Pequena provocação não relacionada com José Sócrates


escafandro,

Li o post do Sérgio de Almeida Correia sobre o sucesso londrino da maestrina Joana Carneiro e resisti. Depois resisti mais um pouco. Depois desisti. É mais forte do que eu.

 

Um homem entra numa loja de animais. Pergunta o preço dos dois papagaios em exibição. O lojista diz: «Este custa dez mil euros, aquele vinte mil.»

«O que têm de especial para serem tão caros?»

«Este canta as árias das óperas de Mozart, aquele canta todo o Anel dos Nibelungos, de Wagner. Tenho outro nas traseiras mas custa cinquenta mil euros.»

«Livra. O que é que esse canta?»

«Nunca o ouvi cantar nada mas os outros chamam-lhe maestro.»

 

E parabéns a Joana Carneiro. A sério.

Acima de tudo, das distorções da justiça, das aberrações da comunicação social, a situação é inqualificável porque Sócrates é inocente


escafandro,

Desculpem, queria ver como me sentia sendo a única pessoa a afirmá-lo mas, péssimo actor que sou, em especial quando não acredito no texto, desatei a rir antes do final.

Terrenos legítimos


escafandro,

É verdade que a detenção de José Sócrates causa problemas a António Costa, um homem que o acompanhou desde o início e que nunca se demarcou das suas políticas. Mas abre também caminho para que qualquer menção ao seu legado político seja enfrentada com acusações escandalizadas de mistura entre os planos político e judicial. Que fique então claro: seja Sócrates formalmente acusado ou não, a sua acção política – e o papel de Costa nela – será sempre terreno legítimo de combate político. Mais ainda: será sempre legítimo discutir se um Estado metido em tudo o que mexe, como o que – dos Magalhães e da PT à construção civil – ele implementou e Costa parece defender, gera ou não riscos acrescidos de corrupção.

Aguardemos com calma, pois então


escafandro,

Não deixa de ser curioso reparar na prudência com que a esquerda à esquerda do PS comenta a detenção de Sócrates. Seria certamente diferente se estivéssemos perante um ex-ministro do PSD ou do CDS. E nem mencionemos aqueles humanos para quem o ónus da prova parece inverter-se: empresários de forma geral, banqueiros em particular.

Números


escafandro,

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Aproveito o facto de ter mencionado a Finlândia no texto anterior para voltar a esta tabela. Publiquei-a há quase dois anos, acompanhada da frase «se em 2013 o PIB português cair menos de 3% e em 2014 já crescer qualquer coisinha poderemos dar-nos por muito satisfeitos». Sempre achei curioso o post não ter suscitado um único comentário. Pois bem, apesar de tudo, podemos dar-nos por satisfeitos: entre 2011 e 2013 o PIB português caiu cerca de 60% do que caiu o finlandês entre 1991 e 1993 (dados actuais do FMI: -1,3/-3,2/-1,4 contra -6,0/-3,5/-0,8) e caiu igualmente menos do que qualquer dos restantes casos apresentados na tabela. Se é verdade que, no primeiro ano de recuperação, o PIB finlandês cresceu 3,6% e o português deverá crescer aproximadamente 1%, nessa altura a taxa de desemprego na Finlândia ainda andava pelos 16,6% e apenas desceu dos 14% no terceiro ano de crescimento do PIB. Pertencer à União Europeia (esse monstro incapaz de solidariedade a que a Finlândia aderiu logo a seguir) e ao euro (que diminui o ritmo da recuperação mas aumenta as probabilidades de que ela seja sustentável) é de facto trágico.

