Quando salvar os bancos é coisa boa


escafandro,

Existe há muito em Portugal a tendência para considerar que o dinheiro do Estado é inesgotável e que este apenas o recusa por maldade. Da exigência de cada vez mais serviços públicos (com consequente aumento de custos) à solicitação de apoios sempre que algo corre mal (cheias, incêndios, granizo, dificuldades financeiras de empresas públicas e privadas), os exemplos abundam. Ao tornar visível que o dinheiro do Estado sai do bolso dos contribuintes, a crise  abalou ligeiramente esta mentalidade mas não a eliminou. Longe disso. Ainda recentemente (um exemplo entre muitos possíveis) o bastonário da ordem dos médicos admitia que a situação financeira do Serviço Nacional de Saúde é preocupante mas acrescentava de imediato que tal não revela a existência de um problema no SNS, antes de um problema no país. Como se o país fosse uma realidade inteiramente separada das suas componentes. Como se fosse possível resolver problemas sem mexer na área em que eles ocorrem. Como se, aplicada a todos os sectores, tão brilhante conclusão não levasse a um (de resto, tradicional) completo imobilismo (em nada de específico se toca porque o problema não é específico), do qual resulta o irritante problema de saber quem no fim paga as contas (algo que não pareceu preocupar o bastonário porque, evidentemente, ele continua a acreditar que o dinheiro só não surge por má vontade). E a maioria das pessoas terá ouvido o bastonário e concordado se não com a interpretação altamente dissociativa que ele produziu pelo menos com a mensagem mais perceptível de que é preciso arranjar dinheiro para injectar no SNS.

Existe, todavia, uma área em que os portugueses parecem hoje incomodar-se a sério com a utilização de dinheiros públicos: o auxílio aos bancos. Aumentar impostos ou cortar salários e pensões para salvar os bancos? Inaceitável. Na verdade, nem tanto. Como se vê pelas reacções às soluções adoptadas em Espanha (o auxílio aos bancos não conta para o défice) e em Chipre (onde os maiores depositantes foram atingidos), bem como a várias notícias relacionadas com a união bancária, não é a ajuda aos bancos que incomoda os portugueses. Tendo mais ou menos percebido que o dinheiro público nacional lhes sai dos bolsos, os portugueses apenas passaram a desejar que outro dinheiro público resolva os problemas. O dinheiro público europeu, que, evidentemente, só não é inesgotável por má vontade de alguns povos (ou melhor: dos governantes de alguns povos). Com esse dinheiro, e entre muitas outras coisas, salvar os bancos não tem mal nenhum.

5 comentários em “Quando salvar os bancos é coisa boa”

  1. Daí se poder concluir que a maioria dos nossos agentes políticos possuem deficits cognitivos bastante graves, como se comprova pela fragilidade das suas argumentações e demais barbaridades que debitam diariamente nas televisões—as quais por sua vez também estão infestadas por imbecis analfabetos como aqueles broncos que grasnam todos os dias “populares” e “3 meios aéreos”. Nascer, viver e morrer entre brutos é triste, como dizia o outro.

  2. Pois, jaa.
    Porém penso que para chegarmos ao ponto que pretendemos é necessário primeiro embarcar noutro navio. A estória começa toda com uma borbulha, outros chamam-lhe bolha, que de infectada que estava gerou uma septicémia, isto para não fugirmos da linguagem sanitária. Posteriormente, tendo em conta as debilidades do sistema europeu no que respeita à defesa de sua moeda e da exposição do sistema bancário à infecção euro-atlântica, um ataque ao Euro visava restaurar a hegemonia do USD como reserva monetária, como moeda padrão que fixasse o preço do petróleo e, consequentemente, fizesse com que a ascendência dos EUA sobre os países produtores de petróleo, em particular em África e no Oriente Médio, se mantivesse. Vejamos que a Guerra do Golfo ocorre depois que Saddam, que deu um pretexto com a invasão ao Kwait visto que tinha derretido dinheiro com os americanos, alemães e outros mais na Guerra contra o Irão, começar a vender o petróleo em Euro, o desgraçado do Kadaffi cai logo após também ele ter ameaçado e concretizado a venda de petróleo em Euro, e o contágio nas remessas do Irão etc. etc. etc.

