Da (in)capacidade de mostrar força ou Ucrânia como lembrete


escafandro,

Se a globalização torna mais difícil aos regimes de cariz autoritário esconderem os benefícios da democracia (actualmente tão pouco valorizados por quem deles goza), também lhes é útil em momentos de confronto político: no dilema entre proteger interesses económicos e fazer respeitar princípios, as democracias são sempre as primeiras a sacrificar os princípios.

13 comentários em “Da (in)capacidade de mostrar força ou Ucrânia como lembrete”

  1. Isso mesmo se tem visto, a propósito da agressão russa à Crimeia, por parte desta Europa que em termos diplomáticos funciona a duas velocidades: devagarinho e parada.

    1. As ditaduras (e os regimes com cariz autoritário, onde até podem existir eleições mas não há verdadeiramente uma comunicação social livre nem instituições autónomas fortes) também terão princípios – só que definidos por uma pequena minoria de, no limite, uma pessoa. Mas, de facto, não existem os princípios do respeito pela opinião maioritária nem de, avaliando o mal menor, colocar o bem-estar dos cidadãos acima de outras considerações (ainda que ultimamente muita gente pareça pensar que estes pontos também são secundários nas democracias). A questão é que consequências isso traz. Se, com cada vez maior integração económica (que eu defendo) as democracias não tenderão a ficar reféns de regimes pouco recomendáveis. Ou, postas as coisas de outra forma, entre a pressão crescente dos cidadãos dos países com regimes ‘duvidosos’, cujo nível de exigência aumenta, e a crescente impotência das democracias, que efeito será mais forte?

    1. O vídeo já não está disponível. Mas o meu texto não é especificamente sobre a Ucrânia nem a partir dele deve ser presumida qualquer posição específica sobre a questão ucraniana. É muito mais sobre países como a Rússia – ou a China – que, por uma mistura de força e de dependência económica, conseguiram vergar o Ocidente. Se a Rússia invadisse a totalidade da Ucrânia ou a China invadisse Taiwan, o que fariam hoje os Estados Unidos e a Europa?

      1. “Se a Rússia invadisse a totalidade da Ucrânia ou a China invadisse Taiwan, o que fariam hoje os Estados Unidos e a Europa?”

        Exactamente o mesmo que fizeram a Rússia e a China quando o “Ocidente” bombardeou a Sérvia, invadiu o Iraque, estilhaçou a Líbia, a Síria, etc…

        Em Belgrado até uma embaixada limparam… Nesse campo os Orientais são uns meninos em comparação com “nós”, “os bons”, “os ocidentais civilizados”…

        1. O Iraque estava em estado de Guerra com os EUA. Plenamente justificado qualquer ataque.

          Quer me explicar onde o Ocidente atacou a Síria?

          Mas nas opiniões tipicamente anti-ocidente dos comunistas parece que só os anti ocidentais é que podem ser apoiados.

          Não se esqueça que os Russos agora recebem armas da malvada NATO…
          Logo também podem ser maus…zeca marreca.
          Mas talvez esteja a falar para o boneco, afinal nos anos 30 a Frota Soviética Comunista foi renovada com compra e cooperação tecnologica da Itália Fascista de Mussolini.

  2. Não tem muito que ver com a economia.

    Hitler chegou onde chegou e a globalização era fraca. Na verdade em parte devido às teorias autárquia economicas fascistas em vários países nos anos 30 o comércio internacional tinha descido.

    Tem muito mais que ver com o risco da guerra para políticos eleitos, a diversão de recursos para a Guerra em vez de para o Estado Social não dá votos-economia mas não no sentido do autor – o facto de os jornalistas tratarem a guerra como se fosse uma construção de uma ponte onde tudo deve ser previsível…

    Nada melhor que:
    Sir Humphrey: There are four words you have to work into a proposal if you want a Minister to accept it.
    Sir Frank: Quick, simple, popular, cheap. And equally there are four words to be included in a proposal if you want it thrown out.
    Sir Humphrey: Complicated, lengthy, expensive, controversial. And if you want to be really sure that the Minister doesn’t accept it you must say the decision is courageous.
    Bernard: And that’s worse than controversial?
    Sir Humphrey: (laughs) Controversial only means this will lose you votes, courageous means this will lose you the election.

    O Ministro Francês da Defesa disse que a venda de 2 Porta Helicópteros/LPD’s – já em construção, um já no mar – a Moscovo está em risco. Bluff ou não se verá.

    1. Mas esses sistemas sociais, que já estão em risco, ficariam ainda mais ameaçados com a existência de conflitos abertos, sendo que a interdependência económica (e eu sou favorável ao comércio livre, que considero um factor de crescimento global e de pressão sobre os regimes menos democráticos) faria aumentar as consequências negativas. Se a Europa não necessitasse do gás russo, provavelmente já teria aprovado sanções fortes contra a Rússia.

      Evidentemente, isto não significa que não existam outros motivos para as democracias tenderem a arrastar os pés. A Europa, sendo especialista na evocação de princípios, é também especialista na inactividade. Mas os EUA não o eram tanto. Quanto ao caso nazi, parece-me um pouco diferente porque, claramente, a opção era entre nada fazer e partir para a guerra. Num caso como o da Ucrânia, há ainda outra vias. Mas têm consequências económicas…

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