PT


escafandro,

1. Enternece ver tanta gente defendendo o controlo nacional de uma empresa que, na prática, é brasileira – e se tornou brasileira sem grande contestação. Apetece perguntar onde diabo andavam todas estas almas quando a Sonae oferecia dez vezes mais do que a PT vale hoje. Dando vivas a José Sócrates e Ricardo Salgado, evidentemente, enquanto estes manobravam para que Belmiro falhasse a OPA. Dando vivas a um processo que levou à descapitalização da empresa (era preciso convencer os accionistas a não vender), à parceria com uma operadora brasileira de segunda linha (era do «interesse nacional» que a PT mantivesse presença no Brasil), ao aprofundamento da promiscuidade entre a PT e o GES (o resultado da OPA deixou não apenas claro quem mandava como que o fazia com bênção do governo), à fragilidade da situação actual. A PT (Passos Coelho tem toda a razão) constitui o paradigma do que se obtém quando um Estado controlador e incompetente (por cá, um pleonasmo) decide meter-se onde não devia, em nome de um difuso «interesse nacional» que, na prática, se consubstancia em assegurar lugares para boys apreciadores de robalos. No final da década de 90, após a crise financeira que atingiu os países nórdicos, 60 % das instituições financeiras finlandesas passara para mãos estrangeiras. Ainda recentemente, a divisão de telemóveis da Nokia foi vendida à Microsoft. Por cá, grita-se escândalo sempre que qualquer empresa de capitais nacionais com dimensão suficiente para abrir noticiários televisivos ‘corre o risco’ de ser vendida a estrangeiros (curiosamente, parece que os brasileiros não o são). Os socialistas, coerentes na via como tendem a ‘resolver’ os problemas (mesmo os que foram criados exactamente pela aplicação dessa via), clamam por intervenção governamental. O professor Marcelo, intocável no posto de populista esclarecido, acha «imperdoável» ter-se prescindido da golden share. A mensagem é clara: as empresas podem ser privadas desde que pertençam a alguém que agrade ao governo. Incorrigíveis. Incapazes de aprender. Economicamente salazarentos. Mas depois estranham a falta de investimento estrangeiro de longo prazo em Portugal.

 

2. Há contudo uma área em que o Estado tem um papel crucial: a garantia da concorrência. Num sector com apenas três grupos fortes, a PT não pode acabar por, abertamente (através de uma fusão) ou de forma enviesada (através de conjugação de estratégias), constituir uma extensão de um dos seus actuais concorrentes.

O racista cego


escafandro,

Era racista mas uma doença deixara-o cego. Depois disso tinha imensos problemas em manifestar o racismo às pessoas certas. Fazia-o por ouvido. Quando alguém lhe soava a negro – ou amarelo, pois era um racista abrangente – fazia comentários depreciativos, trejeitos de desagrado ou, nos dias de maior comedimento, afastava-se. Normalmente os alvos suportavam a atitude com estoicismo. De resto, que poderiam fazer? Esmurrar um cego?

Enganava-se imensas vezes – não apenas porque os círculos em que se movimentava eram quase exclusivamente caucasianos mas também porque as pessoas o evitavam ou então se divertiam às suas custas, imitando sotaques africanos ou orientais. Chegaram a trocar-lhe a bengala branca por uma pintada de preto. Andou com ela vários dias, gerando hilariedade nos que o conheciam mas correndo riscos sérios de ser derrubado num passeio ou atropelado ao atravessar a rua, uma vez que muitos transeuntes e automobilistas  não se apercebiam da sua condição de cego.

Como seria de esperar, a dada altura ele começou a aperceber-se das partidas. Isso não o tornou mais prudente. Pelo contrário: aumentou-lhe a paranóia. Recusou um cão-guia com medo que lhe arranjassem um com pêlo preto ou de raça estranha (ninguém chegou a perceber que raças eram aceitáveis mas ficou evidente que abominaria ser guiado por um cão de água). Justificando-se com a premissa de que «quem apoia a perda da identidade branca não merece respeito» insultava toda a gente. Como nem sequer conhecia outros racistas assumidos, não abria excepções. Alguém afirmou um dia: «É uma besta mas, desde que perdeu a visão, bastante igualitária.» Vai-se a ver e descobre-se aqui uma lição de moral.

