Matosinhos, 2014.
Fotografias tiradas por aí (196)
escafandro,
Tem vinte e poucos anos. Ainda que apenas se dirija à janela para ver se chove, tende a caminhar em passo rápido, ligeiramente inclinada para a frente, como que guiada por uma ideia súbita que receia ter tido demasiado tarde. Pergunto-lhe: «Alguma vez viste um filme de Jacques Tati? Monsieur Hulot?» Reage com uma expressão de espanto. Desconhece os nomes. «Era muito mais velho, muito menos bonito e muito mais desastrado do que tu mas lembrei-me dele, ao ver-te caminhar.» A expressão de confusão no rosto dela intensifica-se. Está desconfiada. Sorrio. Digo: «Hei-de trazer-te o ‘Mon Oncle’.»
Quando já não se tem idade para acalentar esperanças de desempenhar outros papéis, resta o de Pigmalião. Ou parte dele. A parte, ligeiramente inglória, ligeiramente ridícula, que exclui a recompensa final.
A reforma do mapa judiciário é simultaneamente uma exigência do memorando de entendimento e, dentro do que é constitucionalmente possível fazer, uma reforma ambiciosa. Mesmo após resolvidos todos os problemas informáticos dificilmente produzirá efeitos milagrosos no aumento da eficiência dos tribunais mas tem, ainda assim, um propósito claro e o mínimo que se pode dizer quanto aos prazos é que a sua implementação peca por tardia. Sendo graves, as falhas informáticas são inevitáveis num processo desta dimensão: qualquer pessoa que tenha passado por uma alteração de sistema informático, ainda que muito mais simples, sabe que existem sempre problemas. Provavelmente poderiam ter sido menores mas há alturas em que é necessário tomar decisões e correr riscos.
O caso da Educação é diferente. Os problemas na colocação de professores são indesculpáveis acima de tudo porque não correspondem a qualquer reforma substancial. A falta de uma constitui, aliás, a principal falha de Nuno Crato enquanto Ministro da Educação: à promessa de aumentar a autonomia das escolas correspondeu afinal o mesmo centralismo mastodôntico de sempre, de que estes concursos são o mais rematado exemplo. Para um governo acusado de neoliberalismo, sobrevivem-lhe – e sobreviverão – uma quantidade assombrosa de processos que não estariam deslocados na União Soviética da planificação central e dos planos quinquenais.
Numa época e num governo em que qualquer falha suscita críticas ferozes, mais vale merecê-las ao arriscar mudanças verdadeiras do que ao fazer ajustes irrelevantes.
Haveria certamente muito a dizer mas, apesar de proletário, estou pouco informado sobre a sintaxe sindicalista (as centrais disponibilizarão cursos co-financiados?) e tenho de admitir que só entendo o terceiro ponto até à primeira vírgula.
(Clicando na imagem e seleccionando “outros tamanhos”, pode aceder-se a uma versão maior.)
Os U2 levaram-me a instalar o iTunes. Parece que muitos dos 500 milhões de utilizadores ficaram pouco satisfeitos ao descobrirem um álbum do quarteto irlandês na sua colecção; eu, refractário à instalação de software de utilidade duvidosa (devo ser das pessoas com menos apps no telemóvel), tratei ainda assim de instalar o programa para o obter (a Apple já pode anunciar que tem 500 milhões e um utilizadores). Por muito que os U2 sejam hoje vistos como irrelevantes, impõem-se gestos mínimos de respeito.
É sintomático que tanta gente tenha ficado irritada. Os U2 passaram de moda. Tornou-se «bem» dispensá-los com um trejeito de desprezo, sem conceder à sua música recente mais do que alguns segundos de desatenção. Hoje em dia, os juízos são rápidos, definitivos – e frequentemente pré-determinados. Afinal, há tanto para ver e ouvir. Para quê perder tempo com vozes do passado?
Não vou abordar a questão da parceria com a Apple. Se existisse, incomodar-me-ia a falta de coerência entre mensagem e atitude (comum tanto na música como noutras artes). Os U2, porém, foram uma banda de intervenção apenas por acidente e deixaram há muito de o ser. A sua música ressente-se? Talvez. Mas não é por aí – a Sunday Bloody Sunday seguiram-se imensas coisas interessantes sem uma mensagem política evidente. Mesmo a ironia dos tempos de Achtung Baby e Zooropa foi mais celebração do que contestação.
