Como é que se costuma dizer?


escafandro,

Quem contrai dívidas de 400 mil euros em seu nome junto de um banco arranja um problema a si próprio se não as conseguir pagar. Quem contrai dívidas de 400 milhões de euros em seu nome junto de um banco arranja um problema ao banco se não as conseguir pagar.

É mais ou menos isto. Mas agora também:

Quem contrai dívidas de 4 mil milhões de euros em nome do banco que dirige arranja um problema ao banco, ao governo e aos contribuintes se não as conseguir pagar.

E ainda:

Quem contrai dívidas de 140 mil milhões de euros em nome do país que dirige arranja um problema aos governos seguintes, aos bancos e aos contribuintes se… não, peço desculpa, neste caso a culpa é dos credores e o problema deve ser-lhes remetido via recusa de pagamento total ou parcial – um processo indolor, como se sabe (vide Argentina há uma dúzia de anos e, de novo, na noite passada).

A beleza da pele


escafandro,

Há uns tempos, um cartoon na New Yorker mostrava um indivíduo sendo exibido ao estilo daquelas feiras antigas que tinham como atracções principais animais exóticos, mulheres barbudas e homens deformados. Um cartaz junto dele anunciava: «Veja o extraordinário homem sem tatuagens!»

As modas têm destas coisas. Transformam-se facilmente num exagero, depois numa praga, mais tarde num embaraço. No que me diz respeito, como em quase tudo, a minha rejeição surge com o excesso. Não tanto com o excesso de pessoas tatuadas (embora também um pouco; rebanhos confundem-me) mas com o excesso de área tatuada. É simples de explicar: gosto de pele. Branca, preta, castanha, cor-de-rosa; lisa, enrugada, arrepiada, gretada; uniforme, pontilhada por sardas ou sinais, mapeada com veias e artérias. Detesto tatuagens quando escondem a pele. Até gosto de tatuagens quando realçam a pele.

 

 

P.S.: O grau de anonimato será o mesmo mas decidi abandonar o ‘jaa’ e passar a assinar os textos com o meu nome – que sempre esteve no perfil. Evidentemente, vê-lo no ecrã pode ser tão embaraçoso que eu acabe por mudar de ideias (‘jaa’ dá-me uma certa distância em relação a algumas baboseiras que escrevo). Mas logo se verá.

Os gananciosos do costume


escafandro,

É um bonito cenário, o avançado neste artigo do Diário Económico. Um cenário que talvez devesse fazer pensar que um crescimento económico reduzido, com ou sem deflação, poderá não ter apenas inconvenientes. Preferimos crescimento anémico razoavelmente baseado na realidade ou o ciclo de bolhas especulativas (e, quando rebentam, destrutivas) que tantos dos seus críticos parece afinal favorecer, ao defenderem políticas monetárias expansionistas?

 

Mas, evidentemente, a concretizar-se um cenário deste tipo, a responsabilidade não será dos bancos centrais que, pressionados por governos sediados um pouco por todo o globo, por capitalistas desejosos de lucro rápido, por socialistas e socialistas à esquerda de socialistas, por comentadores mais ou menos anónimos com agendas mais ou menos óbvias e por economistas galardoados com o Prémio Nobel, injectam há anos dinheiro especulativo na economia em nome do «crescimento». Será, como convém que seja, apenas de um dos grupos mencionados atrás: o dos gananciosos do costume.

Discursos de capitão


escafandro,

Agradeço aos capitães de Abril algo que vários não tinham real intenção de me dar: liberdade. Liberdade até para, fugindo de endeusamentos pró-forma, afirmar que a posição deles quanto às políticas actuais me é totalmente indiferente. Não lhes reconheço capacidade analítica bastante para emitirem outra coisa que não opiniões de treinador de bancada. (Exactamente: como as minhas.) De resto, ao longo de dezenas de anos, não lhes ouvi desejos de palanques oficiais onde pudessem criticar as políticas que conduziram o país à bancarrota (pelo contrário, pareceram sempre apoiá-las e até achá-las insuficientes). Assente este ponto, a Assembleia bem os poderia ter deixado falar. Por um lado, como no caso das declarações quase diárias de vultos do passado recente, carregados de responsabilidades mas incapazes de se remeterem ao silêncio, muito menos de efectuarem um mea culpa (Mário Soares, Jorge Sampaio, José Sócrates, Teixeira dos Santos, Bagão Félix, …), críticas fáceis embrulhadas em lirismo de pacotilha têm eficácia limitada (mas os políticos assustam-se facilmente e, ao fazê-lo, geram quase sempre efeitos contraproducentes). Por outro, o regime actual deveria fazer questão de mostrar a cada oportunidade que é infinitamente mais aberto à crítica do que o regime desejado por alguns dos capitães teria sido.