    Acontece também que para este ataque ser bem sucedido nada melhor que começar por derrubar castelos onde a promiscuidade do sistema estava bem patente, com o objectivo de enfraquecer ainda mais aqueles outros a quem se pretendia chegar. Mas via quem via que o enfraquecimento de um continente, onde o consumo também gera riqueza não só por cá como também no outro lado do Atlântico, mas também na Ásia (China e Japão), Latino América e India, levaria ao colapso de toda uma cadeia económica e financeira (agora vemos Obama e outros mais a solicitarem o fim da austeridade).

    Os países comprometidos neste regabofe promíscuo, a França, Alemanha e outros mais, através de seu sistema financeiro e bancário, viram nos defaults sucessivos a galinha de ovos de ouro. Porque isto, através da dita ajuda, permitiria subsidiar as perdas, através dos juros cobrados, e tornar-se mais um joguinho financeiro onde os banqueiros, por causa da recessão económica, pretendem continuar a jogar (através da compra da dívida pública). O perdão de uma dívida recupera-se com os juros da parte que se mantém, é só dilatar o prazo.
    Na avidez e ganância, de tal ordem foi a estupidez dos programas implementados que agora os governos e os banqueiros desesperam pela real possibilidade de esses mesmos títulos não poderem vir a ser pagos por impossibilidade de arrecadar (roubar, agiotar, saquear ou o que mais se queira) dinheiro de seus cidadãos e instituições (empresas) económicas.
    Azar dos azares, em muitos desses países, ou todos, a imaturidade dos cidadãos deixou que menininhos, na ânsia de mostrarem aos mais velhos suas habilidades, que de tanto fazerem piruetas não só borrassem as fraldas como conspurcassem quem com eles andou ao colo, isto é, todos ficaram com uma cagada brutal.
    Na realidade, sem pretender socorrer o bastonário ou quem quer que seja, o problema do SNS e de outras estruturas relevantes de uma nação transformou-se num problema de um país, porque um problema de um componente revela a forma como esse é afectado. Na realidade o SNS dizia mais respeito a farmacêuticas, médicos, enfermeiros, auxiliares, farmacêuticos, laboratórios de análise e outros prestadores de serviços, mas também a parcerias…, que propriamente ao utente, porque, salvaguardando aqueles sub-regimes de cuidados de SAÚDE (ADSE, JUSTIÇA e etc.) que interessavam a prestadores privados (Misericórdias, PPP´s e etc.), o SNS não serve(ia) em condições devidas os seus utentes, mas somente todos os outros.
    Por último, jaa, sim, anda-se a salvar Bancos, não só os que já foram salvos como aqueles que estão a ser salvos (todos). Mas esta salvação é o canto do cisne, porque de tanto se pretender salvá-los, por este andar, morrem todos. Este é o caso em que o doente já está a sucumbir à cura, por overdose de açúcar. Vamos lá ver se o próximo passo não será o clássico conceito, sair da crise através de uma economia de guerra: Destruir para construir. Desta vez não creio que a população vá embarcar no conto do vigarista.

    1. Gostaria de ouvir rebater esta tese com factos !
      E sim pelo andar da carruagem cheira-me mesmo a economia de guerra sendo que a mesma já está a ser posta em pratica há muito, mas sem guerra no seu sentido literal.
      Atrevo-me só a dizer que o canto do cisne será a efectivação do bloco económico EUA-UE que é mais uma fuga para a frente patrocinada pelos mesmos que nos trouxeram até aqui na através de uma ganância incontrolável e que talvez venha a provar que o capitalismo se matará a ele próprio.
      Para mim este é sem duvida o comentário da semana quiçá do ano !

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