O novo álbum, Songs of Innocence, é pouco coeso mas não merece a crítica feroz da Pitchfork. (Nem a – habitual, valha-os Deus – entusiástica da Rolling Stone.) Acima de tudo, revela o medo de falhar de uma banda que não se importou de parecer fora de moda na década de oitenta nem de correr o risco de ir tão para além da moda no início da de noventa que conseguiu tornar-se o epítome da ironia e da eficácia no universo da comunicação planetária (é por isso duplamente irónico que hoje tenha de recorrer a expedientes de gosto duvidoso para chegar às massas). Bono referiu-o várias vezes durante os muitos anos em que Songs of Innocence esteve em gestação: os U2 não se podem permitir lançar qualquer coisa, têm de ter a certeza de que o material está à altura das expectativas – ou seja, à altura do que fizeram na primeira década e meia de existência. Este receio de já não serem capazes é o grande problema: rouba-lhes espontaneidade, fá-los disparar em todas as direcções e sobreproduzir os temas até uma perfeição anódina. Songs of Innocence nem abre mal: The Miracle (of Joey Ramone), um tributo ao vocalista dos Ramones, tem uma sonoridade que remete para o início da banda e falta-lhe apenas a ingenuidade dos dezoito anos para resultar em pleno. (De qualquer modo, se Bono e companhia podem ser acusados de muitas coisas, é forçoso admitir que, aos cinquenta e tal anos, continuam a confessar influências e encantamentos com a facilidade dos tempos mais ingénuos.) Seguem-se duas canções que os U2 fizeram antes dezenas de vezes, sempre melhor, e que por vezes soam a The Killers, um pecado mortal quando os The Killers não passam de uma má imitação dos U2. Depois há dois temas mais intimistas, em que Bono evoca pessoas que lhe estão próximas – a mulher em Song for Someone, a mãe em Iris (Hold Me Close) –, nos quais intenção e emoção esbarram em letras demasiado fracas (não obstante pepitas como something in your eyes took a thousand years to get here) e música demasiado produzida. Entra-se finalmente numa série de temas em que a banda parece libertar-se um pouco do peso do passado e arrisca sonoridades menos habituais, baseadas num baixo forte e sincopado e num som de guitarra agressivo e mais directo. Detecta-se a mão do produtor Danger Mouse (que não é responsável pelos primeiros temas) e não há mal nisso: Eno, Lanois e Lillywhite também foram importantes no passado. Acima de tudo, na segunda metade do disco a banda parece divertir-se. Cedarwood Road abre com um som de guitarra rasgado e, num álbum de letras genericamente fracas (as capacidades de Bono estão longe dos tempos de Achtung Baby), é um hino ao optimismo (I was running down the road / The fear was all I knew / I was looking for a soul that’s real / Then I ran into you / And that cherry blossom tree / Was a gateway to the sun / And friendship, once it’s won / It’s won, it’s one) e à capacidade de superar dificuldades (and a heart that is broken / It’s a heart that is open). Após graves problemas com a voz (dolorosamente evidentes em All That You Can’t Leave Behind, de 2001), Bono arrisca mesmo um falsetto em Sleep Like a Baby Tonight, a penúltima canção, e é delicioso por ser tão inesperado e por a voz ficar à beira da ruptura, o que confere ao tema (ainda assim, algo sobreproduzido) a faceta genuína que falta a outros. This Is Where You Can Reach Me Now, logo a seguir, é dos mais alegres e despreocupados do álbum – dos melhores, também. Songs of Innocence termina com The Troubles, um dueto com Lykke Li, e termina bem, numa nota de melancolia e aceitação (You think it’s easier / To put your finger on the trouble / When the trouble is you / And you think it’s easier / To know your own tricks / Well, it’s the hardest thing you’ll ever do).
