Agradeço aos capitães de Abril algo que vários não tinham real intenção de me dar: liberdade. Liberdade até para, fugindo de endeusamentos pró-forma, afirmar que a posição deles quanto às políticas actuais me é totalmente indiferente. Não lhes reconheço capacidade analítica bastante para emitirem outra coisa que não opiniões de treinador de bancada. (Exactamente: como as minhas.) De resto, ao longo de dezenas de anos, não lhes ouvi desejos de palanques oficiais onde pudessem criticar as políticas que conduziram o país à bancarrota (pelo contrário, pareceram sempre apoiá-las e até achá-las insuficientes). Assente este ponto, a Assembleia bem os poderia ter deixado falar. Por um lado, como no caso das declarações quase diárias de vultos do passado recente, carregados de responsabilidades mas incapazes de se remeterem ao silêncio, muito menos de efectuarem um mea culpa (Mário Soares, Jorge Sampaio, José Sócrates, Teixeira dos Santos, Bagão Félix, …), críticas fáceis embrulhadas em lirismo de pacotilha têm eficácia limitada (mas os políticos assustam-se facilmente e, ao fazê-lo, geram quase sempre efeitos contraproducentes). Por outro, o regime actual deveria fazer questão de mostrar a cada oportunidade que é infinitamente mais aberto à crítica do que o regime desejado por alguns dos capitães teria sido.
Discursos de capitão
escafandro,

O 25 de Abril , estará sempre enraizado nas nossas vidas. Sempre!
E a cada ano que se comemora, mais vincado fica o seu significado.
Apesar de sentir, que muito do que, com o sair á rua em setenta e quatro reivindicamos e passamos a usufruir. Foi levado pelas artimanhas dos novos políticos e com o nosso deixa andar, hoje as conquistas não são mais que a nostalgia do poder que adquirimos há não muito tempo atrás.
O povo foi moldado com o decorrer dos anos, sem se aperceber que se encaminhava para a boca do lobo. E presentemente, quarenta anos depois sinto. Que já não temos volta para recuperar os argumentos com que obtivemos a vitória.
Não nos apercebemos que nos estavam a separar, evitando com isso que a força do povo permanecesse indissolúvel. E de uma enormíssima união que jamais seria vencida. O povo sente agora que é presa fácil para fazer calar a sua revolta.
Os discursos que se ouvirão na sua comemoração, serão não mais que o desabafar do que se conquistou e a certeza do que deixamos perder. E obrigados a ouvir da boca de quem sabe, que nós sabemos. A hipocrisia de o elevar como grandíssima conquista perpetuada ao longo das próximas gerações.
As armas que eram visíveis á quarenta anos. Serviram para libertar sem necessitarem de abrir fogo.
Hoje idênticas armas servem para amedrontar e silenciar quem tão isolado tenta acordar, as conquistas de um Abril que se deseja tão perto. Mas que Deus permita que não. Tão inacessível nos tempos mais próximos.
Abril sempre, irão dizer todos daqui a dias!
Abril como nostalgia, dizemos todos olhando para os cravos que ainda muitos colocarão na lapela.
Um totalitário portanto.
Eu não vi o Mário a cantar com o Otelo, nem o discurso do Vasco Lourenço, apesar de saber que o povo já só tem ouvidos para o Largo do Carmo, fiquei-me a observar pela TV um local mal frequentado, repleto de cravos…e pensei no que é que esta gente é diferente de 1926? os deputados com e sem cravos são eleitos pelos chefes partidários e não pelo eleitorado, que se limita a votar na lista do partido. Na Constituição de 1933 Salazar nomeva o Presidente da Républica, na Constituição de 1976 o deputado é designado pelo chefe do partido, Salazar não obedecia a Belém, agora S. Bento não obedece aos deputados, na verdade ele é o seu criador. Tudo legitimidades ficticias e indevidas. Esta gente é eleita, pela minoria que vota, que cada vez será mais minoria, e representam a população? o povo esteve no Largo do Carmo, tenderá a estar cada vez mais até á mudança deste regime…não se enganem, isto vai acabar mal.
Estive no discurso do Vasco Lourenço, no Largo do Carmo, e aquilo foi muito previsível. Os costumeiros ataques ao governo, com as mesmas frases, a mesma retórica, sem quaisquer ideias novas. Não é que não concordo com elas, mas o meu lado estético exige que cuidassem um pouco do estilo e das metáforas, que renovassem o vocabulário.
E como estava lá o Mário Soares, o capitão cuidou de elogiar todos os presidentes que não fossem Cavaco Silva, como se ele apenas arcasse com as responsabilidades pelo estado do país. Gostava que os capitães se afirmassem como uma consciência moral fora das tricas partidárias, mas eles claramente já escolheram a sua facção. O que me assusta é que eles realmente pensem que o PS vai fazer melhor e diferente, se/quando for eleito em 2015.
A manhã só valeu mesmo pela homenagem a Salgueiro Maia. Ah, e depois desci pelo Chiado e estava a haver uma feira de livros usados, comprei ‘Sobre a Literatura e a Arte do Romance,’ de Gonzalo Torrente Ballester, por uma bagatela. Não foi uma manhã perdida apesar de tudo.