Um bocado feio


escafandro,

É terrível ser um bocado feio. Um bocadinho não é grave, pelo menos para os homens: com um mínimo de confiança, pode transformar-se a pitada de fealdade em algo de atractivo; no detalhe que faz a diferença. (Para as mulheres é mais difícil: os gostos dos homens são limitados e as mulheres tendem a amplificar a importância de qualquer pequeno defeito, o que lhes diminui o nível de confiança e – uma coisa leva à outra – a capacidade de atracção.) Nesta sociedade assente na imagem, ser horrivelmente feio é péssimo mas, ainda assim, tem um certo pathos: a fealdade pode assumir-se, num desafio às convenções e num teste às inseguranças alheias (poucas pessoas estão confortáveis com a hipótese de serem consideradas politicamente incorrectas). Ser muito feio pode usar-se como o José Castelo Branco usa a roupa, os gestos e a maquilhagem: como que desafiando constantemente os outros a achá-lo ridículo. Lixado mesmo é ser um bocado feio. Não um bocadinho, não muito, apenas um bocado. Algo que não dê para disfarçar nem para transformar em statement. Que não provoque curiosidade (como um pouco) nem desejo de não ferir (como muito). Por mais que se faça, pelo menos sem recurso à cirurgia, nada altera significativamente a situação. É como ser chato: existe-se mas ninguém quer estar por perto. Sim, é terrível ser um bocado feio. Ou melhor: deve ser.

 

(Republicado.)

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