Em Acrobat, de um Achtung Baby a que poucos negam o estatuto de obra-prima, Bono citava o título de um conto de escritor Delmore Schwartz, cantando: in dreams begin responsabilities. A responsabilidade de os perseguir mas também a responsabilidade de, tendo-os atingido, não os defraudar. É habitual considerar-se que a fama e o dinheiro libertam. Que permitem não ligar às opiniões alheias ou arrumar as botas e apreciar os rendimentos. Não quando mais do que fama e dinheiro se anseia por relevância, por continuar a justificar a posição alcançada. Existe integridade no desespero dos U2. Não chega para poder considera-se Songs of Innocence um grande álbum (quando muito, meio bom álbum), serve-lhes de empecilho, parecerá embaraçosa a todos aqueles para quem é pior tentar e falhar do que desistir mas, no fundo, merece respeito.
(E agora, desinstalo o iTunes ou fico à espera de que a Apple ofereça o próximo álbum dos Depeche Mode?)
O Verão já se acabou, Setembro está-se a acabar, Lisboa quase se afogou nas primeiras gotas de chuva mas a eleição de António Costa faz com que o Sol brilhe outra vez. Não soa assim fora de estação a power pop dos The New Pornographers, uma de várias superbandas canadianas (outras: Arcade Fire, Broken Social Scene) que colocam em palco um número inusitado de executantes*. O tema pertence ao novo álbum, Brill Bruisers, e devo tê-lo ouvido dezenas de vezes nas últimas semanas, muitas das quais enquanto assistia ao vídeo acima – em parte porque prefiro ligeiramente esta versão ao vivo àquela que surge no disco, em parte (bem-aventurados os que se deleitam com prazeres singelos) devido às calças da Neko Case.
* No vídeo ainda falta Dan Bejar.
Adenda para pessoas com tempo livre e propensão para actividades de relevância discutível (assim como ver vídeos de gatos no YouTube):
Pesquisem “the new pornographers” no site da Amazon. O sistema de sugestões, habitualmente solícito ao ponto do exagero, ignora teimosamente a hipótese “pornographers”, apesar dos álbuns estarem disponíveis. O politicamente correcto adquire formas tão giras.
Para o futuro, de Costa(s).
Excerto 1
Ingrid Bergman nasceu em Estocolmo em 1915. Com 12 anos tinha perdido ambos os pais mas era forte – as pessoas espantar-se-iam com a sua força interior durante toda a sua vida – e estava determinada a fazer carreira no palco. Cresceu alta e bela, com uma energia dramática que poucos haviam encontrado antes. Começou a fazer filmes na Suécia no papel de ingénue e estava a ser considerada para um contrato na Alemanha com os estúdios Ufa. (A sua mãe era alemã.) Mas no edifício nova-iorquino onde David Selznick tinha escritórios havia uma operadora de elevador sueca a que tinham chegado notícias de casa sobre quão gloriosa era esta Ingrid Bergman. Passou a opinião (conversa de elevador) a Kay Brown, uma das pessoas que descobriam coisas para Selznick. Descobrira E Tudo o Vento Levou, Rebecca, e mais tarde repararia na rapariga que se transformaria em Jennifer Jones mas nesta altura disse: «Há esta rapariga sueca…»
Para abreviar a história, Kay Brown foi à Suécia conhecer Ingrid. Encontrou uma mulher recém-casada com um bebé. Estaria ela disposta a desistir disto para ir para a América?, perguntou Kay Brown. Oh, sim, disse Ingrid, olhos bem abertos. É uma lenda moderna que as pessoas farão o que quer que seja pelo cinema.
Ela veio. Ela atravessou a América. Ela dirigiu-se à casa de Selznick, em Summit Drive, em Hollywood, num domingo, mas David estava nos estúdios – era 1939 e trabalhava em E Tudo o Vento Levou. Por isso a sua mulher, Irene Selznick, tomou conta de Ingrid (tornar-se-iam amigas) e levou-a a jantar e a uma festa. Selznick continuava sem aparecer. Por isso Ingrid dormitou e então Selznick apareceu. Olhou para ela e disse, Oh, meu Deus, você é alta, e os seus dentes, e precisa de maquilhagem, e o seu nome é demasiado alemão. Ingrid ergueu-se até à extensão total do seu metro e setenta e oito e disse, Olhe, isto é o que eu sou; isto é o que vai ter. Selznick sorriu e disse, Okay, vendê-la-emos como a mulher natural.
Numa questão de anos tornou-se a namoradinha da América.