Um bocado feio


escafandro,

É terrível ser um bocado feio. Um bocadinho não é grave, pelo menos para os homens: com um mínimo de confiança, pode transformar-se a pitada de fealdade em algo de atractivo; no detalhe que faz a diferença. (Para as mulheres é mais difícil: os gostos dos homens são limitados e as mulheres tendem a amplificar a importância de qualquer pequeno defeito, o que lhes diminui o nível de confiança e – uma coisa leva à outra – a capacidade de atracção.) Nesta sociedade assente na imagem, ser horrivelmente feio é péssimo mas, ainda assim, tem um certo pathos: a fealdade pode assumir-se, num desafio às convenções e num teste às inseguranças alheias (poucas pessoas estão confortáveis com a hipótese de serem consideradas politicamente incorrectas). Ser muito feio pode usar-se como o José Castelo Branco usa a roupa, os gestos e a maquilhagem: como que desafiando constantemente os outros a achá-lo ridículo. Lixado mesmo é ser um bocado feio. Não um bocadinho, não muito, apenas um bocado. Algo que não dê para disfarçar nem para transformar em statement. Que não provoque curiosidade (como um pouco) nem desejo de não ferir (como muito). Por mais que se faça, pelo menos sem recurso à cirurgia, nada altera significativamente a situação. É como ser chato: existe-se mas ninguém quer estar por perto. Sim, é terrível ser um bocado feio. Ou melhor: deve ser.

 

(Republicado.)

Vestidos de noite, saltos altos, quedas e rasteiras – mas ninguém é perfeito


escafandro,

A cerimónia dos Óscares já foi há quase três semanas mas gostava de voltar às quedas de Jennifer Lawrence (para distraídos: uma no ano passado, quando subia ao palco para receber o prémio, outra este ano, ao sair do carro no exterior do edifício). Claramente, a rapariga não sabe conjugar vestidos de noite com sapatos de salto alto mas isso só a torna (ainda) mais simpática aos meus olhos. Numa classificação tão aleatória como estas classificações tendem a ser, para mim há três tipos de actrizes em Hollywood: as que assumem a imagem de estrelas e planam ligeiramente acima de todos os restantes mortais, incluindo os colegas de profissão (Charlize Theron e Angelina Jolie são os exemplos possíveis, nesta época tão afastada do star system de há seis ou sete décadas); as que se definem pelo trabalho e, até mesmo quando enfiadas em vestidos de gala, permanecem ligadas à Terra (Julia Roberts, Meryl Streep, Amy Adams, Jessica Chastain); as que gostariam de atingir uma das duas primeiras categorias mas enfrentam dificuldades em escapar de um nível onde são encaradas com alguma condescendência (Jennifer Anniston, Reese Witherspoon – não obstante Walk the Line -, Jessica Biel, Kristen Stewart). Jennifer Lawrence, claro, é um caso típico do segundo grupo, apesar de muita gente andar a tentar metê-la no primeiro (demasiado nova; dêem-lhe pelo menos dez ou quinze anos para perder espontaneidade e aprender a equilibrar-se nos saltos altos). As suas quedas funcionam como aqueles detalhes que os grandes actores acrescentam aos papéis. Algo que, parecendo acessório, acaba por fazer a diferença na forma como os recordamos. Em parte devido às quedas, Lawrence já é das pessoas mais memoráveis da cerimónia.

 

