Showtime e lavagem de roupa suja


escafandro,

O secretário de Estado devia ter dito: «Sim, estive no Citigroup e, entre outras propostas, apresentámos ao governo um produto destinado a melhorar os números oficiais do défice. Retrospectivamente, admito que, a longo prazo, aquilo talvez não fosse conveniente para o governo mas na altura não se sabia o que se sabe hoje e, acima de tudo, fazia parte das minhas funções procurar vender os produtos do banco.» Em vez disso, tentou disfarçar. Em vez disso, o governo tentou assobiar para o lado e Pedro Lomba – que, até começar com esta coisa dos briefings diários, eu sempre considerara um tipo inteligente – meteu os pés pelas mãos.

 

Porém, mais preocupante para o futuro é o facto da combinação entre a lavagem de roupa suja em que PSD e PS andam mergulhados e a existência de órgãos de informação que se limitam a transmitir acriticamente ‘notícias’ fornecidas pelos partidos gerar um sistema mediático esquizofrénico no qual o nível de gravidade dos acontecimentos não obedece a qualquer escala de razoabilidade. Podem arranjar-se inúmeros exemplos mas nem é preciso mudar de caso: tentar vender os produtos da empresa para que se trabalha é aparentemente inaceitável e motivo de demissão; já renegociar as PPP em nome do Estado com prejuízo para este – algo que, na minha opinião (e a ser provado), constituiria um motivo de demissão bastante mais forte – passou razoavelmente sem debate, uma vez que nem PS (que governava durante a renegociação) nem PSD (que procurava evitar a demissão, quaisquer que fossem as causas) tinham interesse em que o assunto fosse debatido. Ficámos, assim, pelos swaps e por uma comunicação social cada vez mais especialista no papel de caixa de ressonância e geração de histeria. Pior: por entre urros escandalizados, iniciou-se uma pequena caça às bruxas, de momento centrada em ex-funcionários do Citigroup mas que poderá – mantenhamos o optimismo – estender-se a outros grupos financeiros. Enquanto isto, até o corte nas pensões dos funcionários públicos foi relegado para segundo plano no alinhamento dos noticiários. Mas esta parte o governo agradece.

11 comentários em “Showtime e lavagem de roupa suja”

  1. Desta feita, inteiramente de acordo consigo: a nossa comunicação social, de uma maneira geral, não consegue ou não quer distinguir o que é importante do assessório. Uma vergonha.

  2. “Enquanto isto, até o corte nas pensões dos funcionários públicos foi relegado para segundo plano no alinhamento dos noticiários. Mas esta parte o governo agradece.”

    Agradece? Eu acho que faz de propósito para que essas noticias passem “de fininho”.

    Tamanha confusão, em boa parte criada pelo governo, a terminar no sacrificio do secretário de estado e uma reunião em Agosto para aprovar medidas tão gravosas…?

    Não há coincidências e este governo não é tão incompetente como pode parecer pela gestão deste caso. tem é muitos aprendizes de feiticeiro.

    Miguel

    1. Caramba, ‘queimar’ um secretário de Estado e ficar debaixo de fogo por mais uma trapalhada fez então parte de um plano maquiavélico para desviar as atenções do corte das pensões que ainda vão muito que falar? Parece-me um bocadinho rebuscado, caro Miguel. E, de certa forma, um elogio para o governo. Pessoalmente, acho que quando muito o governo aproveitou a berraria.

      Seja como for, a minha crítica era à comunicação social. E esta poderia perfeitamente ter estabelecido outras prioridades. Sendo que eu, não sabendo se neste se noutros moldes (ainda não estudei a proposta do governo), sou a favor do corte nas pensões. As expectativas de quem já está na reforma não podem ser demasiado defraudadas mas os efeitos recaindo sobre quem ainda está a dez ou vinte ou trinta anos da reforma não podem ser exagerados.

  3. Esta é uma das razões porque considero que o jornalismo a pior profissão de todas.
    O estado em do país está indelevelmente ligado ao que o jornalismo é. Mau e de Esquerda.

    No caso português em vez de investigarem os swaps e os seus resultados- ou seja irem investigar e noticiar quem os fez e permitiu fazer- Sócrates, Teixeira dos Santos, Secretários de Estado , responsáveis pelas empresas publicas.

    Não fazem nada disto. Transformam os swaps num problema ligado a este governo, por mais incompetente que seja, só faltando dizer que foi este governo que os criou.

    Falar dos swaps dentro dos grandes truques de esconder a dívida publica do último Governo, como vendas de propriedades do estado a empresas publicas ficando a dívida nas empresas publicas e as receitas no estado diminuindo artificialmente o défice e a dívida.
    Isso já os jornalistas são incapazes de fazer.

    Neste momento da RTP à TVI passando pelo DN ao Publico estão todos numa campanha de desinformação reforçada. Reforçada porque desinformação já eles estão todos desde sempre.

    Quem fez os swaps e quais os resultados. Sobre isto não querem escrever ou falar. E quando têm de tocar ao de leve em tal coisa aí já são os bancos os maus.

    1. Lucklucky, posso assinar por baixo ?
      Por fim estamos a tomar consciência que a classe jornalística em vez de informar e investigar, está a tomar partido e a influenciar o rumo dos acontecimentos.

      1. E desde quando o não fez ?
        Os jornais e as televisões precisam é de vender e o resto é conversa da treta além de que a verdade , o como , o quem e o porquê não interessam a “ninguém”.Swaps , PPP , rendas garantidas da energia etc ) são todos filhos da mesma mãe que se chama ganância , foi como se diz em bom português : juntou-se a fome á vontade de comer.
        Obviamente a solução seria rasgar contratos e fazer novos , enjaular todos os responsáveis por 20 anos (mínimo) num gulag qualquer e depois do clima limpo decerto durante muito tempo (pelo menos enquanto perdurasse a memória do gulag para traidores aos seus concidadãos) não haveria mais destas tretas.
        Entretanto continuamos no diz que disse e no meu é maior que o teu o tempo passa , o País contínua a afundar-se e os Portugueses também e infelizmente vão pensando cada um deles egoisticamente que não lhes tocará tanto ou pelo tanto como se diz.
        Tenham vergonha de nada fazerem , acordem antes que seja tarde de mais , se e que já não o é !?

        1. William, de qualquer forma importa fazer chegar a mensagem aos jornalistas que já os topámos. Se querem fazer política vão para os partidos ou constituam um. Veja o caso deplorável de um tal Mascarenhas “provedor” dos leitores do DN. quanto ao Gulag, essa para democratas nunca foi opção essa é a opção dos verdadeiros comunistas.

    2. De acordo. Informar dá trabalho, exige competência e custa dinheiro. Nada disto abunda nos órgãos de comunicação. Junte-se-lhe um público facilmente manipulável e temos o cocktail perfeito.

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