Excerto 2
De facto, não obstante o marido e a filha (já na América), Ingrid era uma consumidora de homens compulsiva. Quando os homens gostavam dela e lho diziam, sentia-se sensibilizada e generosa e dormia com eles. É uma questão de segurança: se estranhos sentem dever amar uma estrela, ela pode recompensar quem quer que encontre.
David Thomson, The Big Screen – The Story of the Movies.
Edição Farrar Straus and Giroux, tradução minha.
Não é inesperada mas não deixa de ser irónica, a forma como os mais estridentes críticos das ‘jogadas’ na política são os seus mais perfeitos executantes.
Por motivos que não vêm ao caso, tenho seguido pouco a campanha interna do Partido Socialista. Indesculpável, eu sei, quaisquer que sejam os tais motivos, decorrendo ela desde tempos quase pré-pós-troika e, considerando a qualidade dos intervenientes principais (ou pelo menos de um deles, génio indiscutível, messias sem túnica), estando ela certamente repleta de ideias inovadoras que farão Portugal crescer a seis ou sete por cento ao ano, de modo a, talvez logo no orçamento de 2016, poderem reverter-se as políticas do governo actual e evitarem-se mudanças tão tenebrosas quanto a privatização de empresas públicas e a reforma da Segurança Social.
Transbordando de complexo de culpa, decidi que tinha de ver o primeiro debate televisivo entre Seguro e Costa, ocorrido anteontem. Infelizmente, um facto inesperado impôs-se de novo: esqueci-me. Só ontem de manhã, ao ler os textos do Luís Menezes Leitão e do Pedro Correia, aqui mesmo no Delito, me apercebi da falha cometida (sim, sim, sem dúvida: é indesculpável). Desesperado, resolvi que nada me faria deixar de assistir ao da noite passada. De modo a não falhar novamente, coloquei um alerta no telemóvel e optei mesmo por não ir à Feira do Livro do Porto ver Pedro Mexia e Salvato Telles de Menezes discorrerem sobre as obras de David Foster Wallace e Pier Paolo Pasolini (andava há vários dias desejoso de perceber as ligações entre ambas mas aquilo começava às sete da tarde e sabe-se lá se demoraria tanto tempo quanto leva a ler Infinite Jest ou parecem demorar os filmes de Pasolini). Infelizmente, quando cheguei a casa pousei o telefone no quarto, onde deve ter retinido até, misericordiosamente, lhe acabar a bateria, e depois pus-me a rever um filme de 1932 com Marlene Dietrich (O Expresso de Shangai, de Joseph Von Sternberg), acabando por me esquecer outra vez. Evidentemente, estou mortificado, não tenho feito outra coisa que não criticar-me e garanto que tentarei corrigir a minha ignorância sobre a campanha interna do PS tão depressa quanto possível. Creio que há um terceiro debate e procurarei não o falhar, nem que para isso tenha de usar métodos ainda mais radicais, como, para começar, ir ao Google pesquisar a data da sua realização. E, se por uma conjugação aziaga do destino, também esse não vir, procurarei informação nos noticiários televisivos, ainda que tal me pareça um oxímoro, e nos jornais e na internet e na rádio e noutros meios de que entretanto me lembre. Talvez até siga os candidatos e assista aos seus discursos. Afinal, em Outubro já devo ter menos razões para andar tão alheado da actualidade política.
Se não o conseguir, resta-me o consolo de saber que, felizmente, qualquer dos candidatos tem capacidades e ideias mais do que suficientes para salvar o país sem a minha atenção.
António Granado é professor na Universidade Nova de Lisboa. Mantém um blogue sobre jornalismo e comunicação social há mais de uma dezena de anos. Agora está de férias (conveniente para quem ande com as leituras tão atrasadas como eu) mas promete voltar em Setembro. O blogue da semana é o Ponto Media.