Mas não comecei a escrever isto apenas por causa de Jennifer Lawrence. Fi-lo também por sentir que a cerimónia dos Óscares necessita de mais quedas e, em particular, de quedas com mais significado. Quedas que desfaçam as poses politicamente correctas. Como (quase) sucedeu na cerimónia de 1945. Double Indemnity, de Billy Wilder, era candidato a sete Óscares. O filme merecia-os, sendo uma obra-prima do film noir cujo argumento (adaptando um livro de James M. Cain) saíra de uma colaboração particularmente tempestuosa entre Wilder e um tal Raymond Chandler (a experiência foi tão traumatizante para Wilder que, segundo se diz, o alcoólico interpretado por Ray Milland que protagonizava The Lost Weekend, o seu filme seguinte, era inspirado em Chandler*). Apesar das qualidades de Double Indemnity, os Óscares foram sendo entregues a Going My Way, um musical de Leo McCarey com Bing Crosby. Quando McCarey se dirigiu para o palco para receber o Óscar de melhor realizador, Wilder não aguentou mais: estendeu o pé e passou-lhe uma rasteira. Infelizmente para a lógica deste post (daí o «quase» entre parêntesis um pouco mais acima), McCarey, que não estaria a usar vestido de noite nem sapatos de salto alto, conseguiu evitar cair. O acto de Wilder pode – justamente – ser considerado imaturo e pouco educado, mas, para mim, tratou-se de uma refrescante (porque sincera e inesperada) manifestação de frustração e sentimento de injustiça. Admitamos: sentados nos nossos respectivos sofás defronte dos nossos respectivos televisores, procuramos tanto verificar a alegria dos vitoriosos como detectar indícios de frustração nos derrotados. Por norma, estes afivelam um sorriso e batem palmas, numa intensidade que varia entre as exigências mínimas da boa educação e o entusiasmo tão pouco credível que, no caso de actores e actrizes, fica mais do que justificada a não atribuição do Óscar. No meio de todo este fingimento, tenho pena de não existirem mais Billy Wilders. De não ver Scorsese resmungar entredentes «Damn, not again», Cuarón estranhar os saltos em palco de McQueen («Que pása? El mejor director soy yo, verdad?») ou DiCaprio murmurar «Fuck, I knew I should have lost weight». Na cerimónia de 2014, o mais perto que estivemos disto foi o aplauso relutante de Bruce Dern, sentindo não apenas a perda do prémio deste ano mas o peso de todos os papéis que Hollywood lhe recusou ao longo de décadas. Muito pouco. Em 1945, depois de rasteirar McCarey, saindo de mãos a abanar (Double Indemnity não venceu qualquer Óscar), Wilder ainda fez questão de proclamar, enquanto esperava pelo automóvel: «O que diabo significa um Prémio da Academia, por amor de Deus? Afinal, Luise Rainer** ganhou-o duas vezes. Duas vezes!» Tinha razão e basta analisar a lista de premiados – nem sequer é necessário ir à parte da melhor canção – para verificar que ainda tem. Seja como for, não consta que, em 1946, 1950 ou 1960, tenha recusado qualquer dos Óscares que a Academia lhe deu por, respectivamente, The Lost Weekend, Sunset Boulevard e The Apartment. Nem que alguém tenha procurado fazê-lo cair quando se dirigia para o palco. É pena, no entanto. Wilder merecia o gesto – e, como o seu epitáfio, aproveitando a imortal última frase de Some Like It Hot, sugere, provavelmente tê-lo-ia compreendido.

* Que, ainda assim, ganhou um cameo pouco conhecido em Double Indemnity.

** Actriz de ascendência alemã premiada em 1936 e 1937.

Da (in)capacidade de mostrar força ou Ucrânia como lembrete


escafandro,

Se a globalização torna mais difícil aos regimes de cariz autoritário esconderem os benefícios da democracia (actualmente tão pouco valorizados por quem deles goza), também lhes é útil em momentos de confronto político: no dilema entre proteger interesses económicos e fazer respeitar princípios, as democracias são sempre as primeiras a sacrificar os princípios.

Blogue da semana


escafandro,

Tendo a preferir escolher para blogue da semana espaços onde se abordem temas simultaneamente fundamentais e irrelevantes (literatura, cinema, música, fabrico de renda de bilros ou modos de transformar comida de cão em pratos merecedores de estrelas Michelin) em vez de temas inegavelmente importantes mas que estão longe de possuir a componente facultativa que define os maiores prazeres (política, economia, métodos de depilação ou formas de detectar doenças nas excreções corporais). Desta feita, no entanto, após uma semana de discussão acesa em torno do manifesto dos setenta e picos, abro uma excepção e nomeio como blogue da semana o Desvio Colossal, de Pedro Romano. Permito-me salientar o último texto publicado (sobre a sustentabilidade da dívida pública) e o anterior, sobre o supracitado manifesto. Continuarei entretanto a fazer experiências com a comida de cão e, se chegar a bons resultados (tenho fé numa combinação com peixinhos da horta e pétalas de rosa), voltarei ao contacto.

