astral favorável e que seja criada legislação obrigando os fornecedores do serviço de correio electrónico a bloquear cópias das mensagens para fora dos seus servidores e a apagá-las automaticamente noventa dias após a data do seu envio.
(Adeus. Volto quando toda a gente tiver dado várias voltas ao aquário.)