Discute-se muito o tema «regulação» mas raramente até ao seu âmago. Na maioria das vezes, fica-se pela questão da regulação bancária ou do mercado de capitais. Garantir rácios adequados nos bancos e vigilância mais apertada dos fluxos de capitais seria importante se outro elemento não estivesse desregulado: a moeda. Em tempos, as notas que trazíamos no bolso estavam ligadas ao padrão ouro; hoje, só têm valor porque continuamos a acreditar que têm. Há muito mais dinheiro em circulação no mundo do que o valor dos bens que podem ser comprados – pelo menos ao seu valor actual. (Talvez se pudesse diminuir o diferencial acrescentando à lista de bens passíveis de compra itens como a honra, a fidelidade e a amizade mas até esses – num processo a que poderíamos chamar, para usar a terminologia económica tão em voga, «deflação dos valores morais» – parecem valer cada vez menos.) Ainda assim, os bancos centrais continuam a imprimir dinheiro e a fornecer garantias, estimulando não aquilo que gostariam de estimular (a produção de bens de consumo e os serviços que lhe estão associados, criando condições para a diminuição do desemprego e para o aumento de salários) mas aquilo que pode ser estimulado: o mercado de capitais e a «especulação» (bens já não fazem dinheiro; apenas dinheiro o consegue). A verdadeira e crucial regulação seria, pois, a da moeda. Um novo Bretton Woods, que a indexasse a alguma coisa tangível (num documentário passado recentemente na SIC Notícias sugeria-se o kilowatt-hora de energia renovável ou um cabaz de produtos adequado à economia de cada país). Mas pouca gente, da direita à esquerda, quer verdadeiramente pôr fim ao nível de especulação actual: por muitas assimetrias que vá produzindo, mantém a ilusão de riqueza. Qualquer correcção, incluindo esta, seria para baixo, pelo que se adia e se finge que tudo correrá bem. Assustador é pensar (mas pensar é quase sempre assustador) que podemos estar no limiar de uma nova crise financeira sem verdadeiramente termos saído da anterior (i.e., sem margem para novos cortes de rendimento) e com os bancos centrais atulhados de garantias sem valor e praticamente desprovidos de munições (circunstância que pelo menos os deverá impedir de, mais uma vez, adiar – e agravar – o problema). A próxima correcção vai ser a sério.
Um jogo raro estava a ser jogado, suficientemente bom para uma comédia de Hawks, no qual um realizador está pronto a apaixonar-se pela sua actriz mas mantém a mulher por perto para fingir que não. Quando Bacall e Bogart se apaixonaram, Howard foi apanhado de surpresa. (Bogart tinha quarenta e cinco anos; Bacall tinha vinte.) O realizador disse que o romance deles estava a estragar o filme.
David Thomson, The Big Screen – The Story of the Movies. Edição Farrar Straus and Giroux, tradução minha.
Obviamente, não estava. Na adolescência, apesar da minha desesperante falta de jeito para assobiar, To Have and Have Not era o meu filme favorito. Ainda hoje continuará perto do topo (evito fazer esse tipo de listas). Tinha suspense, música, humor e, acima de tudo, Lauren Bacall, envolvida num delicioso jogo de sedução com Humphrey Bogart. Um jogo baseado em olhares (the Bacall look, nascido do nervosismo inicial aquando dos screen tests, que a levou a baixar a cabeça e a rodar os olhos para cima) e frases provocantes, tão inocente pelo padrões actuais mas tão verdadeiro que, como o surpreendido e ligeiramente enamorado Howard Hawks comprovou, extravasou das personagens para os actores, dando origem a uma das relações mais sólidas (ainda que, como qualquer relação, não isenta de tensões) que Hollywood já viu. Depois, ainda com Hawks (um apreciador de mulheres fortes que, no final, faziam o que os homens desejavam) houve The Big Sleep, o filme em que uma morte ficou por explicar (que importa?) e em que ela, apesar de Slim (uma alcunha transferida de Nancy Gross, a mulher de Hawks), encarnou na perfeição uma heroína de Chandler, e depois houve Dark Passage e Key Largo (ao lado de Edward G. Robinson no segundo, ao lado de Bogart em ambos) e mais uma série de filmes onde se destaca How to Marry a Millionaire, contracenando com uma Marylin Monroe pitosga, no tipo de papel que lhe encaixava na perfeição: o de calculista que, após uma série de contratempos (as más intenções sempre mereceram punição no cinema comercial de Hollywood), acaba por revelar um coração mole e é devidamente recompensada pelo destino. Porém, a partir de certa altura, a sua imagem, de inteligência mordaz mas bem intencionada, uma mistura de fragilidade (real) e altivez (nada real no início, talvez um pouco com o avançar dos anos), pode ter sido mais prejudicial do que útil: o que numa jovem é encantador, numa mulher de meia idade é irritante – pelo menos para os produtores cinematográficos. Qualquer que tenha sido a razão, desde a década de 50 Bacall entrou em poucos filmes verdadeiramente dignos de nota, tendo perdido o Óscar de melhor actriz secundária (para Juliette Binoche, por O Paciente Inglês) em 1996 (o filme era The Mirror Has Two Faces, um projecto de Barbra Streisand de que recordo aproximadamente zero).
