
Oito e meia da manhã. Na Praça da Galiza, no Porto, uma senhora de setenta e muitos ou, mais provavelmente, oitenta e poucos anos de idade passeia um bull terrier pela trela. O cão (ou cadela, que não pude descer a esses pormenores e hoje em dia, quando em dúvida, um tipo tem de ser politicamente correcto e mencionar ambos os sexos… perdão, géneros) não usa açaime e parece tão feliz da vida quanto os cães desta raça costumam parecer, pelo menos a quem não lida com eles de perto (digamos Vasco Pulido Valente num dia bom). A senhora, pelo contrário, parece aborrecida ou talvez apenas com sono (pensando bem, o «pelo contrário» não se aplica porque não existe grande diferença – o que até tem lógica quando é sabido que os donos de animais tendem a começar a parecer-se com eles, circunstância especialmente chata para possuidores de serpentes, tartarugas ou peixinhos de aquário). Talvez por gostar de cães, por, como já referi noutro texto qualquer, o único que alguma vez me mordeu ter tamanho e aspecto geral de pulga alimentada a esteróides anabolizantes, e por encarar com cepticismo todas as histerias geradas pela televisão, o cão não me inspira receio. Ainda assim, pergunto-me o que aconteceria se, repentinamente, ele se passasse. Não a mim – neste tipo de coisas, um tipo começa por imaginar-se espectador. É mais o que aconteceria à senhora, idosa e pequenina. Imagino-a a ser arrastada pelo pavimento ou a largar a trela e ficar imóvel, em pânico. Depois digo-me que há outras possibilidades. Que ela escolheu aquela raça e traz o cão sem açaime porque gosta do risco; porque, pequenina e idosa que seja, frágil e cansada que pareça, teve uma vida preenchida por aventuras e actos de desafio, por um desfile de prazeres que eu nem consigo imaginar e que, agora, passear um pit bull pela trela é dos poucos que lhe restam: uma última provocação a quem com ela se cruza e uma forma de manter algum suspense na vida. Depois penso que ainda há outra hipótese, uma versão-limite da anterior: que ela traz o cão não apenas pela emoção de passear pela trela um animal que os noticiários televisivos garantem poder passar-se a qualquer instante e que ela nunca conseguiria segurar se tal acontecesse mas porque deseja realmente que ele ataque alguém. Ou seja, por desejar o acto e não a emoção de o antecipar. Por querer surgir na televisão, declarar que o animal lá teria as suas razões, que a maioria das pessoas merece ser estraçalhada, que o cão nunca se enganava nos seus instintos. Sempre com ar sereno e – passe o paradoxo, nada incomum em pessoas baixas – ligeiramente altivo. Isto faz-me olhar para ela com outros olhos, com – deve haver algo de doentio em mim – um respeito renovado. Depois percebo que, em qualquer das hipóteses, de momento sou a pessoa mais próxima e que, tanto quanto o meu ponto de vista limitado e parcial me permite avaliar, não mereço ser estraçalhado. Começo por isso a caminhar mais depressa e durante cinquenta metros resisto à tentação de olhar para trás. Mantenho-me contudo atento à possibilidade de ouvir passos de cão em corrida.
(Moral da história que, adaptada às suas próprias circunstâncias, várias pessoas tão dignas quanto eu de não serem estraçalhadas certamente subscreverão: nem cães nem notícias televisivas em registo histérico conseguem assustar-me tanto como outros humanos, ainda que pertençam à subcategoria das velhinhas pequeninas, ou como, acima de todas as hipóteses anteriores, consegue assustar-me o raio deste cérebro com tendência para elucubrações despropositadas.)