Título curto


escafandro,

Não sejas assim. Quantas vezes já aconteceu? Uma. Outra. Depois outra. E outra. E ainda outra. E mais outra. Não aprendes. És incapaz de aprender. Estás fora do tempo. Olha o Twitter. 140 caracteres. Nem mais um. Olha as sms. Frases curtas. Palavras abreviadas. Toda a gente lê até ao fim. E percebe. Excepto os velhos do Restelo. A esses as abreviaturas confundem-nos. Resmungam. Protestam. Dizem que o mundo está perdido. k patético. Mas pronto. São poucos. Vão morrendo. Se queres relevância, usa frases curtas. Sem vírgulas. De preferência. Fundamental é que sejam curtas. Arranja poder de síntese. Ideias também curtas, se necessário. Não te será difícil. Já o fazes com regularidade. Através de frases compridas. Aprende. Tudo curto. Que seja o teu mantra. Tens coisas curtas. As erradas. As que deviam ser compridas. Enfim. Tudo trocado. Esquece os parêntesis. E os travessões. Sê sucinto. Melhor: sê breve. Tem menos letras. Um ponto final por cada conjunto de quarenta caracteres. No máximo. Sim, quebraste a regra ao defini-la. És incorrigível. Depois ninguém te lê. As pessoas não querem frases compridas. Não querem frases com montes de orações coordenadas. Mal coordenadas. As pessoas têm dificuldades de coordenação. Têm de coordenar a vida profissional com a familiar. O horário do emprego com o dos transportes. As despesas com o rendimento. Também não querem sequências de orações subordinadas. Andam subordinadas todos os dias. Estão fartas de subordinarices. Sujeito. Tu. Ele. Cães. Gatos. Nada de hipopótamos. Ou de ornitorrincos. Letras a mais. Fala do Passos e do Costa. Esquece o Tribunal Constitucional. Demasiado comprido. Difícil de pronunciar. Cheio de velhos do Restelo. Verbo. Ser. Estar. Fazer. Ir. Vir. Tens sorte. São quase todos curtos. Complemento. Curto. Como os de ordenado. Excepto em certas empresas. E em certos cargos. Esquece. Mas curto. Evita adjectivos. Já o devias fazer nas frases longas. Evita advérbios de modo. Obviamente. Evita termos pouco comuns. Ainda que sejam curtos. Sê breve. Não conciso. Odeia. Não execres. Torna as pessoas felizes. Facilita-lhes a vida. Ler é cada vez mais difícil. O tempo aperta. A concorrência é enorme. O Facebook. O Instagram. A Casa dos Segredos. As opiniões do professor Marcelo. Frases curtas. Fundamental. Desde que não pareçam poesia. Ninguém lê poesia. Mesmo que tenha frases curtas. O que é frequente. A poesia é como o sexo oral. Não. Não posso explicar. Exigia uma frase comprida. Pronto. Está bem. Eu explico. E mostro como se pode ser sintético. Raios. Breve. Breve é que é. Mas então. Gosta-se do conceito. Aborda-se com ligeiro temor. Parece um mundo à parte. Uma lógica estranha. Uma forma errada de usar as palavras. Uma forma blasfema. Aprende-se a gostar. Mas há quem não consiga. E quem nem queira experimentar. Basta de analogias. As analogias fazem pensar. Não faças pensar. Afirma. Nega. Sê claro. Sê breve. Não te armes em intelectual. Os intelectuais são um cancro. Não te armes em político. Os políticos são outro cancro. Maior. Uma ideia tem de passar em poucas palavras. Repara no teu texto de ontem. O do cão. Ridículo. Todo ele. Mas em especial o comprimento das frases. Complicadas. Com derivações. Comentários. Repetições. Exageros. Tentativas de humor. Esquece. Frases curtas. Ou então desiste. Não se perde muito.

Ah. Mais uma coisa. Não basta que as frases sejam curtas. É fundamental que todo o texto o seja.