Os tempos áureos de Hollywood, em que os estúdios faziam o que queriam (a Lauren mudaram-lhe desde logo o nome de baptismo, Betty Joan Perske, e obrigaram-na a adoptar um tom de voz mais rouco) viram outras actrizes com personalidade forte. Marlene Dietrich, por exemplo, que disse a Hawks: «Aquilo sou eu há vinte anos»; Louise Brooks, um cometa explosivo ainda nos tempos do cinema mudo; Rosalind Russell, taco a taco com Cary Grant em His Girl Friday (outro filme de Hawks); Tallulah Bankhead, famosa (ou quiçá infame) apesar da carreira essencialmente teatral (Lifeboat, de Hitchcock, será o único filme digno de registo em que participou); Joan Crawford, luminosa em várias obras na década de 30 (rouba todas as cenas a Garbo em Grand Hotel), funérea já na de 50, no Johnny Guitar; e, com talvez mais pontos de contacto com Bacall do que qualquer outra, Katharine Hepburn, firme e mordaz ao ponto da insolência, apaixonada por um colega mais velho (Spencer Tracy), actriz principal de Hawks em Bringing Up Baby, dando réplica a Bogart em A Rainha Africana. (Quando Bogart contraiu cancro do esófago, Hepburn e Tracy foram visita frequente.) Todas belíssimas, todas extraordinárias, mas nenhuma com a conjugação de Bacall: beleza, inteligência, força, fragilidade – e aquela voz treinada para nos encantar. Seja como for, a partir de hoje estão outra vez juntas.
A rapariga, provavelmente ainda adolescente, caminha pelo passeio na minha direcção. É bonita mas pesa no mínimo vinte quilos mais do que as normas estéticas em vigor recomendariam. Veste uma blusa roxa com duas palavras escritas na zona do peito, em letras formadas por pontos brilhantes: Love Sucks. Sei que a adolescência é um período complicado para toda a gente mas, enquanto passamos um pelo outro, não consigo evitar perguntar-me se, pesando menos os tais vinte quilos, ela a teria comprado. Tão cedo.
(Por outro lado, a juventude é o tempo das proclamações rápidas e definitivas. Apenas mais tarde se percebe que, sim, love sucks, de muitas e diferentes maneiras – mas nem sempre. Love sucks tantas vezes quantas parece maravilhoso. Ou, com sorte e talvez saber, menos uma.)
Asbjorn tinha faro, esse era o seu grande talento, eu nunca encontrara alguém com tanta certeza de gosto como ele, mas qual o seu uso, à parte constituir o centro em torno do qual girava a vida estudantil? A essência do faro é julgamento, para julgar tem que se estar de fora, e esse não é o lugar da criatividade.
Karl Ove Knausgaard, Min Kamp 1. Tradução minha, a partir da versão inglesa de Don Bartlett.
Pois não. É o lugar do crítico.
Costumávamos acreditar que o ecrã existia apenas para nos ajudar a ver as imagens, a história, e a ilusão de vida. Mas agora estamos mais desconfiados e supomos que todos estes ecrãs são coisas reais, ferramentas fabulosas, é claro, mas barreiras subtis entre nós e a vida.
David Thomson, The Big Screen – The Story of the Movies. Edição Farrar, Straus and Giroux. Tradução minha.
Concordo com o Luís Naves quando considera excessivo o nível de lucros de Fundos como o que detém actualmente parte da dívida argentina. Não porque me incomode ver outras pessoas a ganhar dinheiro (muitos dos investidores em fundos nem sequer são ricos) mas porque níveis destes indiciam uma economia muito pouco baseada em produtos tangíveis. Em princípio, também não sou contra uma regulação mais apertada dos mercados financeiros (dos de dívida soberana como dos restantes). Só não percebo bem em que consistiria a regulação num caso como este.