O ennui do verdadeiro malvado


escafandro,

Na crítica a The Fury, o filme de 1978 realizado por Brian De Palma, Roger Ebert escreveu: Cassavetes faz sempre um adequado vilão detestável (representa os maus como se eles estivessem permanentemente distraídos por pensamentos de coisas ainda piores que poderiam estar a fazer).

 

Fiquei a pensar que se trata de uma atitude bastante similar à de inúmeros políticos e gestores, ao anunciarem medidas desagradáveis. Não existindo pesar genuíno, que exista convicção. Enfado é das coisas mais detestáveis com que se pode deparar. Se bem que, ainda assim, talvez não seja tão detestável como o seu reverso, a piedade insincera.

Manifestamente…


escafandro,

E, de repente, umas quantas almas agonizando entre a confusão (o Estado deve ser reformado mas ao mesmo tempo deve ficar como está), o despeito (por que não lhes seguem as ideias sempre luminosas e coerentes?) e a amnésia (Portugal terá chegado ao limiar da bancarrota por uma infeliz conjugação astral e não por políticas defendidas – e, em alguns casos implementadas – por elas) juntam-se a outras, reconhecidamente insensatas (a ponto de continuarem a defender o modelo económico venezuelano), e a dois meses do final do programa de ajustamento propõem uma reestruturação das condições de pagamento da dívida pública (que, em parte e de forma discreta, já foi alvo de reestruturações e voltará a sê-lo no futuro). Felizmente, com excepção da comunicação social, que vê qualquer ruído entrópico como boas notícias, e uns quantos bloggers, que fazem questão de opinar sobre tudo o que pareça «estar a dar» (pois, mea culpa), ninguém leva esta colorida agremiação de putativos notáveis a sério, por majestáticas qualificações e extrema boa vontade de que padeçam. Nem aqueles (teoricamente assustadiços) a quem o Estado português continua a pedir dinheiro para manter os gastos que já se provou não poderem ser cortados. O que – pensando bem – é capaz de ser um erro colossal. Um destes dias a loucura (admitamos caritativamente que bem intencionada) ainda recupera o poder, deixando-os (e a nós, uma vez que entre eles se contam os bancos nacionais) a olhar para buracos nas contas que farão o do BPN parecer questão de trocos. Mas pelo menos a beleza de uma reestruturação ficará evidente para todas as partes envolvidas, já que pelos vistos não ficou quando a reestruturação da dívida grega não apenas não resolveu os problemas da Grécia como causou uns problemitas nos bancos cipriotas.

O discurso de Marcelo


escafandro,

Pode analisar-se-lhe a sinceridade, as motivações, a oportunidade, a coerência, as consequências (por exemplo: será lamentável se vier a atenuar os efeitos do excelente discurso de Paulo Rangel). Prefiro salientar outro ponto: a utilização do humor. Há falta de humor nos discursos políticos nacionais. Por insegurança (parente muito chegada da arrogância), os políticos portugueses – na verdade, os portugueses em geral – levam-se demasiado a sério, tendo dificuldade em lidar com a ironia, que consideram falta de respeito. Não se passa o mesmo noutros países, em especial nos anglo-saxónicos. Aí, o humor é uma velha e insigne tradição, surgindo nos discursos políticos como sinal de desprendimento e inteligência. Foi isto que Marcelo trouxe ao congresso do PSD.

Talvez o maior problema da esquerda-caviar


escafandro,

Não, como todos os aspirantes a paladino dos pobres ao longo da história humana, Sugar tem de confrontar-se com uma verdade humilhante: os oprimidos podem desejar ser ouvidos mas se uma voz de uma esfera mais privilegiada falar em seu nome revirarão os olhos e troçarão do sotaque.

Michel Faber, The Crimson Petal and the White. Tradução minha.

 

O final feliz – através de uma reinicialização do sistema informático de Elysium, toda a gente ganha acesso a cidadania total e serviços de saúde gratuitos num passe indolor – podia ter nascido numa rábula perdida de Cheech e Chong (“Los Ilegais no Espaço”?). Trata-se de um enorme intensificador de auto-estima para aquelas pessoas brancas e ricas que dependem de mão-de-obra imigrante barata – as suas empregadas domésticas e jardineiros e amas – mas querem sentir-se bem consigo mesmas.