Pit bull


escafandro,

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Oito e meia da manhã. Na Praça da Galiza, no Porto, uma senhora de setenta e muitos ou, mais provavelmente, oitenta e poucos anos de idade passeia um bull terrier pela trela. O cão (ou cadela, que não pude descer a esses pormenores e hoje em dia, quando em dúvida, um tipo tem de ser politicamente correcto e mencionar ambos os sexos… perdão, géneros) não usa açaime e parece tão feliz da vida quanto os cães desta raça costumam parecer, pelo menos a quem não lida com eles de perto (digamos Vasco Pulido Valente num dia bom). A senhora, pelo contrário, parece aborrecida ou talvez apenas com sono (pensando bem, o «pelo contrário» não se aplica porque não existe grande diferença – o que até tem lógica quando é sabido que os donos de animais tendem a começar a parecer-se com eles, circunstância especialmente chata para possuidores de serpentes, tartarugas ou peixinhos de aquário). Talvez por gostar de cães, por, como já referi noutro texto qualquer, o único que alguma vez me mordeu ter tamanho e aspecto geral de pulga alimentada a esteróides anabolizantes, e por encarar com cepticismo todas as histerias geradas pela televisão, o cão não me inspira receio. Ainda assim, pergunto-me o que aconteceria se, repentinamente, ele se passasse. Não a mim – neste tipo de coisas, um tipo começa por imaginar-se espectador. É mais o que aconteceria à senhora, idosa e pequenina. Imagino-a a ser arrastada pelo pavimento ou a largar a trela e ficar imóvel, em pânico. Depois digo-me que há outras possibilidades. Que ela escolheu aquela raça e traz o cão sem açaime porque gosta do risco; porque, pequenina e idosa que seja, frágil e cansada que pareça, teve uma vida preenchida por aventuras e actos de desafio, por um desfile de prazeres que eu nem consigo imaginar e que, agora, passear um pit bull pela trela é dos poucos que lhe restam: uma última provocação a quem com ela se cruza e uma forma de manter algum suspense na vida. Depois penso que ainda há outra hipótese, uma versão-limite da anterior: que ela traz o cão não apenas pela emoção de passear pela trela um animal que os noticiários televisivos garantem poder passar-se a qualquer instante e que ela nunca conseguiria segurar se tal acontecesse mas porque deseja realmente que ele ataque alguém. Ou seja, por desejar o acto e não a emoção de o antecipar. Por querer surgir na televisão, declarar que o animal lá teria as suas razões, que a maioria das pessoas merece ser estraçalhada, que o cão nunca se enganava nos seus instintos. Sempre com ar sereno e – passe o paradoxo, nada incomum em pessoas baixas – ligeiramente altivo. Isto faz-me olhar para ela com outros olhos, com – deve haver algo de doentio em mim – um respeito renovado. Depois percebo que, em qualquer das hipóteses, de momento sou a pessoa mais próxima e que, tanto quanto o meu ponto de vista limitado e parcial me permite avaliar, não mereço ser estraçalhado. Começo por isso a caminhar mais depressa e durante cinquenta metros resisto à tentação de olhar para trás. Mantenho-me contudo atento à possibilidade de ouvir passos de cão em corrida.

 

(Moral da história que, adaptada às suas próprias circunstâncias, várias pessoas tão dignas quanto eu de não serem estraçalhadas certamente subscreverão: nem cães nem notícias televisivas em registo histérico conseguem assustar-me tanto como outros humanos, ainda que pertençam à subcategoria das velhinhas pequeninas, ou como, acima de todas as hipóteses anteriores, consegue assustar-me o raio deste cérebro com tendência para elucubrações despropositadas.)

Independências


escafandro,

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Seja qual for a posição que se tenha em relação à independência da Catalunha e à validade dos referendos em processos deste género (em especial, como o Pedro Correia salientou por alturas do realizado na Escócia, quando uma maioria pouco expressiva influenciada por uma realidade conjuntural pode forçar uma escolha sem retorno), convém não confundir as coisas: o que se passou ontem não foi um referendo; foi uma manifestação dos independentistas, a que mais de 60% dos potenciais votantes decidiu não comparecer. O governo de Madrid deve certamente reflectir sobre o facto de quase dois milhões de catalães se revelarem a favor da independência total e aceitar que o assunto tem raízes históricas demasiado profundas para ser empurrado para debaixo do tapete por via de preceitos constitucionais (se as Constituições tendem a garantir status quos frequentemente pouco saudáveis, usadas como grilhetas tornam-se obscenas) mas os independentistas deveriam fazer o mesmo sobre o facto, complementar e não menos significativo, de existirem cerca de quatro milhões que ou não se expressaram ou o fizeram defendendo alguma forma de ligação a Espanha. Desde logo, aceitando que decisões irreversíveis baseadas em questões de identidade cultural velhas de séculos não devem ser tomadas apressadamente, em época de crise económica – ou a questão da identidade cultural parecerá apenas um pretexto para conseguir mais dinheiro para a região; uma jardinice, digamos.