Os contratos que a Argentina subscreveu antes de, em 2001, entrar em incumprimento incluíam:
– Uma cláusula garantindo que todos os credores têm os mesmos direitos (cláusula pari passu);
– Uma cláusula estabelecendo que qualquer conflito seria resolvido nos tribunais de Nova Iorque.
Em contrapartida, não incluíam:
– Uma cláusula que forçasse a totalidade dos credores a aceitar as condições negociadas em caso de reestruturação da dívida, desde que um determinado número as aceitasse (em inglês, collective action clause).
Muito embora esteja a desempenhar um papel importante na situação actual (já lá vamos), a primeira cláusula é, pelo que leio, habitual. A segunda faz com que a questão jurídica não pertença, como o Luís Naves defende, ao «direito argentino» – por escolha da Argentina, à época desejosa de obter credibilidade junto dos financiadores, após décadas de governação laxista e inflação galopante. A terceira, ou melhor, a sua inexistência é, no entanto, o erro mais grave, tendo aberto a porta aos problemas – e aos especuladores. Provavelmente o governo argentino prescindiu dela pela mesma razão que aceitou a jurisdição dos tribunais nova-iorquinos: sinal de confiança. Ou então fê-lo por incompetência ou – pior – por interesses ocultos. Seja como for, foi uma decisão com consequências graves. Após entrar em incumprimento, a Argentina chegou a acordo com a maioria dos credores mas não com todos. O Fundo Elliot Management, que entretanto comprara dívida argentina a preço de saldo, recorreu para a Justiça – em Nova Iorque, como os contratos previam. O que o tribunal veio dizer é que os credores que não aceitaram a reestruturação têm efectivamente direito aos montantes previstos nos contratos originais e que, não estando eles a ser ressarcidos, os restantes também não o podem ser (por causa da primeira cláusula). Esta decisão deixa a Argentina bloqueada e sem alternativas: se pagar os montantes originais ao Elliot Management, arrisca-se a ser processada pelos outros credores – e, quase certamente, a perder (de novo por causa da primeira cláusula).
Feito o ponto da situação, voltemos à necessidade de regulação. Em que consistiria ela afinal? Dever-se-ia limitar a venda de títulos no mercado secundário, de modo a evitar que caíssem na mão de entidades que pudessem tentar fazer valer os contratos assinados? Estabelecer-se-iam limites máximos para o lucro? (Mesmo nos casos em que ele é monumental apenas porque alguém – o detentor anterior dos títulos – encaixou uma perda quase do mesmo valor?) Obrigar-se-ia a que todos os contratos incluíssem a cláusula de acção colectiva? (Será válida em todos os regimes jurídicos? E que percentagem se imporia? 90%? 70%? 51%? Para punir mesmo a sério os credores ambiciosos, talvez nem devesse ser necessário atingir-se o acordo com os detentores da maioria dos créditos: que tal 20%? Ou 5%, um valor que qualquer governo poderia facilmente garantir estarem em mãos amigas?) Outra hipótese seria agir do lado do fornecedor do bem que mantém o vício em vez de agir do lado do viciado: que tal proibir que os governos emitam dívida adicional quando os seus países se encontram acima de determinados patamares de endividamento? Sendo inegável que os grandes capitalistas são frequentemente abutres (à escala do poder e dinheiro que detêm, quase todos os humanos são), contas públicas equilibradas evitam que se lhes caia nas garras de forma muito mais eficaz do que quaisquer normas regulatórias.
Nota 1: Especula-se que um ou mais bancos poderão pagar ao Fundo, de modo a evitar o accionamento dos credit default swaps detidos pelos restantes credores. Seria uma solução cem por cento privada, onde os cada vez mais complexos (e perigosos) instrumentos financeiros existentes acabariam jogando a favor do Estado Argentino. Mas o tempo urge, até porque o Comité de Derivados de Crédito das Américas já classificou a situação como sendo incumprimento (ver coluna à direita, sob o título ongoing).
Nota 2: Mesmo sem este imbróglio jurídico, a situação da economia argentina não seria brilhante. Recuperada a autonomia do peso, mantiveram-se as políticas de sempre, baseadas na injecção de dinheiro – que rapidamente perde valor, fazendo disparar a taxa de inflação (ou as taxas de inflação, uma vez que a oficial costuma ser pouco credível). Ainda assim, trata-se da receita que muita gente parece desejar aplicar em Portugal.