Nonsense irritante como este pode explicar por que motivo a classe trabalhadora não usa a expressão “Liberal de Hollywood” como elogio. A sensação quase universal de que Hollywood é um Elysium com melhor segurança e código de vestuário mais relaxado não é apenas um produto da fábrica de propaganda da Fox News – ou do TMZ – mas o resultado de um modo particular de autocongratulação em que a indústria do entretenimento tende a mergulhar.

Howard Hampton, Leveling The Playing Field – Class and Other American Movie Taboos, na Film Comment de Janeiro/Fevereiro. Tradução minha.

 

Encontrando-me a meio de The Crimson Petal and the White (muito bom) e tendo no fim-de-semana passado visto Elysium (muito mau), juntar estes dois excertos constituía tentação irresistível.

Eu, Gene Kelly, ou como se fica mais são com o avanço da idade.


escafandro,

Por estes dias quase toda a gente anda com auriculares enfiados nos ouvidos. Até eu, de vez em quando. É bom ter música na cabeça. Mas, como naquelas brincadeiras antigas em que se imaginava ser cowboy ou índio, um pedaço de terreno baldio era uma pradaria e se disparava contra colegas de rua ou de escola com espingardas de plástico (entretanto banidas porque estamos todos muito mais pacíficos) ou pedaços de madeira fazendo as vezes de espingardas de plástico, em vez de escolher ser cowboy ou índio no menu da consola de jogos, ver a pradaria no ecrã e disparar contra inimigos sentados noutros sofás olhando para outros televisores (se bem que, em vez de cowboy ou índio, é mais soldado ou alien, que cowboys e especialmente índios são aparições raras nos jogos de vídeo, por estarem pouco de acordo com os mesmos critérios que levaram à abolição da espingarda de plástico), muitas vezes é mais interessante cantarolar o que não se ouve. Ou – tentemos ser exactos – o que se ouve mas não de fora para dentro. Enquanto estudante universitário em Coimbra, descendo sob chuva da alta da cidade para a estação de autocarros, saco de roupa ao ombro, guarda-chuva tão frequentemente fechado como aberto, por défice de chuva digna do termo, excesso de vento ou consciente insensatez, cantarolei muitas vezes Singin’ in the Rain, esboçando mesmo uns passos de dança em raras ocasiões. (Claro que isto foi antes de Kubrick estragar tudo: apanhei uma reposição de A Laranja Mecânica no Gil Vicente ou no São Teotónio, já não sei ao certo, e em vez da imagem de Gene Kelly, feliz da vida, chapinhando nas poças da rua passou a surgir na minha cabeça a de Malcolm McDowell, feliz da vida, pontapeando o cônjuge da senhora que violaria logo a seguir.) Felizmente tal sucedia nas noites de sexta-feira, com as ruas quase desertas, porque, como é fácil de perceber, cantar o que quer que seja sem auriculares nos ouvidos poderia à época e pode ainda hoje ser classificado como loucura. Caso em que o avanço da idade me tornou inegavelmente mais são porque hoje já quase não canto ao calcorrear passeios. Muito menos sem auriculares nos ouvidos. Ou(,) só de longe a longe, As Time Goes By.

Paraísos de crescimento económico e justiça social


escafandro,

Argentina is once again at the centre of an emerging-market crisis. This one can be blamed on the incompetence of the president, Cristina Fernández, but she is merely the latest in a succession of economically illiterate populists, stretching back to Juan and Eva (Evita) Perón, and before. The Chilean and Uruguayans, the locals Argentines used to look down on, are now richer. Children from both those countries – and Brazil and Mexico too – do better in international education tests.

[…]

On Europe’s southern fringe, both government and business have avoided reality with Argentine disdain. Italy’s petulant demand that rating agencies should take into account its “cultural wealth”, instead of looking too closely at its dodgy government finances, sounded like Ms. Fernández. The European Union protects Spain or Greece from spiralling off into autarky. But what if the euro zone broke up?

The Economist, número saído hoje.

 

Nada que assuste os populistas de esquerda, tão activos como os de direita mas com muito melhor imprensa. Das duas, uma: como a Sra. Fernández e, um pouco mais a norte, o Sr. Maduro, não vêem os riscos ou estão mesmo convencidos (e iludidos) de que será possível forçar parte da Europa a cobrir-lhes a demagogia.

 

(Para que conste, no final de 2012 escrevi: Em 2013 continuará a discutir-se por cá a relação custo/benefício do euro. Na Argentina continuará a discutir-se a relação custo/benefício da inflação.)